|
|
"Hoje há um sector financeiro incrivelmente especulativo
determinado a sustentar Bolhas de crédito e de activos e perfeitamente
satisfeito em adulterar o nosso sistema funcional de "dinheiro" neste
processo. O Federal Reserve é percebido a perdoar todo o assunto e
está abertamente desejoso de empregar todas as medidas a fim de evitar
furos de
Bolhas. E num mundo de estruturas financeiras agudamente frágeis, isto
assegura que o fracasso em evitá-las traduz-se rapidamente na
perpetuação das bolhas e na delícia dos
especuladores".
-- Doug Noland "Credit Bubble Bulletin"
"Como pode alguém defender um sistema que cria riqueza tornando a
maioria pobre?"
--Henry C. K. Liu
|
Responsáveis do Departamento do Tesouro a trabalharem em conjunto
com os seus colegas do Citigroup, J.P.Morgan e Bank of America
cozinharam um esquema para resgatar os bancos das suas perdas maciças em
títulos apoiados por hipotecas. O grupo está a planear montar um
fundo de emergência de US$100 mil milhões o qual comprará
activos não executados de dívida a curto prazo. Na verdade, o
fundo é uma operação de socorro que proporciona aos
gigantes financeiros uma desculpa para não relatar as suas enormes
perdas com más apostas.
A notícia apareceu primeiro no
Wall Street Journal
de sábado e foi seguida na 2ª feira seguindo por uma segunda
manchete:
"RESGATE PREPARADO PELOS BANCOS É APOSTA PARA ESTIMULAR O
MERCADO".
WSJ: "O plano de alto risco para RESGATAR OS BANCOS DAS PERDAS com
títulos hipotecários equivale a uma grande aposta de que um
consórcio de gigantes financeiros "ESPICAÇADO PELO GOVERNO
AMERICANO" pode PERSUADIR INVESTIDORES A DESPEJAR MAIS DINHEIRO NO
PERTURBADO MERCADO DE CRÉDITO".
Isto está certo, o Departamento do Tesouro está envolvido
directamente numa fraude
que salva os bancos enquanto tenta "persuadir" investidores a
"despejarem mais dinheiro" dentro da lama tóxica ligada a
hipotecas. Os responsáveis do Departamento do Tesouro têm
evidentemente uma ideia diferente do "azar moral" do que os restantes
de nós.
Os bancos actualmente têm na sua posse centenas de milhares de
milhões de dólares em mortgage backed securities (MBSs) que eles
não podem vender porque não há compradores e
não querem tomá-los de volta nos seus balanços porque
serão forçados a aumentar as suas reservas de capital. Assim,
decidiram lançar uma campanha de relações públicas
para promover um fundo com nome imbecil chamado "Master-Liquidity
Enhancement Conduit" ou M-LEC, o qual permitirá aos bancos colocar
os seus títulos não desejados no Limbo até alguma data
futura quando melhore o apetite público pelo lixo das CDOs.
O WSJ fez um bom trabalho de disfarce do motivo real por trás do novo
"Super-Canal" (também conhecido como fundo de
salvação) mas no último parágrafo, enterrado na
Secção C-3, eles revelam a verdade:
"O objectivo é acalmar os investidores e torná-los mais
desejosos a fim de que comprem a sua dívida a curto prazo". Assim,
o fundo é realmente apenas um meio de reorganizar o mercado até
que brote a próxima colheita de investidores crédulos e compre
mais lixo apoiado em hipotecas.
Onde estão os reguladores? A Securities and Exchange Comission (SEC) e
o Tesouro deveriam estar a obrigar os bancos a serem claros com o
público e deixarem-nos saber acerca das brigas e intrigas que eles
têm estado a avançar com os seus arriscados SIVs (structured
investment vehicles). Só o Citigroup tem aproximadamente US$80 mil
milhões em operações fora do balanço as quais
estão em perigo. O banco representa "25% do mercado SIV global.
No fim de Agosto, os activos dos SIVs totalizavam US$400 mil
milhões".
Os SIVs são montados como um meio de fazer dinheiro sem transportar o
risco para dentro do seu balanço. "Eles emitem sua própria
dívida a curto prazo, habitualmente a taxas relativamente baixas ...
então utilizam os rendimentos para comprar activos com rendimentos mais
elevados como securities ligadas a hipotecas". (WSJ)
Desde que o Bear Stearns explodiu em Julho último, os investidores
têm estado afastado de quaisquer títulos ligados ao
imobiliário, o que significa que os SIVs estão a ficar com um
Duplo Mau Olhado eles não podem vender o seu papel comercial
apoiado em activos (porque esse activos são hipotecários) e
encontrar compradores para as suas obrigações de dívida
colaterizadas (collateralized debt obligations. (CDOs). Em grande medida, o
mercado ainda está congelado apesar das optimistas claques de apoio nas
páginas de negócios. Evidentemente, o pior ainda está
para vir.
Quão mau será isto?
Um artigo no
Financial Times
de ontem dizia que "Apenas US$ 9,9 mil milhões de
titularizações de empréstimos imobiliários chegaram
ao mercado desde 1 de Julho UM DECLÍNIO DE 95% EM
RELAÇÃO AOS US$200,9 MIL MILHÕES NO PRIMEIRO SEMESTRE
DESTE ANO E APROXIMADAMENTE UMA DIMINUIÇÃO DE 92% EM
RELAÇÃO AO MESMO PERÍODO DO ANO PASSADO".
Os bancos estão em perturbação. Grande
perturbação. As principais fontes de rendimento secaram da noite
para o dia e eles enterrados em centenas de milhares de milhões de
dívida. É a razão porque os papéis rompem nos
noticiários de sábado quando não há NENHUMA
possibilidade de disparar um crash no mercado de acções.
Imagine o horror dos investidores no mundo todo quando descobrirem que os
principais bancos de investimento estão a efectuar estas pobres
operações "fora do balanço" enquanto escondem as
suas condições financeiras reais dos seus investidores.
Considere o desgosto sentido pelo público quando vê
responsáveis do Tesouro a socorrerem os bancos ao invés de
ordenar-lhes que relatem as suas perdas e continuem com o negócio.
Mais ainda: a Wall Street salta com indiferença de um logro para o
seguinte sem nunca considerar o dano que está a fazer para a
credibilidade do mercado.
Susan Pulliam resumiu isto assim na edição de 12 de Outubro do
Wall Street Journal:
"Desde a invenção da fita registadora
(ticker tape)
140 anos atrás, a América tem sido capaz de jactar-se de ter os
mais transparentes mercados financeiros do mundo. A fita e os seus
descendentes electrónicos asseguravam que preços claros como
cristal para acções e muitos outros títulos estavam
prontamente disponíveis para toda a gente, encorajando milhões a
confiarem o seu dinheiro aos mercados. Nestes dias, após uma
década de crescimento frenético nos títulos apoiados por
hipotecas e outros complexos investimentos comerciados por fora, aquela
clareza foi-se. Grandes partes dos mercados financeiros americanos tornaram-se
uma galeria de espelhos".
"Galeria de espelhos" é uma definição que peca
por insuficiente. O sistema é inteiramente opaco e torto como uma
trombeta de corno. A nova arquitectura do mercado, "finança
estruturada", é roubo lúgubre do começo ao fim.
Considere a mentalidade dos vendedores ambulantes que inventaram
"titularizar" hipotecas subprime e vendê-las como jóias
preciosas no mercado secundário. Isto foi um grosseiro trabalho de
trapaça. Como podem os passivos de "tomadores de
empréstimos com mau crédito" ser comerciados junto a
investidores estrangeiros e fundos de pensão como se fossem activos
válidos? E onde estavam os reguladores no momento em esta fraude estava
em andamento?
Não é isto uma prova suficiente de que o sistema está
totalmente deteriorado?
A Wall Street evita a transparência como se fosse praga. Isto é
de esperar. Mas o que dizer acerca do governo? A tarefa do governo é
proteger o investidor e manter a integridade do sistema. Será que
é o que Departamento do Tesouro está a fazer ou estarão
eles "a ATRAIR investidores para que comprem dívida emitida pelo
fundo de resgate como parte do plano"? (citação do
Wall Street Journal
)
"A atrair?" Será assim que Paulson vê isto, como atrair
perus para o bloco de abate com um rastro de migalhas de pão?
A ideia de proteger os pequenos nunca ocorreu a quem quer que seja na
administração Bush. A sua tarefa é transferir a riqueza
de uma classe para outra através das bolhas de equity e das
salvações governo qualquer coisa que avance a agenda
corporativa.
Actualmente, os bancos estão sentados sobre US$200 mil milhões de
não cumpridos títulos apoiados em hipotecas (mortgage-backed
securities, MBSs) e obrigações de dívida colaterizadas
(collateralized debt obligations, CDOs) de fusões e
aquisições que encalharam após o colapso do Bear Stearns.
Se o socorro
(bailout)
actual não se materializar, provavelmente vamos ver encerramentos de
banco e um mercado de acções em mergulho.
Será que os reguladores não deveriam ter considerado a
probabilidade de um crash antes de permitirem que milhões de
milhões de dólares de títulos radioactivos inundassem o
mercado quando ninguém tinha qualquer ideia do seu valor real?
Não teria sido a coisa prudente a fazer?
Agora sabemos o que eles valem. Eles não valem nada. Eis porque os
bancos estão a correr assustados e a recusar-se a colocá-los em
leilão. Eles preferem diluí-los dentro de um super-fundo que soa
sublime e que mascara o seu valor verdadeiro.
Nas última duas semanas o mercado de acções levantou-se
com as notícias de que os bancos estavam a relatar milhares de
milhões de dólares em perdas. Os investidores estavam enganados
ao acreditar que os bancos estavam a ser honestos e haviam
"confessado" a sua condição financeira. Era uma
brincadeira. Na realidade, os bancos só relataram cerca de 5% das suas
perdas potenciais; o resto estava escondido nas suas operações
fora do balanço.
As acções dispararam para novas alturas. A Wall Street estava
eufórica.
Agora sabemos a verdade. Era tudo conversa fiada.
The Wall Street Journal:
"O novo fundo é concebido para manter
à distância o que o Citigroup e outros vêm como uma
ameaça para os mercados financeiros de todo o mundo: o perigo de que
dúzias de enormes fundos ligados a bancos sejam forçados a
descarregar milhares de milhões de dólares em títulos
apoiados por hipotecas e outros activos, reduzindo os seus preços numa
liquidação ... O último receio: Se bancos precisarem
inscrever mais activos ou forem forçados a considerar activos nos seus
livros, isto poderia abrir caminho para um esmagamento de crédito mais
vasto e danificar a economia. Poderia tornar difícil aos
proprietários de casas e aos negócios obter
empréstimos".
Poderia "danificar a economia" e "tornar difícil aos
proprietários de casas e aos negócios obter
empréstimos"?
Ahhh, sim. Está tudo claro agora. Os bancos só cozinharam este
socorro colossal para tornar as coisas melhores para nós pessoas comuns.
Como é que não percebemos isto antes? O nosso problema é
que não vemos a magnanimidade e o altruísmo que impulsionam a
agenda corporativa.
Do
New York Times:
"Espera-se que o canal (o fundo bailout) comece a operar em 90 dias e
permaneça em cena por uns poucos anos até que tenha dispostos dos
activos que compra, segundo pessoas familiares com as negociações.
A fim de manter a sua credibilidade junto aos investidores de quem levantariam
dinheiro, o canal não comprará quaisquer títulos que
estejam ligados a hipotecas feitas a pessoas com histórias de
crédito manchado, ou subprimes. Comprará, ao invés,
dívida com as classificações mais elevadas" AAA e AA
"e dívida que seja apoiada por outras hipotecas, receitas de
cartões de crédito e outros activos".
Já sabemos acerca dos problemas com agências de
classificação e como elas estão na cama com os bancos de
investimento. Também sabemos que toda finalidade do novo fundo é
descarregar tripas apoiadas em hipotecas que já não são
vendáveis no mercado. O que não sabíamos é que o
New York Times
resolutamente proporciona a narrativa de agressivas relações
públicas a fim de ajudar os grandes negócios a enterrarem os seus
activos fracassados.
N.Y.Times:
"O canal
(conduit)
pagará preços de mercado pelos
títulos que compra. Mas ainda não está claro como os
responsáveis determinarão o preço de alguns títulos
que não têm sido comerciados activamente desde Agosto, porque a
diferença entre o que os compradores estão dispostos a pagar e o
que os vendedores querem ampliou-se significativamente".
Naturalmente, eles pagarão o preço completo porque querem ser
"os que fazem tudo" outra vez. A verdade, contudo, é que
estes derivativos provavelmente apenas trarão alguns centavos de cada
dólar, a menos que eles consigam outra cirurgia plástica de
relações públicas da Wall Street.
Christian Stracke, analista de mercado da firma de investigação
CreditSights, disse que o esforço parece ser "uma tentativa de
acalmar investidores tensos no mercado da dívida, ao invés de
proporcionar alívio substancial para o golpe pior dos títulos
hipotecários".
Stracke acrescentou: "Para mim, isto é mais um ataque
relâmpago de RP".
Bingo.
O anúncio do próximo Master-Liquidity Enhancement Conduit ou
M-LEC mais uma vez sublinha a gravidade dos problemas que confrontam o sistema
bancário. O fundo cria um "comprador de último
recurso" de modo que estes activos dúbios não serão
vendidos no mercado a preços de saldo.
O Citigroup parece ser o maior beneficiário do plano actual. Eles
têm um certo número de SIVs tipo Enron que poderiam estar em risco.
Mais uma vez, os problemas que hoje estão a emergir no sector
bancário são o resultado directo das políticas
monetárias frouxas de Greenspan juntamente com o desmantelamento do
regime regulatório que fora criado após o crash de 1929 do
mercado de acções. Agora voltámos ao Nível 1.
Todas as várias fraudes e burlas que permeavam o mercado
hiper-inflacionado agora estão de volta prenunciando um declínio
agudo na confiança do investidor, manipulação de mercado
acrescida e uma inevitável calamidade económica.
A "finança estruturada" transformou os mercados dos EUA num
carnaval. A produtividade e o crescimento real foram substituídos por
uma infindável expansão do crédito e abusos especulativos.
Políticas monetárias impulsivas e o défice de
transacções correntes mamute desestabilizaram a economia global,
uma preparação de cenário para um Armagedão fiscal.
A crise das hipotecas subprime e a subsequente contracção dos
asset-backed commercial paper (ABCP) provocou uma desconexão no
financiamento das operações diárias das
corporações. Trata-se dos prenúncios de uma
recessão iminente. Quando as hipotecas continuam a não ser pagas
a um ritmo récord, as réplicas do terramoto continuarão a
retumbar através dos mercados de crédito onde empréstimos
subprime foram "titularizados" e alavancados a níveis
máximos. Trata-se simplesmente de um dominó a derrubar o
seguinte.
O sistema financeira está num risco maior agora do que em qualquer
momento dos últimos 80 anos. Lamentavelmente, os únicos
remédios provenientes do Fed são mais cortes de taxas que
destroem a divisa ou centenas de milhares de milhões de dólares
em reposições para remover títulos apoiados em hipotecas
dos balanços dos bancos. Nenhuma destas soluções corrige
as questões críticas: elas não estabilizam o mercado, nem
revigoram a concessão de empréstimos, ou restauram a
confiança do investidor. Elas são meramente pensos sobre uma
absorvente ferida no tórax. Elas não cessarão a
hemorragia.
As políticas monetárias do Fed promovem a
especulação financeira, a qual inevitavelmente conduz a bolhas
nas acções. Sob o gerenciamento de Greenspan, o país
transladou-se das bolhas de títulos da década de 1990, para a
bolha das dot.com, para o colapso subprime, para a crise de liquidez, para o
esmagamento do crédito tudo engendrado no Federal Reserve com a
assistência subordinada dos charlatões da indústria
bancária.
ARMAS DE DESTRUIÇÃO (FINANCEIRA) MACIÇA
Um artigo no China Worker, "Esmagamento do crédito ameaça
retracção global" resume a nossa presente
situação difícil assim:
"A globalização financeira ressaltou sobre o sistema.
Líderes capitalistas jactavam-se de que a quase total
integração dos mercados financeiros por todo o globo
proporcionaria a prestamistas e prestatários de toda a parte acesso
instantâneo a um mercado de dinheiro completamente líquido. Novos
tipos de títulos financeiros e derivativos refinados espalhariam o risco
de emprestar de modo tão vasto que eliminaria o risco inteiramente.
Enquanto as economias estavam a crescer e a bolhas a inflar, parecia que
através do comércio de derivativos as perdas seriam
amplamente difundidas entre os especuladores, reduzindo o risco a níveis
muito baixos. Nem mesmo o mais astuto analista financeiro podia prever o que
aconteceria no caso de recessão. A questão irrespondível
era: "Quem finalmente arcaria com os riscos decorrentes de incumprimentos
generalizados ou de bancarrotas? O investidor veterano Warren Buffet advertiu
que os derivativos demonstrar-se-iam 'armas de destruição
maciça'.
A fantasia da alquimia financeira a transformar o jogo de alto risco em feitura
de dinheiro com baixo risco agora foi estilhaçada.
O autor está certo. A "finança estruturada" é
uma fraude. O risco não foi eliminado. De facto, ele explodiu e
tornou-se um vasto problema sistémico. Os galhos mortos estão
por toda a parte.
Os bancos estão a ser esmagado por uma carga de dívida que eles
geraram através da "titularização". Eles
precisam aceitar a responsabilidade pelo seu fracos julgamento (ou
cobiça?) e relatar as suas perdas. O Super-Canal é apenas uma
trapaça para adiar o inevitável dia do julgamento. Todo esse
miserável plano deveria ser sucateado. Nenhuma quantidade de chicanice
financeira erradicará milhares de milhões de dólares em
apostas más. Já é tempo de os bancos enfrentarem o
carrasco.
17/Outubro/2007
[*]
Analista americano.
fergiewhitney@msn.com
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/whitney10172007.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.