Os estalos na galeria de espelhos da Wall Street

Já é tempo de os bancos enfrentarem o carrasco

por Mike Whitney [*]

 
"Hoje há um sector financeiro incrivelmente especulativo determinado a sustentar Bolhas de crédito e de activos e perfeitamente satisfeito em adulterar o nosso sistema funcional de "dinheiro" neste processo. O Federal Reserve é percebido a perdoar todo o assunto e está abertamente desejoso de empregar todas as medidas a fim de evitar furos de Bolhas. E num mundo de estruturas financeiras agudamente frágeis, isto assegura que o fracasso em evitá-las traduz-se rapidamente na perpetuação das bolhas e na delícia dos especuladores".
-- Doug Noland "Credit Bubble Bulletin"

"Como pode alguém defender um sistema que cria riqueza tornando a maioria pobre?"
--Henry C. K. Liu

Responsáveis do Departamento do Tesouro – a trabalharem em conjunto com os seus colegas do Citigroup, J.P.Morgan e Bank of America – cozinharam um esquema para resgatar os bancos das suas perdas maciças em títulos apoiados por hipotecas. O grupo está a planear montar um fundo de emergência de US$100 mil milhões o qual comprará activos não executados de dívida a curto prazo. Na verdade, o fundo é uma operação de socorro que proporciona aos gigantes financeiros uma desculpa para não relatar as suas enormes perdas com más apostas.

A notícia apareceu primeiro no Wall Street Journal de sábado e foi seguida na 2ª feira seguindo por uma segunda manchete:

"RESGATE PREPARADO PELOS BANCOS É APOSTA PARA ESTIMULAR O MERCADO".

WSJ: "O plano de alto risco para RESGATAR OS BANCOS DAS PERDAS com títulos hipotecários equivale a uma grande aposta de que um consórcio de gigantes financeiros "ESPICAÇADO PELO GOVERNO AMERICANO" pode PERSUADIR INVESTIDORES A DESPEJAR MAIS DINHEIRO NO PERTURBADO MERCADO DE CRÉDITO".

Isto está certo, o Departamento do Tesouro está envolvido directamente numa fraude que salva os bancos enquanto tenta "persuadir" investidores a "despejarem mais dinheiro" dentro da lama tóxica ligada a hipotecas. Os responsáveis do Departamento do Tesouro têm evidentemente uma ideia diferente do "azar moral" do que os restantes de nós.

Os bancos actualmente têm na sua posse centenas de milhares de milhões de dólares em mortgage backed securities (MBSs) que eles não podem vender porque não há compradores — e não querem tomá-los de volta nos seus balanços porque serão forçados a aumentar as suas reservas de capital. Assim, decidiram lançar uma campanha de relações públicas para promover um fundo com nome imbecil chamado "Master-Liquidity Enhancement Conduit" ou M-LEC, o qual permitirá aos bancos colocar os seus títulos não desejados no Limbo até alguma data futura quando melhore o apetite público pelo lixo das CDOs.

O WSJ fez um bom trabalho de disfarce do motivo real por trás do novo "Super-Canal" (também conhecido como fundo de salvação) mas no último parágrafo, enterrado na Secção C-3, eles revelam a verdade:

"O objectivo é acalmar os investidores e torná-los mais desejosos a fim de que comprem a sua dívida a curto prazo". Assim, o fundo é realmente apenas um meio de reorganizar o mercado até que brote a próxima colheita de investidores crédulos e compre mais lixo apoiado em hipotecas.

Onde estão os reguladores? A Securities and Exchange Comission (SEC) e o Tesouro deveriam estar a obrigar os bancos a serem claros com o público e deixarem-nos saber acerca das brigas e intrigas que eles têm estado a avançar com os seus arriscados SIVs (structured investment vehicles). Só o Citigroup tem aproximadamente US$80 mil milhões em operações fora do balanço as quais estão em perigo. O banco representa "25% do mercado SIV global. No fim de Agosto, os activos dos SIVs totalizavam US$400 mil milhões".

Os SIVs são montados como um meio de fazer dinheiro sem transportar o risco para dentro do seu balanço. "Eles emitem sua própria dívida a curto prazo, habitualmente a taxas relativamente baixas ... então utilizam os rendimentos para comprar activos com rendimentos mais elevados como securities ligadas a hipotecas". (WSJ)

Desde que o Bear Stearns explodiu em Julho último, os investidores têm estado afastado de quaisquer títulos ligados ao imobiliário, o que significa que os SIVs estão a ficar com um Duplo Mau Olhado — eles não podem vender o seu papel comercial apoiado em activos (porque esse activos são hipotecários) e encontrar compradores para as suas obrigações de dívida colaterizadas (collateralized debt obligations. (CDOs). Em grande medida, o mercado ainda está congelado apesar das optimistas claques de apoio nas páginas de negócios. Evidentemente, o pior ainda está para vir.

Quão mau será isto?

Um artigo no Financial Times de ontem dizia que "Apenas US$ 9,9 mil milhões de titularizações de empréstimos imobiliários chegaram ao mercado desde 1 de Julho — UM DECLÍNIO DE 95% EM RELAÇÃO AOS US$200,9 MIL MILHÕES NO PRIMEIRO SEMESTRE DESTE ANO E APROXIMADAMENTE UMA DIMINUIÇÃO DE 92% EM RELAÇÃO AO MESMO PERÍODO DO ANO PASSADO".

Os bancos estão em perturbação. Grande perturbação. As principais fontes de rendimento secaram da noite para o dia e eles enterrados em centenas de milhares de milhões de dívida. É a razão porque os papéis rompem nos noticiários de sábado quando não há NENHUMA possibilidade de disparar um crash no mercado de acções.

Imagine o horror dos investidores no mundo todo quando descobrirem que os principais bancos de investimento estão a efectuar estas pobres operações "fora do balanço" enquanto escondem as suas condições financeiras reais dos seus investidores. Considere o desgosto sentido pelo público quando vê responsáveis do Tesouro a socorrerem os bancos ao invés de ordenar-lhes que relatem as suas perdas e continuem com o negócio.

Mais ainda: a Wall Street salta com indiferença de um logro para o seguinte sem nunca considerar o dano que está a fazer para a credibilidade do mercado.

Susan Pulliam resumiu isto assim na edição de 12 de Outubro do Wall Street Journal:

"Desde a invenção da fita registadora (ticker tape) 140 anos atrás, a América tem sido capaz de jactar-se de ter os mais transparentes mercados financeiros do mundo. A fita e os seus descendentes electrónicos asseguravam que preços claros como cristal para acções e muitos outros títulos estavam prontamente disponíveis para toda a gente, encorajando milhões a confiarem o seu dinheiro aos mercados. Nestes dias, após uma década de crescimento frenético nos títulos apoiados por hipotecas e outros complexos investimentos comerciados por fora, aquela clareza foi-se. Grandes partes dos mercados financeiros americanos tornaram-se uma galeria de espelhos".

"Galeria de espelhos" é uma definição que peca por insuficiente. O sistema é inteiramente opaco e torto como uma trombeta de corno. A nova arquitectura do mercado, "finança estruturada", é roubo lúgubre do começo ao fim. Considere a mentalidade dos vendedores ambulantes que inventaram "titularizar" hipotecas subprime e vendê-las como jóias preciosas no mercado secundário. Isto foi um grosseiro trabalho de trapaça. Como podem os passivos de "tomadores de empréstimos com mau crédito" ser comerciados junto a investidores estrangeiros e fundos de pensão como se fossem activos válidos? E onde estavam os reguladores no momento em esta fraude estava em andamento?

Não é isto uma prova suficiente de que o sistema está totalmente deteriorado?

A Wall Street evita a transparência como se fosse praga. Isto é de esperar. Mas o que dizer acerca do governo? A tarefa do governo é proteger o investidor e manter a integridade do sistema. Será que é o que Departamento do Tesouro está a fazer ou estarão eles "a ATRAIR investidores para que comprem dívida emitida pelo fundo de resgate como parte do plano"? (citação do Wall Street Journal )

"A atrair?" Será assim que Paulson vê isto, como atrair perus para o bloco de abate com um rastro de migalhas de pão?

A ideia de proteger os pequenos nunca ocorreu a quem quer que seja na administração Bush. A sua tarefa é transferir a riqueza de uma classe para outra através das bolhas de equity e das salvações governo – qualquer coisa que avance a agenda corporativa.

Actualmente, os bancos estão sentados sobre US$200 mil milhões de não cumpridos títulos apoiados em hipotecas (mortgage-backed securities, MBSs) e obrigações de dívida colaterizadas (collateralized debt obligations, CDOs) de fusões e aquisições que encalharam após o colapso do Bear Stearns. Se o socorro (bailout) actual não se materializar, provavelmente vamos ver encerramentos de banco e um mercado de acções em mergulho.

Será que os reguladores não deveriam ter considerado a probabilidade de um crash antes de permitirem que milhões de milhões de dólares de títulos radioactivos inundassem o mercado quando ninguém tinha qualquer ideia do seu valor real? Não teria sido a coisa prudente a fazer?

Agora sabemos o que eles valem. Eles não valem nada. Eis porque os bancos estão a correr assustados e a recusar-se a colocá-los em leilão. Eles preferem diluí-los dentro de um super-fundo que soa sublime e que mascara o seu valor verdadeiro.

Nas última duas semanas o mercado de acções levantou-se com as notícias de que os bancos estavam a relatar milhares de milhões de dólares em perdas. Os investidores estavam enganados ao acreditar que os bancos estavam a ser honestos e haviam "confessado" a sua condição financeira. Era uma brincadeira. Na realidade, os bancos só relataram cerca de 5% das suas perdas potenciais; o resto estava escondido nas suas operações fora do balanço.

As acções dispararam para novas alturas. A Wall Street estava eufórica.

Agora sabemos a verdade. Era tudo conversa fiada.

The Wall Street Journal: "O novo fundo é concebido para manter à distância o que o Citigroup e outros vêm como uma ameaça para os mercados financeiros de todo o mundo: o perigo de que dúzias de enormes fundos ligados a bancos sejam forçados a descarregar milhares de milhões de dólares em títulos apoiados por hipotecas e outros activos, reduzindo os seus preços numa liquidação ... O último receio: Se bancos precisarem inscrever mais activos ou forem forçados a considerar activos nos seus livros, isto poderia abrir caminho para um esmagamento de crédito mais vasto e danificar a economia. Poderia tornar difícil aos proprietários de casas e aos negócios obter empréstimos".

Poderia "danificar a economia" e "tornar difícil aos proprietários de casas e aos negócios obter empréstimos"?

Ahhh, sim. Está tudo claro agora. Os bancos só cozinharam este socorro colossal para tornar as coisas melhores para nós pessoas comuns. Como é que não percebemos isto antes? O nosso problema é que não vemos a magnanimidade e o altruísmo que impulsionam a agenda corporativa.

Do New York Times:

"Espera-se que o canal (o fundo bailout) comece a operar em 90 dias e permaneça em cena por uns poucos anos até que tenha dispostos dos activos que compra, segundo pessoas familiares com as negociações.

A fim de manter a sua credibilidade junto aos investidores de quem levantariam dinheiro, o canal não comprará quaisquer títulos que estejam ligados a hipotecas feitas a pessoas com histórias de crédito manchado, ou subprimes. Comprará, ao invés, dívida com as classificações mais elevadas" AAA e AA "e dívida que seja apoiada por outras hipotecas, receitas de cartões de crédito e outros activos".

Já sabemos acerca dos problemas com agências de classificação e como elas estão na cama com os bancos de investimento. Também sabemos que toda finalidade do novo fundo é descarregar tripas apoiadas em hipotecas que já não são vendáveis no mercado. O que não sabíamos é que o New York Times resolutamente proporciona a narrativa de agressivas relações públicas a fim de ajudar os grandes negócios a enterrarem os seus activos fracassados.

N.Y.Times: "O canal (conduit) pagará preços de mercado pelos títulos que compra. Mas ainda não está claro como os responsáveis determinarão o preço de alguns títulos que não têm sido comerciados activamente desde Agosto, porque a diferença entre o que os compradores estão dispostos a pagar e o que os vendedores querem ampliou-se significativamente".

Naturalmente, eles pagarão o preço completo porque querem ser "os que fazem tudo" outra vez. A verdade, contudo, é que estes derivativos provavelmente apenas trarão alguns centavos de cada dólar, a menos que eles consigam outra cirurgia plástica de relações públicas da Wall Street.

Christian Stracke, analista de mercado da firma de investigação CreditSights, disse que o esforço parece ser "uma tentativa de acalmar investidores tensos no mercado da dívida, ao invés de proporcionar alívio substancial para o golpe pior dos títulos hipotecários".

Stracke acrescentou: "Para mim, isto é mais um ataque relâmpago de RP".

Bingo.

O anúncio do próximo Master-Liquidity Enhancement Conduit ou M-LEC mais uma vez sublinha a gravidade dos problemas que confrontam o sistema bancário. O fundo cria um "comprador de último recurso" de modo que estes activos dúbios não serão vendidos no mercado a preços de saldo.

O Citigroup parece ser o maior beneficiário do plano actual. Eles têm um certo número de SIVs tipo Enron que poderiam estar em risco.

Mais uma vez, os problemas que hoje estão a emergir no sector bancário são o resultado directo das políticas monetárias frouxas de Greenspan juntamente com o desmantelamento do regime regulatório que fora criado após o crash de 1929 do mercado de acções. Agora voltámos ao Nível 1. Todas as várias fraudes e burlas que permeavam o mercado hiper-inflacionado agora estão de volta prenunciando um declínio agudo na confiança do investidor, manipulação de mercado acrescida e uma inevitável calamidade económica.

A "finança estruturada" transformou os mercados dos EUA num carnaval. A produtividade e o crescimento real foram substituídos por uma infindável expansão do crédito e abusos especulativos. Políticas monetárias impulsivas e o défice de transacções correntes mamute desestabilizaram a economia global, uma preparação de cenário para um Armagedão fiscal.

A crise das hipotecas subprime e a subsequente contracção dos asset-backed commercial paper (ABCP) provocou uma desconexão no financiamento das operações diárias das corporações. Trata-se dos prenúncios de uma recessão iminente. Quando as hipotecas continuam a não ser pagas a um ritmo récord, as réplicas do terramoto continuarão a retumbar através dos mercados de crédito onde empréstimos subprime foram "titularizados" e alavancados a níveis máximos. Trata-se simplesmente de um dominó a derrubar o seguinte.

O sistema financeira está num risco maior agora do que em qualquer momento dos últimos 80 anos. Lamentavelmente, os únicos remédios provenientes do Fed são mais cortes de taxas que destroem a divisa ou centenas de milhares de milhões de dólares em reposições para remover títulos apoiados em hipotecas dos balanços dos bancos. Nenhuma destas soluções corrige as questões críticas: elas não estabilizam o mercado, nem revigoram a concessão de empréstimos, ou restauram a confiança do investidor. Elas são meramente pensos sobre uma absorvente ferida no tórax. Elas não cessarão a hemorragia.

As políticas monetárias do Fed promovem a especulação financeira, a qual inevitavelmente conduz a bolhas nas acções. Sob o gerenciamento de Greenspan, o país transladou-se das bolhas de títulos da década de 1990, para a bolha das dot.com, para o colapso subprime, para a crise de liquidez, para o esmagamento do crédito — tudo engendrado no Federal Reserve com a assistência subordinada dos charlatões da indústria bancária.

ARMAS DE DESTRUIÇÃO (FINANCEIRA) MACIÇA

Um artigo no China Worker, "Esmagamento do crédito ameaça retracção global" resume a nossa presente situação difícil assim:

"A globalização financeira ressaltou sobre o sistema. Líderes capitalistas jactavam-se de que a quase total integração dos mercados financeiros por todo o globo proporcionaria a prestamistas e prestatários de toda a parte acesso instantâneo a um mercado de dinheiro completamente líquido. Novos tipos de títulos financeiros e derivativos refinados espalhariam o risco de emprestar de modo tão vasto que eliminaria o risco inteiramente. Enquanto as economias estavam a crescer e a bolhas a inflar, parecia que – através do comércio de derivativos – as perdas seriam amplamente difundidas entre os especuladores, reduzindo o risco a níveis muito baixos. Nem mesmo o mais astuto analista financeiro podia prever o que aconteceria no caso de recessão. A questão irrespondível era: "Quem finalmente arcaria com os riscos decorrentes de incumprimentos generalizados ou de bancarrotas? O investidor veterano Warren Buffet advertiu que os derivativos demonstrar-se-iam 'armas de destruição maciça'.

A fantasia da alquimia financeira a transformar o jogo de alto risco em feitura de dinheiro com baixo risco agora foi estilhaçada.

O autor está certo. A "finança estruturada" é uma fraude. O risco não foi eliminado. De facto, ele explodiu e tornou-se um vasto problema sistémico. Os galhos mortos estão por toda a parte.

Os bancos estão a ser esmagado por uma carga de dívida que eles geraram através da "titularização". Eles precisam aceitar a responsabilidade pelo seu fracos julgamento (ou cobiça?) e relatar as suas perdas. O Super-Canal é apenas uma trapaça para adiar o inevitável dia do julgamento. Todo esse miserável plano deveria ser sucateado. Nenhuma quantidade de chicanice financeira erradicará milhares de milhões de dólares em apostas más. Já é tempo de os bancos enfrentarem o carrasco.

17/Outubro/2007

[*] Analista americano. fergiewhitney@msn.com

O original encontra-se em http://www.counterpunch.org/whitney10172007.html


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
19/Out/07