por Mike Whitney
Os relatos optimistas nos media financeiros desvirtuam os efeitos da
contracção de crédito agora em curso. As
injecções maciças de liquidez dos bancos centrais
impediram o colapso de mercados financeiros, mas pouco fizeram para facilitar o
desalavancamento das famílias ou estimular actividade na generalidade da
economia. A crise despojou US$13 milhões de milhões
(trillion)
do valor das acções detidas pelas famílias trabalhadoras,
as quais agora deparam-se com o seu acesso ao crédito cortado ou
gravemente restringido pelos mesmos bancos que receberam enormes salvamentos
financiados pelos contribuintes. O estrangulamento fiscal das milhões de
pessoas que deixaram de ser consideradas "com capacidade
creditícia" está progressivamente a enfraquecer a procura e
a espalhar o pessimismo através de todos os níveis de rendimento.
O crescente desespero público foi o centro de uma reportagem especial de
fim-de-semana da Bllomberg News.
"Os americanos têm-se tornado mais sombrios tanto acerca da economia
como do rumo do país ao longo dos últimos três meses, mesmo
quando os EUA mostram sinais de mudança da recessão para a
recuperação. Quase a metade das pessoas sente-se agora menos
financeiramente segura do que quando o presidente Barack Obama tomou posse em
Janeiro, revela um inquérito nacional da Bloomberg".
A economia é a preocupação prioritária do
país, sendo o desemprego persistentemente elevado a maior ameaça
que o público vê. Oito em cada 10 americanos vêem a taxa de
desemprego como um alto risco para a economia nos próximos dois anos,
superando o défice do orçamento federal, o qual é
mencionado por 7 em cada 10. Um aumento de impostos é mencionado como um
alto risco por quase 6 em cada 10.
Menos de 1 em cada 3 americanos pensa que a economia irá melhorar nos
próximos seis meses... Apenas 32 por cento dos que responderam ao
inquérito acreditam que o país está a caminhar na
direcção certa, abaixo dos 40 por cento que disseram isso em
Setembro". (Bloomberg)
O quase delírio de optimismo que se seguiu à
eleição presidencial de 2008 desvaneceu-se em menos de 12 meses.
Se bem que as políticas da administração Obama tenham
melhorado as perspectivas da Wall Street de lucros recorde e bónus
opulentos, os trabalhadores comuns continuam a lutar para manter os seus
empregos e manter o seu padrão de vida. Dados recntes mostram que a
dívida familiar que disparou durante os anos de boom está a ser
reduzida a um ritmo histórico. A dívida familiar em
relação ao rendimento disponível mergulhou de 136 por
cento para 122 por cento em pouco de um ano, deixando muitas famílias
com pouco para gastar nos centros comerciais.
O severo retrocesso provocou uma mudança para a frugalidade pessoal, a
qual está a reduzir a actividade económica e a fortalecer
pressões deflacionárias. O ano de 2010 provavelmente será
ainda pior, pois a multiplicação de arrestos e incumprimentos
imobiliários força os bancos a reduzir empréstimos
drasticamente o que acelera a taxa de declínio. Isto é da
Bloomberg:
"Os pedidos de arrestos nos EUA atingirão um recorde pelo segundo
ano consecutivo, com 3,9 milhões de notificações enviadas
a proprietários de casas em incumprimento, disse a RealtyTrac Inc. Os
pedidos deste ano ultrapassarão o total de 2008 de 3,2 milhões,
no momento em que o desemprego recorde e a erosão dos preços
sacode o mercado habitacional...
Em Novembro os pedidos de arrestos excederam os 300 mil pelo nono mês
consecutivo, disse hoje a RealtyTrac Inc. Um mercado de trabalho fraco e
crédito duro são "adversidades formidáveis" para
a economia, disse o presidente do Federal Reserve, Ben S. Bernanke, num
discurso a 7 de Dezembro em Washington. Os 7,2 milhões de empregos
perdidos desde a recessão principiada em Dezembro de 2007 são o
máximo de qualquer recessão económica do
pós-guerra, mostram dados do Departamento do Trabalho. O desemprego, a
10 por cento no mês passado, não atingirá o pico até
o primeiro trimestre, disse Quigley". (Bloomberg)
Os estímulos de US$787 mil milhões da administração
Obama empurraram o PIB para um território positivo pela primeira vez em
mais de um ano, mas o impacto máximo já foi sentido. O presidente
Obama por orientação dos seus conselheiros chefes
comutou a sua preocupação central do desemprego crescente para os
défices a longo prazo. Os estímulos adicionais não
serão de mais de US$200 mil milhões, dos quais uns meros US$50
mil milhões irão para iniciativas de emprego. Ao mesmo tempo, o
presidente do Fed Ben Bernanke terminará o programa de facilidade
quantitativa (quantitative easing, QE) o qual mantém baixas as taxas de
juro a longo prazo enquanto proporciona financiamento para o mercado
habitacional. Quando o programa acabar, as taxas subirão, os
preços das habitações afundarão e a liquidez
será drenada do sistema. A finalidade da QE com estímulos a
definharem assegura que a economia deslizará outra vez para a
recessão no 2º ou 3º trimestre de 2010.
Decisores políticos decidiram criar condições que
são favoráveis à consolidação do sector
financeiro e a privatização ulterior de activos públicos.
A economia está a ser estrangulada intencionalmente.
Eis como o economista Mark Thoma explica porque o consumo não
retornará aos níveis anteriores à crise:
"No futuro imediato e provavelmente durante muito mais tempo, espera-se o
arrefecimento do crescimento do consumo. Um caminho que poderia alterar isso
é se o governo implementasse um programa de empregos com êxito ou
utilizasse alguns outros meios para aumentar o rendimento familiar (ex.: um
corte fiscal nas folhas de pagamentos), e as famílias gastassem ao
invés de poupar o rendimento extra..., mas o ambiente político
torna um programa de emprego ou nova acção de política
fiscal altamente improvável.
Analogamente ... o Fed está ansioso por relaxar a sua
intervenção política maciça, não por
estendê-la, de modo que é improvável que a política
monetária ajude muito nesse sentido. Uma vez que as autoridades de
política monetária e fiscal estão relutantes em
proporcionar mais ajuda, o crescimento lento é o melhor resultado que
podemos obter". ("Will Consumption Growth Return to Its Pre-Recession
Level?" Mark Thoma, moneywatch.com)
Juntamente com a sinalização do consumo, os economistas Antonio
Fatas e Ilian Mihov mostram porque tanto o investimento como o emprego
não recuperarão do modo que esperam muitos analistas. Ao rastrear
a taxa de recuperação das últimas cinco recessões,
os dois economistas mostram que a procura permanecerá baixa durante um
período de tempo prolongado, precipitando uma recuperação
"sem empregos" e "sem investimentos". A sua
investigação defende estímulo adicional para reduzir o
fosso da produção e empregar a força de trabalho em
actividade produtiva. As políticas da administração
são exactamente a oposta da maioria dos economistas profissionais, os
quais acreditam que os défices precisam aumentar devido à
super-capacidade e sub-utilização. Obama está
deliberadamente a pilotar a economia para uma recessão dupla
(double-dip recession).
Enquanto as instituições financeiras têm sido escoradas com
taxas zero, miríades de facilidades de empréstimos e grandes
carregamentos de liquidez do Fed, a economia real continua num caminho
declinante. À medida que as famílias reequilibram as contas e
aumentam as poupanças, os sinais de aflição tornam-se mais
aparentes. Na Europa, o BCE e o FMI começaram a utilizar a crise
financeira para arrebatar o controle dos orçamentos de países
praguejados com défices a fim de aplicar medidas de austeridades
favoráveis aos negócios. O colapso económico que
foi gerado pelo comércio super-alavancado dos bancos de papéis de
investimento duvidosos está agora a ser utilizado para afirmar o
controle corporativo/bancário sobre países soberanos. A
Grécia, Irlanda, Islândia, Ucrânia, Letónia,
Lituânia,
Portugal
e Espanha estão todos actualmente no centro da
reestruturação neoliberal. Com certeza, as mesmas
políticas serão aplicadas dentro dos Estados Unidos sob a
orientação do economista
supply-side
e conselheiro chefe do presidente, Lawrence Summers. Portanto, em 2010
continuará a contracção para forçar governos
estaduais e locais a despedirem mais milhões de trabalhadores enquanto
activos e serviços públicos são disponibilizados a
preços de saldo para a indústria privada.
A deflação da dívida e o desalavancamento
continuarão em 2011, enquanto arrestos, bancarrotas pessoas e
incumprimentos continuarão a subir. A frustração do
público com políticas governamentais ineficazes provavelmente
mudará do pessimismo para a fúria de um momento para outro. A
perspectiva de inquietação social ou de incidentes
esporádicos de violência já não pode ser
excluída.
15/Dezembro/2009
O original encontra-se em
http://globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=16569
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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