Ameaça à hegemonia do US Dólar?
– O mercado manipulado do ouro

por Paul Craig Roberts

Durante o mês passado houve uma concomitância de acontecimentos estatisticamente improvável e que só pode ser explicada como uma conspiração para proteger o dólar da política de Facilidade quantitativa (Quantitative Easing, QE) do Federal Reserve.

Facilidade quantitativa é o nome dado à política do Federal Reserve de imprimir 1 milhão de milhões de dólares anualmente a fim de financiar o défice orçamental dos EUA através da compra de Títulos do Tesouro e de manter altos os preços de derivativos relacionados com dívida nos balanços dos "bancos demasiado grandes para falir" ("banks too big to fail", BTBF) através da compra de derivativos apoiados por hipotecas. Sem a QE, as taxas de juro seriam muitos mais altas, e os valores nos balanços dos bancos seriam muito mais baixos.

A Facilidade quantitativa tem estado em curso desde Dezembro de 2008. Durante estes 54 meses, o Federal Reserve criou vários milhões de milhões (trillion) de novos dólares com os quais o Fed monetizou o mesmo montante de dívida.

Um dos resultados desta política é que a maior parte das taxas de juro reais nos EUA são negativas. Outro resultado é que a oferta de dólares ultrapassou a procura mundial de dólares.

Estes dois resultados constituem a razão porque a política do Federal Reserve de imprimir dinheiro com o qual compra títulos do Tesouro e hipotecas apoiadas por derivativos ameaça o valor de troca do dólar e, portanto, o papel do dólar como divisa de reserva mundial.

Ser divisa de reserva mundial significa que o dólar pode ser utilizado para pagar todas e quaisquer contas de petróleo e défices comerciais. O dólar é o meio de pagamento internacional.

Isto é muito proveitoso para os EUA e é a principal fonte do seu poder. Porque o dólar é a divisa de reservas, os EUA podem cobrir seus custos de importações e pagar pelo seu custo de operação simplesmente criando o seu próprio papel-moeda.

Se o dólar não fosse a divisa de reserva, Washington não seria capaz de financiar suas guerras ou continuar a incorrer em grandes défices comerciais e orçamentais. Portanto, proteger o valor de troca do dólar é a primeira preocupação de Washington se quiser permanecer uma super potência.

As ameaças o dólar são moedas alternativas que não estejam a ser criadas em enormes quantidades, ouro, prata e Bitcoins [1] , uma moeda digital.

A ameaça da Bitcoin foi eliminada em 17 de Maio quando o Departamento de Segurança Interna apreendeu contas Bitcoin. A desculpa foi que a Bitcoin havia deixado de se registar de acordo com exigências anti lavagem de dinheiro do Departamento do Tesouro dos EUA.

Washington conteve a ameaça de outras divisas ao convencer outros países a imprimirem ainda mais moeda do que o dólar. O Japão cumpriu e o Banco Central Europeu, embora algo constrangido pela Alemanha, entrou no modo de impressão a fim de salvar os bancos privados postos em perigo pela "crise da dívida soberana".

Isso deixa o ouro e a prata [como alternativa]. O enorme aumento nos preços do ouro e da prata ao longo da última década convenceu Washington de que há um certo número de ímpios (miscreants) que não confiam no dólar e de que não se deve permitir o aumento do número dos mesmos.

O preço do ouro subiu de US$272 por onça em Dezembro de 2000 para US$1.917,50 em 23 de Agosto de 2011. Os gangsters financeiros que possuem e dirigem a América entraram em pânico. Com o preço do dólar a entrar em colapso em relação ao dinheiro real histórico, como poderia ser válida a taxa de câmbio do dólar em relação a outras moedas? Se o valor de troca do dólar ficasse sob ataque, o Federal Reserve teria de parar de imprimir e perderia controle sobre taxas de juro.

As bolhas do mercado de títulos e acções estourariam e os pagamentos de juros sobre a dívida federal explodiriam, deixando Washington ainda mais endividada e incapaz de financiar suas guerras, polícia de estado e salvamentos de banksters.

Algo tinha de ser feito acerca da elevação do preço do ouro e da prata.

Há dois mercados do ouro. Um é um mercado papel em Nova York, Comex, onde papeis com direitos a ouro são comerciados. O outro é o mercado físico onde há posse pessoal do metal – lojas de moedas, comerciantes de ouro, lojas de joalharia.

No modo como os banksters montaram [o esquema], o preço do metal não é estabelecido nos mercados em que as pessoas realmente tomam posse dos metais. O preço é estabelecido no mercado papel onde os especuladores apostam.

O mercado bifurcado dá ao Federal Reserve a capacidade para proteger o dólar da sua máquina de impressão.

Na sexta-feira, 12 de Abril de 2013, vendas a descoberto (short sales) de ouro atingiram o mercado de Nova York num montante que se estima ter sido entre 124 e 400 toneladas de ouro. Esta venda enorme e sem precedente implica uma conspiração ilegal de vendedores a tentarem manipular o mercado ou uma acção do Federal reserve através dos seus agentes, os BTBF que são os bancos do ouro.

As enormes vendas de naked shorts deitaram abaixo o preço do ouro, disparando ordens de venda (stop-loss) e margin calls . O ataque continuou na segunda-feira, 15 de Abril, e tem continuado desde então.

Antes de avançar, note-se que há limites de posição impostos sobre o número de contratos que os traders podem vender de uma vez. O número de 124 toneladas teria exigido que 14 traders sem contratos em aberto (open interest) na bolsa vendessem todos juntos nos mesmos poucos minutos 40 mil contratos futuros. A probabilidade de tantos traders decidirem venderem a descoberto no mesmo momento ao máximo permitido não é crível. Isto foi um ataque ordenado pelo Federal Reserve, razão pela qual não há investigação da ilegalidade.

Note-se também que nenhum vendedor que quisesse sair de uma posição atribuiria a si próprio um preço baixo com a descarga de um montante enorme todo de uma vez a menos que o objectivo não fosse o lucro e sim esmagar o preço do ouro.

Desde o ataque de 12-15 de Abril ao preço do ouro, verificaram-se ataques subsequentes às 14h00 de Hong Kong e às 14h00 de Nova York. Desta vez com actividade ligeira, à espera de que Londres começasse a operar. Como observou William S. Kaye, nenhuma entidade preocupada com lucros escolheria este momento para vender 20 a 30 mil contratos futuros, mas isto é o que tem estado a acontecer.

Quem pode ter tanta despreocupação em perder dinheiro desta forma? Só um banco central que o possa imprimir.

Agora vamos ao mercado físico em que as pessoas tomam posse do ouro ao invés de apostarem sobre instrumentos de papel. Olhe para este gráfico do ZeroHedge . A procura pela posse física é alta, apesar do assalto ao ouro que começou em 2011,mas como o preço é estabelecido no mercado papel não real, vendas orquestradas a descoberto, como no presente trimestre de 2013, poder reduzir o preço pouco importando o facto de que a procura real por ouro e prata não possa ser atendida.

Enquanto a corrupta imprensa financeira ocidental insta o povo a abandonar o ouro, toda a gente está a tentar comprar mais e os prémios acima do preço no mercado à vista (spot price) ascenderam. Por todo o mundo há uma escassez de ouro e prata em formas como moedas de uma onça [2] e barras de dez onças, que os compradores individuais procuram.

Que o declínio nos preços do ouro e da prata é uma orquestração é evidente com o facto de que a procura por ouro no mercado físico aumentou ao passo que as vendas a descoberto no mercado papel implicam uma fuga do ouro.

O que é que esta manipulação ilegal de mercados pelo Federal Reserve nos diz? Diz-nos que o Federal Reserve não vê outro modo de imprimir mais dinheiro a fim de suportar o défice federal e os bancos insolventes. Se o dólar ficar sob ataque e o Federal Reserve tiver de parar de imprimir dólares, as taxas de juro subiriam. Os mercados de títulos e acções entrariam em colapso. O dólar seria abandonado como divisa de reserva. Washington já não seria mais capaz de pagar suas contas e perderia a sua hegemonia. O mundo de orgulho arrogante de Washington entraria em colapso.

Está para ser visto se Washington pode prevalecer sobre a procura mundial de ouro e prata. Pode o dólar permanecer supremo quando a deslocalização privou os EUA da capacidade de cobrir as suas importações com exportações? Pode o dólar permanecer supremo quando o Federal Reserve está a criar um milhão de milhões de novos dólares a cada ano, enquanto os BRICS, China e Japão, China e Austrália, e China e Rússia estão a fazer acordos para acertarem suas balanças comerciais sem a utilização do dólar?

Se a economia baseada no consumo dos EUA, privada do rendimento do consumidor devido à deslocalização de empregos, sofrer um novo mergulho no terceiro ou quarto trimestre – uma retracção que não pode ser mascarada por dados estatísticos falsos – o défice federal ascenderá. Qual será o efeito sobre o dólar se o Federal Reserve tiver de aumentar sua Facilidade quantitativa?

Foi preparada uma tempestade perfeita para a América. As taxas de juro reais são negativas, mas dívida e moeda estão a ser criadas rapidamente. O funeral do dólar aguarda a decisão do mundo de como dele escapar. O Federal Reserve pode imprimir dólares com os quais mantém altos os mercados de títulos e acções, mas o Federal Reserve não pode imprimir divisas estrangeiras com as quais possa manter o dólar a flutuar.

Quando o dólar se for, o poder de Washington se vai, razão pela qual o mercado do ouro está a ser manipulado. Protege o poder. Esta é a agenda. Será que Washington falhará mais uma vez?

Nota sobre a Bitcoin:
Em 16 de Maio a PCWorld informou:
"A apreensão de fundos da maior bolsa de bitcoin, a Mt. Gox, foi desencadeada por uma alegada falha da empresa em cumprir regulamentações financeiras estado-unidenses, segundo documento de um tribunal federal. A U.S. District Court em Maryland ordenou na terça-feira a apreensão dos fundos da Mt. Gox, os quais estavam numa conta com Dwolla, uma companhia de pagamentos que transferia dinheiro de cidadãos dos EUA para a Mt. Gox pela compra e venda da divisa virtual bitcoin".

Informações posteriores à minha coluna sugerem que ao invés de serem apreendidos fundos, foi encerrado um mecanismo de transferência de dinheiro. Seja o que for que tenha acontecido, o governo demonstrou que pode desactivar ou destruir a Bitcoin à vontade. A Bitcoin pode ser tolerada a menos que se torne amplamente utilizada. Se o governo encara a Bitcoin como um refúgio do dólar, ele pode simplesmente por os seus agentes a comprarem as Bitcoins, levando o preço para as nuvens, e a seguir despejar as compras todas de uma vez, tal como toneladas de ouro a descoberto foram despejadas no mercado do ouro.

A Bitcoin mostrou a sua vulnerabilidade em Abril quando, segundo noticiários, alguém entregou um montante de US$13.627 de Bitcoins e o valor da Bitcoin entrou em crash passando de US$265 para US$105. Algumas pessoas que observavam este mercado concluíram que o exercício foi um teste de stress encoberto do banco central.

O facto que relatei acerca da Bitcoin não significa que me oponha à mesma. O ponto central do meu artigo é demonstrar que o governo tomará todos os passos para proteger o dólar da Facilidade quantitativa.

19/Maio/2013
NT
[1] Ver a propósito Bitcoin and the dangerous fantasy of 'apolitical' money , de Yanis Varoufakis
[2] 1 onça troy = 31,103 gramas


Ver também:
  • Y ahora, manipulación del oro
  • A manipulação do mercado do ouro pelo Fed , Paul Craig Roberts

    O original encontra-se em www.globalresearch.ca/...

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 01/Mai/13