Recuperação ou bolha?
por C.P. Chandrasekhar
[*]
O receio de uma nova explosão especulativa envolvendo a
recuperação global está sendo expresso em diferentes
círculos. Há muitos aspectos que justificam tanto esses receios
quanto a crença numa recuperação, o que inclui os enormes
lucros registrados por algumas importantes instituições
bancárias, a erupção no fluxo de capital para mercados
emergentes, o aumento especulativo em mercados de ações ao redor
do mundo e o
boom
imobiliário na maior parte da Ásia. As potenciais vítimas
do reverso desse
boom,
todavia, agora reclamam que a fonte de tudo é o retorno dos EUA a uma
política de dinheiro fácil envolvendo enormes
infusões de liquidez e taxas de juros extremamente baixas para
salvar o sistema financeiro e a economia real de um colapso, recorrendo ao
mesmo tempo a estímulos fiscais para incentivar a
recuperação. Uma política similar foi e está sendo
adotada por muitos outros países, ainda que não com a mesma
intensidade em todos os casos, mas os EUA, origem dos ativos mais
tóxicos e dos bancos mais prejudicados, ganha longe.
Esta política produziu sinais que sugeriram uma correção
nos rumos da economia. Mas esses mesmos sinais são também, como
alguns argumentaram, de uma bolha similar àquela que gerou os altos
lucros, o financiamento ao crédito imobiliário e o boom de gastos
de consumo que precedeu à queda de 2008. Os perigos associados
àquela bolha foram ignorados devido aos benefícios do crescimento
de curto prazo que ela provocou. Já esta poderia ser ignorada devido
à impressão de recuperação que gera. Mesmo com a
satisfação expressa por alguns setores com a
recuperação, ainda que suspensa, outros círculos
manifestaram o medo de uma nova queda, ou uma recessão
double dip
[1]
. Assim, logo antes da chegada do presidente americano Barack Obama a Pequim em
sua divulgadíssima visita à China, o regulador bancário do
país, Liu Mingkang, criticou o Federal Reserve por alimentar a
especulação global adotando uma política
loose money
[2]
para salvar as companhias financeiras. Essa visão foi logo adotada
também por Wolfgang Schäuble, que criticou o papel do Federal
Reserve no incentivo ao
carry-trade
do dólar, que consiste em tomar emprestados dólares a baixas
taxas de juros para investir em ativos mais rentáveis fora dos EUA.
Investidores que recorrem a esse negócio não somente se
beneficiam do spread entre as baixas taxas de juros no empréstimo e a
rentabilidade mais alta no seu investimento, mas também da
depreciação do dólar no ínterim, requerendo, por
exemplo, menos euros para comprar os dólares necessários para a
quitação do empréstimo original.
Os vínculos diretos e indiretos entre o estímulo fiscal, a
política monetária incentivadora de crédito e a
recuperação da lucratividade dos bancos são bem
conhecidos. Diretamente, parte dos estímulos utiliza o
dinheiro dos contribuintes para investir em bancos ou
instituições como a gigante dos seguros AIG. O primeiro manteve
os bancos solventes, mesmo quando subscreveram ativos de má qualidade,
enquanto o segundo ajudou instituições
não-bancárias a cumprir compromissos que envolviam ativos
falidos, sem o quê bancos e outras companhias financeiras teriam sido
levados à bancarrota. Além disso, o governo tinha implicitamente
tomado a si uma parcela das dívidas insolvidas de empresas financeiras
que eram consideradas grandes demais para falhar, de modo a oferecer garantias
que sustentaram seu valor contábil perante os bancos. O retorno inicial
à lucratividade que isso assegurou pareceu ter aumentado o valor de
mercado do capital próprio do banco, fazendo parecer que o governo
poderia de fato recuperar ou até ganhar dinheiro em seus investimentos
no capital bancário. Mas, como o economista Dean Baker notou algum tempo
atrás: Este é um caso de dinheiro indo para um bolso mas
saindo de outro; não é assim que a maioria dos investidores ganha
dinheiro. O próprio George Soros disse ao
Financial Times
(em 24 de outubro de 2009) que os lucros auferidos por alguns dos principais
bancos de Wall Street eram dádivas ocultas do estado, e que
o ressentimento do contribuinte com isso era justificado.
Mas a ajuda do estado para os bancos não acabou por aqui. O Federal
Reserve contribuiu com a política
easy-money
[2]
mencionada acima, que ajudou a levar as taxas de juro de curto prazo para
quase zero. Nesta ocasião, os bancos poderiam surfar nessa onda enorme,
tomando empréstimos baratos e investindo em ativos de mais longo prazo
que ofereciam maiores retornos. Alguns desses, como títulos do governo,
eram investimentos de baixo risco oferecendo retorno de mais de 3%, e a margem
líquida de ganhos que o governo estava distribuindo para os bancos era
uma maneira segura de bater recordes em suas margens de lucro.
Era claro que os bancos, especialmente bancos de investimento como o Goldman
Sachs, não iam parar por aí. Ao contrário, eles preferiram
ir além, e usar esse dinheiro barato para especular em mercados de
ações,
commodities
e propriedades, onde quer que eles parecessem lucrativos. Apesar disso ser
ainda mais arriscado, as apostas tinham probabilidade de ser acertadas por
quatro razões. Primeiro, mesmo nos EUA o mercado de ações
estava em baixa, com o rácio entre preço e lucro desabando.
Qualquer melhoria nos lucros das corporações como resultado dos
estímulos fiscais iria aumentar o preço das ações,
de modo que investir no mercado era visto como tão seguro como tinha
sido por muito tempo. Em segundo lugar, isso era verdade mesmo para o mercado
de
commodities
como petróleo e alimentos, e havia sempre
commodities
que não tinham passado por aquele ciclo e estavam prontas a explodir,
incluindo o ouro, que subiria somente se o dólar se enfraquecesse devido
à sua liquidez excessiva, já que estava sendo bombeado na
economia global. Em terceiro lugar, muitos mercados emergentes foram pouco ou
nada afetados pela recessão, o que tornava seus mercados de
ações, títulos e propriedades um destino atraente para
investidores com acesso a dinheiro barato. Finalmente, a corrida do capital
para esses mercados por si só incentiva um
boom
, que por sua vez atrai mais fluxo de capital, dando origem a uma espiral
especulativa.
AS DUAS MANEIRAS DE VER
A consequência desses movimentos foram lucros assombrosos para algumas
companhias financeiras, especialmente a Goldman Sachs, e lucratividade
razoável para outras. Também testemunhamos o retorno da
controvérsia acerca e pagamentos de bônus e gordas
compensações a gerentes de bancos resgatados com o dinheiro dos
contribuintes. Os preços das
commodities
estão novamente revigorados, e os preços nos mercados de
imóveis fora dos EUA estão experimentando acentuada
elevação. Há duas maneiras de interpretar essas
tendências. Uma é tratá-las como sintoma do fim da crise e
do início da recuperação. A outra é vê-las
como sinais de uma nova bolha. Até aqui, a primeira visão tem
predominado.
É desnecessário dizer que o dinheiro barato bombeado no sistema
ajudou a escorar a procura real, o que, junto com os estímulos fiscais,
asseguraram que a queda atingiu o fundo, e algumas economias estão
mostrando sinais de recuperação. De fato, em mercados emergentes
e países como a China o afluxo de liquidez e os estímulos fiscais
locais ajudaram a neutralizar parcialmente os efeitos adversos da queda de
crescimento exportada.
Mas agora estão sendo expressos temores, e está-se procurando
respostas para uma série de questões. Uma delas, claro, é
a evidência de uma assim chamada correção nos
mercados de ações de países desenvolvidos desde
março deste ano: o índice S&P 500 subiu mais de 60%, e o FTSE
Eurofirst 300 registrou também elevação parecida. Mas isso
é pouco em comparação ao que está acontecendo em
mercados emergentes. O índice Bovespa,
benchmark
brasileiro, aumentou 76% neste ano, em termos da moeda local, o real. Aqueles
que converteram dólares em reais e retornaram ao dólar depois de
contabilizar lucros ganharam 139%, com a significativa
depreciação da moeda americana. Essas oportunidades resultaram em
uma entrada líquida recorde de US$ 60 mil milhões a mais nos
fundos de ações dos mercados emergentes, o que serviu apenas para
amplificá-los, aumentando ainda mais os preços. O segundo sinal
de um
boom
especulativo real ou potencial é a reversão no declínio
de preços no mercado de
commodities,
o que, apesar de não ser ainda alarmante, revive as lembranças
da espiral de preços de combustíveis e alimentos de alguns anos
atrás, vista por muitos como tendo sido parcialmente direcionados para a
especulação financeira.
O petróleo, por exemplo, já é comercializado a cerca de
US$ 80 o barril, nos mercados americanos. A terceira é a evidência
de uma bolha imobiliária em mercados emergentes, especialmente na
Ásia. Assim, por exemplo, o
Financial Times
(em 5 de novembro de 2009) relata que em Hong Kong apartamentos com
preço acima de US$ 1,3 milhão caíram 6,2% no terceiro
trimestre do último ano e que pelas expectativas cairiam ainda de 40 a
45% até o final do ano, estão agora 30% mais caros que no seu
ponto mais baixo no último trimestre de 2008. Relata-se que
preços de moradias individuais em Singapura subiram 15,8% no terceiro
trimestre, com relação ao segundo, e na China 37% em termos
anuais. Finalmente, há o aumento explosivo nos preços do ouro na
medida em que investidores correm para ele devido aos temores do
declínio do dólar. O ouro está sendo comercializado a
cerca de US$ 1170 por onça [1 onça troy=31,103gr].
UM SEGUNDO COLAPSO
Ponha-se tudo isso junto, e não se pode descartar a hipótese de
que começa um novo
boom
especulativo e uma nova bolha criada pelo capital financeiro. Como resultado
disso, há temores crescentes de um segundo colapso. A liquidez criada
pelo Federal Reserve está aumentando o excedente de dólares na
economia mundial, preocupando ainda mais os investidores acerca da
depreciação provável no valor do dólar. Se eles
escolherem rearranjar seus
portfolios,
o que parecem estar fazendo, é inevitável que o dólar
continue se depreciando. Se os EUA responderem a essa depreciação
elevando as taxas de juros, pode haver uma retirada de fundos dos ativos
globais e dos mercados de commodities fora dos EUA, provocando um colapso com
efeitos colaterais danosos.
Além do medo de uma saída súbita do capital, os
países com mercados emergentes estão preocupados também
com o efeito que um surto de entrada de dólares em suas economias
terá nas moedas locais. A elevação das
cotações que resultará disso está solapando sua
competitividade com relação a países que estão
conseguindo manter suas moedas vinculadas ao dólar americano. Uma
conseqüência tem sido a renovação da
preocupação nos controles de capital, especialmente depois que o
Brasil impôs uma taxa de 2% sobre investimentos estrangeiros em
ações e títulos para amortecer o excesso de capital
entrante. Algumas economias asiáticas também estão
cogitando de medidas similares para proteger suas moedas, e evitar uma corrida
especulativa aos mercados financeiro e imobiliário.
O positivo nisso tudo é que as lições rapidamente
esquecidas da crise estão sendo estudadas de novo. Todavia, não
está claro se isso poderá se traduzir finalmente em
políticas que reduzirão a probabilidade de que outra bolha
estoure.
02/Dezembro/2009
[*]
Professor do Centro de Estudos e Planejamento Econômico na Universidade
Jawaharlal Nehru; membro do comitê executivo do International Development
Economics Associates.
(1) uma recessão do tipo
double dip
(ou em "W") ocorre quando a uma recessão segue-se um curto
período de crescimento seguido de nova recessão.
(2)
loose money,
ou
easy money policy,
é a política econômica pela qual são reduzidas as
taxas de juros para incentivar a tomada de crédito, em
oposição à
tight money policy,
onde ocorre o inverso, freqüentemente para controle da
inflação monetária.
O original encontra-se em
http://mrzine.monthlyreview.org/chandrasekhar061209.html
. Tradução de RMP.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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