O fracasso dos 750 mil milhões de euros
No encerramento de uma reunião de emergência de ministros das
Finanças dos 27 membros da União Europeia (UE) que perdurou de
domingo até às primeiras horas da manhã de segunda-feira,
10 de Maio de 2010, os exaustos participantes saíram para anunciar um
impressionante pacote de US$1 milhão de milhões (750 mil
milhões) para a estabilização financeira de estados
membros da UE com problemas de dívida soberana e para a União
Monetária Europeia (UME) restaurar a confiança do mercado no
euro, sua divisa comum para os 16 países da eurozona. Imediatamente
após a abertura do mercado de câmbios estrangeiros, várias
horas depois no mesmo dia, a notícia dramática levou o euro a
ascender contra o dólar e o yen, revertendo seu recente declínio
agudo em consequência da crise de dívida soberana da Grécia.
Infelizmente, o pacote de um milhão de milhões de dólares
parece ser um fracasso total. O alívio da pressão baixista sobre
o euro foi de vida curta, confirmando a apreensão contínua do
mercado acerca do pesado e em agravamento fardo de dívidas soberanas
enfrentado por todas as economias dos membros da UME e possivelmente mais
além por cima do Atlântico.
A crise no comércio
A eurozona compra cerca de 15% das exportações estado-unidenses.
Reflectindo a baixa económica global, a UE comprou US$221 mil
milhões dos EUA em 2009, abaixo dos US$244 mil milhões de 2007. O
défice comercial dos EUA com a UE caiu drasticamente de US$110 mil
milhões em 2007 para US$60,5 mil milhões em 2009. Uma queda
drástica do euro contra o dólar em 2010 acompanhada pela
austeridade fiscal nas economias da eurozona terá um efeito adverso para
a economia dos EUA ao tornar as exportações estado-unidenses mais
caras num mercado de procura em queda, ao passo que o investimento e o turismo
da eurozona será moderado. Isto pode reverter a recente tendência
baixista do défice comercial dos EUA com a UE.
A eurozona é agora o maior parceiro comercial da China, ultrapassando os
EUA. As importações europeias da China cresceram em cerca de 18%
ao ano nos cinco anos anteriores ao de 2009. Esta tendência
acelerar-se-á outra vez se o euro cair. Duas décadas
atrás, o comércio China-Europa era desprezível. Em 2008, a
UE importou 248 mil milhões de bens da China. A China agora
é a maior fonte da Europa de importações manufacturadas e
também o mercado de exportação em mais rápido
crescimento da Europa. A Europa exportou um valor de 78,4 mil
milhões de bens para a China em 2008, uma ascensão de 9% em
relação a 2007, crescendo 65% entre 2004 e 2008. A Europa incorre
num excedente no comércio de serviços com a China
5,7 mil milhões em 2008 (acima dos 3,9 mil milhões em
2007). Mas isto é cerca de 30 vezes menor que o seu défice
comercial em bens, o qual era de 169 mil milhões em 2008. O
comércio UE-China diminuiu em 2009 devido à baixa
económica global. As importações europeias da China foram
abaixo, ao passo que as exportações da UE para a China em grande
medida permaneceram estáveis. Pode-se esperar que esta tendência
se acelere quando a UE cuidar das suas crises de dívida soberana nos
estados membros com medidas de austeridade.
Uma baixa das economias da eurozona terá mais uma vez um impacto adverso
no sector exportador da China que já foi atingido pela severa
recessão nos EUA. Um euro em queda também apresentará
problemas para o banco central chinês quanto aos seus esforços
recentes para diversificar suas enormes reservas externas distanciando-se do
dólar.
A crise nas taxas de câmbio
O euro saltou para uma altura de US$1,3048 no dia em que foi anunciado o pacote
de estabilização da UE. Prematuramente, decisores
políticos europeus deram um suspiro de alívio por o seu pacote
"choque e pavor" ter ajudado a escorar a confiança do mercado
na divisa comum.
Contudo, na quinta-feira, 13 de Maio, dois dias comerciais depois, o euro havia
caído outra vez próximo da sua baixa de 14 meses em US$1,2586,
0,3% abaixo naquele dia, colocando-o a apenas um centavo de onde estivera pouco
antes de a expressão estabilização firme ter atingido o
mercado. Ele foi comerciado a US$1,1960 na sexta-feira, 4 de Junho, quase 11
centavos abaixo do nível de US$1,3048 comerciado imediatamente
após o pacote de estabilizado ter sido anunciado a 11 de Maio.
A crise no governo
O fracasso do pacote de estabilização de um milhão de
milhões de dólares é mais do que financeiro. Embora o
pacote de estabilização tenha ajudado a tranquilizar
preocupações sobre a perspectiva de uma onda de iminentes
incumprimentos de dívida soberana dentro dos 16 países da
eurozona, correctores de divisas estavam conscientes de que o problema
subjacente não fora resolvido, porque mesmo com um fundo de
estabilização gigantesco, não havia qualquer
indício sobre como os altamente endividados estados membros da eurozona
conseguiriam por as suas finanças públicas outra vez nos trilhos
avançando no cumprimento das exigências da UME sem disparar crises
políticas devido à oposição popular à
austeridade fiscal.
Uma grande preocupação era o problema do profundo
descontentamento popular com as iminentes medidas governamentais de austeridade
que seriam exigidas para rebaixar os excessivamente altos níveis de
dívida pública e défices fiscais crónicos. Em
particular, havia preocupações no mercado de que o
recém-instalado governo socialista na Grécia não seria
capaz de impor as medidas draconianas que fora forçado a aceitar a fim
de assegurar o anterior pacote de resgate de 110 mil milhões
programado para três anos. Isto foi devido ao medo de que a resultante
resistência política e inquietação social
derrubariam o actual governo socialista grego do primeiro-ministro George A.
Papandreu que fora eleito com uma plataforma de elevação da prosperidade
há apenas sete meses, em 6 de Outubro de 2009.
Os participantes do mercado têm conhecimento do facto de que esta crise
de dívida soberana não é um problema local isolado num
pequeno país, mas um vírus financeiro amplamente difundido na
eurozona que irrompeu primeiro na Grécia mas poderia detonar crises
explosivas em outras economias nacionais infestadas de modo semelhante por todo
o globo com sérias implicações económicas e
políticas. O governo de coligação conservadora da
Alemanha, liderado pela CDU (União Democrata Cristã) já
foi enfraquecido pois a CDU sofreu uma importante derrota em
eleição regional após o seu inepto manuseamento da crise
de dívida soberana da Grécia. E os eleitores alemães
aguardam que a Alemanha teria de enfrentar as suas próprias medidas
fiscais de austeridade como resultado. Não se espera que outros estados
membros da eurozona fiquem isentos de descontentamento popular semelhante
contra encarregados do governo nesta crise regional de dívida soberana.
Mesmo no Reino Unido que é membro da UE desde 1973 mas não
é estado membro da eurozona, ainda que efectue muito comércio com
esta, o Partido Trabalhista perdeu o controle do governo depois de uma
eleição geral não resultar numa maioria de vencedores.
Fracassando em formar uma nova coligação governamental com os
Democratas Liberais, o Partido Trabalhista teve de entregas as rédeas do
governo a uma coligação conservadora apoiada pelos Democratas
Liberais.
Por toda a parte na paisagem política mundial, a hostilidade do eleitor
em relação ao papel do centro-esquerda sobre penosas
questões de austeridade económica é desenfreado nas
democracias multipartidárias.
Uma onda de pânico na exigência da austeridade fiscal
A crise de dívida soberana na Grécia ateou uma onda de
pânico de exigências políticas radicais por disciplina
fiscal por toda a União Europeia por parte de uma
coligação perversa de ideólogos neoliberais de
finanças públicas e conservadores anti-governo. Proponentes de
disciplina fiscal argumentam que a UME e a sua divisa comum, o euro, não
seriam sustáveis sem a drástica reestruturação das
finanças públicas em todos os estados membros da eurozona
através de uma combinação de aumentos de impostos e
redução do défice através da austeridade fiscal.
Mas os credores, principalmente a banca transnacional, serão protegidos
de terem de aceitar "cortes" nos seus haveres de dívida
soberana.
Mas tais abordagens duras de austeridade fiscal implacável num momento
em que a recessão global de 2008 ainda espera em vão por uma
recuperação arriscam aumentar o perigo de uma recessão em
W
(double dip recession)
em 2011 num mercado em baixa secular. As vozes alarmistas destes
falcões do défice fiscal clamam por programas de austeridade
fiscal que são essencialmente punitivos para os trabalhadores da
eurozona enquanto continuam a tolerar a manipulação abusiva do
mercado financeiro que apenas beneficiará a elite financeira pois o
sofrimento económico é passado para o público geral.
Bancos credores contra assalariados
Os défices fiscais na eurozona estão a ser reduzidos cortando
salários do sector público, benefícios sociais e despesas
com subsídios de modo a que os credores na banca transnacional sejam
pagos em pleno enquanto fecham os olhos para a flagrante fuga e evasão
fiscal e por parte dos ricos com rendimentos não salariais que
contribuem para a perda de receitas dos governos e os défices fiscais. A
disparidade disfuncional de rendimento e polarização de riqueza
entre as massas assalariadas e a elite financeira com rendimentos do lucro e do
ganho de capital são as causas principais da super-capacidade na
economia. Nas últimas décadas, a resposta neoliberal para a
super-capacidade foi afastar-se da solução óbvia de elevar
salários, voltando-se ao invés disso para a
inundação da economia com enormes montanhas de dívidas do
consumidor e corporativos que finalmente resultaram num tsunami de
incumprimentos de tomadores de empréstimos o qual transformou-se numa
crise global do crédito. Mas repetir a mesma resposta para a crise
actual só levará a uma outra crise global mais adiante.
Enquanto os réus do colapso do crédito global de 2008 foram
salvos com o futuro dinheiro fiscal do público, a culpa pelas crises de
dívida soberana por todo o globo é atribuída a
assalariados inocentes por supostamente receberam salários elevados e
benefícios sociais excessivos que alegadamente ameaçam a
competitividade de economias num regime comercial globalizado concebido para
rebaixar salários por toda a parte.
As crises de dívida soberana não são causadas pelo Estado
Previdência
A pressa dos ricos e poderosos em combater os transtornos provocando pobreza entre
os trabalhadores vai contra a forte evidência de que a actual crise de
dívida soberana não é causada pelas elevadas despesas
sociais e sim por uma súbita queda na receita dos governo devido
à recessão económica provocada pelo fracasso do mercado de
crédito sob a contabilidade fraudulenta permitida nas finanças
estruturadas, pela qual a elite financeira é directamente e
exclusivamente responsável.
Através de tortuosos "veículos de uso
específico"
( "special purpose vehicles"),
cujo único uso específico é tratar o produto da
emissão de dívida como receita de vendas para remover o passivo
financeiro do balanço do governo a fim de apresentar um quadro
enganosamente robusto das finanças públicas,
são extraídos lucros fantasmas da economia geral para os bolsos de financeiros
infestados de cobiça enquanto empurram a economia real para o
desequilíbrio, resultando em altas dívidas públicas reais
que o inadequado rendimento agregado do trabalhador possivelmente não
pode sustentar. Como proporção do PIB, os salários e
benefícios têm estado a cair nas últimas décadas ao
passo que a dívida pública tem estado a ascender.
Instituições financeiras transnacionais rotineiramente geram
lucros maiores do que a receita governamental de pequenas economias.
Apesar da distorção propagandística, o problema da
dívida soberana não foi causado pelo alto custo de um estado
previdência; ele foi causado pelos mercados financeiros desregulamentados
que permitiram aos governos tomarem emprestadas enormes somas contra receita
futura de empresas do sector público sem mostrar os passivos nos
balanços do governo. A estrutura financeira estava a proporcionar a
participação de governo com cash inicial enquanto ocultava as
dívidas soberanas que tinham de ser reembolsadas no futuro. Mas o grosso
do dinheiro tomado emprestado foi para os bolsos de negociadores da
privatização do sector público ao passo que as
dívidas foram deixadas com a sociedade como um todo. Grande montante da
riqueza nacional é assim transferido da economia local para
especuladores internacionais através da manipulação
legalizada tornada possível pela globalização
desregulamentada do mercado financeiro. É uma nova forma de imperialismo
financeiro sintético contra economias fracas através de um
esquema de vendas a descoberto
(
naked shorts
)
contra as divisas e situação líquida de países
vulneráveis.
A austeridade fiscal porá em perigo da UE
Além disso, tais soluções de austeridade fiscal punitiva
tornarão a UE insustentável como superestrutura política
devido à violenta oposição popular nas
nações que a constituem. A síntese centrista do Terceiro
Caminho, de capitalismo de livre mercado com o estado previdência
social-democrata, criou as condições que permitiram as actuais
crises de dívida soberana. O fundamentalismo de mercado foi exposto
pelos infelizes mas previsíveis acontecimentos que ajudou a criar como
um fracasso exorbitante e espectacular. E o custo exorbitante deste fracasso
espectacular do fundamentalismo de mercado será colocado sobre as costas
dos pobres trabalhadores inocentes.
Há fortes sinais de que eleitores em países com sistemas
políticos democráticos multipartidários foram submetidos
à lavagem cerebral para acreditarem que o capitalismo de livre mercado
com intervenção governamental mínima é o
único caminho para a prosperidade. Os eleitores têm sido
condicionados inconscientemente a comprarem uma ideologia anti-governo que
contradiz diametralmente as outras exigências do público por
generosas redes de segurança de previdência social e
económica que só o governo pode proporcionar.
Quando os crédulos fracos são convencidos pelo fortes tortuosos
da sociedade que o governo é o problema, não a
solução, os fracos são inadvertidamente capturados num
clima político que permite a destruição do seu
único protector institucional, uma vez que a função
existencial do governo, sem importar a cor política e económica,
é proteger os fracos dos fortes.
A não interferência do governo através da
desregulamentação e privatização do sector
público leva à lei da selva em mercados livres sob os quais a
função económica dos financeiramente fracos é
servir como fornecedor de alimentos aos financeiramente fortes. Historicamente,
governos evoluem em civilização de modo a que as massas fracas
possam colectivamente resistir à opressão da elite forte. Esta
é a razão porque os fortes na sociedade atacam sempre governos
populares.
O preço de salvar o euro pode ser a dissolução da UE
Assim, a tentativa de salvar o euro de entrar em colapso quanto ao valor
cambial sob o peso das dívidas soberanas agregadas dos estados membros
da eurozona através de austeridade fiscal coordenada em todos os estados
membros de diferentes heranças e condições
socioeconómicas incorrerá no preço da divergência
política dos estados membros da União Europeia. Governos de
estados membros são estraçalhados e arrancados da união
pelas forças centrífugas geradas por políticas internas
separadas e dirigentes. O sentimento popular contra a austeridade fiscal para o
bem da preservação da União Europeia está
propagar-se como um incêndio descontrolado nesta crise de dívida
soberana da União Europeia.
Mas um enfraquecimento da convergência em direcção à
plena integração dos estados-nação europeus
prolongará a vulnerabilidade estrutural do euro como divisa comum sem
uma estrutura política unificada e o condenará a permanecer uma
divisa multi-estado com alto risco político. Esta
contradição interna é o calcanhar de Aquiles do euro, o
qual é o dinheiro de curso legal de uma união monetária
sem uma união política.
Atmosfera política tempestuosa para governantes
Uma atmosfera política tempestuosa recentemente sovou líderes
governamentais centristas em vários países ao tornar cada um
deles separadamente responsável pelas medidas de austeridade que agora
são forçados a implementar para retirarem as suas diferentes
economias da dívida insustentável.
A fim de cumprir o prazo final de 2013 de cumprimento do critério de
euro convergência do UME tal como redigido no Pacto de Estabilidade e
Crescimento (PEC), no fim do ano fiscal anterior, o rácio do
défice fiscal anual do governo em relação ao PIB
não deve exceder 3% e o rácio da despesa bruta do governo em
relação ao PIB não deve exceder 60%. Isto significa que os
governos da eurozona precisam cortar seus défices orçamentais
individuais para somarem um total de 400 mil milhões. Esta soma
enorme será retirada primariamente dos bolsos de empregados de
serviços públicos, dos pensionistas, dos desempregados e dos
indigentes na UE durante as próximas décadas.
A Grécia em 11 de Maio de 2010 foi forçada a adoptar um plano de
austeridade para reduzir o seu défice orçamental em 30 mil
milhões ao longo dos próximos três anos através de
cortes em salários, benefícios, subsídios e
pensões, cortes de programas sociais e um aumento no IVA.
A Espanha em 26 de Maio anunciou cortes de 80 mil milhões no seu
orçamento fiscal, irradiação de 13 mil empregos em
serviços públicos, redução de salários de
empregados do estado em 5% e congelamento de pensões. A concessão
de 2.500 para pais de um recém-nascido a fim de reverter
tendências de declínio populacional será suspensa.
Portugal impôs um congelamento na contratação e nos
salários nos sectores públicos e aprovou um aumento do IVA a fim
de cortar 20 mil milhões do seu défice orçamental.
O governo italiano lançou medidas que resultarão em cortes de
24 mil milhões em 2012. Elas incluem uma redução em
empregos do serviço civil, cortes salários,
elevação da idade de reforma e cortes no sistema de cuidados de
saúde.
A França planeia reduzir o seu défice orçamental de 8%
para 3% do PIB em 2013. Isto será alcançado pelo prolongamento da
idade de reforma de empregados públicos; cortes em benefícios
habitacionais, compensação de emprego e financiamento de museus;
bem como um corte de 10% em custos administrativos.
O governo alemão decidirá sobre medidas concretas de austeridade
em 6 e 7 de Junho. O chamado "travão à dívida",
ancorado na constituição da Alemanha Federal, impõe uma
redução em nova dívida de 60 mil milhões em
2016. Dentre as muitas medidas sob discussão estão cortes em
programas sociais, tais como família, infância, benefícios
da previdência e de invalidez, anuidades e pensões. O governo
alemão planeia poupar cerca de 80 mil milhões entre 2011 e
2014 com medidas que incluem uma redução 30 mil
milhões em despesas de previdência e um corte de 15 mil pessoas em
folhas de pagamento no sector público. Ele espera realizar 5,5 mil
milhões de euros através de cortes de subsídios e pode
reduzir as forças armadas em 40 mil homens.
O adiamento da idade de reforma é contraproducente
A Comissão da UE sugere que a idade de reforma na Europa deveria
continuar a elevar-se com firmeza. Isto é para assegurar que no futuro
não mais do que um terço da vida adulta de uma pessoa possa ser
gasta na reforma. No logo prazo, isto significaria que a elevação
da idade de pensão para os 70 anos. Isto aumentará a
pressão sobre os novos jovens a entrarem no mercado de trabalho durante
as próximas duas décadas pois menos posições
ficarão vagas pela reforma dos actualmente empregados.
O novo governador conservador britânico, de centro-direita, anunciou
cortes orçamentais imediatos de £7,2 mil milhões [8,17
mil milhões], incluindo um congelamento de contratações no
serviço civil. O novo primeiro-ministro, David Cameron, disse que o
défice orçamental britânico será cortado ao logo dos
próximos quatro anos em mais de £100 mil milhões
[113,51 mil milhões]. Isto incluirá o corte de 300 mil
postos de trabalho no serviço público e um congelamento de
pagamentos no sector público.
Para milhões de trabalhadores e jovens licenciados, as medidas
recém-adoptadas significam desemprego e níveis de pobreza. Em
particular, a pobreza de idosos será outra vez um fenómeno de
massa na Europa. Nada permanecerá do estado previdência do
pós-guerra. Um estudo do think tank Carnegie Endowment for International
Peace nos EUA conclui que "os estados previdência estabelecidos
através da Europa desde a década de 1940 com o objectivo de
suprimir a inquietação popular e amainar tensões que
pudessem levar a outra guerra continental" são
"incomportáveis". O que foi deixado por dizer no estudo foi
que isto seria incomportável somente se fosse permitida continuar a
disparidade de rendimento e polarização de riqueza. Numa economia
com super-capacidade, o povo arcar com o que produz se o sistema não
privar a maioria do seu direito à riqueza que ela cria entregá-la
a uma minoria que a controla. A revolução teria de vir pela
política ou virá pela violência.
Crise de má distribuição do rendimento e da riqueza
Num regime de moeda fiduciária, é da responsabilidade do banco
central assegurar uma oferta adequada de moeda. As deficiências de
orçamento fiscal que estão a ser utilizadas para justificar o
desmantelamento do estado previdência são o resultado da
sistemática má distribuição do rendimento e da
riqueza desde aqueles na base da sociedade que fazem o trabalho até
aqueles no topo que fazem a manipulação.
Durante um quarto de século desde o fim da década de 1970, tanto
governos de direita como de centro-esquerda reduziram impostos sobre o
rendimento e a propriedade para os ricos, deprimiram salários
através do desemprego estrutural como ferramenta para combater a
inflação e abdicaram da responsabilidade do governo na
manutenção da justiça económica.
O conceito de salário digno é encarado como utópico pela
nova coligação. Os salários são ajustados pela sua
utilidade marginal para o retorno sobre o capital em mercados não
regulamentados e não pela lei económica da
administração da procura numa economia moderna de ciclos de
negócio com super-capacidade, na qual a fase recessiva tornou-se
praticamente contínua. O descontentamento popular é calado com
aumentos insustentáveis da dívida pública. Estas
são as causas principais da crise de dívida soberana, não
o super-consumo por parte dos pobres trabalhadores.
A crise de dívida pública provocada pelos salvamentos
bancários
A dívida pública foi impulsionada drasticamente nos
últimos dois anos pelos milhões de milhões que governos
operados por decisores políticos favoráveis ao livre mercado
bombearam para dentro de bancos aflitos a fim de impedir o colapso da
especulação em mercados desregulamentados. Números
recentes do Bundesbank alemão mostravam que em 2008 e 2009 cerca de 53%
da nova dívida pública da Alemanha foi utilizada para resgatar
instituições financeiras aflitas. A nova dívida
pública total ascendeu em 183 mil milhões naqueles dois
anos; os custos envolvidos no apoio a instituições financeiras
aflitas montaram a 98 mil milhões.
Líderes sindicais como paus-mandados do neoliberalismo
Para pressionar por medidas de austeridade contra os trabalhadores pobres, a
elite financeira dominante convocou os sociais-democratas e sindicalistas como
seus paus-mandados. Nos países PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda,
Grécia e Espanha), governos social-democratas impõem as medidas
de austeridade, ou, como na Grã-Bretanha, França e Alemanha, os
sociais-democratas desacreditaram-se a si próprios pelas suas medidas
anteriores de cortes de custos de que agora os partidos da direita colhem o
benefício político. Em todos os casos, os sociais-democratas
não deixam dúvida de que apoiam os cortes, dizendo ao povo
trabalhador que "não há alternativa".
Líderes sindicais têm estado desejosos de subscrever o
desacreditado "TINA" (There Is No Alternative), vudu económico
de Reagan e Thatcher, em cooperação com governos controlados
pelas corporações para travar a guerra financeiro ao trabalho. As
manifestações e greves organizadas pelo trabalho contra medidas
de austeridade têm sido suprimidas pela polícia armada, com a
violência e mortes exploradas como razões para que cessem os
protestos do trabalho.
Mas o trabalho tem uma obrigação moral e funcional de
forçar mudanças estruturais neste sistema económico
disfuncional, ao invés de continuar a permanecer uma vítima
passiva na nova era da maciça servidão anti-trabalho. Enquanto
isso, um movimento populista conservador que se chama a si próprio TEA
(Tax Enough Already, Já chega de impostos) Party está a ganhar
apoio popular que pode facilmente ser transformado numa força
política fascista. O que é deixado por dizer na retórica
do TEA Party, além do protesto sobre a elevação de
impostos, é protestar na perspectiva de que o dinheiro do fisco deveria
ser gasto com os pobres, ao invés do salvamento da errática elite
financeira. Até que o trabalho tome as rédeas da reforma, o
pacote de estabilização de um milhão de milhões de
dólares da UE acabará no fracasso.
07/Junho/2010
Este é o 10º artigo da série "Perspectiva
económica pós-crise global" publicada no
Asia Times
e transcrita no sítio web do autor. Os demais artigos são:
Part I:
Crisis of Wealth Destruction
Part II:
Two Different Banking Crises - 1929 and 2007
Part III:
The Fed's No-Exit Strategy
Part IV:
The Fed's Extraordinary Section 13(3) Programs
Part V:
Public Debt, Fiscal Deficit and Sovereign Insolvency
Part VI:
Public Debt and Other Issues
Part VII:
Global Sovereign Debt Crisis
Part VIII:
Greek Tragedy
Part IX:
Effect of the Greek Crisis on German Domestic Politics
Part X:
The Trillion Dollar Failure
Part XI: Comparing Eurozone Membership to Dollarization of Argentina (a
publicar)
[*]
Presidente de um grupo de investimento privado com sede em Nova York.
O original encontra-se no
Asia Times
e em
http://henryckliu.com/page230.html
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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