A conspiração real da AIG

por Michael Hudson [*]

Pode parecer estranho, mas a indignação pública contra os US$135 milhões em prémios para a AIG é uma bênção para a Wall Street, os patifes da AIG inclusive. Como podem os media estar tão preocupados com a descoberta de que há cobiça em causa própria no sector financeiro? Todo canal de TV e todo jornal do país, da direita à esquerda, fizeram destes prémios [dados aos executivos da AIG] a notícia principal nestes últimos dois dias.

Charles Schumer e Barney Frank. O que há de errado nisto? Não haverá algo de forçado na indignação vociferante do senador Charles Schumer e do deputado Barney Frank, os dois comparsas principais das dádivas aos bancos no ano passado? E será que esta história não foi conveniente para o presidente Obama que pode finalmente criticar algo errado da Wall Street? Mesmo o Wall Street Journal envolveu-se na representação. A tomada da AIG pelo governo, destacou o jornal, "utiliza a firma como uma conduta para salvar outras instituições". Assim, há aqui muito mais ganância do que simplesmente a dos empregados da AIG. A firma devia muito mais a outras companhias – tanto dentro como fora da Wall Street – do que os activos que detinha. Foi o que a levou à insolvência. E à oposição popular crescente contra a maneira como Obama e McCain se entenderam para apoiar o salvamento que, em retrospectiva, monta a milhões de milhões (trillions) de dólares desaparecidos. Não desaparecidos para toda a gente, naturalmente – mas sim dados a especuladores financeiros do lado "inteligente" que venceu as más apostas financeiras da AIG.

"A gente de Washington quer concentrar-se nos prémios porque isso desvia a ira pública para actores privados", acusou o Journal no editorial de 17 de Março. Mas em vez de explicar que a cólera foi desviada daqueles que na Wall Street se apropriaram de uma quantia um milhar de vezes maior do que os prémios agora contestados, o jornal culpa a sua habitual bête noire de serviço: o Congresso. Onde a direita e a esquerda diferem é apenas sobre quem o público deveria direccionar a sua ira!

UM MILÉSIMO DE US$183 MIL MILHÕES!

Cartoon de Poderiu. O problema com todo este alarido sobre os US$135 milhões em bónus da AIG é que esta quantia é apenas menos de 0,1 por cento — um milésimo — dos US$183 mil milhões que o Tesouro dos EUA deu à AIG para que esta pagasse as suas dívidas a outras empresas. Esta quantia, de mais de um milhar de vezes da magnitude dos prémios sobre os quais a atenção do público está a ser convenientemente focada pelos promotores da Wall Street, não ficou nos cofres na AIG. Durante mais de seis meses, os media e os congressistas tentaram descobrir para onde foi este dinheiro. A Bloomberg abriu um processo para descobrir. Só para deparar-se com um muro de silêncio.

Até que finalmente, na noite de domingo, 15 de Março, o governo acabou por divulgar os pormenores — que se verificaram altamente embaraçosos. O maior beneficiário revelou-se ser exactamente o dos boatos de relatórios financeiros anteriores. A própria firma de Paulson, a Goldman Sachs, encabeçava a lista. Esta empresa recebeu US$13 mil milhões. Aqui está o quadro que começa a emergir. Em Setembro último, o secretário do Tesouro Paulson, da Goldman Sachs, redigiu um memorando conciso de três páginas esboçando a sua proposta de salvamento. O plano especificava que fosse o que fosse que ele outros responsáveis do Tesouro fizessem (portanto incluindo seus subordinados, também da Goldman Sachs), não poderia ser contestado legalmente ou anulado em circunstâncias algumas e muito menos processado. Esta condição enfureceu o Congresso, o qual rejeitou o salvamento na sua primeira encarnação.

Verifica-se agora que Paulson tinha boas razões para inserir uma cláusula de bloqueio legal a qualquer recuperação (clawback) de fundos dados pelo Tesouro para contrapartes da AIG. É nisto que a indignação do público deveria incidir.

Ao invés disso, o principais promotores no Congresso da legislação do salvamento – juntamente com Obama no debate presidencial final de sexta-feira à noite com McCain, um fervoroso defensor do salvamento na odiosa versão "curta" de Paulson – destacam apenas as quantias que os executivos da AIG receberam como prémios, não aquelas distribuídas aos contrapartes da companhia.

Há duas questões que é preciso perguntar sempre quando está a ser lançada uma operação política. Primeiro, qui bono – quem dela se beneficia? Segundo, por que agora? A experiência mostrou-me que o timing quase sempre é a chave para compreender a dinâmica em acção.

Em relação a quem se aproveita, o que é que o senador Schumer, o deputado Frank, o presidente Obama e outros promotores da Wall Street têm a ganhar com um escândalo público? Para começar, isso apresenta-os como duros controladores do sector bancário e financeiro, não como lobbystas dedicados a obter uma dádiva após a outra. De modo que a comoção da AIG sujou a água acerca de onde realmente estão as suas lealdades políticas. Isto permite-lhes exibir uma pose enganadora – e portanto exibir-se como "corretores honestos" da próxima vez que eles desonestamente concederem mais uns poucos milhões de milhões de dólares aos seus principais patrocinadores e contribuidores para campanhas eleitorais.

Em relação ao momento, penso que já respondi mais acima. O escândalo dos prémios desviou a atenção dos US$183 mil milhões de dádivas do Tesouro que a AIG redistribuiu. Comenta-se que soma "final" a ser dada a estas contrapartes da AIG é de US$250 mil milhões. Parece que o senador Schumer, o deputado Frank e o presidente Obama ainda têm um bocado de trabalho a fazer para a Wall Street no próximo ano ou pouco mais.

Para ter êxito neste trabalho – enquanto minimizam o escândalo público que já se levanta contra os maus salvamentos – eles precisam exibir precisamente a pose que estão a exibir agora. É um exercício de logro.

A moral deveria ser: Quanto mais lágrimas o crocodilo verter sobre a dádiva de prémios a indivíduos da AIG — os quais parecem estar garantidos por seguros sérios, não pela vigarice dos esquemas de hedge funds —, mais a atenção pública será afastada da dádiva dos US$180 mil milhões. Além disso, ficarão melhor posicionados para dar ainda mais dinheiro do governo (títulos do Tesouro e depósitos do Federal Reserve) às suas organizações caritativas favoritas.

Vamos procurar o dinheiro REAL dado à AIG – os US$183 mil milhões! Entendo que este dinheiro já foi pago e que não podemos recuperá-lo das companhias que sabiam estarem Alan Greenspan, George Bush e Hank Paulson a pilotar a economia do EUA para o abismo imobiliário, para o abismo dos derivativos e para o abismo da balança de pagamentos, todos embrulhados em apostas contra collaterized debt obligations (CDOs) e a segurar estas apostas de casino com a AIG. Aquele dinheiro foi sifonado para fora do Tesouro nos termos legais, colocando os seus homens nos postos chave do governo a fim de melhor os servirem.

Então vamos procurá-los, onde estiverem. O senador Schumer disse aos beneficiários dos prémios da AIG que o fisco poderia persegui-los e recuperar o dinheiro, de um modo ou de outro. E poderia também ir atrás dos beneficiários dos US$183 mil milhões restantes. Tudo o que ele tem a fazer é restabelecer o imposto sobre o património e elevar as taxas sobre o rendimento marginal e a riqueza para os níveis (já reduzidos) da era Clinton.

O dinheiro pode ser recuperado. E é exactamente isso o que o sr. Schumer, o sr. Frank e outros não querem que seja discutido publicamente. Eis porque desviaram a atenção para esta trivialidade dos prémios. É o modo clássico de fazer com que as pessoas não falem acerca do grande quadro e daquilo que é realmente importante.

[*] Ex-economista da Wall Street, professor investigador na University of Missouri, Kansas City (UMKC), autor de numerosos livros, inclusive Super Imperialism: The Origin and Fundamentals of U.S. World Dominance . Email: mh@michael-hudson.com

O original encontra-se em http://www.counterpunch.org/hudson03182009.html


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
22/Mar/09