A Europa arrastada a uma divisão do mundo entre devedores e credores
– as soluções desesperadas dos EUA para não afundarem sós

por GEAB [*]

Composição de Walter W. Smith. A actual confrontação entre a Rússia e o Ocidente na crise ucraniana recorda inevitavelmente a imagem da guerra fria e os media evidentemente rejubilam com isso. Ora, ao contrário do que eles dão a entender, não é a Rússia que procura o retorno da cortina de ferro mas sim os Estados Unidos. Uma cortina de ferro separando antigas potências e países emergentes, mundo de antes e mundo de depois, devedores e credores. E nesta esperança um tanto louca de preservar o american way of life e a influência dos Estados Unidos sobre o "seu" campo na impossibilidade de poder impô-lo sobre o mundo inteiro. Por outras palavras, afundar com o maior número de companheiros possível para ter a impressão de não afundar.

Para os Estados Unidos, este é de facto o jogo actual: arrastar consigo todo o campo ocidental para poder continuar a dominar e a comerciar com um número suficiente de países. Assiste-se assim a uma formidável operação de viragem de opiniões e de líderes na Europa a fim de assegurar governos dóceis e compreensivos em relação ao patrão americano, operação apoiada por uma blitzkrieg para ligá-los definitivamente ao TTIP e para isolá-los do que poderia ser a sua tábua de salvação, ou seja, os BRICS, seus mercados imensos, suas dinâmicas de futuro, sua ligação com os países em vias de desenvolvimento, etc. Analisamos todos estes aspectos neste número do GEAB, assim como a utilização subtil do medo de uma deflação a fim de convencer os europeus a adoptarem os métodos estado-unidenses.

À luz da extrema periculosidade dos métodos empregues pelos Estados Unidos, não é preciso dizer que abandonar o navio estado-unidense não seria um acto de traição por parte da Europa mas sim um avanço importante para o mundo como já analisámos longamente em números anteriores do GEAB [1] . Infelizmente os dirigentes europeus mais razoáveis estão completamente paralisados e a melhor estratégia que actualmente ainda são capazes de executar, no melhor dos casos, parece ser uma simples temporização [2] , certamente útil e bem vinda mas dificilmente suficiente...

Plano do artigo completo:
1. MÁSCARAS ABAIXO
2. RÁPIDO, UM TTIP
3. UMA ABERRAÇÃO ECONÓMICA
4. INSTILAR NA EUROPA O MEDO DA DEFLAÇÃO, A SEGUNDA ARMA DOS EUA
5. DEVEDORES CONTRA CREDORES, O MUNDO CORTADO EM DOIS

Apresentamos neste comunicado público extractos das partes 1 e 2.


MÁSCARAS ABAIXO

Na era da Internet e dos casos tipo "-leaks", guardar um segredo tornou-se difícil para os agentes secretos e para os países com mãos sujas. Além das revelações de Snowden ou da Wikileaks, soube-se recentemente que os Estados Unidos estavam por trás de uma rede social em Cuba que visava desestabilizar o governo [3] . Ou pode-se visionar este vídeo revelado oportunamente no Youtube [4] mostrando os americanos a manobrarem por trás do golpe de Estado na Ucrânia. Ou ainda que aparentemente eles não são inocentes na actual desestabilização de Erdoðan na Turquia [5] , país cuja situação pormenorizaremos no próximo GEAB [6] ... As máscaras caem... com provas certeiras que já mais ninguém pode ignorar.

Mas os Estados Unidos já não se contentam com países em desenvolvimento ou repúblicas bananeiras... Na Europa, conseguem igualmente dobrar dirigentes uns após os outros, a fim de que sigam docilmente os interesses americanos. Não se trata mais de "O que é bom para a General Motors é bom para a América" como declarava em 1953 Charles Wilson (ex-presidente da GM), mas de "O que é bom para os Estados Unidos é bom para a Europa". Eles já tinham o apoio de Cameron, Rajoy, Barroso, Ashton... Eles conseguiram obter o da Polónia de Donald Tusk apesar de este ter sido fortemente renitente no princípio do seu mandato [7] , o da Itália graças ao oportuno golpe de Estado de Renzi [8] e o da França de Hollande/Valls graças em particular à remodelação ministerial e a um primeiro-ministro pouco suspeito de anti-americanismo. Ao contrário [do que acontecia] no início do seu mandato quando jogava a carta da independência, no Mali ou em outras frentes, François Hollande agora parece completamente submisso aos Estados Unidos. Que pressões terá sofrido? A Alemanha, por sua vez, ainda resiste um pouco, mas por quanto tempo? [9] Aprofundámos esta reflexão na parte Télescope.

A Europa é assim arrastada para os interesses dos EUA. Como veremos, estes não são os seus nem em termos de política, nem de geopolítica, nem de comércio. Enquanto os BRICS escolheram uma via oposta e procuram livrar-se a todo custo da influência doravante profundamente nefasta dos Estados Unidos, a Europa neste momento é o peru da festa. Testemunho disso é, por exemplo, a compra pela Bélgica de 130 mil milhões de dólares de Títulos do Tesouro dos EUA ao longo de três meses, de Outubro 2013 a Janeiro 2014 (último dado disponível [10] ), ou seja, a um ritmo anual superior ao do seu PIB [11] ... Certamente não é a própria Bélgica que é responsável por esta aberração, mas é claro que Bruxelas, ou seja, a UE como soldadinho dos EUA.

Politicamente a Europa está abafada pelos Estados Unidos que podem saltar de alegria com a ausência de qualquer liderança [europeia]. E o meio de selar definitivamente esta captura americana da Europa chama-se TTIP...

RÁPIDO, UM TTIP

Já documentámos amplamente: ao contrário dos discursos triunfantes da "retomada" que repousam sobre os preços imobiliário que sobem e da bolsa que está mais alta, a economia real dos EUA está a ganir. A taxa de privação alimentar é mais elevada do que na Grécia.

As lojas, mesmo as mais baratas, fecham a porta por falta de clientes [12] . Os pedidos de empréstimo imobiliário estão no ponto mais baixo, o que é de mau agouro e prenuncia uma reversão iminente como antecipámos no GEAB nº 81.

[...]

Mas como já havíamos dito, não está aí o essencial. A grande aposta do TTIP é a preservação do dólar nos intercâmbios comerciais e a manutenção da Europa no regaço estado-unidense a fim de evitar que se constitua num bloco Euro-BRICS capaz de contrapor-se aos Estados Unidos.

Assim, a crise ucraniana, sob o pretexto da agressividade russa e do abastecimento de gás, é um bom meio, no pânico, de impor a agenda dos Estados Unidos e dos lobbies face a dirigentes europeus demasiado fracos para agir. O que não estava previsto é que o interesse destes lobbies não segue forçosamente o sentido que se crê...

[...]

Notas:
1. Assim como a China, em particular, ordena-lhe o que fazer por meio dos seus acordos de swap.
2. Aguardando as eleições europeias, nomeadamente.
3. Fonte: The Guardian , 03/04/2014.
4. Fonte: Reuters , 06/02/2014.
5. Na sequência da utilização pelos Estados Unidos das redes sociais em Cuba como mencionando anteriormente, não é de espantar que Erdoðan tenha decidido cortar o Twitter na Turquia. Por sua vez, o turco Fethullah Gülen, instigador do movimento Gülen que se opõe ao governo Erdoðan, reside... nos Estados Unidos. Fontes: Aljazeera (13/03/2014), Wikipédia .
6. Pequeno parênteses: nossa equipe não pode deixar de pensar que se De Gaulle, tão admirado em França, governasse hoje, ele também seria considerado como um autocrata a derrubar, a exemplo de Erdoðan ou de Putine... Dirigir eficazmente no interesse do seu país parece agora ser considerado como incompatível com a democracia sob a sua forma actual, que deve ser fraca...
7. Fonte: Wikipédia . Donald Tusk é agora um fervoroso apoiante do gás de xisto na Polónia e levanta-se contra a Rússia. Fontes: Wall Street Journal (11/03/2014), DnaIndia (05/04/2014).
8. Ler também RT , 01/04/2014.
9. Fonte: EUObserver , 10/04/2014.
10. Fonte: US Treasury .
11. Seu excedente comercial de cerca de 1% do PIB terá dificuldade em explicar por si só esta capacidade de compra...
12. Ver por exemplo ABCNews , 10/04/2014.

15/Abril/2014

[*] Global Europe Anticipation Bulletin.

O original encontra-se em www.leap2020.eu/...


Este comunicado público encontra-se em http://resistir.info/ .
20/Abr/14