Eutanásia económica
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A antiga líder do PSD Manuela Ferreira Leite entende que os doentes com
mais de 70 anos que necessitem de tratamentos de hemodiálise os devem
pagar. Tem sempre direito se pagar, disse.
in
Público
, 11/Janeiro/2012
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Como os hospitais gregos estão praticamente falidos, as grandes empresas
farmacêuticas suspenderam o fornecimento de medicamentos para o cancro,
para a SIDA e para a hepatite; e o abastecimento de insulina também foi
interrompido. Este não é um caso especial, mas a imagem do
futuro.
Na ideologia da economia política, o dinheiro é uma ferramenta
sofisticada para fornecer da melhor maneira bens materiais e serviços
sociais à sociedade; precisamente por isso, ele seria irrelevante no
verdadeiro sentido económico, não passando de um
"véu" sobre a produção e a
distribuição reais. Marx, no entanto, mostrou que o dinheiro,
como autovalorização do capital, é um fim em si mesmo
fetichista, que submeteu a si a satisfação das necessidades
concretas. Os bens reais apenas são produzidos se servirem para esse fim
em si da multiplicação do dinheiro; caso contrário a sua
produção é parada, embora seja tecnicamente
possível e constitua mesmo uma necessidade vital. Isto é
particularmente evidente em áreas como as pensões e os cuidados
de saúde, que em si não são suportes da
valorização do capital, mas têm de ser financiadas com os
salários e os lucros. No plano puramente factual estão
disponíveis recursos suficientes para fornecer à
população alimentos e cuidados médicos, mesmo que seja
cada vez maior a proporção de não activos
profissionalmente. Mas, sob os ditames do fetiche dinheiro, esta possibilidade
objectiva torna-se "infinanciável".
Sistemas de pensões e seguros de saúde estão
indirectamente subordinados aos ditames da valorização abstracta.
Sob condições de financiamento difíceis eles são
"economificados". Isso significa que eles mesmos devem agir de acordo
com critérios económicos, a fim de poderem participar nos fluxos
financeiros. Até o diagnóstico médico se torna uma
mercadoria, que está sob pressão da concorrência. O
objectivo não é a saúde e o bem-estar das pessoas, mas o
doping para a "produtividade", por um lado, e a gestão das
doenças, por outro. A pessoa ideal para as instituições
vigentes seria um lutador olímpico no local de trabalho (para aumentar o
produto nacional), que simultaneamente pudesse ser definido como doente
crónico (para encher os cofres do sistema de saúde) e que batesse
voluntariamente a bota ao entrar na idade da reforma (a fim de não ser
um fardo para o capitalismo).
Foi a própria ciência médica que estragou os planos deste
esplêndido cálculo. Ela foi de facto tão bem sucedida que
cada vez mais pessoas estão vivendo muito para além da idade
profissionalmente activa. Este é um exemplo particularmente claro de que
a concorrência forçou um desenvolvimento das forças
produtivas que já não é compatível com a
lógica capitalista. A "força muda das
circunstâncias" (Marx) provoca assim uma tendência para de
algum modo anular as conquistas médicas factuais. A
produção da pobreza artificial tem efeito preventivo. Assim, na
Alemanha, a esperança de vida dos mais mal pagos baixou de 77,5 para
75,5 anos desde 2001. Quem nem sequer ganha dinheiro suficiente para a
subsistência, apesar de trabalhar a tempo inteiro com desempenho
esforçado, chega a velho tão exausto que já não
consegue explorar as possibilidades da medicina. Mas também a
assistência médica em si é cada vez mais reduzida de acordo
com a capacidade de pagamento. Como os hospitais gregos estão
praticamente falidos, as grandes empresas farmacêuticas suspenderam o
fornecimento de medicamentos para o cancro, para a SIDA e para a hepatite; e o
abastecimento de insulina também foi interrompido. Este não
é um caso especial, mas a imagem do futuro. Pelo menos aos doentes
pobres e "supérfluos", não mais utilizáveis do
ponto de vista capitalista, será assinalado por todos os peritos o que
já o rei Frederico da Prússia berrou aos seus soldados em fuga do
campo de batalha: "Cães, vocês querem viver para sempre?"
Original Ökonomische Sterbehilfe em www.exit-online.org. Publicado em
Neues Deutschland,
09/01/2012.
A versão em português encontra-se em
http://o-beco.planetaclix.pt/rkurz399.htm
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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