As hienas mitradas
Somos profundamente respeitosos de todos os credos, cultos e religiões
que os nossos compatriotas resolvam professar e praticar.
Acreditamos que todas estas expressões, das diversas igrejas, devem estar
em pleno plano de igualdade para realizar uma actividade sã entre seus
congregados e para isso devem contar com a protecção e as
garantias do Estado.
Sendo o nosso povo maioritariamente pertencente à igreja cristã,
apostólica e romana queremos compartilhar convosco algumas
reflexões sobre o sector mais retardatário, primitivo e
cavernícola da referida igreja, no entendimento de que sempre
desejámos trabalhar com as comunidades eclesiais de base, e pelo menos
coordenar actividades com a alta hierarquia em aspectos fundamentais para o bem
estar do nosso povo. Somos daqueles que crêem que
revolução e religião podem marchar juntas rumo à
sagrada comunhão humana se, parafraseando Whitman, exprimimos que: o
que é teu deve ser nosso, pois cada átomo te pertence, tanto como
pertence a nós.
Devemos recordar que Jesus de Nazaré enfrentou o império
escravocrata romano que naquela época dominava a Judéia apoiado
pelas classes ricas.
A pregação da igualdade e do amor entre os homens; a defesa dos
pobres; a justiça social, o deslinde do reino eterno de Deus; do
temporal e do terreno dos homens, foram razões mais que suficientes para
declarar insurgente o filho do homem, levá-lo a julgamento
político perante o tribunal de raposas, julgá-lo e
condená-lo a açoites, vexames, tortura e
crucificação.
Com o assassinato de Jesus, Roma acreditou haver aniquilado um perigoso broto
de descontentamento na vasta superfície do seu império.
Equivocou-se. Os discípulos seguiram os ensinamentos do Mestre, nas
condições difíceis da clandestinidade, abrigados na
catacumbas, ganhando novos adeptos.
O Imperador decreta a perseguição dos cristãos. A
repressão brutal vai desde a decapitação, a
crucificação ou a utilização dos presos no circo
romano onde eram lançados para serem devorados por tigres e leões
perante o delírio da aristocracia romana e o fanatismo de uma turba
embrutecida e enganada. Demonstrações de infinito
heroísmo, digno de imitar, legaram-nos estes primeiros mártires
do verdadeiro cristianismo.
Vã ilusão resultou ser a repressão. Novos adeptos
substituíam os caídos e o fenómeno reproduzia-se em
espiral incontível.
As contradições próprias do império, ao estender
indefinidamente suas fronteiras, debilitavam sua unidade.
Constantino Primeiro, o Grande, teve a antevisão de perceber no
cristianismo a possibilidade de preservar a coesão do império.
Perante a impossibilidade de exterminá-los, decide atraí-los,
negociar com eles. Ele próprio "converte-se" ao cristianismo
no ano 313 d.c. e com o Édito de Milão fica selado o pacto entre
o divino e o humano.
Começa assim, para o caso particular da Religião Católica,
uma estranha simbiose entre o poder celestial e o poder opressor terreno, antes
combatido por Jesus.
A nova condição criada cumulou de privilégios uma
cúpula de sotaina complacente e vendida, famélica de dinheiro e
poder, que se afastou das suas bases e esqueceu os perseguidos e
mártires. Surge um clero rico que fundiu seus interesses
indissoluvelmente aos da casta governante. Ambos necessitavam-se e deviam
trabalhar em conjunto até o fim dos séculos.
Com o decorrer do tempo o papado acumula um poder impressionante, baseado na
conversão de príncipes ao cristianismo, agrupados nos Estados
Pontifícios, onde o Papa era soberano absoluto. As possessões
feudais dos dignitários eclesiásticos em todos os países,
desde as pequenas paróquias rurais passado pelos arcebispados, bispados,
abadias e conventos; o controle da educação; o dinheiro; a
acumulação de metais e pedras preciosas; e, sobretudo,
explorando a ignorância e os sentimentos de temor do homem quanto ao que
viria depois da morte: o suplício eterno no inferno ou o gozo
perpétuo no céu "à direita de Deus, pai todo
poderoso".
Sendo o poder para exercê-lo, os ricos no interior da igreja
aproveitam-no para prosseguir sua expansão a todo o ocidente, em
aliança ou valendo-se de tronos amigos. Todo método foi
válido. As Cruzadas contra a Terra Santa foram pretexto para a
conquista de territórios no Médio Oriente; a
inquisição foi arma letal para levar à fogueira e queimar
vivos adversários acusados de heresia; o ataque às ciências
uma das formas de impor o obscurantismo no longo período da idade
média evitando o avanço e desenvolvimento da humanidade, uma vez
que as luzes do saber desterram o medo e a opressão.
Submetida a Europa, muitos curas viajaram com os expedicionários
espanhóis até o novo mundo. Conquistadores e sacerdotes
investiram contra as crenças e adorações milenares dos
nativos politeístas. Templos ao Deus Sul, à Deusa Lua, à
mãe terra, à água, ao jaguar, etc foram demolidos e sobre
suas ruínas construíram-se as igrejas da nova ordem imposta
através da violência e do saque. Os amos chegados do velho mundo
deviam converter ao cristianismo aquelas criaturas não consideradas
humanas porque desconheciam a existência do único "Deus
verdadeiro" trazido pela Igreja e pela Coroa ao nosso continente. Destes
homens descendem as modernas hienas mitradas colombianas.
O Vaticano reuniu os teólogos para decidir, ao seu talante, se o
índio tinha alma ou não. Definido positivamente o problema
criaram-se os resguardos, com o fim aparente da conversão do
índio à fé cristã, que ocultava maliciosamente a
exploração do mesmo, a mãos dos curas e senhores feudais.
A espada e a cruz tornaram-se no saque do índio. Frente a estes
atropelos Frei Bartolomeu de las Casas levantou a sua voz para defender o fraco
e Pedro Claver entregou-se de corpo e alma à mitigação das
penúrias dos escravos negros, enquanto o bispo de Cuzco protegeu
Atahualpa. Foram raras excepções nesse ruinoso e mesquinho mundo
da conquista e da colónia, onde a perfídia e a
traição levam o oprobrioso nome do Arcebispo Caballero y
Góngora manchado com o sangue de Galán e seus comuneiros.
As intrigas eclesiásticas não escaparam a Bolívar e aos
patriotas. O terremoto da semana santa de 1812, que destruiu Caracas e outras
cidades da Venezuela, foi imputado pelo clero à fúria divina
desencadeada para castigar quem se atrevia a desafiar a autoridade do Rei.
Também os curas propalaram a noção de que Bolívar e
a sua tropa eram a encarnação do anticristo que, tal como o
cavaleiro do Apocalipse, trazia a destruição e a morte. Os
bispos de Popayán e Bogotá excomungaram o pai da liberdade pelo
delito de brandir a sua espada contra a tirania e a opressão.
Chegada a república, como na época de Constantino, o clero
colombiano espalha incenso sobre o mais apodrecido dos novos governantes e,
qual camaleão no cio, insere-se no processo unindo-se à parte
mais retardatária dos potentados da terra, os comerciantes, prestamistas
usurários e banqueiros encabeçados pelo santanderismo para
truncar as mudanças que deviam verificar-se na nação
recém libertada. Aliaram-se à oligarquia liberal-conservadora
contra o povo que sempre detestaram.
Na escura e aziaga noite da primeira violência (1946-1957),
Monsenhor Builes
, o mais destacado representante do alto clero, declarou que "matar
liberais e comunistas não é pecado mortal", inaugurando a
aliança indissolúvel da igreja rica com o terrorismo de Estado
que se prolonga até os nossos dias. A partir dos púlpitos das
igrejas incitava-se à violência contra os opositores ao governo;
muitos curas marcharam à frente de operações punitivas
para matar liberais e comunistas ao grito de Viva Cristo Rei!, Viva a Virgem
Maria!
As trezentas mil almas e corpos despedaçados a facão naqueles
anos eram filhos de Jesus; eram filhos do povo, não os de Satanás
da oligarquia.
Com alvoroço a igreja recebeu a mudança de opinião de
Rojas Pinilla, ao fim e ao cabo era um bom cristão que não
faltava à missa e comungava todas as sextas-feiras, além disso
lhes abriu as portas dos quartéis para os capelães que
abençoavam as armas da ditadura.
Sem traumas, passaram à
Frente Nacional
. Sentiam profundo orgulho por
defender o mundo ocidental e cristão contra o comunismo e os ateus.
Não os comoveu o Concílio Vaticano II, com seu apelo à
opção pelos pobres e foram alheios à teologia da
libertação. Helder Câmara e Casaldáliga no Brasil,
Monsenhor Romero em El Salvador, o Padre Luna no Equador nada representavam
para eles. Entretido a acariciar os seus dólares, não se deram
conta que outra igreja surgia em seu redor. Os Sacerdotes Camilo Torres
Restrepo, Manuel Pérez e muitos outros, na Colômbia, mostraram com
o seu exemplo a consequência com a causa de Cristo.
Hoje esse sector de hienas mitradas, sedentas de sangue e alimentadas com
dólares, trabalha abertamente pelo projecto fascista no nosso
país.
Recordemos que há poucos meses um dos chefes paramilitares detido em
Itagui manifestou que Monsenhor Cansino protegia o seu amigo, o assassino de
moto-serra
Carlos Castaño
, e que este havia sentido grande pesar quando
soube que o purpurado fora alvejado, certamente por outra fracção
dos mesmos bandidos, acrescentando que Castaño comentou que, com
Monsenhor Cansino, desaparecia uma das grandes cabeças do exclusivo e
ultra secreto grupo das oito pessoas que fundaram o paramilitarismo na
Colômbia.
Os descendentes da igreja espanhola do Santo Ofício, de Builes e
companheiros de Cansino, Monsenhores Pedro Rubiano, Fabián Marulanda e
Julio César Vidal Perdomo, assemelham-se a Torquemadas modernos
recém saídos do potro da inquisição em busca de
novas vítimas para refundar, com seus métodos, a república
pela mão dos seus amiguinhos do Ralito e capitaneada por Uribe e sua
corte perversa.
Isto explica porque todos estes senhores, que nunca condenaram nos
púlpitos os massacres paramilitares, opõem-se à Troca
Humanitária, pregam a guerra, estimulam o resgate de prisioneiros a
sangue e fogo, participam nas marchas contra as FARC-EP e sabotam os
diálogos de paz.
Felizmente dentro do clero colombiano e entre os cristãos de base
existem arcebispos, bispos, sacerdotes e freiras, homens e mulheres de todas as
idades que amam seus semelhantes, tal como Jesus, e que certamente entendem que
estas hienas de anel dourado e crucifixo no peito são os novos Judas
Iscariotes que, rompendo as tábuas sagradas da Lei de Deus,
converteram-se no açoite da Colômbia.
24/Fevereiro/2008
[*]
Dirigente das FARC-EP
O original encontra-se em
Agencia Bolivariana de Prensa
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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