O mais notável na situação política colombiana
não é apenas o alto nível de violência patrocinada pelo
governo contra as organizações populares e os seus líderes
e sim o alto nível de valor e resistência que emana de um povo que
se recusa a ser abatido ou intimidade, ainda que os assassinos mascarados
cheguem pela calada da noite.
Este valor e esta resistência forma expostos em Bogotá nos dias 3
e 4 de Agosto, quando uma sessão especial do Tribunal Permanente dos
Povos ouviu testemunhos acerca do papel desempenhado pelas companhias
petrolíferas europeias e estado-unidenses nas campanhas de terror contra
os activistas sociais na Colômbia.
Umas 800 pessoas, de Bogotá e de muitas áreas rurais,
congregaram-se num auditório cedido pelo Sindicato dos Professores, onde
se ouviram dolorosos testemunhos de parentes e amigos de activistas jovens e
velhos que foram assassinados por falar sobre as condições nas
suas comunidades.
Alguns das testemunhas tentaram conter seu pranto enquanto relatavam como
homens armados entravam à noite em busca dos seus maridos, filhos e
irmãos, cujos corpos sem vida eram encontrados a seguir, muito
frequentemente mostrando horríveis sinais de tortura.
Por diversas vezes as testemunhas descreveram como o exército colombiano
e a polícia local davam rédea solta aos "paras", alguns
dos quais trabalham como guardas de segurança para as grandes companhias
petrolíferas a Occidental, a British Petroleum e a Repsol. E
assinalaram directamente o governo do presidente Álvaro Uribe
Vélez, que actualmente está a tentar desviar a ira popular pela
reorganização do comando militar, muitos de cujos membros
estiveram directamente implicados nos crimes juntamente com os paramilitares e
os narcotraficantes.
Três auto-carros cheios de habitantes de Arauca compareceram ao tribunal.
Arauca é uma região a nordeste, muito risca em petróleo,
fronteiriça à Venezuela, onde a violência foi
particularmente feroz.
A cara de Alirio Martínez, um camponês de Arauca que foi
assassinado há três anos, sorria para o público de um
gigantesco cartaz colocado sobre o estrado. Por trás dele viam-se
outros camponeses segurando cartazes que diziam: "Arauca Vive", e
"Continuamos a construir caminhos de liberdade".
Num momento no programa, um grupo de meninas e meninos de Arauca, que estiveram
pacientemente à espera durante todo o dia, teve a oportunidade de
dançar com precisão e graça exuberante frente ao cartaz.
A energia destes jovens mostrou que a campanha de terror contra a
população local não conseguiu quebrar o seu
espírito. Mesmo aquelas testemunhas que choraram quando fizeram os seus
depoimentos acabavam bradando palavras-de-ordem de luta e optimismo.
O assassinato de Alirio Martínez
A execução de Alirio Martínez por soldados do governo na
manhã de 5 de Agosto de 2004 foi só mais um dos horríveis
crimes trazidos perante o tribunal, mas ilustra a base real do conflito
sangrento na Colômbia, o qual perdura já por várias
décadas.
Segundo a evidência apresentada ao tribunal, Martínez, presidente
da Asociación de Usuarios Campesinos de Arauca (ADUC), havia passado a
noite na casa de um amigo no caminho de Caño Seco, no povoado de
Saravena, a seguir a uma reunião com líderes de grupos civis que
avaliavam a situação regional quanto aos direitos humanos e
sociais.
Também estiveram presentes à reunião o presidente da
Asociación Nacional de Trabajadores de Hospitales y Clínicas
(ANTHOC), Jorge Prieto Chapucero; Leonel Goyeneche Goyeneche e María
Raquel Castro, ambos membros da Asociación de Maestros de Arauca e da
Central Unida de Trabajadores (CUT); e Samuel Morales Flórez, presidente
da CUT em Arauca.
Cerca das cinco da manhã, tropas pertencentes ao grupo Revéis
Pizarro, assinalados na Brigada 18 do Exército Nacional, entraram na
casa ou teve lugar a reunião, cercando-a por completo.
Cerca de meia hora depois, vários soldados foram à casa de Jorge
Prieto, onde dormia Alirio Martínez. Os soldados obrigaram-no, bem como
a Goyeneche, a ajoelhar-se num lado da casa e lhes dispararam até matar.
A seguir arrastaram seus corpos para longe da casa, colocaram perto umas armas
pequenas e disparam alguns tiros para dar a impressão de que havia
ocorrido uma luta.
A seguir levaram os corpos pelas ruas para que todos os vissem, puseram-no num
helicóptero e levaram-nos aos quartéis do batalhão.
Também prenderam Samuel Morales, Raquel Castro e María Constanza
Jaimes, levando-os também no helicóptero.
Esta atrocidade é conhecida como o Massacre de Caño Seco.
O governo apresentou-a como uma operação com êxito contra
os insurgentes armados do Exército de Libertação Nacional
(ELN) e as Forças Armas Revolucionárias da Colômbia (FARC).
Samuel Morales, Raques Castro e outros líderes cívicos na
região foram sentenciados a seis anos de prisão pelo crime de
"rebelião", o qual também foi a desculpa dada para o
massacre.
Raquel Castro conseguiu liberdade antecipada e foi directamente ao tribunal,
onde testemunhou ter ouvido os disparos que mataram os seus amigos e soldados a
perguntarem: "onde estão as armas?".
"Não havia nenhuma" afirmou Raquel Castro. Acrescentou que
quando o helicóptero aterrou no quartel ela viu soldados
estado-unidenses "gringos" com os colombianos.
"Tudo isto foi feito para suprimir a luta pelos direitos humanos das
organizações cívicas, camponesas, operárias",
acrescentou esta valente professora.
Numa parede ao lado do auditório, lia-se numa bandeira: "A verdade
e a justiça honrarão a memória das nossas
vítimas".
Oxy, BP e Repsol
Empresas petrolíferas por trás da violência na
Colômbia
Em Abril do ano passado, o Tribunal Permanente dos Povos começou uma
série de investigações sobre o papel das
corporações transnacionais nas violações dos
direitos humanos na Colômbia.
As três primeiras audiências, levadas a cabo em três cidades
da Colômbia, focaram: 1) como o agrobusiness de propriedade estrangeira
afectam os camponeses e os povos indígenas; 2) o papel desempenhado
pelas empresas mineiras; e 3) o impacto do desenvolvimento controlado pelas
transnacionais sobre a biodiversidade e o meio ambiente.
Em 3 e 4 de Agosto deste ano o tribunal reuniu-se mais uma vez, desta vez em
Bogotá, e ouviu testemunhos sobre o regime de terror nessas zonas da
Colômbia onde empresas petrolíferas gigantescas fizeram grandes
investimento e estão sugando lucros ainda maiores do "ouro
negro" que jaz no subsolo.
Como explicámos antes, dezenas de pessoas enfrentaram o grande risco de
descrever em pormenor numa audiência no Sindicato dos Professores, como
seus seres queridos e seus camaradas foram arrastados na noite e executados por
nenhum outro crime senão o de haverem actuado como líderes e
activistas de organizações civis, de sindicatos de camponeses, de
cooperativas rurais e de associações do povo indígena.
Uma acusação pungente
Quando terminou, o juízes e co-juízes publicaram uma
acusação pungente ao governo e à instituição
castrense, às empresas petrolíferas a cujos interesses servem e
ao governo dos Estados Unidos por permitir que continuem estes crimes com
impunidade.
O Tribunal Permanente dos Povos tem sede em Roma e existe desde 1979. Os
juízes que presidiram nesta sessão foram o professor de direito
Dalmo de Abreu Dallari, do Brasil, membro da Comissão Internacional de
Juristo; Marcelo Ferreira, professor de direitos humanos da Universidade de
Buenos Aires; e Antonio Pigrau Solé, professor de direito
público internacional da Universidade de Tarragona, da Catalunha, no
Estado espanhol.
Foram ajudados por cinco co-juízes: Natividad Almárcegui,
professor no sindicato da Confederación General de Trabajadores (CGT) da
Espanha; Domingo Ankwash, presidente da Confederación de Nacionalidades
de la Amazonía de Indígenas Ecuatorianas (CONFENAIE); Deirdre
Griswold, membro do primeiro Tribunal Internacional sobre Crimes de Guerra em
1967, que representou o Centro de Acção Internacional dos Estados
Unidos; Ralf Haussler-Ebert, teólogo luterano da Alemanha; e Ivonne
Yáñez, ecologista equatoriana, e coordenadora na América
do Sul do grupo Oilwatch.
Esta série de audiências analisou o papel desempenhado pela
Occidental Petroleum dos EUA, pela British Petroleum e pela espanhola Repsol.
Depois de ouvir dezenas de testemunhas presenciais de crimes patrocinados pelo
Estado e de peritos em direitos humanos, e de haver recebido por escrito um
volumoso relatório de investigações sobre a conduta destas
empresas, os membros do tribunal, emitiram no fim uma opinião
pormenorizada mas preliminar. A opinião final, baseada nas quatro
sessões do tribunal, estará disponível no fim deste ano.
Os juízes estiveram de acordo em que as três companhias
estão a seguir uma política semelhante na Colômbia, a qual
é de "saqueio dos recursos naturais e de violência
sistemática contra a população. Isto envolveu a
destruição do tecido social, assassinatos e
perseguições contra líderes populares, assim como
violações dos direitos humanos da maioria e a
destruição de grupos indígenas".
O documento resumiu os testemunhos que foram apresentados:
"Segundo as acusações, os abusos destas empresas, que
têm como intenção exercer controle sobre a
população e evitar qualquer resistência às suas
actividades, utilizaram uma combinação de estratégias,
dentre elas pressões sobre o Estado para que execute políticas
que as beneficiem, como por exemplo minimizar a regulamentação
por parte do Estado, flexibilidade nos contratos, privatização de
companhias de energia, concessão de vantagens financeiras e a entrega de
mais reservas de petróleo e de gás. Além disso,
está a militarização da vida social, aprofundada pela
aplicação do Plano Colômbia e o apoio directo dado pela
empresas petrolíferas às forças armadas, legais e ilegais,
e a promoção da corrupção".
O Plano Colômbia é o acordo entre Washington e Bogotá que
despejou milhares de milhões de dólares nas Forças Armadas
da Colômbia, tudo em nome da "guerra contra as drogas". Vastas
zonas rurais foram "fumigadas", ou seja, borrifadas com produtos
químicos tóxicos, um método que não distingue entre
plantações de coca e milharais de uma família.
O tribunal viu um documento comovedor sobre os efeitos dessas
"fumigações", que deixa as pessoas com ferimentos e
lesões em comunidades onde há poucos recursos médicos para
curá-los ou tratar os possíveis efeitos nocivos a longo prazo.
Desde que principiaram os assassinatos e as fumigações, muitas
famílias de camponeses colombianos empobrecidos, que se tornaram
refugiados devido às políticas do seu próprio governo,
fugiram para a Venezuela vizinha. Grande parte dos seus terrenos já
foram convertidos para cultivos destinados à venda.
O tribunal determinou que o governo da Colômbia havia
"criminalizado" o protesto social por meio de detenções
arbitrárias e maciças sob a acusação de
"rebelião". Ao mesmo tempo, sentenciou processar as
autoridades responsáveis por crimes atrozes como o sequestro, a tortura
e o assassinato.
Um dos que prestou testemunho, Gustavo Petro, é senador da
oposição no Congresso da Colômbia. Ele descreveu as
pessoas por trás dos assassinatos como "aqueles que se vestem de
senador pela manhã, comerciam cocaína à tarde e dão
ordens aos paramilitares à noite".
O tribunal concluiu que os paramilitares "puderam contar com o apoio
ilimitado dos poderes económicos e políticos".
Papel especial dos EUA
Ao determinar a responsabilidade pelas violações generalizadas
dos direitos humanos na Colômbia, o tribunal determinou que, além
do Estado colombiano e das empresas petrolíferas, o governo dos EUA
também desempenhou um papel muito especial, "defendendo seu suposto
direito de intervir em qualquer país para preservar seus interesses de
segurança, incluindo o acesso às fontes de petróleo, e
tendo contribuído decisivamente por meio de planos concretos, recursos
humanos, treinamento e financiamento para a militarização extrema
que cerca a exploração do petróleo na Colômbia, tal
como fez em outras partes do planeta, com consequências nefastas para a
população civil".
Aparentemente não houve qualquer reportagem ou notícia do
tribunal nos meios de comunicação social na Colômbia,
apesar de a ele terem assistido jornalistas europeus e asiáticos (assim
como esta repórter dos EUA). Contudo, isto não significa que o
governo colombiano não estivesse a prestar atenção a este
evento.
Em certo momento, enquanto o filho e a filha do líder dos trabalhadores
petrolíferos Marco Chacón, de Barranquilla, testemunhavam como o
seu pai fora assassinado, polícias em trajes civis irromperam à
força no auditório e postaram-se na sal, enfrentando a
audiência, ostentando metralhadoras AK-47. Após os protestos dos
organizadores, acabaram por ir embora, dizendo que haviam vindo "porque o
senador ia falar", algo que o senador não havia pedido.
Agora que o tribunal e as muito valente testemunhas fizeram o seu trabalho,
cabe aos movimentos progressistas, especialmente dos trabalhadores que
são cada vez mais explorados pelas transnacionais onde quer que estejam,
levar a solidariedade internacional contra estas corporações
monstruosas e os seus serviçais no Estado.
[*]
Participou do tribunal como co-juíz. É editora chefe do
jornal
Workers World,
dos EUA. Email:
dgriswold@workers.org
O original encontra-se em
http://www.workers.org/2007/world/colombia-0823/
e
http://www.workers.org/2007/world/colombia-0830/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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