O conceito de fricção
por Alberto Pinzón Sánchez
O general Clausewitz dedica todo o capítulo sete do seu livro "A
arte da guerra"
[1]
, tantas vezes citado mas poucas vezes lido, à
explicação da importância que o conceito de
fricção tem na sua obra:
"Enquanto não se conhece a guerra por si mesmo não se
entende onde estão as dificuldades do assunto, das quais sempre se fala,
e das extraordinárias energias intelectuais que são exigidas ao
general. Tudo parece tão simples, os conhecimentos necessários
parecem tão planos, todas as combinações tão
insignificantes, que comparada com elas a mais simples tarefa da
matemática superior impõe uma certa dignidade científica.
Mas quando se viu a guerra tudo se torna compreensível, e no entanto
é extremamente difícil descrever o que produz essa
mudança, denominar esse factor invisível e que actua por toda a
parte.
"Tudo na guerra é muito simples, mas o mais simples é
difícil, essas dificuldades acumulam-se e produzem uma
fricção que não pode de todo ser imaginada por
alguém que não tenha visto a guerra. Imagine-se um viajante que
no final da sua jornada de viagem, ao entardecer, acredita que terá
coberto duas estações, de 4 a 5 horas com cavalos de posta.
Não é nada assim. Chega então à penúltima
estação e não encontra cavalos ou estão muito maus,
a seguir surge uma região montanhosa, os caminhos estão
arruinados, fecha-se a noite, e alegra-se por haver alcançado a
estação seguinte depois de muitos trabalhos e por haver
encontrado ali um pobre alojamento. Assim, na guerra, devido à
influência de inumeráveis pequenas circunstâncias, que nunca
podem ser devidamente tomadas em consideração sobre o papel, toda
expectativa é rebaixada, e fica-se muito atrás do objectivo. Uma
poderosa vontade de ferro supera essa fricção, tritura os
objectivos, mas naturalmente também a máquina. Chegaremos com
frequência a esse resultado. Como um obelisco em direcção
ao qual conduzem as ruas principais de um lugar, em meio a guerra
alça-se imperativa a firme vontade de um espírito orgulhoso.
"A fricção é o único conceito que distingue a
verdadeira guerra daquela que se faz sobre o papel. A máquina militar,
o exército e tudo o que implica, é no fundo muito simples e por
isso parece fácil manejá-la. Mas há que ter em conta que
nenhuma parte dele é feito de uma só peça, que tudo
é composto por indivíduos, e que cada um deles conserva a sua
própria fricção em todas as direcções. A
guerra é rica em manifestações individuais, e cada uma
delas é um mar ignoto. Esta terrível fricção, que
não se pode concentrar, como na mecânica, nuns poucos pontos,
está por isso mesmo em contacto por toda a parte com o azar e provoca
manifestações que não se podem calcular, precisamente
porque correspondem ao azar. A fricção, ou o que aqui chamamos
assim, é portanto o que torna difícil o que na aparência
é fácil". (pg. 71 e seguintes)
Pois bem, o conceito de fricção aqui descrito também tem,
naturalmente, uma forma política. Um exemplo para ilustrar: O
omnipotente monarca espanhol Carlos V, o mais poderoso senhor da Europa do
século XVI, em cujo império absoluto nunca se punha o Sol como
orgulhosamente costumava repetir, declarou a guerra e esmagou os comuneiros
castelhanos. Derrotou os condes protestantes da Alemanha na batalha de
Mühlberg (1547). Guerreou contra os muçulmanos turcos no norte da
África. Manteve seis guerras contra a França. Mas a
multidão de fricções que teve de enfrentar acabou com o
seu poder e em Bruxelas (Setembro de 1556) viu-se forçado a abdicar o
poder da Espanha em favor do seu filho Felipe II e o da Alemanha no seu
irmão Fernando, para retirar-se do ruído do mundo no mosteiro de
Yuste.
POCILGA DE VELHACOS
Estes conceitos elevados também podem ser transportados, ainda que com o
risco de sujá-los, à pocilga de velhacos em que se converteu a Casa de
Nariño
[2]
de Bogotá, onde o mini-führer Uribe Vélez (como o obelisco
citado por Clausewitz) força a sua máquina de guerra, com o apoio
da maior embaixada do mundo, o que prognostica a sua queda irremediável.
A detenção do cacique do partido conservador e senador por
Tolima, Gómez Gallo, coluna fundamental do governo de Uribe Vélez
na esterqueira de Augias (como se denomina o parlamento colombiano), acusado
seriamente pela Corte Suprema de Justiça de paramilitarismo, é
outra fricção irreparável. Outro golpe demolidor a todo
este regime de terror narco-paramilitar que, com uma atroz
combinação de fraude eleitoral e moto-serra, se apoderou do poder
do Estado colombiano.
Como é que o mini-führer Uribe Vélez encaixa este golpe? E
o outro escândalo simultâneo da chantagem realizada a partir da
Casa de Nariño ao narcotraficante Grajales, sócio e amigo pessoal
do ministro do Interior, Holguín, e que estão a
friccioná-lo?
Muito simples. Todo o mundo viu e ouviu. Ou seja, os que quiseram vê-lo
e ouvi-lo. Da forma mais velhaca como poderia proceder um mafioso num bar
sórdido e de má fama da rua de Guayaquil em Medellín:
Insultando com furor homófono e soes e ameaçando bater na cara do
personagem que supõe ter, por pessoa interposta, realizado a chantagem
ao narcotraficante Grajales.
"Sou muito macho. Se o vir dou-lhe na cara. Maricas!", grita fora de
si o mini-führer Uribe Vélez, qual Fujimori no Tribunal Penal.
Esse pobre lumpen mafioso, esse anão moral e físico que
tentará golpear na cara uma criança indefesa. A seguir filtra a
gravação aos meios de comunicação a fim de infundir
terror (com o efeito moto-serra que a sua ameaça produzirá no
Bloco Capital dos seus paramilitares). Pede desculpas públicas a fim de
desviar a atenção e põe os seus ministros, um a um, a
defenderem a sua dignidade presidencial. Qual dignidade pode reclamar um lumpen
mafioso que assim procede?
Exactamente ao contrário. O que provocou no povo trabalhador e na
sociedade colombiana foi desprezo, asco e indignidade por ver a catadura moral
e pessoal de quem o governa. E, naturalmente, mais fricção.
14/Dezembro/2007
[1] Clausewitz Karl, De la Guerra, Versão integral, 739 pgs., La esfera
de
los libros, Madrid, 2005.
[2] Casa de Nariño: Palácio da Presidência da
República.
O original encontra-se em
http://www.pacocol.org/es/Inicio/Archivo_de_noticias/Diciembre07/221.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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