Activar fraudes, lucrar com o medo
por Alexander Cockburn
[*]
No início dos anos 70 as Nações Unidas avançaram
com a noção progressista de uma nova ordem económica
mundial, que iria tentar nivelar o terreno entre o Primeiro e o Terceiro
Mundos. Os ataques neoliberais que foram ganhando força a partir dos
meados dos anos 70 destruíram esse projecto. Por fim, a ONU, desesperada
para assumir alguma aparência de liderança moral, reagrupou-se por
detrás da suposta crise de alteração climática
cozinhada pelo grupo de pressão AGA [Aquecimento Global
Antropogénico], por detrás do qual se escondem enormes interesses
corporativos, como os das empresas de energia nuclear. Radicais da
Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o
Desenvolvimento (UNCTAD), que avançavam propostas para elevar o
rendimento do Terceiro Mundo com as suas mercadorias primárias, foram
deslocados pelos apostadores climáticos do Intergovernmental Panel on
Climate Change (IPCC) da ONU. A consequência final, tal como se verificou
nos jogos de poder para arrebanhar dinheiro no financiamento para
"mitigação do carbono", acabou por ser uma mascarada
repugnante daquela visão inicial de uma redistribuição
global de recursos.
É este o assalto decadente da nossa era neoliberal. Em Oslo, Obama foi
mais longe do que Carter que, como devem estar lembrados, proclamou em 1977 que
a sua cruzada para a conservação da energia era "o
equivalente moral da guerra". Obama ultrapassou isto com a sua
afirmação de que a guerra é o equivalente moral da paz.
Enquanto ele proferia esta enormidade, Copenhaga recebia os seus escuteiros do
aquecimento global, sem dúvida a mais estranha incursão na
fantasia intelectual desde que os bispos cristãos do século IV se
reuniram no
Conselho de Nicéia
em 325 DC, para discutir se Deus era o
pai supremo ou se tinha que partilhar um estatuto de igualdade na hierarquia da
eternidade com o seu Filho e com o Espírito Santo.
Pouco antes da cimeira de Copenhaga os proponentes do aquecimento global
antropogénico (AGA) provocado pelo homem ficaram
embaraçados por uma denúncia que colocou na web mais de mil
emails enviados pela Climate Research Unit (CRU) [Unidade de
Investigação do Clima] da Universidade de East Anglia ou por ela
recebidos. Esta unidade é chefiada pelo Dr. Phil Jones, que a partir
daí foi afastado do seu cargo temporária ou
permanentemente é o que resta saber. A CRU foi fundada em 1971 com
financiamentos de várias origens, incluindo a Shell e a BP
British Petroleum. Nessa altura a suposta ameaça para o planeta e para a
humanidade era o arrefecimento global, uma fonte de interesse para as
companhias petrolíferas por razões óbvias.
Os 'esfriadores' transformaram-se em 'aquecimentistas' no início dos
anos 80 e a CRU tornou-se numa das fábricas que produziam modelos
climáticos fornecendo os dados adulterados a partir dos quais o Painel
Intergovernamental da Alteração do Clima (IPCC) da ONU cozinhava
os seus relatórios que, desde o início principalmente os
resumos executivos planeavam cuidadosamente iniciativas políticas
disfarçadas de ciência objectiva. Depressa convencidos do
potencial das teorias do AGA para atingir os seus objectivos, os gigantes
energéticos recalibraram rapidamente a sua posição, e a
partir de 2008, a CRU incluiu, para além dos seus apoiantes financeiros
Shell e BP, também a Nuclear Installations Inspectorate and UK Nirex
Ltd, uma empresa do negócio dos resíduos nucleares.
Depois de alguma consternação inicial no que se pode chamar, sem
grande originalidade, o "Climagate", a reacção no seio
dos círculos progressistas 99 por cento povoados por Verdadeiros
Crentes do aquecimento global antropogénico tem sido assumir
posições defensivas em relação ao problema de que a
fraudulenta manipulação de dados, o encobrimento ou a
destruição pura e simples de provas inconvenientes, as
conspirações vingativas para silenciar a crítica,
são correntes no decurso de qualquer debate científico e, embora
embaraçosos, os emails da CRU não comprometem de modo algum as
pretensões fundamentais da sua causa.
Na verdade, a investigação científica está saturada
deste tipo de falsidades. Mas os emails da CRU deitam abaixo graficamente a
pretensão dos aquecimentistas sempre absurdas para os que
estudaram o debate com algum pormenor de que lideram o terreno moral.
Tem sido uma táctica estandardizada dos aquecimentistas insultar os
cépticos chamando-os de prostitutos intelectuais da indústria
energética, envoltos em doações liberais e com grande
empenho pessoal em desacreditar a AGA. O que é verdade é
exactamente o oposto. Milhares de milhões de financiamentos e de
doações para investigação afluem às grandes
empresas de modelos climáticos. Há hoje um enorme
arquipélago de departamentos de investigação e de
"institutos de alteração climática" por toda a
academia, com um enorme interesse afirmado na defesa do modelo da AGA. É
aí que se encontra o dinheiro. O cepticismo, em especial para um jovem
climatologista ou físico da atmosfera pode ser o fim de uma carreira.
Do mesmo modo, revistas e jornais, cambaleantes frente ao desafio mortal da
internet à sua circulação e base publicitária,
propagandeiam a ameaça do aquecimento global provocado pelo homem, como
uma alavanca de circulação um ingrediente vital para
seduzir uma audiência mais jovem. Daí a defesa desabrida do AGA
pela
Scientific American,
pela
New Scientist,
pela
Nature,
pela
Science,
já para não falar do
New York Times
(cujo principal repórter sobre este tema tem sido Andrew Revkin, que
tem um investimento literário pessoal na tese do AGA, como se prova por
uma olhadela às suas publicações na Amazon).
Muitas das áreas minadas nos emails da CRU vêm confirmar
acusações antigas de cépticos de que a chicana
estatística do Prof. Michael Mann e de outros ocultou o altamente
inconveniente Período de Aquecimento Medieval, que ocorreu desde o ano
800 a 1300 DC, com temperaturas superiores às mais altas verificadas no
século vinte, um facto histórico que torna absurda a tese de que
o aquecimento global pode ser atribuído à
civilização auto-industrial do século vinte. Eis Keith
Briffa, da CRU, dando-se ao desplante num email escrito em 22 de Setembro de
1999: "Sei que há pressões para apresentar uma
história arrumadinha no que se relaciona com um 'aquecimento
aparentemente sem precedentes em mil anos ou mais nos dados conhecidos' mas na
realidade a situação não é assim tão
simples
Creio que o aquecimento actual teve um equivalente há
cerca de 1000 anos".
Ora, no outono de 1999 o IPCC andava a tentar alinhar o seu
importantíssimo "Resumo para Políticos"
essencialmente um comunicado para a imprensa provavelmente aquele que
acabou por reduzir a zero o conhecido gráfico do Período de
Aquecimento Medieval e apresentou um avanço pavoroso, supostamente sem
precedentes nas temperaturas do século vinte. A
reconstrução de Briffa quanto às alterações
das temperaturas, que mostra um declínio entre meados e fins do
século vinte, foi considerada por Mann, num email de 22 de Setembro de
1999, para a CRU, como um "problema e uma potencial
confusão/insulto". Por isso Mann, um dos principais autores deste
capítulo do relatório do IPCC, apagou pura e simplesmente a parte
embaraçosa pós 1960 da reconstrução de Briffa.
Jones, da CRU, aplaudiu contente a mistificação de Mann num email
em que se regozijava com o "truque de Mann na
Nature
". Tal como os políticos que tentam superar uma explosão
racista, os apologistas do AGA dizem que o "truque" foi considerada
fora do contexto. Mas não foi.
Outras áreas minadas incluem emails particularmente esclarecedores de
Kenneth Trenberth, um cientista sénior e chefe da secção
de análise do clima do National Center for Atmospheric Research, de
Boulder, Colorado. A 14 de Outubro de 2009, Kenneth escreveu a um tal Tom, da
CRU: "Como é possível que discorde da
afirmação segundo a qual não estamos sequer perto de saber
para onde vai a energia nem se as nuvens estão a mudar e a tornar o
planeta mais iluminado. Não estamos sequer perto de equilibrar o
orçamento energético. O facto de não podermos explicar o
que está a acontecer no sistema climático torna quaisquer
considerações da geo-engenharia totalmente inúteis porque
nunca conseguiremos dizer se ela teve razão ou não! É tudo
uma aldrabice!"
Por outras palavras, apenas umas semanas antes da cimeira de Copenhaga, eis que
um cientista no círculo interno do AGA revela que "não
estamos sequer perto de saber" se o modelo AGA, supostamente confirmado,
do clima terrestre funciona realmente, e que portanto a
"geo-engenharia" a mitigação de carbono global,
por exemplo é "um caso perdido".
Esta confissão aproxima-se do reconhecimento de um enorme problema
fundamental de que a teoria dos "gases de estufa" e os gabados
modelos de gases de estufa violam a segunda lei da termodinâmica que diz
um corpo mais frio não pode aquecer um corpo mais quente. Os gases de
estufa na atmosfera superior fria, mesmo quando aquecidos um pouco por
infravermelhos absorvidos, não podem transferir calor para a terra mais
quente e com efeito irradiam o seu calor absorvido para o espaço
exterior. Os leitores interessados na ciência podem ler o documento
pormenorizado do físico matemático Gerhard Gerlich e de Ralf
Tscheuchner, publicado em
The International Journal of Modern Physics,
actualizado em Janeiro de 2009, "Falsificação dos efeitos
dos gases de estufa CO2 atmosférico no enquadramento da
física".
"Durante os últimos onze anos", conforme disse Paul Hudson,
correspondente climático da BBC, em 9 de Outubro, "não
observámos nenhum aumento nas temperaturas globais". De facto,
dados recentes de muitos monitores, incluindo a CRU, disponíveis em
climate4you.com
mostram que a temperatura média da atmosfera e dos oceanos junto
à superfície da terra diminuiu significativamente durante os
últimos oito anos, mais ou menos. O CO2 é um gás benigno
essencial à vida, que apareceu em épocas passadas, muito antes do
aparecimento das emissões feitas pelo homem, em níveis cinco
vezes superiores aos actuais. As alterações no CO2
atmosférico não estão correlacionadas com essas
emissões de CO2, em que este último é totalmente banal no
equilíbrio global do carbono.
Quanto ao pesadelo do desaparecimento de calotas e de inundações
marítimas, a cobertura de gelo média do Árctico tem-se
mantido essencialmente inalterada nos últimos 20 anos, e até
aumentou mesmo ligeiramente nos últimos três anos. O ritmo de
subida do nível do mar diminuiu significativamente nos últimos
três anos, e a sua taxa média de subida nos últimos 20 anos
é sensivelmente a mesma dos últimos 15 mil anos,
ou seja, desde que acabou o último arrefecimento glacial e a terra, sem
a ajuda do homem, entrou no actual período de aquecimento inter-glacial.
A subida do mar deste período quente inter-glacial, que ainda continua,
entre outras coisas, inundou o istmo entre a Sibéria e o Alasca e formou
o Estreito de Bering sem o qual podíamos ser hoje uma
província da Rússia. E chega de terrores quanto à subida
do mar.
As batalhas de Nicéia em 325 foram baseadas na fé, sem qualquer
relação com a ciência ou o raciocínio. Dezassete
séculos depois, aconteceu o mesmo com as premissas da cimeira de Copenhaga, que o
planeta enfrenta o aquecimento catastrófico causado por um aumento do
CO2 provocado pelo homem e que a intervenção humana a
geo-engenharia pode evitar o desastre que se aproxima. Falando bem e
depressa, os dogmas de Copenhaga são uma farsa. Em termos de
diversão quanto à limpeza dos poluentes que estão de facto
a matar pessoas, são uma tragédia terrível.
OS IMPOSTORES
Quando era adolescente, um dos meus romances preferidos era o clássico
de 1951 de John Master,
The Deceivers,
sobre os estranguladores na Índia no século dezanove, conhecidos
por Thugs. Era uma história fabulosa e, para os anos 50, era fogo.
Há poucas semanas li num site um ensaio muito interessante chamado The
Immanent Frame, de William Pinch, professor de história em Wesleyan.
Pinch fazia parte de um painel de escritores Vijay Prashad do
CounterPunch era outro que escreveram sobre os ataques terroristas de
Mumbai do ano passado. Pinch analisava uma das consequências de Mumbai, a
criação, em Dezembro de 2008, de um corpo policial central
indiano, a Agência de Investigação Nacional (NIA),
encarregada da investigação de "crimes relacionados com o
terrorismo". Esta agência tem amplos poderes e
jurisdição, incluindo o poder de ultrapassar as unidades
policiais estatais e convocar tribunais especiais.
O que atraiu a minha atenção em especial foi a referência
de Pinch, de passagem, sobre a criação da NIA, como não
sendo muito diferente da criação do Departamento de Thuggee e
Daicoty na década de 30 do século XIX, parte de uma "guerra
contra o terrorismo" contra os estranguladores fanáticos de
Kali promovida por um construtor burocrático de impérios
na East India Company, chamado William Sleeman.
Pinch acedeu prontamente a escrever o ensaio maravilhoso na nossa
última folha informativa, sobre conspirações criminosas e
violência religiosa, a partir dos Thugs e até às
"guerras contra o terrorismo" após 11/Set e a Mumbai.
Quem eram os Thugs, como eram conhecidos? Eram apenas membros de um culto
unificado por toda a Índia dedicado a satisfazer a sede de sangue de uma
deusa sempre sedenta, ou a religião na violência thug era apenas
uma forma de expressão para actos que tinham miríades de origens
sociais e económicas? A história, aqui apresentada por Pinch, tem
profundas repercussões nos nossos tempos trespassados pelo terrorismo.
Como conclui, "os momentos de expansão dramática do poder do
estado são quase sempre acompanhados pela demonização de
conspirações criminosas como uma coisa maléfica que tem de
ser combatida numa situação quase de guerra".
[*]
alexandercockburn@asis.com
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.com/cockburn12182009.html
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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