por Michel Chossudovsky
A crise financeira aprofunda-se, com o risco de interromper seriamente o
sistema de pagamentos internacional.
Esta crise é muito mais séria do que a Grande Depressão.
Todos os sectores importantes da economia global são afectados.
Relatórios recentes sugerem que o sistema de Cartas de Crédito
bem como a navegação internacional, a qual constitui a linha
vital do sistema de comércio internacional, estão potencialmente
ameaçados.
O proposto salvamento bancário sob o chamado Troubled Asset Relief
Program (TARP) não é uma "solução" para a
crise e sim a "causa" de mais um colapso.
O salvamento contribui para um novo processo de desestabilização
da arquitectura financeira. Ele transfere grandes quantias de dinheiro
público, a expensas dos contribuintes, para as mãos de
financeiros privados. Isto leva a uma espiral de dívida pública
e a uma centralização do poder bancário sem precedentes.
Além disso, o dinheiro do salvamento é utilizado pelos gigantes
financeiros para obter aquisições corporativas tanto no sector
financeiro como na economia real.
Esta concentração sem precedentes de poder financeiro conduz
sectores inteiros da indústria e dos serviços, um por um,
à bancarrota, o que leva ao despedimento de milhares de trabalhadores.
As esferas superiores da Wall Street pairam sobre a economia real. A
acumulação de grandes quantias de riqueza monetária por um
punhado de conglomerados da Wall Street e seu hedge funds associados é
reinvestida na aquisição de activos reais.
A riqueza de papel é transformado em propriedade e controle de activos
produtivos reais, incluindo indústria, serviços, recursos
naturais, infraestrutura, etc.
Colapso da procura do consumidor
A economia real está em crise. O consequente aumento do desemprego
causa um declínio dramático nos gastos do consumidor o que por
sua vez faz retroceder os níveis de produção de bens e
serviços.
Exacerbada pela política macroeconómica neoliberal, esta espiral
descendente é cumulativa, conduzindo finalmente a uma super-oferta de
mercadorias.
As empresas não podem vender os seus produtos, porque os trabalhadores
foram despedidos. Os consumidores, nomeadamente os trabalhadores, foram
privados do poder de compra necessário para alimentar o crescimento
económico. Com os seus magros rendimentos, eles não podem
permitir-se adquirir os bens produzidos.
A superprodução dispara uma cadeia de bancarrotas
Os stocks de bens não vendidos acumulam-se. Finalmente, a
produção entra em colapso. A oferta de mercadorias declina
devido ao encerramento de instalações produtivas, incluindo
fábricas de montagem de manufacturas.
No processo de encerramento da fábrica, muitos trabalhadores tornam-se
desempregados. Milhares de firmas em bancarrota são expulsas do
cenário económico, o que leva a um afundamento da
produção.
A pobreza em massa e um declínio à escala mundial nos
padrões de vida é o resultado de baixos salários e
desemprego em massa. Isto é o resultado de uma anterior economia global
de trabalho barato, em grande parte caracterizada pelos baixos salários
das fábricas montadoras nos países do Terceiro Mundo.
A crise actual estende os contornos geográficos da economia do trabalho
barato, levando ao empobrecimento de grandes sectores da
população nos chamados países em desenvolvimento
(incluindo as classes médias).
Nos EUA, Canadá e Europa Ocidental, todo o sector industrial está
potencialmente ameaçado.
Estamos a tratar de um processo de reestruturação
económica e financeira a longo prazo. Na sua fase primitiva,
principiada na década de 1980 durante a era Reagan-Thatcher, empresas de
nível local e regional, quintas familiares e pequenos negócios
foram deslocados e destruídos. Um após o outro, o boom de
fusões e aquisições da década de 1990 levou
à consolidação simultânea de grandes entidades
corporativos tanto na economia real como na banca e nos serviços
financeiros.
Nos desenvolvimentos recentes, entretanto, a concentração de
poder da banca foi a expensas dos negócios em grande escala
(big business).
O que distingue esta fase particular da crise é a capacidade dos
gigantes financeiros (através do seu controle decisivo sobre o
crédito) não só para causar destruição na
produção de bens e serviços como também para minar
e destruir grandes entidades corporativas da economia real.
Bancarrotas estão a verificar-se em todos os principais sectores de
actividade: Manufactura, telecoms, cadeias de lojas de bens de consumo,
centros comerciais, companhias de aviação, hotéis e
turismo, sem mencionar o imobiliário e a indústria da
construção, vítimas do colapso das hipotecas subprime.
A General Motors confirmou que "poderia ficar sem cash dentro de uns
poucos meses, o que poderia impelir a um dos maiores processos de bancarrota da
história dos EUA" (
USNews.com
, 11/Novembro/2008). Por sua vez isto
afectaria uma série de indústrias relacionadas. Estimativas de
perdas de emprego na indústria automobilística dos EUA vão
de 30 mil até 100 mil postos. (Ibid)
Colapso do preço das acções da General Motors
Nos EUA, companhias de retalho ao consumidor estão em dificuldade: os
preços das acções das cadeias de lojas de departamentos JC
Penney e Nordstrom entraram em colapso. A Circuit City Stores Inc. pediu a
protecção da concordata (Chapter 11). As acções da
Best Buy, a cadeia de electrónica a retalho, mergulharam.
O Vodafone Group PLC, a maior companhia do mundo de telemóveis, para
não mencionar InterContinental Hotels PLC, ficaram em dificuldades a
seguir ao colapso do valor das suas acções. (AP,
12/Novembro/2998). À escala mundial, mais de duas dúzias de
companhias de aviação vieram abaixo em 2008, somando-se a uma
cadeia de bancarrotas de companhias de aviação no decorrer dos
últimos cinco anos. (
Aviation and Aerospace News
,
30/Outubro/2008). A segunda companhia aérea da Dinamarca, a Stirling,
declarou bancarrota. Nos EUA, uma lista crescente de companhias
imobiliárias já entrou com pedido de bancarrota.
Nos últimos dois meses tem havido numerosos encerramentos de
fábricas por toda a América, levando ao despedimento permanente
de dezenas de milhares de trabalhadores. Estes encerramentos afectaram
várias áreas chave da actividade económica incluindo as
indústrias química e farmacêutica, a indústria
automóvel e sectores relacionados, a economia de serviços, etc.
As encomendas às fábricas dos EUA declinaram dramaticamente. A
firma de inquéritos Autodata relatou em Outubro que as "vendas de
carros e camiões leves em Setembro declinaram 27 por cento em
comparação com o ano anterior". (
Washington Post,
03/Outubro/2008)
Desemprego
Segundo o US Bureau of Labor Statistics, mais 240 mil empregos foram perdidos
só no mês de Outubro:
"O emprego assalariado não agrícola caiu em 230 mil em
Outubro, e a taxa de desemprego aumentou de 6,1 para 6,5 por cento, relatou
hoje o Bureau of Labor Statistics do Departamento do Trabalho. A queda de
Outubro no emprego assalariado seguiu-se a declínios de 127 mil em
Agosto e 284 mil em Setembro, conforme revisão. O emprego caiu em 1,2
milhão nos primeiros 10 meses de 2008; mais da metade da
diminuição verificou-se nos últimos três meses. Em
Outubro, as perdas de emprego continuaram na manufactura, na
construção e em várias firmas que fornecem serviços
à indústria...
Entre os desempregados, o número de pessoas que perderam o seu emprego
não esperam ser recontratadas aumentou de 615 mil para 4,4
milhões em Outubro. Ao longo dos últimos 12 meses, a
dimensão deste grupo aumentou em 1,7 milhão". (
Bureau of Labor Statistics
, Novembro, 2008)
Os números oficiais não descrevem a seriedade da crise e o seu
impacto devastador sobre o mercado de trabalho, uma vez que muitas das perdas
de emprego não são relatadas.
A situação na União Europeia é igualmente
perturbante. Um recente relatório britânico destaca o problema
potencial do desemprego em massa no Nordeste da Inglaterra. Na Alemanha, um
relatório publicado em Outubro sugere que 10-15% de todos os empregos
automotivos na Alemanha poderia ser perdidos.
Cortes de empregos também foram anunciados nas fábricas da
General Motors e da Nissan-Renault em Espanha. As vendas de carros na Espanha
afundaram 40 por cento em Outubro, em relação às vendas no
mesmo mês do ano anterior.
Bancarrota e arrestos:
Uma operação de circulação de dinheiro para os gigantes financeiros
Entre as companhias à beira da bancarrota há algumas altamente
lucrativas. A pergunta importante: quem assume a propriedade das
corporações industriais gigantes em bancarrota?
Bancarrotas e arrestos são uma operações de
circulação de dinheiro. Com o colapso dos valores nos mercados
de acções, as companhias ali listas experimentam um grande
colapso do preço da sua acção, o que imediatamente afecta
a sua credibilidade e a sua capacidade para tomar emprestado e/ou renegociar
dívidas (as quais estão baseadas no valor cotado dos seus
activos).
Os especuladores institucionais, os hedge funds
et alii,
aproveitam-se deste saqueio inesperado.
Eles disparam o colapso de companhias listas em bolsa através da venda
à descoberto
(short selling)
e outras operações especulativas. Elas podem assim embolsar os
seus ganhos especulativos em grande escala.
Segundo um relato no
Financial Times,
há prova de que o afundamento da indústria
automobilística dos EUA foi em parte o resultado de
manipulação. "A General Motors e a Ford perderam 31 por
cento para US$3,01 e 10,9 por cento para US$1,80 apesar da esperança de
que Washington pudesse salvar a indústria à beira do colapso.
A queda verificou-se depois de o Deutsche Bank estabelecer um objectivo de
preço zero para a GM
". (
FT,
14/Novembro/2008, ênfase acrescentada)
Os financeiros estão num passeio de compras. Os 400
multimilionários Forbes da América estão à espera
na expectativa.
Depois de eles terem consolidado a sua posição na
indústria bancária, os gigantes financeiros incluindo a JP Morgan
Chase, Bank of America e outros utilizarão os seus ganhos inesperados de
dinheiro e o dinheiro do salvamento proporcionado pelo TARP para uma
extensão ulterior do seu controle sobre a economia real.
O passo seguinte consiste em transformar activos líquidos, nomeadamente
riqueza monetária em papel, com a aquisição de activos da
economia real.
Nesse aspecto, a Berkshire Hathaway Inc., de Warren Buffett, é um grande
accionista da General Motors. Mais recentemente, a seguir ao colapso do valor
das acções em Outubro e Novembro, Buffett aumentou a sua
participação no produtor de petróleo ConocoPhillips, sem
mencionar a Eaton Corp., cujo preço na Bolsa de Valores de Nova York
afundou 62% em relação à cotação de Dezembro
de 2008 (Bloomberg).
O alvo destas aquisições são as numerosas companhias
industriais e de serviços altamente produtivas, as quais estão
à beira da bancarrota e/ou cujas acções entraram em
colapso.
Os administradores de dinheiro estão a escolher as peças.
Propriedade da economia real
Em resultado destes desenvolvimentos, os quais estão directamente
relacionados com o colapso financeiro, toda a estrutura de propriedade dos
activos da economia real está em perturbação.
A riqueza de papel acumulada através do comércio de iniciados e
da manipulação do mercado de acções é
utilizada para adquirir o controle sobre activos económicos reais,
deslocando estruturas de propriedade pré existentes.
O que estamos a tratar é de um repugnante relacionamento entre a
economia real e o sector financeiro. Os conglomerados financeiros não
produzem mercadorias. Eles no essencial fazem dinheiro através da
condução de transacções financeiras. Utilizam o
dinheiro destas transacções para tomar o comando sobre
corporações da economia real que produzem bens e serviços
para consumo familiar.
Numa amarga distorção, os novos possuidores da indústria
são os especuladores institucionais e os manipuladores financeiros.
Eles estão a tornar-se os novos capitães da indústria, a
deslocar não só estruturas de propriedade já existentes
como também a instalar seus comparsas nas poltronas da
administração corporativa.
Não é possível qualquer reforma sob o Consenso
Washington-Wall Street
A Cimeira Financeira do G-20 de 15 de Novembro, em Washington, apoia o consenso
Washington-Wall Street.
Apesar de formalmente apresentar um projecto para restaurar a estabilidade
financeira, na prática a hegemonia da Wall Street permanece
incólume. A tendência é para um sistema monetário
unipolar dominado pelos Estados Unidos e apoiado pela sua superioridade militar.
Aos arquitectos do desastre financeiro, sob a lei de 1999 Gramm-Leach-Bliley
(Financial Services Modernization Act, FSMA), foi confiada a tarefa de mitigar
a crise a qual foi criado por eles próprios. Eles são a
causa do colapso financeiro.
A Cimeira Financeira do G-20 não questiona a legitimidade dos hedge
funds e dos vários instrumentos de comércio derivativo. O
comunicado final inclui um impreciso e opaco compromisso "para melhor
regular os hedge funds e criar mais transparência em títulos
relacionados com hipotecas como uma proposta para travar o deslizamento
económico global".
Uma solução para esta crise só pode ser alcançada
através de um processo de "desarmamento financeiro", tal como
inicialmente formulado por John Maynard Keynes, o qual forçosamente
desafia a hegemonia das instituições financeiras da Wall Street
incluindo o seu controle sobre a política monetária. O
"desarmamento financeiro" também exigiria o congelamento dos
instrumentos de comércio especulativo e o desmantelamento dos hedge
funds.
Obama endossa a desregulamentação financeira
Barack Obama abraçou o consenso Washington-Wall Street. Numa amarga
meia volta, o antigo congressista Jim Leach, um republicano que patrocinou o
FSMA de 1999 na Câmara dos Deputados, está agora a aconselhar
Obama acerca da formulação de uma solução atempada
para a crise.
Jim Leach, Madeleine Albright e o antigo secretário do Tesouro Larry
Summers, que também tiveram um papel chave na promoção da
legislação FSMA, compareceram à Cimeira Financeira do
G-20, em 15 de Novembro, como parte da equipe de aconselhamento de Barack Obama:
"O presidente eleito Barack Obama e o vice-presidente eleito Joe Biden
anunciaram que a antiga secretária de Estado Madeleine Albrith e o
antigo congressista republicano Jim Leach estariam disponíveis para
encontrarem-se com delegações na cimeira do G-20 em seu nome.
Leach e Albright estão a manter reuniões não oficiais
à procura de contribuições das delegações
visitantes em nome do presidente eleito e do vice-presidente eleito.
(
mlive.com
, 15/Novembro/2008)
15/Novembro/2008
Artigo relacionado:
Quem são os arquitectos do colapso económico?, de Michel Chossudovsky. Responsáveis pelo desastre financeiro estão a ser considerados pelo presidente eleito Barack Obama para o posto do secretário do Tesouro.
O original encontra-se em
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