Ui! a NATO!
por César Príncipe
O quadro pós-eleitoral, ao privar os situacionistas de maioria absoluta,
lançou o pânico nas respectivas hostes, logo que o PS se inclinou
para auscultações e negociações à Esquerda.
A fórmula do Bloco Central de Interesses, na vertente política,
parecia perpetuada (nem sequer merecia abordagem). Tratava-se de um direito
divino adquirido, a juntar aos direitos económicos e mediáticos,
igualmente determinados pelo Além, segundo Clemente, benzedor da troika
interna. Portanto, conversações para formar Governo ou garantir
apoio parlamentar só e sempre à Direita. Bastaram algumas
reuniões entre PCP, PEV, BE e PS e o assentamento de alguns pontos de
partida para um hipotético entendimento e todas as tropas da
Coligação e de seus reservistas e infiltrados se apresentaram ao
serviço, entraram de prevenção e começaram a
disparar setas, balas, morteiros, granadas de fumo e até tiros de
pederneira e pólvora seca.
UI! A NATO!
Tese reinante: Como é que se poderá consentir que se dialogue ou
chegue a um princípio de acordo com partidos contrários às
amarras de Portugal a esta organização? Por mais que se fuja da
peste propagandiária, acabamos por esbarrar com algum
excitadíssimo jornaleiro, algum azougadíssimo microfoneiro, algum
reputadíssimo e refinadíssimo comentador. Todos de
plantão. Todos em estado de prontidão. Todos de arma apontada
para o Largo do Rato, para a Rua de Soeiro Pereira Gomes, para a Rua de D.
Carlos I, para a Rua da Palma.
UI! A NATO!
Acontece que alguns países da União Europeia não
estão na NATO: Áustria, Chipre, Finlândia, Irlanda, Malta,
Suécia.
Acontece que alguns países europeus da NATO não estão na
UE: Albânia, Turquia.
Acontece que alguns países da UE não estão na Zona Euro:
Bulgária, Croácia, Dinamarca, Hungria, Polónia, Reino
Unido, República Checa, Roménia, Suécia.
Acontece que, nos anos seguintes ao derrube da ditadura fascista, tiveram
assento no Governo de Portugal Democrático partidos e personalidades que
não prezavam a manutenção do nosso país, mesmo como
membro pouco viril desta estrutura de poder intercontinental. E a
Revolução operou-se. E a mudança processou-se.
UI! A NATO!
E um cidadão desprevenido embrulha-se nas páginas dos jornais,
tropeça nos fios auriculares (radiofónicos e televisivos). E mais
grave: enquanto escuta a rádio, pode atropelar, na Rotunda do
Marquês ou em Carnaxide, o gnomo Marques Mendes. E que perda digna do
panteão: é das criaturas mais convictas do fim do mundo ou do seu
mundo. Que risco corre esta pátria com nove séculos de
história: vai baixar o IVA da restauração. Mais:
vão ser revistas as sobretaxas do IRS. Mais: os reformados e
funcionários públicos poderão respirar mais uns euros.
Mais: as pequenas e médias empresas vão receber estímulos.
Portugal não irá empobrecer tanto nem tão depressa. Que
desgraça!
Chamem a NATO.
Rapidamente e em força.
UI! UI!
Acontece é que não há nenhuma alma caridosa que
ofereça aos Marques Mendes da Praça Mediática um
volumezinho da Constituição da República Portuguesa.
Então, o hiperactivo MM é alienígena? Acabou de aterrar,
em fraldas, numa televisão amiga? Foi deputado, ministro, chefe
partidário e nunca leu a Constituição, mesmo para a rever?
É que os partidos de esquerda anti-NATO limitam-se a seguir as
recomendações da Lei Fundamental. Leiam, Marques! Leiam, Mendes!
PCP, PEV, BE, ao colocar a NATO em questão entre os seus objectivos
programáticos (que não entram nas discussões em curso)
respeitam o artigo 7º. Porventura já ouviram falar do 7º? Os
MM estão alheados de tudo que se relacione com a legalidade refundadora
da República. E estão a criar um embaraço
ideológico ao sistema: ao predicar que os partidos não advogantes
da NATO têm de ser excluídos do Arco da Governação,
acabam por oferecer uma arma de destruição massiva e
maciça aos adversários: Democracia e NATO são
incompatíveis. Assim se depreende dos escritos e ditos dos
grão-natistas, dos mais ferrenhos, dos açulados, dos cavaleiros
do Templo.
Constituição da República Portuguesa
Artigo 7.º
1.
Relações internacionais. Portugal rege-se pelos
princípios
da independência nacional
da solução pacífica
dos conflitos internacionais, não ingerência
2.
Portugal preconiza a abolição do imperialismo, do colonialismo e
de quaisquer outras formas de agressão
bem como o desarmamento
geral, simultâneo e controlado, a dissolução dos blocos
político-militares.
Aqui vai. Devidamente endereçado.
Sempre houve uma alma caridosa.
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