Democracia capturada
por César Príncipe
A Constituição atribui a quatro entidades o qualificativo de
órgãos de soberania: Assembleia da República,
Presidência da República, Governo, Tribunais. Mas na
prática, o edifício legislativo e executivo foi sendo retocado,
remodelado e ocupado por inimigos da Lei de Abril. A
apropriação-parasitação foi bandeirada por sectores
da banca e das grandes obras. A zo(nação) clientelar tornou-se
cada vez mais ousada a partir de 1986 (abertura da torneira
comunitária). As portas da fortaleza foram cedendo aos assédios.
Principalmente às contrapartidas, aos cantos dos fundos e
paraísos fiscais. Os infiltrados criaram as suas redes hospedeiras,
desvirtuaram funções e decisões do Estado, formataram
opções estratégicas do país. Mesmo na actualidade,
em plena crise, é patente o longo braço dos
corleones
da finança e do betão. Não admira, pois, que estes
refundadores do estado das leis & das coisas hajam sido e continuem a ser os
grão-financiadores dos aparelhos da sua política e os grandes
colocadores e aliciadores de agentes de ligação. Para sofisticar
o sequestro da democracia, houve também que recorrer a
competências externas, particularmente a escritórios de advogados
com
now-how
para conformar diplomas, operar contactos, agilizar reuniões,
desbloquear
dossiers.
E a operação não poderia dispensar tropilhas e
blackwaters
do publicado (Imprensa, Rádio, Televisão). O espaço
celulósico e hertziano foi infestado de autómatos
sistémicos e cruzados neoliberais. Deste modo se cimentou uma
tríplice aliança: Bloco Central Económico, Bloco Central
Político, Bloco Central Mediático. Assim se alojaram no
edifício da
res publica
informais e tentaculares órgãos de soberania. No fundamental,
cada bloco tem cumprido o seu papel: ou intervém na tomada da fortaleza
ou vela pela ordem nas ruas e cabeças.
A Constituição da República Portuguesa, periodicamente
revista ao sabor dos Donos Disto Tudo (nativos e forâneos), é
encarada pelos
croupiers
e pregoeiros do eurocasino como um mausoléu que é
necessário limpar de referências libertadoras e
igualitárias. As Quatro Colunas que sustentam o edifício
constitucional (Democracia Política, Democracia Económica,
Democracia Social, Democracia Cultural) foram e estão a ser abaladas
pelos socavadores de turno ou de empreitada geral. Na arquitectura
constitucional apenas uma coluna (embora a inclinar) se mostra menos degradada:
a Democracia Política. Falta saber por quanto tempo se manterá de
pé um edifício de quatro colunas, com três minadas e
lascadas até ao osso. E pouco lhes importa que o sufrágio
constituinte detenha uma representatividade avassaladora relativamente a outros
sufrágios. Por regra, a direita mais voraz só nos tribunais acata
a legalidade fundadora e a vontade popular. E mesmo assim reinterpreta os
acórdãos e logo reincide. Tem feitio inconfiável e
contumaz. Portadora de uma carteira de negócios confessos e obscuros
(está-lhe na massa do sangue), não se reinsere de bom grado na
ordem democrática. Está às ordens do grande capital
doméstico e global. É seu veículo institucional e
instrumental. Diligentemente servido pela Boa Imprensa, pela Boa Rádio,
pela Boa Televisão. E até onde resistirá uma Democracia
Política capturada por uma Ditadura Económica?
Após a Revolução dos Cravos e da Aliança Povo/MFA,
os partidos do presente Arco da Governação tudo fizeram para
acelerar
o regresso dos militares aos quartéis.
Brandiam, na altura, o argumento da submissão das Forças
Armadas aos órgãos civis. Justificavam a retirada como um
princípio basilar do Estado de Direito, uma prova de maturidade
democrática. Mas o que eles, de facto, não desejavam e
verdadeiramente temiam é que o Povo contasse com um tão robusto
aliado. Os mesmos que pressurosamente empurraram os militares para as casernas
não tiveram pejo em tornar-se cavalos de Tróia e condutores de
carros de assalto nacionais e internacionais. Está à vista este
compromisso Portugal. Não ousam mandar para casa os que se apoderaram
das rédeas e dos réditos da nação. Os partidos do
Arco do Poder, alapados à mesa do Orçamento (Público e
Privado), têm-se comportado, desde 1976, como mamadeiras tricolores e
plataformas de agentes infiltrados. Tudo têm feito para que os DDTs
parasitem e privatizem o Estado, nele estabeleçam as suas bases
anti-sociais e anti-nacionais, nele se entronizem e possam ufanar-se:
L'État c'est moi.
O processo subversivo em curso há muito encetou a sua Longa Marcha e o
seu Salto em Frente e não se inibe de exibir músculos de
ginásio. Tanto assanhamento reflecte uma natureza classista rapace, um
encher de peito com a cumplicidade da mafiocracia global, mas também
induz outro nível de leitura: receio. De quê? Do crescendo dos
movimentos de protesto anti-sistema e do revigoramento das
organizações de ruptura. A campanha concertada de
apartheid
partidário, ante os ensaios de viabilidade e as
negociações em curso para formar um Governo com suporte
parlamentar de esquerda, revela a que ponto chegou a
monopolização do regime, levada a cabo por sectores habituados a
comportar-se como Donos Disto Tudo. Até o cardeal Clemente, com o seu
arzinho de menino de Deus, veio ungir o Bloco Central de Interesses. Estas
forças tentam bloquear uma solução que saia da matriz de
controlo pleno. O PS, vendo a definhação dos congéneres
(por ao longo de décadas se haverem confundido com a política de
direita e as suas negociatas), busca garantir os serviços mínimos
de esquerda, estruturar uma fórmula que lidere. E que dizer,
então, aos espoliados, aos inconformados, aos decepcionados, aos
ludibriados, após decénios de incumprimento de contratos de
cidadania por parte das governanças de alterne? E que fazer neste quadro
de pauperização e marginalização da maioria dos
cidadãos? Os defensores da Ordem Constitucional têm de dar combate
todo-o-terreno ao Bloco Central de Interesses. O Direito de Resistência
está inscrito na Constituição da República
Portuguesa:
Todos têm direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus
direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer
agressão, quando não seja possível recorrer à
autoridade pública.
(Artigo 21).
[1]
16/Outubro/2015
[1] Nas eleições para a Assembleia Constituinte (1975) estavam
inscritos 6.231.372 eleitores. Votaram 5.711.829 (91,66%). Abstiveram-se
519.543 (8,34%). Nas eleições legislativas de 2011 estavam
inscritos 9.624.133 eleitores. Votaram 5.588.594 (58,07%). Abstiveram-se
4.035.539 (41,93%). Nas eleições legislativas de 2015 estavam
inscritos 9.682.553 eleitores. Votaram 5.408.805 (55,86%). Abstiveram-se
4.273.748 (44,14%).
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