Carta de Marx a Stuart
Sobre a natureza do Estado
por César Príncipe
JSM,
[1]
delineaste um compromisso histórico entre a liberdade individual, as
demandas públicas e de género e o despotismo-martelo caldeu. A
validação do desenho de bom governo ficou dependente das
expectativas e práticas da classe dominante e carece de aval de
assalariados e desempregados e da massa informe de desclassificados, bem como
de pequenos burgueses aliciáveis com apanha-migalhas-cabo de prata.
Nesta complexa teia e tensa correlação-competição,
a burguesia não pode dilatar e disfarçar infinita e
indefinidamente os seus interesses e os seus procedimentos e as suas
alianças (nacionais, regionais, intercontinentais). Seja pela ditadura
de classe, seja pela democracia de classe. O Estado burguês, não
obstante o recurso à concentração da violência e ao
manejo da psicologia social, é intrinsecamente precário como a
eterna nobreza que a fraterna burguesia apeou, guilhotinou, desapossou ou
desposou em segundas e terceiras núpcias. Elizabeth II simboliza a
consanguinidade e a conjugalidade da nobiliarquia-burguesia com
pretensões perenes: cinge a coroa desde 1953. E almeja manter (pelo
menos até 2020) as AFD.
[2]
Como Chefe da Igreja Anglicana terá concertado a data com o Criador do
Céu e da Terra e dos Windsor. Deus é uma excepção e
abre excepções. O reinado médio da rainha das abelhas
é de 2-3 anos. E o himenóptero justifica o trono com folhas de
serviços e mapas de produção: exerce o governo da colmeia
e põe 2.000 ovos por dia. Quantos contrapõe a Apídea da
Commonwealth? JSM, gostaria que abordasses estas pertinências ou
impertinências com a ponderada Harriet.
[3]
Em século e meio (provavelmente) já fizeram o balanço da
abolição da escravatura (processo inacabado), da crise dos anos
trinta (recidivante), das duas guerras mundiais rem grossos volumes e da
terceira em fascículos, das campanhas de alfabetização e
qualificação do tecnocapitalismo, das
mundializações fabris, tecnológicas e informatacionais, da
descolonização e do neocolonialismo, da dissolução
do campo socializador europeu e do predomínio do capital financeiro
sobre a iniciativa industrial, mercantil, agrária e piscatória e
questão fulcral da manutenção do Poder a qualquer
custo
da prevalência da manu militari e da justiça
unilateral-extraterritorial sobre a perseverança negociadora e a
equanimidade das nações. Além deste intróito,
aproveito para vos expor a tese sobre a OEBFD.
[4]
Espero que tenham empreendido a transição do liberalismo
utilitarista-oitocentista para o socialismo de quinta
geração-século XXI. Bastará reparar na
retórica fraudulenta e no rasto sanguinário e rapinário do
neoliberalismo (séc. XX-XXI) para se constatar onde desaguaram os
virtuosos ou desvirtuados arquétipos do liberalismo (séc. XIX).
Haja autocrítica, temeridade, militância e constância: a
civilização, mesmo com atraso e muitas vítimas e muitas
vacilações e muitas deserções e muitas
decepções, vai desbravando caminho. O capitalismo arranja mil
problemas por cada cem que resolve. Nos 150 anos da edição do
primeiro volume de Das Kapital,
[5]
decidi reabrir um debate: Marx de profundis.
[6]
Saudações do proletariado e do proletarianet.
(Correspondência Highgate - Avignon).
[7]
A Organização do Estado Burguês de Fachada
Democrática está expressivamente plasmada no modelo
anglo-saxónico: dois partidos em união de facto e casas separadas
emulam-se e alternam-se. Nas quebras de sufrágio, o par poderá
interpactar-se segundo o fraternal incesto ou recorrer a
próteses-suportes de ocasião. A regra, porém, é a
dança de cadeiras a duo. A editora CPR
[8]
encarrega-se do LUB.
[9]
Os co-autores e co-editores também partilham passarelas e
paramentários. Um pronto-a-vestir à
saison:
ganga coçada ou rota e camisa desabotoada nos protestos sociais,
sindicais e estudantis e fraque engomado e botas cardadas nas cerimónias
de posse e na repressão dos protestantes. Sempre que termine o turno de
governance
, o primeiro partido da Situação assume as vestes e as poses de
maior partido da Oposição. Modula o solfejo. Reaviva a paleta.
Recupera ou renova
slogans.
É sobremaneira tocante a faceta humanista: o escritório
opositor passa a preocupar-se com o produto das suas fábricas:
milhões de enjeitados, injustiçados, ludibriados. As
sessões de choro visam adular as vítimas e acomodar o
descontentamento em tendas de promessas e albergues de mendicidade. Embora
nenhuma destas Companhias de Teatro Partidário seja da
Oposição Real, os comparsas ocupam e desocupam a boca de cena e
os bastidores, oferecendo a cenoura e brandindo o chicote, usurpando
gramáticas, administrando o Espaço Cívico, dificultando as
migrações através da desqualificação das
forças alternativas e de um
continuum
de barreiras à recepção do seu discurso. O
duopólio dispõe de financiadores-investidores, assessorias
inteligentes e orquestração mediática. O refrão
mais repetido é o da equivalência duopartidocracia-democracia. Os
disc-jockeys
tamborilam e cantarolam:
É a democracia a funcionar.
Obviamente: é a concepção mais barata de
governo do povo.
A democracia de largo espectro pressupõe quatro imperativos:
política soberana e de maioria social, economia estratégica
pública, serviços de saúde e educação
universais, acesso generalizado às valências culturais e
lúdicas. A burguesia, quando não consegue estabelecer um regime
de portas blindadas, abre a portaria da alternância. E um dos desmentidos
do bipartidarismo/multipartidarismo como condição
democrática (fundacional e irrenunciável) é o derrubamento
de presidentes e governos eleitos sempre que as forças mais
sistémicas perdem o volante do voto.
Exemplos:
Portugal (1926), Espanha (1936), Irão (1953), Paquistão
(1953), Guatemala (1954), República Democrática do Congo (1960),
Turquia (1960/1971/1980/1997), Birmânia (1962), Dominicana (1963), Brasil
(1964/2016), Indonésia (1965), Grécia (1967), Chile (1973),
Argentina (1976), Haiti (1991/2004), Argélia (1992), Venezuela (2002),
Honduras (2009), Paraguai (2012), Egipto (2013), Tailândia (2014),
Ucrânia (2014). Estes golpes têm um padrão: são
preferentemente executados pelas oligarquias autóctones e
legalizados
pelos tutores internacionais. O telemaquinador, supervisor e certificador mais
experimentado é o
Polícia do Mundo.
Todo o mundo sabe quem é. Pela amostragem, o apego da burguesia
à liberdade e às suas estátuas traduz-se em boas
notícias para as empresas de lágrimas de crocodilo:
milhões de mortos, milhões de refugiados e exilados, dezenas de
milhares de presos, torturados e desaparecidos.
Matéria recomendável para o novo ano escolar: o que medularmente
distingue um modelo capitalista real de um modelo socialista real não
é o quadro monopartidário ou bipartidário ou
multipartidário (mas) o directório constitucional de classe. Na
ex-República Democrática Alemã (1949-1989), a
representação camaral, além de incluir elementos das
organizações de massas e das elites, congregava parlamentares de
quatro partidos: Partido Socialista Unificado da Alemanha, Partido Liberal
Democrático da Alemanha, Partido Nacional Democrático da
Alemanha, Partido Democrático Camponês da Alemanha. Na
Polónia, também vigorou um Estado Socialista (1945-1989) e
coexistiram três partidos: Partido Operário Unificado Polaco,
Partido Democrático, Partido Camponês. Em Cuba, o actual chefe de
Estado, interpelado, numa entrevista televisiva, quanto ao monopartidarismo
vigente (escrutinado por métodos circunscricionais e basistas),
retorquiu: Ficariam satisfeitos se optássemos por uma democracia
à americana,
o Partido de Fidel e o Partido de Raúl?
[10]
A OEBFD finge que exorciza e neutraliza a luta de classes por meio de agentes
duplos e trucagens e convoca-nos para que escutemos os seus carros de som,
agitemos as suas bandeiras e soltemos os seus balões. E assim (sem
violência aparatosa e categórica) conquistam tempo e espaço
para os seus relógios e mapas de poder. E o que nos mostram as LMH?
[11]
Auditadas as contas do planeta, apuraremos um saldo positivo do
centenário de Outubro (1917-2017). Incentivador e insuficiente. À
espera de autocrítica sem tabus e de valor funcional acrescentado, na
medida em que demonstrou desvios práticos e défices de
guarda-avançada. Também frequentemente pecou por falta de
previsão e pragmatismo na arquitectura do Plano e gestão do
Orçamento, da modernização do mercado de consumo
export
e interno. As derrapagens dos custos do complexo militar e do
internacionalismo a fundo perdido foram duas causas de quebra estrutural no
redireccionamento de meios.
Voltemos, porém, ao campo de prisioneiros da fórmula burguesa.
Apesar de abalos telúricos de baixa intensidade, socorrendo-se da
corrupção metodicamente organizada, da
política-espectáculo
e das miragens da
sociedade da abundância,
a burguesia vai mitigando a fome aos olhos (através de ementas de
campanha), enquanto o estômago se queixa do PUB,
[12]
servido pelas ECC.
[13]
Os mal-nutridos permanecem dependentes do alimentador sistémico, dos
Refeitórios de Adictos. Normalmente os enfastiados perdem-se nas
instalações sanitárias da alternância ou vagueiam
por grupúsculos coléricos ou engrossam a mole dos vencidos do
sofá. A junção destes factores faz com que (em
estados-estandartes desta
espécie de democracia)
a soma das deserções e dos votos nulos oscile entre os 40% -
50%. Há
cases
de 60%. Os teóricos mediatizados e os bufões parlamentares
sublinham a necessidade e a premência de
combater a abstenção,
mas rezam em privado para que milhões de inscritos se mantenham
desmotivados: se não votam em nós, que não votem contra
nós. Muitos eleitos sobrevivem graças aos que desistem de exercer
o direito de voto.
Prezado JSM, o expediente electivo burguês dá sinais de
cansaço? Tem-se progressivamente esvaziado como expressão e
medida da
vontade nacional
? Os cenógrafos e guionistas sentem patentes embaraços na
montagem das narrativas? As roupagens e os figurinos começam a
não caber nos roupeiros? Os cabides poderão sugerir o
design
das forcas? É um facto. O capitalismo desconfia de todos os competidores
e de todos os vassalos. Entrou na fase do emir decrépito perante o
harém. Não deixa, mesmo assim, de exibir mão cada vez mais
dura e pénis cada vez mais mole: supõe-se triunfante
ab absurdo
e anuncia o
Fim das Ideologias
e o
Fim da História.
Faz a apologia da cartucheira, do eunucado e da cegueira.
Corta a raiz ao pensamento.
Ignora a antítese. Fossiliza a síntese. Proclamitifica-se.
Não se equacionando a extinção da humanidade, talvez ande
a confundir o nosso fim com o fim da sua história. E terá
indicadores ambientais. Os cisnes cantam mais do que o habitual.
Nesta conjuntura, adianto uma sentença do Segundo Manifesto Marx-Engels
(em ultimação):
FOI ABOLIDA A PENA CAPITAL EM MUITOS PAÍSES. FALTA ABOLIR A PENA DO
CAPITAL EM TODOS OS PAÍSES.
[14]
Missão ciclópica. A burguesia perde combates e recupera
posições (políticas, culturais, sociais,
económicas, militares, territoriais). Reendurece a musculatura. Refina o
know-how
cleptocrático, securitário e propagangster. A classe burguesa e
os seus factótons regem-se por uma máxima do Manifesto
Capitalista Roths-Adams:
RIQUEZA MÁXIMA PARA A MINORIA. MISÉRIA MÁXIMA PARA A
MAIORIA.
[15]
Assim é. Assim tenderá a ser. Mesmo quando a governança
recorre à caixa de socorros externos: ligação às
máquinas FMI, desemprego pandémico, sangrias emigratórias
e suas divisas-receitas, sucessivas transfusões de
empréstimos-abutres, reescalonamento de dívidas para o doente
amortizar as intervenções cirúrgicas e sempre que se
impõe a criatividade, contas maquilhadas por assessores da batota.
Teríamos dezenas de
cases
para ilustrar o intervencionismo. Centremos a atenção num
país paradigmático: Grécia a cartada dos
coronéis de 1967 e o esquerdismo confusionista de 2015. Duas cartoladas
com o mesmo objectivo: debitar ao povo a crise do sistema capitalista.
Centremos o olhar num país contra-hegemónico: Cuba tem
sofrido invasões militares, incursões terroristas, centenas de
tentativas de assassínio do Comandante, dezenas de anos de bloqueio para
mostrar
que o socialismo é um projecto falhado. Decepção
imperial: o modelo cubano, pesem as nefastas dificuldades do estrangulamento,
sobreviveu ao mais longo assédio da História Moderna.
[16]
E só em regime socialista (mobilizador de todos os recursos
físicos e psicológicos) poderia ter resistido e subsistido.
Caros JSM, HTM,
Subscrevei o Apelo de Highgate: Mortos de Todo o Mundo, Uni-vos!
[1] John Stuart Mill
(1806-1873). Filósofo, economista, activista cultural e de causas de
género.
[2]
AFD/Altas Funções Decorativas.
[3] Harriet Taylor Mill
(1807-1858). Mulher de JSM. Companheira intelectual e de
intervenção na
res publica.
HTM cooperou reconhecidamente em trabalhos de JSM:
Economia Política
(1848),
Sobre a Liberdade
(1859),
A Sujeição das Mulheres
(1869). Produção autónoma e biobibliografia:
The Complete Works of Harriet Stuart Mill,
Jo Ellen Jacobs, Indiana University Press, 1998.
[4]
OEBFD/Organização do Estado Burguês de Fachada
Democrática.
[5]
Das Kapital / Kritik der politischen Ockonomie,
I volume, Karl Marx, Verlag von Otto Meisner, Hamburg, 14/09/1867.
Calendário dos quatro volumes: 1867, 1885, 1894, 1905.
[6]
De profundis
/das profundezas do abismo (
Ofício de Defuntos / Salmos
, 129,1).
[7]
Highgate.
Distrito londrino que dá o nome ao cemitério-última
trincheira de Karl Marx (1818-1883). Stuart Mill e a esposa jazem em Avignon.
[8]
CPR/Câmara Par do Reino.
[9]
LUB/Livro Único Bicolor.
[10]
O Partido Comunista de Cuba teve refundação
multipartidária. As forças que mais directamente participaram na
Revolução (1959) enveredaram por um
processus
unitarizante: 1961-ORI/Organizações Revolucionárias
Integradas (Movimiento 26 de Julho, Partido Popular Socialista e
Directório Revolucionário);1962-PURSC/Partido Unido da
Revolução Socialista Cubana;1965-PCC/Partido Comunista de Cuba. O
PCC, como força autónoma, foi instituído em 1924.
[11]
LMH/Longas Marchas da História.
[12]
PUB/Prato Único Burguês.
[13]
ECC/Empresas de
Catering
Corporativo.
[14]
Primeiro:
Manifest der Kommunistischen Partei
/Manifesto do Partido Comunista, Karl Marx, Fredrich Engels, London, 21/02/1848.
[15]
A divisa adoptada, em 1848, pela Grande Revolução Burguesa,
parecia outra:
Liberté, Égalité, Fraternité.
Mas este
amour à française
revelava, acima de tudo, uma aproximação musical às
vítimas da opressão, da desigualdade, da desumanidade, face aos
levantamentos sociais da época (com o proletariado industrial a
adquirir-acumular músculo de classe).
La burgeoisie
oferece-se para enquadrar (na sua trindade laica) o operariado e os desvalidos
em geral. Dirige-se ao coração dos seus
miserables
. Promete-lhes os seios da República. Comuna de Paris, nunca mais! O
Manifesto de Marx e Engels tem a mesma data.
Alerte Rouge.
[16]
Assembleia Geral das Nações Unidas (01/11/2017). Aprovada por 191
estados-membros mais uma resolução (apresentada por Cuba) contra
o bloqueio económico, comercial e financeiro, em vigor desde 1959 e com
custos acumulados a caminho de 1.000 milhões de dólares. E
quantos países votaram ao lado do bloqueador de Cuba? Israel, o
bloqueador de Gaza. Dois Estados
(democráticos)
ignoram o resto do Mundo. Para que servem as maiorias, mesmo absolutas, mesmo
esmagadoras, perante a arbitrariedade e a impunidade de algumas minorias?
191-2. Jogo claro. Resultado concludente. Os EUA, isolados e despeitados,
respondem aos 191: agravam as sanções e as
interdições e sabotam o incipiente processo de
normalização diplomática.
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