O Brasil ficou barato e o mundo ficou caro
Notas sobre o superávit recorde do comércio externo
brasileiro
por Octávio Linera e José Martins
[*]
O
saldo comercial
no comércio exterior é a diferença entre as vendas de
mercadorias (exportações) e as compras
(importações). Quando as exportações superam as
importações ocorre
superávit
. Se as importações forem maiores que as
exportações ocorre
déficit
. No mês de julho, as exportações superaram as
importações em US$ 4,578 mil milhões, valor 91,8% superior
ao alcançado no mesmo período de 2015 (US$ 2,387 mil
milhões). De acordo com os números divulgados segunda-feira
(1º/08/2016) pelo Ministério da Indústria, Comércio
Exterior e Serviços (MDIC), este foi o terceiro maior saldo registrado
para meses de julho. Em 2006, o superávit foi de US$ 5,7 mil
milhões e em 2005, de US$ 5 mil milhões.
De janeiro a julho de 2016 o Brasil acumulou superávit de US$ 28,230 mil
milhões. O valor é o maior já registrado para os primeiros
sete meses do ano. No mesmo período do ano passado, o superávit
havia sido de pouco mais de US$ 4,615 mil milhões. O recorde anterior
foi registrado em 2006 (US$ 25 mil milhões). Calcula-se que o
superávit neste ano possa alcançar a extravagante soma de US$ 50
mil milhões. É moeda esterilizada que se soma às
reservas internacionais
estocadas nos cofres do Banco Central. Devem alcançar aproximadamente
US$ 400 mil milhões no fim do ano.
SUPERÁVITE É APLICADO EM TÍTULOS DO TESOURO DOS EUA
Essa montanha de moedas internacionais conversíveis ("fortes")
serve para algum tipo de investimento na economia interna? Nem um centavo.
Quase a totalidade é direcionada para comprar títulos do Tesouro
dos Estados Unidos. Quer dizer, direcionada para alavancar (financiar) a
dívida pública da maior economia do planeta. E o que esta
última faz com essa montanha de dólares emprestada do Brasil? Usa
para ativar sua economia, subsidiar exportações produzir
armamentos, fazer mais guerras e aumentar a miséria das grandes
economias emergentes Brasil, China, Índia, Indonésia, e
outras campeãs do neomercantilismo e seus danosos superávits
comerciais.
Essa ciranda maldita é boa para mais alguém? Sem dúvida.
Para os "investidores" externos, em primeiro lugar, que ficam mais
seguros que no curto prazo, pelo menos, não vão levar calote dos
devedores brasileiros tanto governo, quanto empresas privadas. É
por isso que, pelas regras do mercado, as reservas internacionais devem ser
esterilizadas e aplicadas em ativos de baixíssimo risco (títulos
dos EUA), pois são uma espécie de fiança depositada para
garantir eventuais atrasos ou calotes no "aluguel" do capital.
Diminui a "aversão ao risco" dos parasitas. Mas aumenta
sobremaneira a dívida interna, desvalorização da moeda,
déficit público, manutenção das maiores taxas de
juros do mundo, austeridade fiscal, reforma da previdência, trabalhista,
etc.
A ECONOMIA AO SERVIÇO DO RENTISMO PARASITÁRIO
Por isso, essa ciranda de superávit comercial e de
esterilização econômica imposta pelo sistema imperialista
também é boa para os rentistas nacionais em geral. Não
só os impopulares banqueiros, mas cerca de 15% da
população brasileira vive desta ciranda imperialista
capitalistas industriais, comerciais, serviços, proprietários
fundiários rurais e urbanos, classe média assalariada de
gerentes, supervisores, alta burocracia, militares, pastores, padres,
ideólogos de esquerda e de direita, etc. A sobrevivência da
propriedade privada de todas essas camadas improdutivas no Brasil depende
não só do aumento da dívida pública, como se passa
também em outros países, mas, principalmente, da
acumulação de reservas internacionais e das indecentes taxas de
juros. Particularidade de burguesias dominadas. Algo em torno de 30
milhões de patriotas cidadãos verde-amarelos encarnam essas
classes dominantes, improdutivas e esterilizadoras da economia brasileira,
enquanto 85% (170 milhões de residentes) encarnam o
exército industrial de reserva
de trabalhadores vermelhos explorados na produção de riqueza e
de capital no Brasil. Essas diferenças quantitativas e qualitativas
entre as diferentes classes sociais fazem com que os interesses da fatia
populacional improdutiva sejam radicalmente opostos e crescentemente
antagônicos aos interesses da fatia populacional produtiva.
É no quadro de grave crise econômica e agudização da
luta de classes e de ingovernabilidade que a burguesia brasileira e outros
parasitas festejam nesta semana o novo recorde do superávit comercial
externo. As pessoas que pensam por conta própria lamentam profundamente.
Sabem que o superávit é apenas uma categoria contábil e
que a coisa começa a perder seu brilho quando se verifica como
evoluíram as variáveis reais (exportações e
importações) que a sustentam.
No mês de julho
, as vendas externas brasileiras foram de US$ 16,331 mil milhões, com
retração de 3,5% sobre julho de 2015 e crescimento de 2,2% em
relação a junho deste ano, pela média diária. As
importações foram de US$ 11,752 mil milhões, com quedas de
20,3%, em relação a julho do ano anterior e de 3,6% sobre junho
último, também pela média diária.
No acumulado de 2016
, as exportações foram de US$ 106,583 mil milhões, com
retração de 5,6% em relação ao mesmo período
de 2015. As importações atingiram US$ 78,353 mil milhões,
o que representa queda de 27,6% sobre o mesmo período do ano passado. A
corrente de comércio
soma de exportações e importações
alcançou US$ 184,937 mil milhões, representando queda de 16,4%,
no mesmo período comparativo.
DERROCADA DO FLUXO DE COMÉRCIO
Ao contrário do que é propagandeado pelos economistas
capitalistas e grande mídia, os sucessivos superávits comerciais
brasileiros nos últimos quinze ou dezoito meses baseiam-se em brutal
enfraquecimento e desabamento da capacidade comercial e competitiva da
produção nacional no comércio internacional. Isso é
representado pela derrocada da
corrente de comércio
de mais de 16 % na comparação com o ano anterior. Com esse tipo
de pedalada, eles podem contabilizar impunemente sucessivos superávits
mesmo com queda das exportações, pois a queda das
importações acontece a um ritmo cinco vezes mais rápido.
As exportações caem em progressão aritmética e as
importações em progressão geométrica. Neste
carrossel dos desesperados o superávit tende ao infinito. Basta exportar
um dólar e importar zero!
Quanto mais depreciada a moeda nacional (real) frente ao dólar menor o
preço unitário das mercadorias exportadas e maior o preço
das mercadorias importadas. O Brasil fica barato e o mundo fica caro. Essa
é forma de economias dominadas como Brasil, China
y cia bella
se adaptarem ao pesado e letal processo deflacionário global que ora se
desenrola no mercado mundial. O limite desta política mercantilista
suicida é quando não apenas o valor, mas também o volume
da corrente de comércio (exportações +
importações) começa a desabar em termos absolutos. A
produção industrial entra em parafuso. A economia brasileira (e a
chinesa também, de maneira menos visível devido à
manipulação das estatísticas pelos burocratas de Pequim)
ilustra neste momento esse limite absoluto do neomercantilismo, esse
patológico fenômeno que só ocorre nas economias dominadas
do sistema imperialista. Nesta terça-feira (03/08/2016) foram publicados
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) os
números da produção industrial brasileira no mês de
junho, mostrando que a taxa anualizada (indicador acumulado nos últimos
12 meses) com a queda de 9,8% em junho de 2016, acelerou o ritmo de perda
frente ao registrado em maio (-9,5%) e assinalou a perda mais intensa desde
outubro de 2009 (-10,3%).
INGOVERNABILIDADE DO ESTADO BURGUÊS BRASILEIRO
Essa derrocada da produção industrial está organicamente
relacionada com a irresponsável política cambial da burguesia
brasileira. No mesmo dia em que o IBGE publicou seu relatório da
produção industrial nacional como um todo, noticiou-se
também na imprensa que a falta de autopeças paralisa a Volkswagen
do Brasil. A montadora alemã Volkswagen paralisou totalmente a
produção de carros no país.
(Valor Econômico:
"Falta de Autopeças Paralisa a Volkswagen", 01/08/2016). A
grande responsável pela paralisação da Volkswagen do
Brasil é o conflito de preços entre a montadora e seus grandes
fornecedores a maioria também alemães com fábricas
no Brasil. Com o encarecimento das peças importadas devido à
absurda desvalorização do real induzida pelo governo brasileiro
os fornecedores de autopeças não podem mais garantir os
preços registrados nos contratos de fornecimento para a Volkswagen. Para
esta última, aceitar essa correção implicaria em queda
inaceitável da taxa de lucro. O caso foi para a justiça. É
aqui que se inicia e assim que se forma, por obra também de capitalistas
alemães, a ingovernabilidade do Estado burguês brasileiro.
O mundo ficou caro e o Brasil ficou barato. E a produção vai para
o vinagre. O aumento dos superávits comerciais poderá continuar
por mais algum tempo. Mas não será resultado da ilusão
vendida pelos economistas à opinião pública de que o
ajuste fiscal está dando certo e por isso a produção
nacional está mais competitiva. Ao contrário, será
resultado, tanto da perda de competitividade real da produção
nacional no quadro da deflação global, quanto, como podemos
assistir no caso da Volkswagen, do próprio desmantelamento da sua
logística de integração comercial e catastrófica
paralisação da produção.
03/Agosto/2016
Ver também:
Comércio internacional em tempo real: confirma-se tendência de profunda deflação mundial
O original encontra-se em
www.criticadaeconomia.com.br/noticia/detalhes/324
(os inter-títulos são de resistir.info)
[*]
Economistas, brasileiros.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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