Leiloamos um bilhete premiado
por Fernando Siqueira
[*]
Com as bênçãos do governo e do Poder Legislativo, um crime
contra a soberania nacional. O Campo de Libra, situado na província
brasileira do pré-sal, na Bacia de Santos, que é a maior
descoberta de petróleo convencional do século XXI, foi a
leilão no dia 21 de outubro, na primeira rodada de
licitações da camada do pré-sal. O pontapé inicial
foi dado no dia 3 de setembro, com a publicação do edital. Todo o
processo culminará, em novembro, na assinatura dos contratos com os
consórcios vencedores, novos donos de um tesouro nacional desapropriado
do povo brasileiro.
A pressão das
majors
(ou Big Oils, ou sete irmãs) sobre o governo brasileiro foi muito
forte. O seminário sobre óleo e gás em fevereiro de 2013
no Riocentro teve como tema central a reabertura dos leilões. Depois
veio o vice-presidente norte-americano Joe Biden pressionar, pessoalmente, a
presidente Dilma Rousseff e a presidente da Petrobras, Graça Foster.
A escolha de Libra para essa licitação sob o regime de partilha
satisfez as exigências. A área é imensa, e não
será necessária a atividade de exploração, pois o
campo já foi descoberto. O ganhador só vai desenvolver o campo,
que hoje já se sabe conter muito petróleo.
MILHARES DE MILHÕES DE BARRIS
De acordo com testes de curta duração feitos pela Petrobras, que
perfurou o campo, os volumes in place situam-se entre 28 e 42 mil
milhões de barris. Se considerarmos um fator de
recuperação de 35% (média dos campos da Bacia de Campos),
os volumes recuperáveis podem variar entre 10 e 15 mil milhões de
barris.
Mas geólogos da Petrobras estimam em mais de 15 mil milhões. A
Agência Nacional do Petróleo (ANP) fixou em 41,65% a parcela
mínima da União no leilão de um campo já perfurado,
testado e comprovado que abriga reservas fantásticas.
Os dados que mais assustam, no entanto, estão relacionados às
facilidades oferecidas pelo governo para que as empresas estrangeiras se
apropriem de uma de nossas maiores e mais estratégicas riquezas.
O governo vem causando um prejuízo crônico à Petrobras,
reduzindo drasticamente seu caixa, obrigando-a, de forma ilegal, a comprar
combustíveis no exterior e vender mais barato para as distribuidoras,
suas concorrentes.
Ao mesmo tempo, retoma o campo que estava com a Petrobras por conta da
cessão onerosa e estabelece um bônus de assinatura de R$ 15 mil
milhões, que prejudica a Petrobras e impede a participação
das demais empresas nacionais.
Enquanto no resto do mundo os países exportadores de petróleo
ficam com 80% do óleo-lucro uma média de 72% do
óleo produzido , o governo brasileiro fixou para o leilão
de Libra o pagamento mínimo de 41,65% à União. Em um campo
sem riscos, de óleo de excelente qualidade, não seria
razoável menos de 80%.
BILHETE PREMIADO
Estamos leiloando um bilhete premiado. Nenhum país soberano e
independente faz esse tipo de leilão. A ideia é atrair as
empresas estrangeiras e não espantar investidores, diz a ANP.
As entidades nacionalistas buscam instrumentos jurídicos para impedir o
leilão. O Congresso Nacional defendeu, até o último
minuto, a destinação mínima de 60% desse óleo-lucro
para a União, mas foi vencido ao final.
Após reunião dos ministros da Educação, Aloizio
Mercadante, e das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, com os
líderes do governo na Câmara, a exigência dos 60% caiu
em nome de uma maior segurança jurídica das empresas que
disputarão a licitação.
A votação, em 14 de agosto, foi rápida após o
acordo com o Planalto e sepultou de vez a garantia de retorno decente para o
país. Os 41,65% são um valor irrisório para o que
representa o manancial do Campo de Libra.
Ora, os leilões já não têm sentido por termos
auto-suficiência para mais de cinquenta anos, quanto mais nas
condições desse campo perfurado, com reservas de 15 mil
milhões de barris e risco zero.
DE VOLTA ÀS PRIVATIZAÇÕES
Em entrevista recente concedida ao jornalista Paulo Henrique Amorim, o
ex-presidente da Petrobras do governo Lula, Sérgio Gabrielli, afirmou
que leiloar Libra vai na contramão da lei de partilha.
Ele destacou outro ponto sensível do edital: o bônus de R$ 15 mil
milhões pedido pela ANP à empresa vencedora do leilão.
Segundo o ex-presidente, tais procedimentos estão mais
próximos da concessão de FHC do que da partilha.
Ele se refere à Lei das Concessões (Lei n. 9.478, de 1997), do
presidente Fernando Henrique Cardoso, que era destinada a áreas de alto
risco exploratório e exigia um bônus alto, uma vez que o
concessionário passava a ser o proprietário do petróleo.
Na mesma entrevista, Gabrielli declarou: Como diminui o risco de
exploração, o grande elemento a definir passa a ser como
partilhar o lucro futuro. Então, o grande elemento deve ser a
participação no lucro-óleo que deverá voltar ao
Estado. À medida que você coloca um bônus muito alto, a
partilha do lucro no futuro é menor. Ao fixar o bônus alto,
você tem uma visão de curto prazo na exploração e no
desenvolvimento de um recurso que já tem o grau de
confirmação muito alto. [...]. Mesmo com a certeza de que
lá tem petróleo, você submete todo o ganho potencial futuro
do Estado a uma parcela menor o que é ruim, no novo conceito de
partilha. [...] Nessa operação de R$ 15 mil milhões, o
governo vai receber de imediato, mas a consequência disso é que,
no lucro do futuro, o governo vai ficar com uma fatia menor.
Ou seja, o governo cobre o buraco do presente, mas compromete seriamente o
futuro.
Na verdade o governo estabeleceu um bônus alto com dois objetivos: 1)
dificultar a participação de empresas nacionais, inclusive a
Petrobras, estrangulada por ele; e 2) atingir a meta do superávit
primário, que precisa de R$ 15 mil milhões para se completar.
CONJUNTURA ATERRADORA
O momento em que o leilão ocorre é outro ponto relevante. A
insegurança energética mundial é imensa. Estados Unidos,
Europa e Ásia, além do cartel internacional, estão cada
vez mais dependentes do petróleo das reservas mundiais, escassas, com
cerca de 60% no Oriente Médio.
Quando o pré-sal foi descoberto, imediatamente foi reativada a quarta
frota norte-americana para proteger o Brasil, uma pressão
militar óbvia.
Ao mesmo tempo, o cartel internacional das petrolíferas vem agindo pelos
bastidores.
No setor, o lobby do cartel está profundamente infiltrado dentro do
Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), da Federação das
Indústrias de São Paulo (Fiesp) e da Organização
Nacional dos Industriais do Petróleo (Onip).
Todos eles juntos conseguem dobrar os três poderes do país.
Só as manifestações do povo nas ruas poderão
reverter essa submissão.
22/Outubro/2013
[*]
Vice-presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás
(Aepet).
Ver também:
PCdoB rasga a fantasia e apoia o leilão de Libra
Nota Política do PCB-RJ sobre os acontecimentos no leilão do Campo de Libra
Nota do ato contra o leilão do pré-sal
Leilão de Libra: entreguismo escancarado e futuro falacioso
Leiloar Libra é crime lesa-pátria
O leilão de Libra foi um jogo de cartas marcadas
Carta de Emanuel Cancella, presidente do Sindipetro, a despedir-se do PT
Paulo Metri: Muito além do branco ou preto
O original encontra-se em
heliofernandes.com.br/?p=76048
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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