A votação do Código Florestal
[1]
na Câmara dos Deputados apresentou ao público brasileiro uma
surpresa, daquelas ingratas a quem se reivindica comunista: na bancada
parlamentar do PcdoB, que ainda carrega o símbolo da Foice e Martelo,
cada um votou como quis. Com o benefício da dúvida, era
respeitoso esperar antes de sair vociferando qualquer juízo de valor a
respeito. Mas a emenda saiu pior que o soneto.
Não se trata aqui de avaliar a trajetória e atual linha
política do Partido Comunista
(sic)
do Brasil (PcdoB). Sua aliança com a Unita de Jonas Savimbi em Angola,
sua tentativa de criar um partido comunista em Portugal em confronto aberto com
o Partido Comunista Português (PCP), seus editoriais em
A Classe Operária
ultrajando Cuba e sua revolução como "satélites do
social-imperialismo soviético" fazem parte de uma história
errática e oportunista.
O desenrolar do movimento histórico dos comunistas também
cobrará deste partido sua atuação entreguista frente
à Agência Nacional do Petróleo (ANP), suas alianças
eleitorais espúrias, sua política de transformar uma das mais
combativas entidades de massa do país (UNE, União Nacional dos
Estudantes) numa pálida sombra de seu passado, que agora corre de
ministério em ministério atrás de verbas e futuras
boquinhas
[2]
para a pelegada
[3]
de calças curtas.
Essas linhas também não reafirmarão a verdadeira
história dos comunistas brasileiros parabéns,
companheiros, pelo cinquentenário recém completado em 18 de
fevereiro. E pelo que soubemos, a festa de arromba que vocês organizaram
no "Vivo Rico", no dia em que simularam comemorar 90 anos, fez muito
aristocrata quatrocentão
[4]
se rasgar de inveja e dor de cotovelo!
São para afirmar, como o próprio o PcdoB tem registrado em seu
estatuto, que partido que se diz comunista tem pelo menos que respeitar o
centralismo democrático.
E o que diz o estatuto do PcdoB sobre a questão? Em seu artigo 11, que o
"Partido age como um todo uno, sob o primado de uma disciplina livre e
conscientemente assumida. A unidade é a força do Partido".
No art. 38, que o "Partido assegura sua unidade de ação
política por meio da disciplina consciente, livremente aceita, igual e
obrigatória para todos os seus membros e todas as suas
organizações, baseada no Programa e Estatuto do Partido".
Belas palavras que se tornaram letra morta quando da votação do
Código Florestal. Afinal de contas, a orientação deste
partido, antes do escrutínio no plenário da câmara, era de
que o PcdoB apoiava o texto aprovado no Senado em si um projeto
conservador e baseado no relatório de Aldo Rebelo, parlamentar que se
diz comunista mas que nos últimos anos tem sido o mais resoluto e
funcional serviçal da grande burguesia.
E o que ocorreu na votação? Confira abaixo, através da
posição dos parlamentares desse partido que se diz
"comunista":
|
Alice Portugal (BA)
|
Sim
|
|
Assis Melo (RS)
|
Não
|
|
Chico Lopes (CE)
|
Não
|
|
Daniel Almeida (BA)
|
Sim
|
|
Delegado Protógenes (SP)
|
Sim
|
|
Evandro Milhomen (AP)
|
Não
|
|
Jandira Feghali (RJ)
|
Sim
|
|
Jô Moraes (MG)
|
Sim
|
|
João Ananias (CE)
|
Não
|
|
Luciana Santos (PE)
|
Não
|
|
Manuela D`ávila (RS)
|
Sim
|
|
Osmar Júnior (PI)
|
Não
|
Os deputados que votaram "Sim" pediram a manutenção do
texto aprovado pelo Senado, apoiado pelo governo e que era o "menos
pior" em debate. Já os deputados que votaram "não"
votaram pelo relatório do deputado Paulo Piau (PMDB-MG), que anulou
qualquer obrigação ambiental e estabelece a farra do boi e/ou da
moto-serra para os ruralistas
[5]
.
Em verdade ocorreu um jogo de interesses eleitorais, o mesmo que faz a jovial
Manuela D'Avila operar a rasteira politicagem de tempos medievais quando se
alia ao PP em Porto Alegre; e leva a mesma Luciana Santos e Renildo Calheiros a
se deslocarem até a sede do PSDB em Pernambuco para serem recebidos por
Sergio Guerra, presidente do tucanato
[6]
, para definir alianças em Olinda. Cada um votou de acordo com seus
interesses e alianças regionais.
Passados mais de 10 dias da votação, ocorre a tal
"emenda" citada no início deste artigo: em matéria
divulgada no Vermelho (link:
http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=1&id_noticia=182826
), o presidente do PcdoB, Renato Rabelo, afirmou sem corar! que
"não ficou muito clara a forma como foi feita a
votação na Câmara. O relator mal apresentou o projeto e ele
já estava sendo votado. Por isso, não tivemos tempo hábil
para avaliar na íntegra".
Pôncio Pilatos na defesa de princípios partidários,
Pôncio Pilatos quanto às manifestações que solicitam
da presidente Dilma o veto ao projeto: "Agora, cabe à presidente
Dilma avaliar e ponderar o que prejudica o desenvolvimento e a
sustentabilidade. Se algo criará problemas de degradação
ao meio ambiente, é claro que a presidente tem toda a autoridade para
interferência".
Sai de cima do muro se possível com uma única
posição PcdoB!
16/Maio/2012
NR
[1] Código florestal: diploma que beneficia os latifundiários e o
agrobusiness
[2] boquinhas = tachos
[3] pelegada = sindicalistas amarelos
[4] quatrocentão: refere-se às famílias paulistas
tradicionais, que se dizem de 400 anos
[5] bancada ruralista: grupo de deputados de vários partidos que se
opõe à Reforma Agrária e defende os interesses do
agrobusiness
[6] tucanato: refere-se aos "tucanos", adeptos do PSDB, partido do
ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
[*]
Membro do Comitê Central do PCB
O original encontra-se em
pcb.org.br/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.