por Peter Maass
Em janeiro passado,
Laura Poitras
recebeu um email anônimo pedindo-lhe que mandasse sua chave
pública de criptografia. Já fazia quase dois anos que Laura vinha
trabalhando num documentário sobre vigilância e espionagem, e
ocasionalmente recebia mensagens de desconhecidos. Dessa vez ela respondeu e
enviou sua chave pública, permitindo à outra pessoa o envio de
e-mails criptografados que só a própria Laura poderia abrir,
usando sua chave particular. Mas ela não achou que fosse dar em muita
coisa.
O desconhecido respondeu com instruções para a
criação de um sistema ainda mais seguro de proteção
da correspondência entre eles. Prometendo informações
altamente confidenciais, disse a Laura para escolher, como senhas, frases
longas capazes de resistir a um ataque maciço de uma rede de
computadores. "Imagine um adversário capaz de 1 trilhão de
combinações por segundo", escreveu-lhe o desconhecido.
Pouco depois, Laura recebeu uma mensagem cifrada que listava uma série
de programas secretos de espionagem e monitoramento de
comunicações conduzidos pelo governo americano. Ela tinha ouvido
falar de um deles, mas não dos outros. Depois de descrever cada um dos
programas, o desconhecido acrescentava sempre alguma versão da mesma
afirmativa: "Isto eu tenho como provar."
Segundos depois de ter decodificado e lido esse e-mail, Laura Poitras
desconectou-se da internet e apagou a mensagem do seu computador. "E
pensei comigo: se isso for verdade, minha vida acabou de mudar", contou-me
ela há dois meses. "As coisas que ele afirmava conhecer e ser capaz
de provar eram estarrecedoras."
Laura, entretanto, continuou desconfiada de seu interlocutor. Seu maior temor
era que algum agente do governo pudesse estar tentando induzi-la a revelar
informações sobre as pessoas que tinha entrevistado para o seu
documentário, entre elas Julian Assange, o editor da
organização WikiLeaks. "Eu dei uma prensada nele",
lembrou Laura. "Disse que ou ele tinha mesmo aquelas
informações e estava correndo riscos imensos, ou estava
preparando uma armadilha para mim e as pessoas que eu conheço, ou
então era um louco."
As respostas foram tranquilizadoras, mas não o suficiente. Laura
desconhecia o nome, o sexo, a idade ou para quem trabalhava o desconhecido (A
CIA? A NSA? O Pentágono?). No início de junho, ela finalmente
obteve as respostas. Junto com seu parceiro de reportagem, Glenn Greenwald,
formado em direito e colunista do jornal britânico
The Guardian,
Laura
voou até Hong Kong e lá conheceu um funcionário
terceirizado da NSA, Edward J. Snowden, que entregou aos dois milhares de
documentos confidenciais, desencadeando uma polêmica de enormes
proporções sobre a extensão e a legalidade da espionagem
exercida pelo governo americano. Laura Poitras estava certa quando pensou que
sua vida nunca mais voltaria a ser a mesma.
Glenn Greenwald mora e trabalha numa casa cercada pela Floresta da Tijuca, no
Alto da Boa Vista, um bairro afastado do Centro do Rio de Janeiro. Divide a
casa com David Miranda, seu companheiro brasileiro, dez cães e um gato,
e o lugar dá a impressão de uma república de estudantes
transplantada para o meio do mato. O relógio da cozinha está
horas atrasado, mas ninguém repara; pratos tendem a se empilhar na pia;
a sala contém uma mesa, um sofá e uma tevê de tela grande,
além de um console de Xbox, uma caixa de fichas de pôquer e pouca
coisa mais. A geladeira nem sempre está abastecida de legumes e verduras
frescas. Uma família de macacos às vezes ataca as bananeiras do
quintal, travando ruidosas disputas com os cachorros.
Greenwald trabalha quase o tempo todo numa varanda coberta, geralmente de
camiseta, short de surfista e sandália de dedo. Nos quatro dias que
passei com ele, vivia em movimento constante, falando ao telefone em
português e inglês, correndo para ser entrevistado na cidade,
respondendo a telefonemas e e-mails de gente em busca de
informações sobre Snowden, tuitando para seus mais de 250 mil
seguidores (e travando discussões acaloradas com alguns deles), e depois
se sentando para escrever mais artigos para o
Guardian
sobre a Agência de
Segurança Nacional dos Estados Unidos, a NSA, tudo enquanto insistia em
mandar seus cachorros fazerem silêncio. Num momento especialmente febril,
ele acabou dando um berro: "Vocês querem calar a boca?!" Mas os
cachorros não se deixaram impressionar.
Em meio a esse caos, Laura Poitras, uma mulher compenetrada de 49 anos,
continuava sentada num quarto vago ou à mesa da sala, trabalhando em
silêncio em frente a um de seus muitos computadores. De vez em quando ia
até a varanda para conversar com Greenwald sobre o artigo que ele estava
escrevendo, ou às vezes era ele quem parava seu trabalho para espiar a
última versão de um novo vídeo que Laura estava editando
sobre Snowden. Conversavam muito Greenwald em voz bem mais alta e
falando bem mais rápido do que Laura e às vezes
caíam na risada diante de alguma piada ou lembrança absurda. O
caso Snowden, diziam os dois, era uma batalha em que estavam juntos, uma luta
contra os poderes da espionagem que, acreditam ambos, são uma
ameaça às liberdades fundamentais americanas.
Dois repórteres do
Guardian
estavam no Rio para ajudar Greenwald, de
maneira que parte do nosso tempo era passado no hotel onde eles estavam
hospedados, na beira da praia de Copacabana, onde brasileiros em boa forma
jogando vôlei na areia acrescentavam aos acontecimentos uma nova camada
de surrealismo. Laura assinou parte dos artigos de Greenwald como coautora, mas
quase sempre prefere ficar nos bastidores, deixando que ele seja o único
a escrever e falar. Por isso, é Glenn Greenwald que as pessoas
saúdam como um destemido defensor dos direitos individuais, ou
então acusam de ser um traidor nefasto, dependendo do ponto de vista.
"Eu digo sempre que ela é o Keyser Söze
de toda a história, porque é ao mesmo tempo invisível e
onipresente", disse Greenwald, referindo-se ao personagem de Kevin Spacey
no filme
Os Suspeitos,
um gênio do crime que planeja tudo, mas se faz
passar por um pé de chinelo. "Laura está no centro disso
tudo, mas ainda assim ninguém sabe quem é ela."
Num fim de tarde, acompanhei Laura e Greenwald até a
redação do jornal
O Globo.
Greenwald tinha acabado de publicar um
artigo no jornal, descrevendo como a NSA espionava telefonemas e emails de
brasileiros. A notícia provocou grande escândalo no Brasil, e
Greenwald foi recebido na redação como uma celebridade. O
editor-chefe apertou sua mão com entusiasmo, fazendo-lhe um convite para
escrever uma coluna regular no jornal; repórteres tiravam fotos de
lembrança com seus celulares. Laura filmou parte da festa, depois
guardou sua câmera e continuou observando tudo. Vi que ninguém lhe
dava atenção, que todos só tinham olhos para Greenwald, e
ela sorriu. "Está muito bem assim", comentou.
Laura Poitras parece empenhada em passar despercebida, mais por uma
questão de estratégia do que por timidez. Na verdade, ela pode se
mostrar muito determinada quando se trata de pesar o que deve ou não
falar. Durante uma conversa que começou com perguntas minhas sobre sua
vida pessoal, ela reclamou: "Isso lembra uma consulta
dentária".
Mas o retrato resumido é o seguinte: Laura foi criada numa
família próspera nos arredores de Boston e, depois de terminar o
ensino médio, mudou-se para São Francisco decidida a trabalhar
como chef em algum restaurante de primeira linha. Estudou também no
Instituto de Arte de São Francisco, onde fez cursos com o cineasta
experimental Ernie Gehr. Em 1992, mudou-se para Nova York e começou a
abrir caminho no mundo-do cinema, ao mesmo tempo que frequentava aulas de
pós-graduação em teoria social e política na New
School [universidade conhecida pelo corpo docente de esquerda]. De lá
para cá, fez cinco filmes, o mais recente dos quais é
O Juramento
sobre Salim Hamdan, um prisioneiro de Guantánamo, e seu cunhado
que
vive no Iêmen e recebeu dois prêmios, o Peabody e o
MacArthur.
Em 11 de setembro de 2001, Laura morava no Upper West Side de Manhattan quando
as torres gêmeas foram atacadas. Como a maioria dos nova-iorquinos, nas
semanas seguintes ela se viu tomada pelo luto e dominada por sentimentos de
solidariedade e união. Foi um momento, disse ela, em que "as
pessoas poderiam ter feito qualquer coisa, num sentido positivo". Quando
esse momento levou à invasão do Iraque, porém, ela achou
que seu país tinha perdido o rumo. "Sempre nos perguntamos de que
maneira um país pode se desviar do caminho certo", disse ela.
"Como as pessoas deixam que isso aconteça, como podem não
fazer nada enquanto os limites são ultrapassados?"
Laura não tinha nenhuma experiência em zonas de conflito, mas em
junho de 2004 viajou para o Iraque e começou a documentar a
ocupação americana.
Logo depois de chegar a Bagdá, ela obteve permissão para entrar
em Abu Ghraib e filmar uma visita de membros do Conselho Municipal à
prisão. Isto ocorreu apenas poucos meses depois da
publicação das fotos em que prisioneiros de Abu Ghraib apareciam
sendo maltratados por soldados americanos. Um importante médico sunita
fazia parte da delegação de visitantes, e Laura Poitras filmou
imagens memoráveis de sua interação com os prisioneiros,
gritando que estavam trancafiados ali sem razão.
Esse mesmo médico, Riyadh al-Adhadh, convidou Laura à sua
clínica e mais tarde permitiu que ela acompanhasse sua rotina em
Bagdá. O documentário que ela produziu então,
O Meu País em Ruínas
, tem como foco as dificuldades atravessadas pela
família do médico os tiroteios e cortes de luz em seu
bairro, o sequestro de um dos seus sobrinhos. O filme estreou nos Estados
Unidos no início de 2006 e foi recebido com entusiasmo, tendo sido
indicado ao Oscar de melhor documentário.
Tentar mostrar os efeitos da guerra sobre cidadãos iraquianos
transformou Laura em alvo de acusações graves e falsas, ao
que tudo indica. Em 19 de novembro de 2004, soldados iraquianos apoiados por
forças americanas atacaram uma mesquita no bairro de Adhamiya, onde mora
o médico, matando várias pessoas em seu interior. No dia
seguinte, a violência irrompeu no bairro. Laura estava com a
família do médico, e de tempos em tempos subia com eles à
laje da casa para ter uma ideia do que estava ocorrendo. Numa dessas idas, foi
avistada por soldados de um batalhão da Guarda Nacional americana. Pouco
depois, um grupo de insurgentes lançou um ataque que matou um dos
americanos. Alguns soldados acharam que Laura havia subido à laje porque
tinha conhecimento prévio do ataque e queria filmá-lo. O
comandante do batalhão, o tenente-coronel reformado Daniel Hendrickson,
disse-me que apresentou uma denúncia contra ela no quartel-general de
sua brigada.
Não há nenhum indício que sustente a sua
acusação. Combates na área ocorreram durante todo aquele
dia, de maneira que teria sido difícil para qualquer jornalista
não se encontrar nas proximidades de algum ataque. Os próprios
soldados que acusaram Laura me disseram que não tinham provas contra
ela. Hendrickson ainda comentou que o quartel-general nunca respondeu à
sua denúncia.
Por vários meses depois do ataque em Adhamiya, Laura Poitras continuou
a viver na Zona Verde de Bagdá [onde ficavam as autoridades americanas]
e a trabalhar como jornalista acompanhando tropas dos Estados Unidos. Exibiu
seu documentário para plateias militares, inclusive na própria
Escola de Guerra do Exército americano. Um oficial que conviveu com ela
em Bagdá, o major reformado Tom Mowle, disse que Laura estava sempre
filmando, e que "fazia perfeito sentido" que estivesse filmando num
dia de violência. "Acho totalmente ridículas as
acusações contra ela", afirmou o major.
Embora as acusações não tivessem o apoio de provas, elas
podem estar na origem das muitas detenções e revistas de bagagem
sofridas por Laura. Hendrickson e outro soldado me contaram que, em 2007
meses depois da primeira detenção da jornalista ,
investigadores da Força-Tarefa Antiterrorismo do Departamento de
Justiça entrevistaram os dois, perguntando-lhes sobre as atividades de
Laura em Bagdá no dia do ataque. A própria Laura, porém,
nunca foi procurada por esses ou quaisquer outros investigadores.
"Forças iraquianas e militares americanos atacaram uma mesquita em
plena hora das preces de sexta-feira, matando várias pessoas",
contou-me ela. "E a violência se desencadeou no dia seguinte. Sou
documentarista, e estava filmando na área. Qualquer sugestão de
que eu soubesse de algum ataque é falsa. O governo norte-americano
deveria investigar quem autorizou o assalto à mesquita, e não os
jornalistas que cobrem a guerra."
Em junho de 2006, todas as passagens de Laura Poitras para voos dentro dos
Estados Unidos traziam as letras
SSSS
sigla em inglês para
Seleção para Checagem de Segurança Secundária
, o que significa que o portador será submetido a revistas mais
rígidas que as habituais. A primeira detenção de Laura
ocorreu no Aeroporto Internacional de Newark antes de um embarque para Israel,
onde iria exibir seu filme. No voo de volta, ela foi retida por duas horas
antes que lhe permitissem entrar de novo no país. No mês seguinte,
ela foi à Bósnia exibir seu filme num festival e, quando o
avião que tomou em Sarajevo pousou em Viena, foi chamada pelo sistema de
som do aeroporto e instruída a procurar um posto de segurança; de
lá, foi levada a uma van e conduzida a outra parte do aeroporto, e
depois foi colocada em uma sala onde sua bagagem foi revirada.
"Abriram minhas malas e examinaram uma a uma", contou Laura.
"Perguntaram o motivo de minha viagem, e respondi que tinha exibido um
filme em Sarajevo sobre a Guerra do Iraque. E então fiquei mais ou menos
amiga do sujeito da segurança. E lhe perguntei qual era o problema. Ele
me respondeu que eu estava marcada: "Você foi classificada como uma
ameaça do mais alto grau. Sua pontuação é de 400
numa escala de 400". Perguntei se esse sistema de pontuação
funcionava em toda a Europa, ou se era só americano. E ele respondeu:
"É coisa do seu governo, que foi quem nos disse para
detê-la".
A partir do 11 de Setembro, o governo americano começou a compilar uma
lista de suspeitos de terrorismo que chegou a ter quase 1 milhão de
nomes. E existem pelo menos outras duas listas complementares, relacionadas
às viagens aéreas. Uma delas contém os nomes de dezenas de
milhares de pessoas que não podem entrar ou sair dos Estados Unidos a
bordo de um avião. A outra, maior, sujeita as pessoas nela
incluídas a inspeções mais detalhadas e a
interrogatórios nos aeroportos. Essas listas já foram criticadas
por grupos de defesa dos direitos civis por serem excessivamente amplas e
arbitrárias.
Em Viena, Laura foi finalmente liberada a tempo de pegar a conexão para
Nova York, mas logo que pousou no aeroporto JFK ela foi recebida no
portão por dois agentes armados e conduzida a uma sala para ser
interrogada. Essa é uma rotina a que foi submetida tantas vezes desde
então foram mais de quarenta ocasiões que Laura
acabou perdendo a conta exata. Inicialmente, disse ela, as autoridades se
interessavam pelos papéis que levava, copiando todos os seus recibos e,
certa vez, seu caderno de notas. Depois que parou de levar suas
anotações nas viagens, o foco se transferiu para o equipamento
eletrônico. Diziam-lhe que, caso não respondesse às
perguntas, confiscariam seu equipamento e obteriam as respostas desse modo.
Certa vez, confiscaram seus computadores e celulares, e só devolveram
semanas depois. Disseram-lhe ainda que o fato de se recusar a responder
às perguntas deles era, por si só, um ato suspeito. Como os
interrogatórios ocorriam em pontos de fronteiras internacionais, onde o
governo alega que os direitos constitucionais não se aplicam, nunca lhe
foi consentida a presença de um advogado.
"É uma violação absoluta", disse Laura.
"É isso que a gente sente. Eles querem informações
que dizem respeito ao meu trabalho, privadas e protegidas por lei. É
muito intimidador ser recebida por pessoas armadas sempre que você desce
de um avião."
Embora tenha escrito a membros do Congresso americano, e feito requerimentos
com base na Lei da Liberdade de Informação, Laura nunca obteve
uma explicação sobre o motivo de ter sido incluída numa
lista de pessoas sob monitoramento especial. "É enlouquecedor que
eu tenha que ficar especulando sobre o motivo", disse ela. "A partir
de quando começou a existir esse universo em que a pessoa pode ser
incluída numa lista sem que ninguém lhe diga nada, e passa a ser
detida a cada viagem por seis anos? Não tenho a menor ideia do motivo.
Sei que é uma suspensão completa do estado de direito." E
acrescentou: "Nunca me disseram nada, nunca me pediram nada e eu
não fiz nada. É uma situação kafkiana. Não
lhe dizem do que você é acusada."
Depois de ter sido repetidamente detida, Laura Poitras começou a tomar
providências para proteger seus dados, pedindo a um companheiro de viagem
que levasse seu laptop, deixando seus cadernos de notas no estrangeiro com
amigos ou em cofres. Ela costuma apagar todo o conteúdo de seus
computadores e celulares, para que as autoridades não tenham o que ver.
Ou passou a criptografar suas informações, para que os agentes
não possam ler os arquivos que consigam apreender. Esses preparativos de
segurança podem levar um dia, ou mais, antes de cada uma de suas viagens.
E as revistas nas fronteiras não eram a única coisa com que ela
precisava se preocupar. Laura disse que, se as suspeitas do governo eram
suficientes para que fosse interrogada nos aeroportos, era muito
provável que seus e-mails, seus telefonemas e sua
navegação na internet também se encontrassem sob
vigilância. "Imagino que existam Cartas de Segurança Nacional
a respeito dos meus e-mails", disse ela, referindo-se a um dos
instrumentos secretos de espionagem utilizados pelo Departamento de
Justiça dos Estados Unidos. Uma Carta de Segurança Nacional
intima quem a recebe na maioria dos casos, provedores de internet e
companhias telefônicas a fornecer dados de seus clientes sem dar
ciência disso a eles ou a qualquer outra pessoa. Laura suspeita (mas
não pôde confirmar, pois sua companhia telefônica e seu
provedor de internet foram proibidos de lhe contar) que o FBI emitiu Cartas de
Segurança Nacional dirigidas a suas comunicações
eletrônicas.
Depois que começou a trabalhar em seu filme sobre vigilância e
espionagem em 2011, Laura elevou sua segurança digital a um nível
ainda mais extremo. Reduziu o uso do celular, que revela não só
para quem a pessoa está ligando e quando, mas também a
localização de seu portador. Passou a evitar transmitir
documentos confidenciais por email e ter conversas reservadas ao telefone.
Começou a usar programas que mascaravam os sites que visita. Depois de
ter sido abordada por Snowden em 2013, reforçou ainda mais a sua
segurança. Além de criptografar todos os emails mais delicados,
começou a usar computadores diferentes, um para editar seu filme, outro
para comunicar-se e mais um para ler documentos confidenciais (o computador
usado para a leitura desses documentos nunca foi conectado à internet).
Essas precauções podem parecer paranoicas e são
descritas como "bastante extremas" por Laura , mas as pessoas
que entrevistou para seu filme foram alvos do tipo de vigilância e
interceptação que ela teme.
William Binney
, antiga autoridade da
NSA que acusou publicamente a agência de espionagem ilegal, estava em
casa certo dia em 2007 quando agentes do FBI irromperam pela porta e apontaram
armas para sua mulher, seu filho e ele próprio. No momento em que um
agente entrou em seu banheiro e apontou o cano da arma para a sua
cabeça, Binney estava nu no chuveiro. Seus computadores, discos e
arquivos pessoais foram confiscados e nunca mais devolvidos. Binney jamais foi
formalmente acusado de crime algum.
Jacob Appelbaum
, militante em defesa da privacidade que trabalhou como
voluntário para a WikiLeaks, também participou do filme de Laura.
O governo emitiu uma ordem secreta ao Twitter para obter acesso aos dados da
conta de Appelbaum, ordem que se tornou pública quando o Twitter
resistiu a ela. Embora a empresa tenha acabado sendo forçada a entregar
as informações, conseguiu permissão para comunicar o
ocorrido a Appelbaum. A Google e um pequeno provedor que Appelbaum utilizava
também receberam ordens secretas, e foram à Justiça para
conseguir avisá-lo. Tal como Binney, Appelbaum jamais foi acusado de
crime algum.
Durante anos, Laura Poitras submeteu-se às revistas em aeroportos
queixando-se pouco em público, com medo de que seus protestos gerassem
mais hostilidade da parte do governo, mas no ano passado ela chegou ao limite
do que podia tolerar. Num interrogatório no Aeroporto de Newark, depois
de uma viagem à Grã-Bretanha, disseram-lhe que não podia
tomar notas. A conselho de advogados, ela sempre registrava os nomes dos
agentes da imigração, as perguntas que lhe faziam e todo o
material que copiavam ou apreendiam. Dessa vez, um dos agentes ameaçou
algemá-la se continuasse a escrever. Disseram-lhe que estava proibida de
anotar qualquer coisa porque poderia usar sua caneta como arma.
"Pedi que me trouxessem um lápis de cera", lembrou ela,
"e ele disse que os lápis de cera também estavam
proibidos."
Laura foi conduzida a uma outra sala e interrogada por três agentes
um se postou atrás dela, outro fazia as perguntas e o terceiro
era um supervisor. "Aquilo durou talvez uma hora e meia", contou ela.
"Eu estava tomando nota das perguntas dele, ou tentando fazer isso, e
começaram a gritar comigo. Pedi que me mostrassem a lei que me proibia
de fazer anotações. Aí eles me disseram que quem fazia as
perguntas eram eles. Foi um confronto muito agressivo e hostil."
Laura Poitras conheceu Glenn Greenwald em 2010, quando se interessou pelo
trabalho dele sobre a WikiLeaks [na época Greenwald escrevia para o site
Salon e defendeu a divulgação de documentos confidenciais feita
por Julian Assange]. Em 2011, Laura esteve no Rio de Janeiro para entrevistar
Greenwald para seu documentário. Ele sabia das revistas a que ela era
submetida, e já vinha lhe pedindo permissão para escrever a
respeito. Depois do ocorrido em Newark, ela lhe deu luz verde.
"Laura me disse que estava farta", contou Greenwald. "Anotar
tudo e documentar o que lhe acontecia era a única forma que tinha de
conservar alguma iniciativa, manter algum grau de controle sobre os fatos.
Documentar é a profissão dela. Acho que ela sentiu que lhe
tiravam o último vestígio de segurança e controle que
tinha na situação, sem qualquer explicação, como um
simples exercício arbitrário de poder."
O artigo "Cineasta americana repetidamente detida na fronteira" foi
publicado por Greenwald no Salon em abril de 2012. Pouco depois, Laura parou de
ser detida. Seis anos de perseguição e abusos, esperava ela,
poderiam ter chegado ao fim.
Laura Poitras não foi a primeira escolha de Snowden como
destinatária dos milhares de documentos da NSA que ele decidiu vazar. Na
verdade, um mês antes de fazer contato com ela, Snowden procurou
Greenwald, que tinha escrito muitos artigos críticos às guerras
no Iraque e no Afeganistão e à erosão das liberdades civis
americanas depois do 11 de Setembro. Snowden enviou a Greenwald um e-mail
anônimo falando que tinha documentos que pretendia compartilhar, seguido
de um passo a passo sobre como criptografar os textos, mas Greenwald ignorou as
mensagens. Snowden então enviou ao repórter um link para um
vídeo sobre criptografia, que tampouco teve resposta.
"O programa de criptografia é muito chato e complicado",
comentou Greenwald sentado em sua varanda durante uma chuvarada. "Ele
continuava a insistir, mas acabou frustrado e decidiu procurar a Laura."
Snowden tinha lido o artigo de Greenwald sobre os problemas de Laura nos
aeroportos americanos, e sabia que ela estava trabalhando num
documentário sobre os programas de espionagem do governo americano;
também tinha visto um documentário curto sobre a NSA que ela
tinha feito para um fórum online do
New York Times.
Imaginou que Laura fosse entender os programas que ele pretendia revelar ao
público, e que tivesse a capacidade de comunicar-se com ele de maneira
segura.
Em março, Laura Poitras tinha decidido que o estranho com quem vinha se
comunicando era confiável. Não encontrou o tipo de
provocação que esperaria de um agente do governo nenhum
pedido de informação quanto às pessoas com quem mantinha
contato, nenhuma pergunta sobre o que andava fazendo. Snowden lhe disse desde o
primeiro momento que ela precisaria trabalhar com alguma outra pessoa, e que
devia procurar Greenwald. Ela não sabia que Snowden já tinha
tentado o contato com Greenwald só ao encontrar-se com Snowden em
Hong Kong, Greenwald se daria conta de que se tratava da mesma pessoa que o
tinha procurado mais de seis meses antes.
Houve surpresas para todos nessa troca de mensagens inclusive para
Snowden, que mais tarde responderia às perguntas que lhe encaminhei por
intermédio de Laura. Em resposta à pergunta sobre quando tinha
sabido que podia confiar nela, ele escreveu: "Chegamos a um ponto no
processo de checagem em que descobri que Laura desconfiava mais ainda de mim do
que eu dela, e sou famoso pelo meu grau de paranoia." Quando lhe perguntei
sobre o silêncio inicial de Greenwald diante de seus pedidos e
instruções sobre criptografia, Snowden respondeu: "Sei que
os jornalistas são pessoas ocupadas e já imaginava que seria
difícil ser levado a sério, tendo em vista especialmente a
escassez de detalhes que podia revelar num primeiro momento. Por outro lado,
estamos em 2013, e ele é um jornalista que escreve regularmente sobre o
excesso de poder do Estado. Fiquei surpreso de ver que existem, nos
órgãos de imprensa, pessoas que não percebem que qualquer
mensagem não criptografada enviada pela internet acaba nas mãos
de todos os serviços de informação do mundo."
Em abril, Laura enviou um email a Greenwald dizendo que precisavam se
encontrar pessoalmente. Por acaso ele estava nos Estados Unidos, participando
de uma conferência em Nova York, e os dois se encontraram no
saguão do hotel dele. "Ela tomou muitos cuidados", lembrou
Greenwald. "Insistiu para eu não levar meu celular, pois eles podem
ser monitorados remotamente pelo governo, mesmo desligados. Trazia todos os
emails impressos, e lembro bem que, ao lê-los, tive a
sensação intuitiva de que era tudo verdade. A paixão e a
reflexão por trás do que dizia Snowden e àquela
altura ainda não sabíamos que ele era Snowden eram
palpáveis."
Greenwald instalou um programa de criptografia em seu computador, e
começou a comunicar-se diretamente com o desconhecido. O trabalho era
organizado como uma verdadeira operação de espionagem, em que
Laura atuava como mentora. "A segurança operacional era determinada
por ela", contou Greenwald. "Quais computadores eu devia usar, como
devia me comunicar, como devia proteger a informação, onde devia
guardar cópias, a quem devia entregá-las e em quais lugares. Ela
tem um entendimento altamente especializado de como fazer uma reportagem como
essa com toda segurança técnica e operacional. Nada disso teria
ocorrido com tanta eficiência e impacto se ela não tivesse
trabalhado comigo em todos os aspectos, e na verdade não tivesse
respondido pela coordenação da maior parte do trabalho."
Snowden começou a passar os documentos para os dois. Laura não
quis me contar o momento exato em que isso ocorreu; disse que não quer
dar ao governo informações que possam ser usadas num processo
contra Snowden ou ela própria. Em seguida, Snowden lhe disse que logo
estaria pronto para ter um encontro com eles. Quando Laura lhe perguntou se
devia planejar uma viagem de carro ou de trem, Snowden respondeu que se
preparasse para tomar um avião.
Em maio, ele mandou novas mensagens criptografadas, dizendo a Laura e a
Greenwald para irem a Hong Kong. Greenwald tomou um avião do Rio para
Nova York, onde Laura o encontrou para uma série de reuniões com
o editor da versão americana do
Guardian.
Com a reputação do jornal em jogo, o editor lhes pediu que
levassem com eles um repórter veterano, Ewen MacAskill. Em 1º de
junho o trio embarcou num voo de dezesseis horas entre Nova York e Hong Kong.
Snowden tinha enviado uma quantidade pequena de documentos a Greenwald, uns
vinte no total, mas Laura havia recebido uma leva bem maior, que ainda
não tivera a oportunidade de ler com a devida atenção. A
bordo do avião, Greenwald começou a examiná-los, chegando
depois de algum tempo a uma ordem judicial secreta exigindo que a companhia
telefônica Verizon entregasse à NSA os registros telefônicos
de seus clientes. A ordem judicial, de quatro páginas, tinha sido
emitida pelo Tribunal de Vigilância de Inteligência Estrangeira,
órgão cujas decisões são secretas [o tribunal foi
criado pela Lei de Vigilância de Inteligência Estrangeira, FISA na
sigla em inglês, para autorizar escutas que envolvessem cidadãos
americanos]. Embora corressem boatos de que a NSA vinha reunindo imensas
quantidades de registros telefônicos nos Estados Unidos, o governo sempre
havia negado o fato.
Laura, sentada vinte fileiras atrás de Greenwald, acabou indo
até a dianteira para conversar sobre o que ele estava lendo. Enquanto o
passageiro a seu lado dormia, Greenwald apontou para a ordem da FISA em seu
monitor e perguntou a Laura: "Você viu isto? Este documento diz
mesmo o que eu acho que diz?"
Em alguns momentos, os dois conversaram com tanta empolgação que
acabaram perturbando os passageiros que tentavam dormir; então decidiram
sossegar. "Foi um momento incrível", disse Greenwald.
"Só quando você examina esses documentos é que tem uma
ideia do seu alcance. Foi um banho de adrenalina. Pela primeira vez, você
sente que tem poder diante de um sistema descomunal que você tenta minar
e expor mas geralmente não consegue avançar muito, porque
não tem instrumentos para isso. Agora os instrumentos tinham
caído no nosso colo."
Snowden havia recomendado que, em Hong Kong, Greenwald e Laura fossem numa
determinada hora até o distrito de Kowloon, parando na porta de um
restaurante num centro comercial ligado ao hotel Mira. Ali, teriam que ficar
esperando até aparecer um homem carregando um cubo mágico
[1]
, e então deveriam perguntar a ele a que horas o restaurante abriria. O
homem responderia, mas então lhes diria que a comida era ruim. Quando o
homem com o cubo mágico apareceu, era Edward Snowden, que tinha 29 anos
na ocasião, mas parecia ainda mais novo.
"Quase caímos para trás quando vimos como era jovem",
contou Laura, ainda com surpresa na voz. "Eu não fazia ideia.
Imaginei que estivesse lidando com alguém que ocupasse uma alta
posição, e portanto fosse mais velho. Mas eu também sabia,
a partir da nossa correspondência, que era uma pessoa com um conhecimento
incrível de sistemas de computador, o que me fazia imaginá-lo um
pouco mais jovem. Então eu imaginava uma pessoa com uns 40 e poucos
anos, alguém acostumado a usar computadores a vida toda, mas que
já tivesse chegado a um cargo superior."
Em nossa troca de mensagens criptografadas, Snowden também comentou o
encontro: "Acho que ficaram decepcionados ao ver que eu era mais jovem do
que esperavam, e eu fiquei decepcionado ao vê-los chegar um pouco antes
da hora, o que complicou a checagem inicial. Assim que nos vimos num lugar
fechado, porém, acho que as precauções obsessivas e a
evidente boa-fé do que era dito deixaram todo mundo mais tranquilo."
Os dois acompanharam Snowden até o quarto dele, onde Laura sacou a sua
câmera, assumindo de imediato seu papel de documentarista. "Eu
estava um pouco tenso, um pouco desconfortável", contou Greenwald
sobre esses minutos iniciais. "Nós nos sentamos, e começamos
a bater papo, enquanto Laura imediatamente armava a sua câmera. Assim que
ela ligou o aparelho, eu me lembro muito claramente que tanto ele quanto eu
ficamos completamente retesados."
Greenwald começou a entrevista. "Eu queria verificar a
coerência do que ele dizia, e obter o máximo de
informação possível, pois sabia que aquilo poderia afetar
a minha credibilidade. Só conseguimos estabelecer uma conexão
natural depois das primeiras cinco ou seis horas."
Para Laura, a câmera certamente afeta o comportamento das pessoas, mas
não de uma forma negativa. Quando alguém concorda em ser filmado
mesmo que o consentimento seja obtido de forma indireta, quando ela liga
a câmera , isso é um gesto de confiança que sempre
aumenta a voltagem emocional da ocasião. O que Greenwald viveu como um
momento de tensão, Laura percebeu como um laço especial entre
eles, que passaram a compartilhar um risco imenso. "É uma
emoção muito concreta quando você vê que confiam em
você", disse ela.
Snowden, embora surpreendido, acabou se acostumando. "Como se pode
imaginar, os espiões normalmente são alérgicos a qualquer
contato com repórteres ou a imprensa, de maneira que eu era uma fonte
virgem tudo era surpresa para mim... Mas nós três
sabíamos bem o que estava em jogo. Na verdade, o peso da
situação tornou mais fácil nos concentrarmos no interesse
público, e não no nosso. Acho que todos entendemos que, depois
que Laura ligou a câmera, não havia mais como voltar
atrás."
Pela semana seguinte, os preparativos dos três obedeciam ao mesmo
padrão assim que entravam no quarto de Snowden, tiravam as
baterias dos celulares e os guardavam no frigobar do quarto. Colocavam
travesseiros encostados na porta, para impedir que algo pudesse ser ouvido do
lado de fora, e então Laura armava a câmera e começava a
filmar. Era importante para Snowden explicar logo aos dois de que maneira
funcionava a máquina de espionagem do governo americano porque ele temia
ser preso a qualquer instante.
As primeiras reportagens de Greenwald incluindo a primeira, relatando a
ordem judicial recebida pela Verizon que ele leu no voo para Hong Kong
foram publicadas enquanto Snowden ainda estava sendo entrevistado por ele e
Laura. O que deu origem a uma experiência muito peculiar, a de criarem
juntos uma notícia e depois poderem assistir enquanto ela se espalhava.
"Era possível acompanhar a repercussão", contou Laura.
"Nosso trabalho era muito concentrado, e exigia nossa
atenção, mas podíamos ver pela tevê que estava dando
certo. Estávamos naquele círculo fechado, e sabíamos das
reverberações à nossa volta, elas podiam ser vistas e
sentidas."
Snowden lhes tinha dito, antes da chegada dos dois a Hong Kong, que queria
revelar quem era. Ele queria assumir a responsabilidade pelo que fazia, contou
Laura, e não queria que outros fossem injustamente visados.
Também imaginava que em algum momento acabaria sendo identificado. Laura
produziu um vídeo de doze minutos e meio com Snowden que foi postado na
internet no dia 9 de junho, poucos dias depois da publicação dos
primeiros artigos de
Greenwald.
A partir daí, armou-se um verdadeiro circo midiático em Hong
Kong, com repórteres fazendo o impossível para descobrir o
paradeiro dos três.
Há uma série de assuntos sobre os quais Laura Poitras preferiu
não conversar comigo
on the record
(para publicação), e outros que sequer aceitou abordar
alguns por razões de segurança ou de ordem legal, outros porque
quer ser a primeira a contar partes cruciais de sua história em seu
próprio documentário. Sobre a maneira como ela e Snowden se
despediram depois da postagem do vídeo, ela só me disse o
seguinte: "Eu e ele sabíamos que, quando o vídeo fosse
divulgado, aquela etapa do trabalho estaria encerrada."
Snowden deixou seu hotel e desapareceu. Alguns repórteres descobriram
onde Laura estava hospedada ela e Greenwald estavam em hotéis
diferentes e começaram a ligar para o quarto dela. A certa
altura, alguém bateu à porta e a chamou pelo nome. Ela já
sabia que Greenwald também tinha sido localizado, então ligou
para a segurança do hotel e pediu que acompanhassem sua saída por
uma porta dos fundos.
Laura ainda tentou permanecer mais um tempo em Hong Kong, achando que Snowden
poderia querer tornar a vê-la, e também porque estava interessada
em filmar a reação dos chineses às
revelações dele. Mas agora ela própria tinha se tornado
alvo de interesse. No dia 15 de junho, enquanto filmava uma
manifestação a favor de Snowden na porta do consulado dos Estados
Unidos, Laura foi reconhecida por um repórter da CNN, que começou
a lhe fazer perguntas. Ela recusou-se a responder e escapuliu dali. Na mesma
noite, deixou Hong Kong.
Laura voou diretamente para Berlim, onde no segundo semestre do ano passado
tinha alugado um apartamento para editar seu documentário sem medo de
que o FBI pudesse aparecer a qualquer momento com um mandado de busca dos seus
discos rígidos. "Constantemente faço uma
distinção entre os lugares onde sinto que posso ter privacidade
ou não", disse ela, "e essa linha está ficando cada vez
mais estreita." E acrescentou: "Não vou parar o que estou
fazendo, mas preferi deixar os Estados Unidos. Literalmente, senti que
não tinha meios de proteger meu material no país, e isso antes
ainda de ser procurada por Snowden. Se você promete a alguém que
vai protegê-lo como sua fonte, mas sabe que o governo está
monitorando você ou pode apreender seu laptop, acaba sendo
impossível fazer isso."
Depois de duas semanas em Berlim, Laura Poitras viajou para o Rio de Janeiro,
onde estive com ela e Greenwald alguns dias mais tarde. Minha primeira parada
foi o hotel, em Copacabana, onde estavam trabalhando naquele dia com MacAskill
e outro repórter do
Guardian,
James Ball. Laura estava editando um novo vídeo sobre Snowden para ser
postado dali a alguns dias no website do
Guardian.
Greenwald trabalhava em outro artigo de imenso interesse, dessa vez sobre a
colaboração próxima entre a Microsoft e a NSA. O quarto
estava cheio não havia cadeiras suficientes para todos, e sempre
havia alguém sentado na cama ou no chão. Uma grande quantidade de
pen drives circulava entre os presentes, embora ninguém me tenha dito o
que continham.
Laura e Greenwald estavam preocupados com Snowden. Não tinham
notícias dele desde Hong Kong. Àquela altura, ele estava retido
num limbo diplomático na área de passageiros em trânsito do
Aeroporto Sheremetyevo, em Moscou, e era o homem mais procurado do planeta,
acusado pelo governo dos Estados Unidos de espionagem. (Mais tarde, os russos
lhe concederiam asilo temporário.) O vídeo em que Laura vinha
trabalhando, usando material gravado em Hong Kong, seria a primeira imagem que
o mundo veria de Snowden em mais de um mês.
"Agora que ele está incomunicável, nem sabemos se
voltaremos a falar com ele alguma vez", disse Laura.
"E ele está bem?", perguntou MacAskill.
"O advogado dele disse que sim", respondeu Greenwald.
"Mas o advogado não está em contato direto com
Snowden", lembrou Laura.
Quando Greenwald chegou em casa naquela noite, Snowden entrou em contato com
ele pela internet. Dois dias mais tarde, enquanto trabalhava na casa de
Greenwald, Laura também teve notícias dele.
Anoitecia, e gritos de animais e pios de aves vinham da mata em volta da casa.
A esses sons se misturaram os latidos de cinco ou seis cachorros quando
atravessei o portão de entrada. Por uma das janelas, vi Laura na sala,
concentrada num dos seus computadores. Passei por uma porta de tela, ela olhou
para mim por um segundo e voltou ao trabalho, indiferente à cacofonia
à sua volta. Ao final de dez minutos, fechou seu computador e murmurou
um pedido de desculpas, dizendo que precisava tomar algumas providências.
Não demonstrava nenhuma emoção, nem me disse que acabara
de trocar mensagens cifradas com Snowden. Eu não insisti, mas alguns
dias mais tarde, depois que voltei para Nova York e ela seguiu para Berlim,
perguntei se era isso que estava fazendo naquela noite. Ela confirmou, mas
comentou que não quis falar a respeito na ocasião porque, quanto
mais ela fala sobre suas interações com Snowden, mais se sente
distante delas.
"É uma experiência emocional muito singular", disse
Laura, "ser procurada por um completo desconhecido que lhe diz que vai
arriscar a vida para expor coisas que o público precisa saber. Ele
estava pondo a sua vida na reta, e decidiu confiar esse fardo a mim. Eu quero
conservar uma relação emocional com essa experiência."
Sua ligação com Snowden e com o material, continuou a explicar,
é o que vai conduzir o seu trabalho. "Me sinto tocada pelo que ele
vê como o horror do mundo de hoje, e o que imagina que ainda pode
acontecer. E quero passar isso adiante com o máximo de ressonância
possível. Se eu fosse ficar dando entrevistas intermináveis para
a tevê, é o tipo de coisa que me afastaria daquilo a que preciso
me manter ligada. Não se trata só de um furo de reportagem.
É a vida de uma pessoa."
Laura Poitras e Glenn Greenwald são exemplos especialmente
dramáticos de como atua o jornalismo independente em 2013. Nem uma nem o
outro trabalham numa redação, e fazem questão de controlar
pessoalmente tudo que é publicado, e em qual momento. Quando o
Guardian
não publicou com a presteza que esperavam o primeiro artigo tratando da
Verizon, Greenwald cogitou dar outro destino ao texto, mandando uma
cópia criptografada para um colega que trabalha em outro veículo.
Ele também pensou em criar um website no qual poderiam publicar tudo,
que planejou batizar de NSA Disclosures, algo como Revelações da
NSA. No final, o
Guardian
decidiu publicar seus artigos. Mas Laura e Greenwald criaram uma rede
própria de divulgação, com reportagens em outros
veículos na Alemanha e no Brasil, que planejam diversificar ainda mais
no futuro. Eles não compartilharam com ninguém a totalidade dos
documentos que detêm.
"Temos parcerias com órgãos noticiosos, mas achamos que
nossa responsabilidade primária é para com o risco que nossa
fonte correu e o interesse público da informação que nos
entregou", afirmou Laura. "Um órgão de imprensa
qualquer só figura na nossa lista depois disso."
Ao contrário de muitos repórteres da grande imprensa, nem Laura
nem Greenwald ostentam uma fachada de indiferença política. Faz
anos que Greenwald não tem papas na língua; no Twitter, respondeu
recentemente a alguém que o criticou dizendo: "Você é
um imbecil completo. E sabe disso, não é?" Suas
opiniões políticas de esquerda, combinadas a seu estilo cortante,
o tornaram malquisto por muita gente no establishment político. Seu
trabalho com Laura é tachado de militante e nocivo à
segurança nacional.
Laura, embora não seja tão dada à polêmica quanto
Greenwald, discorda da ideia de que o trabalho dos dois seja militância.
"Claro que eu tenho as minhas opiniões", disse ela. "Quer
saber se eu acho que a vigilância do Estado está fora de controle?
Acho. É uma coisa assustadora, e é bom mesmo que as pessoas
fiquem com medo. Temos um governo paralelo e secreto que não para de
crescer, invocando sempre a segurança nacional e sem a supervisão
ou a discussão nacional que se imaginariam necessárias numa
democracia. E não estou dizendo isso por militância. Temos
documentos que confirmam tudo."
Laura possui uma habilidade que é vital e ainda rara entre os
jornalistas numa era em que a espionagem oficial é tão
corriqueira: ela sabe se proteger do monitoramento. Como disse Snowden, "a
partir do que está sendo revelado neste ano, fica muito claro que toda
comunicação desprotegida entre jornalista e fonte configura um
descuido imperdoável".
Uma nova geração de fontes, como Snowden ou Bradley Manning [o
soldado que vazou documentos para a WikiLeaks], tem acesso não apenas a
um punhado de segredos, mas a milhares de uma vez, graças à sua
capacidade de coletá-los em redes protegidas. Essas fontes preferem
compartilhar seus segredos não com os maiores veículos e seus
repórteres, mas com repórteres com quem tenham afinidade
política e consigam receber os vazamentos sem que ninguém perceba.
No chat que mantive com ele, uma troca de mensagens criptografadas em tempo
real, Snowden explicou por que resolveu procurar Laura: "Laura e Glenn
estão entre os poucos que investigaram assuntos polêmicos de
maneira destemida por todo esse período, mesmo enfrentando
críticas pessoais, que no caso de Laura acabaram por
transformá-la em alvo dos mesmos programas envolvidos nas
revelações recentes. Ela demonstrou ter a coragem, a
experiência pessoal e a capacidade necessárias para lidar com o
que talvez seja a missão mais perigosa que um jornalista pode receber
revelar malfeitos secretos do governo mais poderoso do mundo. Por isso,
era uma escolha óbvia."
As revelações de Snowden se converteram no centro do
documentário de Laura Poitras sobre vigilância e espionagem, mas
ela também se viu envolvida numa dinâmica nova, pois não
tem como evitar figurar como personagem em seu próprio filme. Ela nunca
narrou seus filmes anteriores nem apareceu neles, e diz que pretende continuar
agindo assim, mas percebe que precisará ser representada de alguma
forma, e vem se perguntando de que maneira poderá fazê-lo.
Ao mesmo tempo, Laura vem avaliando sua vulnerabilidade jurídica. Ela e
Greenwald ainda não foram acusados de nada, pelo menos até agora.
Os dois não pretendem ficar fora dos Estados Unidos para sempre, mas
nenhum dos dois tem planos imediatos de retorno ao país. Um membro do
Congresso já comparou o que os dois fizeram a uma forma de
traição, e ambos estão muito conscientes da
perseguição sem precedentes, no governo Obama, não
só aos responsáveis por vazamentos de informações
como aos jornalistas que recebem esses vazamentos. Enquanto estive com eles,
falaram sobre as possibilidades de volta. Greenwald diz que prendê-los
seria pouco inteligente da parte do governo, pela péssima publicidade
que isso produziria. Além disso, não deteria o fluxo de
informações.
Ele falou quando voltávamos para sua casa de táxi, ao final de
um dia cheio. Estava escuro do lado de fora. Greenwald perguntou a Laura:
"Desde que isso tudo começou, você teve algum dia sem
NSA?"
"E o que é isso?", perguntou ela.
"Acho que a gente está precisando de um dia assim", disse
Greenwald. "Não que vá conseguir tirar."
Laura falou em voltar às aulas de ioga. Greenwald disse que pretendia
retomar sua prática regular de tênis. "Estou disposto a ficar
velho por causa dessa história", disse ele, "mas não a
ficar gordo."
A conversa entre os dois desviou-se para a questão da volta aos Estados
Unidos. Greenwald disse, meio em tom de brincadeira, que se fosse preso a
WikiLeaks seria a próxima a publicar os documentos da NSA. "Eu
só precisaria dizer: 'Então tá, esse aqui é o meu
amigo Julian Assange, que vai ficar no meu lugar. Divirtam-se lidando com
ele.'"
E Laura lhe perguntou: "Quer dizer que você vai voltar aos Estados
Unidos?"
Ele riu e lembrou que, infelizmente, o governo nem sempre tomava as
decisões mais sensatas. "Se eles tivessem juízo",
respondeu, "eu voltaria."
Laura sorriu, muito embora o assunto seja difícil para ela. Laura
não é uma pessoa tão expansiva ou relaxada quanto
Greenwald, o que torna ainda mais inusitada a química da dupla. Ela se
preocupa com a segurança física dos dois. E também se
preocupa, claro, com a espionagem. "A sua localização no
planeta é o mais importante de tudo", diz ela. "Eu quero ficar
o máximo que puder fora da área de cobertura deles. Não
pretendo facilitar as coisas para eles. Se quiserem me seguir, vão ter
de dar duro. Não vou ficar por aí piscando em qualquer GPS. O
lugar onde eu estou é importante para mim. Importante de um modo novo,
que antes eu não conhecia."
Há muita gente com raiva dos dois, e muitos governos, além de
entidades particulares, que não se incomodariam nem um pouco em
pôr a mão nos milhares de documentos da NSA que a dupla ainda
controla. Os dois publicaram apenas um punhado deles um punhado top
secret, capaz de gerar manchetes e audiências no Congresso , e
parece pouco provável que um dia venham a publicar tudo, ao estilo da
WikiLeaks. Laura e Greenwald continuam guardando mais segredos do que revelam,
pelo menos por enquanto.
"Temos uma janela aberta para esse mundo que ainda estamos tentando
entender", disse Laura Poitras numa das nossas últimas conversas.
"Não queremos manter tudo secreto, mas montar o
quebra-cabeça. É um projeto que vai levar tempo. Nossa
intenção é revelar o que tiver interesse público,
mas também adquirir uma boa compreensão do que seja esse mundo, e
então tentar torná-lo conhecido."
O paradoxo mais profundo, claro, é que o esforço que os dois
vêm fazendo para compreender e denunciar a espionagem governamental pode
ter condenado os dois a serem perpetuamente monitorados.
"Nossas vidas nunca mais vão ser as mesmas", disse Laura.
"Não sei se algum dia vou conseguir morar em algum lugar e sentir
que tenho privacidade. Isso pode ter se tornado totalmente
impossível."
Setembro/2013
[1] Refere-se ao Cubo de Rubik.
O original encontra-se em
revistapiaui.estadao.com.br/edicao-84/anais-da-espionagem-i/mande-sua-chave
Este artigo encontra-se em
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