por Plínio de Arruda Sampaio Junior
I. A derrocada do governo de conciliação de classe e a
ascensão da República dos Delinqüentes
Encerrando um período de relativa estabilidade social, econômica e
política, iniciado em 2003 com a chegada de Lula à
presidência da República e consolidado em 2005 com a
recuperação do crescimento, a sociedade brasileira assistiu, a
partir de 2013, ao crescente aumento da efervescência social; à
inflexão do ciclo de expansão dos negócios que havia
propiciado um modesto dinamismo econômico, após décadas de
marasmo; e à acelerada decomposição do pacto
político que havia viabilizado a transição negociada do
regime militar para o Estado de direito. Desde então, o fim da letargia
social, o espectro de uma estagnação de longa
duração e a exacerbação da instabilidade
política acirraram a luta de classes.
O temor de que a crescente onda de inquietação social pudesse
fugir do controle e abrir brechas para a emergência das classes
subalternas no cenário histórico(como ocorreu na surpreendente
rebelião urbana de 2013)alarmou as classes dominantes em
relação ao risco de uma insubordinação dos pobres.
As concessões feitas às classes subalternas teriam ultrapassado o
limite do razoável, colocando na ordem do dia a urgência de conter
o ímpeto das reivindicações sociais e cortar pela raiz o
processo de ascensão das massas. Atiçados pelos grandes
veículos de comunicação de massa, com a luz verde da
grande burguesia, os bem de vida partiram para a ofensiva.
O novo contexto histórico aguçou a guerra fratricida entre as
alas esquerda e direita do establishment. Na ausência de
discrepâncias substantivas de projeto político -posto estarem
ambos perfeitamente enquadrados nos parâmetros mais gerais do
neoliberalismo - a luta entre os partidos da ordem pelo controle do Estado
assumiu a forma de uma acirrada disputa para definir quem seria o operador
político mais credenciado para administrar o ajuste do Brasil às
novas exigências do capital, internacional e nacional, em tempos de
crise. Para além das paixões cegas que alimentam falsos
antagonismos, a diferenciação entre as duas facções
que polarizam a disputa política girou em torno da forma de combinar
"cooptação" e "força bruta" como
mecanismos de dominação das classes subalternas.
Na guerra para decidir quem ficaria no comando do Estado, a primeira batalha
foi vencida pela ala moderada do partido da ordem, com a
reeleição de Dilma Rousseff para a presidência da
República em 2014. Foi uma vitória de Pirro. Ao adotar o programa
econômico de seu adversário, Dilma isolou-se de sua base social e
abriu caminho para uma contraofensiva reacionária. De tanto ceder
à chantagem do mercado e da fisiologia, a presidente acabou
comprometendo seu próprio lugar na coalizão
liberal-fisiológica. O vazio político gerado pelo esvaziamento de
sua autoridade foi ocupado por Eduardo Cunha e Michel Temer. A sua sorte foi
definitivamente selada quando, contrariando o Planalto, o PT decidiu que seus
deputados não apoiariam o presidente da Câmara dos Deputados na
Comissão de Ética. Antes que Dilma tivesse completado quinze
meses de seu segundo mandato, sua base de sustentação parlamentar
deslocou-se ainda mais para a direita e o governo ruiu. O Supremo Tribunal
Federal abençoou o processo. A democracia de baixíssima
intensidade revelava-se ampla demais para as exigências da
situação. A burguesia teve de recorrer a uma forma de governo
abertamente espúria.
A queda de Dilma foi assimilada pelo conjunto da sociedade sem
comoção. Para além de ações isoladas de
alguns movimentos sociais, a maioria da população permaneceu
apática aos eventos que agitavam Brasília. Um desavisado que
chegasse ao país sequer perceberia que a chefe de Estado acabava de ser
deposta. A docilidade do PT foi surpreendente. Não houve nem um
esboço de resistência. Dilma deixou o Planalto de maneira
protocolar. Entre os dirigentes e parlamentares do PT, a energia dedicada
à batalha pela narrativa do golpe foi superior ao esforço de
evitá-lo. No momento decisivo, Lula fingiu-se de morto, mais preocupado
em negociar sua própria situação com os futuros donos do
poder do que em confrontá-los. Com a honrosa exceção do
Advogado Geral da República, José Eduardo Cardoso, que se jogou
de corpo e alma na defesa "do cumprimento do devido processo legal",
os demais componentes do governo parecem não ter alterado a rotina, a
começar pela própria presidente, que, mesmo nas piores horas da
crise, não abriu mão de seus exercícios matinais. A imagem
de Dilma pedalando placidamente pelas vizinhanças do Alvorada, enquanto
seu destino era decidido no covil do Congresso Nacional, é uma
metáfora de sua falta de estatura para o cargo. A presença de
parlamentares do PT, expoentes da batalha contra o impeachment,
confraternizando com parlamentares da tropa de choque dos golpistas, na festa
Junina oferecida pela ministra recém deposta Kátia Abreu, revela
a promiscuidade e a leviandade dos atores do drama.
O afastamento da presidente encerrou melancolicamente treze anos de
ilusão de que a esperança venceria o medo. O sonho de que um
governo de conciliação de classes seria capaz de criar um Brasil
para todos terminou em pesadelo. Os ventos fortes que levaram Lula ao poder no
início dos anos 2000 não foram aproveitados para romper o
círculo de ferro do capitalismo dependente. O melhorismo petista
não questionou as estruturas responsáveis pela
perpetuação do status quo. Os nexos inextricáveis entre
negócios, segregação social e dependência externa
permaneceram incólumes, e as mazelas do subdesenvolvimento reapareceram
com força redobrada. Da noite para o dia, o sentimento
triunfalista de que o Brasil caminhava para o desenvolvimento
sustentável deu lugar à sensação generalizada de
que, na verdade, o país afunda no descalabro.
Em nome da ordem e do progresso, os aventureiros que assumiram o poder, sem
nenhuma legitimidade para radicalizar uma política que havia sido
rejeitada nas urnas, partiram com voracidade contra os direitos dos
trabalhadores, as políticas sociais e a soberania nacional. Os
ministérios econômicos foram entregues à sanha do mercado e
os demais, aos apetites da fisiologia. A altíssima coincidência de
nomes-chaves entre os próceres que compõem o ministério de
Temer e os que fizeram parte das administrações petistas
evidencia que o novo governo não é a negação do
anterior, mas sua metástase. Um é consequência do outro. Ao
dar as costas para seus eleitores, Dilma abriu a Caixa de Pandora e liberou as
taras do capital. Ao levar ao paroxismo a terceirização do
governo em favor do PMDB, o PT tornou-se supérfluo. Tornando-se mera
peça decorativa, Dilma perdeu a credencial para permanecer no Planalto.
A radicalização do ajuste neoliberal requer a ação
de um Estado de Exceção abertamente autocrático. A
gritante discrepância entre a imoralidade e absoluta falta de compostura
do "andar de cima" e o rigor e disciplina exigidos do "andar de
baixo" deve intensificar ainda mais a luta de classes.
Para além das bravatas para consolar militantes frustrados, a
decisão de manter as alianças políticas e eleitorais (em
âmbito estadual e municipal) com os partidos golpistas evidencia a
plasticidade e desfaçatez com que o PT aceitou a nova realidade. O
compromisso de fazer uma "oposição responsável",
comprometida com a "racionalidade econômica" e com o
"respeito às instituições", reitera a identidade
do PT com os imperativos do capital. Ao sancionar a violência
institucional de que foi vítima, reconhecendo-a como um fato consumado
que, por mais paradoxal que seja, faz parte das regras do jogo, o PT acatou os
parâmetros democráticos ainda mais rebaixados de um Estado de
exceção que não hesitará em apelar para novas
violências e fazer o que for necessário para garantir a
estabilização da economia e a pacificação da
nação. Incorporando definitivamente o espírito de seus
algozes, Dilma caiu enaltecendo a Lei de Responsabilidade Fiscal e fazendo
juras de fidelidade às exigências do mercado. Num esforço
desesperado para voltar ao poder, chegou a afirmar que manteria o famigerado
Henrique Meirelles no Ministério da Fazenda. Em plena recessão, a
patética reiteração do princípio liberal do
equilíbrio fiscal como clausula pétrea de um governo
responsável legitimou o processo de criminalização de toda
e qualquer gestão econômica que não coadune com os ideais
da doutrina neoliberal - o discurso ideológico que, por ironia do
destino, fundamentou a farsa institucional que justificou a sua
deposição. O PT encerrou seu ciclo no poder central rendido ao
pragmatismo do fim da história e de tudo que o acompanha. Na
oposição, o partido de Lula será o complemento
necessário e funcional da situação. No próximo
período, caber-lhe-á um duplo papel: evitar a qualquer custo o
aparecimento de forças políticas que possam credenciar-se como
alternativas antissistêmicas; e servir como reserva política
estratégica na eventualidade de um agravamento da crise nacional exigira
volta do grande líder como forma de apaziguar as massas exaltadas. Para
tanto, o partido terá apenas que adaptar sua estratégia
política impostura à esquerda e usurpação
à direita às novas circunstâncias da vida nacional.
II. A batalha pela narrativa da crise
As narrativas canhestras, que racionalizam a posição dos
antagonistas engalfinhados na disputa que levou à
deposição de Dilma, em nada contribuem para a compreensão
das graves contradições que condicionam a vida nacional.
Os que atribuem a crise econômica brasileira a desequilíbrios
fiscais, supostamente provocados por créditos suplementares tachados de
"pedaladas fiscais", como propõe o simplório discurso
dos liberais tupiniquins, ecoado dia e noite nos meios de
comunicação, ignoram que a crise fiscal não é
causa, mas efeito da crise econômica. A justificativa da
deposição de Dilma como passo necessário para a
solução da crise econômica e recuperação do
crescimento ignora que a austeridade fiscal diminui a demanda agregada e, em
consequência, reforça a tendência recessiva que deprime as
expectativas de investimento dos empresários. A alegação
de que os créditos suplementares as "pedaladas fiscais"
caracterizariam crime de responsabilidade desconsidera que a prática
é corriqueira na administração pública brasileira,
generalizada em todas as esferas de governo, e não é tipificada
na Constituição como motivo para a deposição de uma
autoridade eleita.
O discurso moralista que imputa a corrupção generalizada ao
aparelhamento do Estado pelo PT omite que Lula e Dilma apenas sancionaram a
promiscuidade entre o público e o privado de seus antecessores. A
corrupção sistêmica é uma característica
inerente ao Estado brasileiro, permeia todos os poros da
administração pública e envolve todos os partidos da
ordem. O enaltecimento dos promotores federais que conduzem a
operação Lava Jato e do Juiz Sérgio Moro como figuras
acima do bem e do mal, comprometidas com o saneamento da política
nacional, omite o fato gritante de que o rigor com os malfeitos do PT é
proporcional à condescendência com os malfeitos de seus
opositores. Na melhor tradição da justiça brasileira, a
República de Curitiba opera segundo a norma "para os amigos tudo,
para os inimigos, a lei". Os que esperam uma solução
jurídica para a grave crise ética que assola a
nação fazem lembrar as aventuras fantásticas do
Barão de Münchhausen, que se salvou do pântano onde afundava,
puxando-se pelos cabelos. A corrupção faz parte da regra do jogo
e o poder judiciário não está acima da Lei. Problemas
políticos, relacionados com a forma de organização do
poder, só podem ser resolvidos com decisões políticas. Sem
a corrupção sistêmica, a dominação burguesa
entra em colapso.
Em contrapartida, os que reduzem a crise política a uma crise de
governabilidade, provocada pela falta de escrúpulos de uma
oposição golpista que, numa conjuntura econômica delicada,
apostou todas as fichas no "quanto pior melhor", como repete a
ladainha petista, escondem o fato notório de que o governo Dilma caiu
porque foi incapaz de administrar suas próprias
contradições - problema potencializado pela surpreendente
inépcia de seu alto comando. Ao subordinar a razão de Estado aos
imperativos do grande capital, o governo petista ficou sujeito à
desestabilização assim que sua estrita funcionalidade ao mercado
ficou comprometida. Ao vincular sua base de sustentação
parlamentar ao que há de mais corrupto e fisiológico na
política brasileira, ficou sujeito à fuga das ratazanas assim que
o barco começou a fazer água. Ao manter intacto o
monopólio dos grandes meios de comunicação, na
ingênua suposição de que a docilidade com os maganos da
mídia teria como contrapartida sua relativa neutralidade na guerra pelo
poder, ficou completamente desarmado para impedir sua execração
pública. Por fim, e, sobretudo, ao negar a organização
independente dos trabalhadores como força motriz das
transformações sociais, o PT fomentou a
fragmentação e o desalento das massas, comprometendo a
mobilização da única força social potencialmente
capaz de enfrentar uma conspiração urdida nas altas esferas do
poder.
A narrativa de que a presidente foi vítima de um "golpe"
não é falsa, mas omite o fato de que o primeiro golpe o
estelionato eleitoral foi cometido pela própria Dilma ao jurar na
campanha eleitoral que não faria o ajuste fiscal "nem que a vaca
tossisse". Denunciar o segundo golpe, ocultando o primeiro, deixa na
penumbra o fato de que a verdadeira vítima dos atentados contra a
democracia é a classe trabalhadora, que votou de maneira
inequívoca contra o ajuste neoliberal. Na conspiração
contra os direitos dos trabalhadores, Dilma e Temer são
cúmplices, pois o segundo golpe apenas arrematou o primeiro. Mais ainda.
A denúncia do golpe parlamentar como um atentado à democracia,
sem a devida ponderação sobre o caráter restrito da
democracia brasileira, não permite perceber a essência da crise
que abala o sistema representativo: a impermeabilidade do Estado brasileiro
às demandas populares. Supervalorizar os aspectos formais da democracia
brasileira, sem a devida explicitação sobre seu conteúdo
real, é uma forma capciosa de esconder os atentados perpetrados pelo PT
contra a classe trabalhadora e manter o debate político hermeticamente
enquadrado na lógica fechada do cretinismo parlamentar.
III. A crise em perspectiva histórica
Postas em perspectiva histórica, a derrocada do governo do PT e a
ascensão da República dos Delinquentes devem ser vistas como um
capítulo da severa crise econômica e política que abala a
vida nacional. Antes de dificuldades conjunturais, que poderiam ser resolvidas
num curto espaço de tempo com a substituição de
administradores inoperantes e a adoção de medidas técnicas
e institucionais, os problemas brasileiros refletem contradições
estruturais, complexamente determinadas por forças externas e internas
à sociedade nacional. Para o bem ou para o mal, tais
contradições não serão resolvidas sem
transformações de grande envergadura nas estruturas
econômicas, sociais e políticas.
A perspectiva de um cenário econômico de grande instabilidade, que
coloca no horizonte a possibilidade de uma estagnação de longa
duração, resulta fundamentalmente da absoluta impotência do
Brasil para defender-se dos efeitos devastadores da crise que paralisa a
economia mundial. Após décadas de crescente
exposição à fúria da concorrência global, a
economia brasileira perdeu os elos estratégicos de seu sistema
industrial e comprometeu a eficácia de seus centros internos de
decisão, ficando sem meios objetivos e subjetivos para colocar em
prática uma política econômica capaz de defender os
interesses nacionais. Sem mecanismos endógenos de expansão da
demanda agregada, a mola propulsora do crescimento passou a depender de fatores
exógenos à economia nacional. Nessas condições,
enquanto o comércio internacional permanecer deprimido, não
há como recuperar de maneira sustentável o processo de
geração de renda e emprego. Ao relegar o Brasil a uma
posição ainda mais rebaixada na divisão internacional do
trabalho, a "integração profunda", comandada pelos
Estados Unidos, deve agravar a dependência comercial do país em
relação à expansão da demanda de produtos
agrícolas e minerais no mercado internacional.
A expectativa de uma crescente instabilidade política é
determinada pela crise estrutural que abala o sistema de
representação. Ao evidenciar a presença de um gigantesco
mal-estar social, a intensificação da luta de classes coloca em
questão a funcionalidade do pacto de poder que viabilizou a
transição lenta, segura e gradual do regime militar para a
democracia de baixa intensidade da Nova República. O caráter
estrutural da crise política fica patente na total incompatibilidade
entre os princípios que fundamentaram a Constituição de
1988 - a conquista de direitos da cidadania, a ampliação das
políticas públicas e a afirmação da soberania
nacional - e as diretrizes que orientaram a ofensiva neoliberal iniciada por
Collor, consolidada por Fernando Henrique Cardoso e continuada por Lula e Dilma
- a investida do capital contra os direitos dos trabalhadores, o ataque do
rentismo sobre os fundos públicos e o avanço do mercado sobre o
Estado. As Jornadas de Junho de 2013 acirraram as contradições.
Os jovens foram às ruas para exigir o cumprimento da
Constituição. No entanto, os imperativos do capital em tempo de
crise apontam em direção contrária. O caráter
irreconciliável das vontades políticas que polarizam a luta de
classes não deixa margem para acomodação. A acelerada
decomposição do governo Dilma e o caráter espúrio
de seu sucessor expressam o antagonismo irreparável entre vontades
políticas inconciliáveis: a exigida nas ruas e nas urnas e a
exigida pelo chamado mercado, manifestada nos ultimatos das agências
internacionais de avaliação de risco e na ladainha neoliberal
martelada dia e noite nos grandes meios de comunicação. Enquanto
tal antagonismo não for resolvido, de uma forma ou de outra, não
há a menor possibilidade de que o Brasil possa vivenciar um novo ciclo
de expansão e paz social.
Dentro dos parâmetros da ordem global, a solução para a
crise brasileira passa pela reciclagem do padrão de
acumulação liberal-periférico e pela
recomposição do padrão de dominação
autocrático-burguês.
Nos marcos do liberalismo, as crises econômicas são enfrentadas
invariavelmente com um aprofundamento das reformas liberais. O fundamental
é ajustar a economia e a sociedade aos novos imperativos do
padrão de concorrência global ditado pelo grande capital. No curto
prazo, o ajuste coloca a necessidade de recompor a taxa de lucro do capital e
abrir novos negócios para os capitais excedentes, com políticas
de arrocho salarial, cortes de gasto público, diminuição
da carga tributária sobre as empresas, recomposição do
rentismo lastreado em dívida pública, ampliação da
privatização e aprofundamento do processo de
liberalização. No longo prazo, o ajuste consiste em adequar a
economia brasileira à sua nova posição na divisão
internacional do trabalho, o que coloca no horizonte a necessidade de aumentar
o grau de especialização das forças produtivas, reduzir a
soberania do Estado nacional e rebaixar o nível tradicional de vida dos
trabalhadores, adaptando-o à condição mais precária
de uma economia primário-exportadora. Entre o curto e o longo prazo, a
sociedade fica no limbo, sujeita à temporalidade abstrata do capital
monopolista em tempos de crise, cuja essência consiste no tempo
necessário para a destruição do excedente absoluto de
capital que emperra a retomada do processo de acumulação. Em
outras palavras, no médio prazo, a economia fica sujeita à
estagnação por prazo indeterminado. Ao acelerar e aprofundar o
processo de reversão neocolonial, o projeto do grande capital coloca no
horizonte a transformação definitiva do Brasil numa megafeitoria
moderna.
À ofensiva do capital sobre o trabalho no plano econômico
corresponde ofensiva simétrica no plano político. A fim de
harmonizar os interesses da burguesia brasileira com os do capital
internacional, as classes dominantes terão de aprofundar a
liberalização e a internacionalização da economia,
esvaziando ainda mais a soberania nacional. O novo padrão de
satelitização deve obedecer às diretrizes dos acordos
bilaterais de livre comércio, impulsionados pelos Estados Unidos. Com a
finalidade de evitar a rebeldia das massas e perpetuar a passividade das
classes dominadas, o novo padrão de dominação
deverá aprofundar o Estado de Exceção, intensificando o
processo de criminalização das lutas sociais e políticas.
O sentido mais geral desse movimento já foi dado pela política
antiterrorista aprovada por Dilma Rousseff nos estertores de seu governo. Por
fim, para dotar a economia brasileira de um mínimo de estabilidade,
protegendo-a das instabilidades provocadas pela concorrência global,
sobretudo de seus efeitos catastróficos sobre os agentes
econômicos mais débeis, a relação entre os setores
modernos e atrasados que compõem o parque produtivo nacional terá
de ser redefinida. Os setores modernos de alta produtividade expostos à
concorrência global serão regidos pelos padrões formais
estabelecido sem acordos internacionais, enquanto os setores anacrônicos
de baixa produtividade, associados ao fornecimento das grandes empresas
exportadoras e ao atendimento do mercado interno protegido da
concorrência de importados, serão relegados à crescente
informalidade. No momento, é impossível vislumbrar a
equação política capaz de resolver essas questões.
Quando o velho resiste à morte e o novo não tem força para
nascer, a sociedade fica sujeita a forças indeterminadas e prevalece uma
grande confusão.
IV. O Desafio da esquerda socialista
Os imperativos do capital em tempos de crise estrutural colocam na ordem do dia
a necessidade de uma ofensiva sobre o trabalho. Dentro dos parâmetros do
liberalismo, as alternativas da sociedade ficam restritas à forma de
graduar o ritmo e a intensidade do ajuste neoliberal. Não há,
todavia, nenhuma margem para questionamento sobre o sentido do ajuste - a
retirada de direitos adquiridos e o aprofundamento do processo de
reversão neocolonial. Para realizar seu desiderato, o capital tem um
projeto político bem definido - o ajuste econômico; um
método eficaz para implantá-lo - a terapia de choque que mobiliza
a violência econômica e política como forma de
submissão dos trabalhadores e usurpação da soberania
nacional; e uma complexa organização política para
executá-lo o Estado de Exceção, como comitê
executivo da burguesia.
As necessidades dos trabalhadores em tempos de ofensiva liberal colocam na
ordem do dia a urgência de uma resposta prática que impeça
o avanço da barbárie capitalista. A solução
democrática para o impasse histórico em que o país se
encontra passa, portanto, por uma completa ruptura com o padrão de
acumulação liberal-periférico e com o padrão de
dominação autocrático que lhe corresponde. Daí a
urgência de um grande debate sobre o projeto político, o
método e as formas de organização capazes de realizar tal
tarefa. A questão torna-se ainda mais candente quando se leva em
consideração o fato de que o programa que inspirou a luta da
esquerda nas últimas décadas e que permanece hegemônico- o
programa democrático-popular parte da avaliação
oposta.
A concepção de que existiriam condições objetivas e
subjetivas para compatibilizar capitalismo, democracia e soberania nacional
a essência do programa democrático-popular parte de
dois supostos fundamentais: a convicção de que o Brasil possui as
bases materiais de um capitalismo autodeterminado; e a crença de que,
restabelecido o estado de direito, a luta de classes passou a ser regida por
uma lógica baseada na busca do bem comum. A avaliação de
que não existiriam obstáculos materiais e bloqueios
políticos intransponíveis para a implantação da
justiça social levou à conclusão de que o capitalismo
não condenava fatalmente o povo brasileiro à pobreza.
Uma leitura equivocada da realidade histórica induziu as forças
de esquerda a uma brutal subestimação das dificuldades que seriam
encontradas para transformar a realidade. A superestimação do
significado da industrialização pesada, que impulsionou o forte
dinamismo da economia brasileira entre 1950 e 1980,levou à miragem de
que existiria margem de manobra para combinar acumulação de
capital, distribuição de renda e autonomia nacional. As
esperanças geradas pela volta dos militares aos quartéis
alimentaram a ilusão de que finalmente a sociedade brasileira teria
criado condições subjetivas para a realização de
reformas sociais que redundassem em expressiva melhoria nas
condições de vida do conjunto da população. O
retrospecto das últimas quatro décadas não deixa,
entretanto, margem a dúvida. Imerso num processo de reversão
neocolonial, o Estado brasileiro ficou completamente refém dos
negócios do grande capital, perdendo, de uma vez por todas, a capacidade
de fazer políticas públicas subordinadas aos imperativos da
universalização de direitos universais e às necessidades
ditadas pelos interesses estratégicos da nação.
Para que a história não se repita como farsa, é preciso
superar a teoria e a prática que levaram ao trágico
naufrágio do PT. Enquanto os trabalhadores não se convencerem de
que é impossível resolver os problemas fundamentais do povo sem
uma ruptura radical com a ordem capitalista, a política
permanecerá presa ao circuito fechado de escolhas binárias que
não alteram o curso da história. Enquanto os trabalhadores
não se convencerem de que é impossível romper a ordem
estabelecida sem questionar o caráter restrito da democracia, a luta de
classes permanecerá enquadrada nos marcos de uma institucionalidade
perversa que esteriliza o potencial revolucionário das terríveis
contradições que brotam em uma sociedade em acelerado processo de
reversão neocolonial. Para estar à altura dos desafios
históricos, o polo trabalho precisa materializar sua vontade
política em um projeto simples e bem definido que tenha como norte a
busca da igualdade substantiva direitos já; precisa definir uma
estratégia de luta capaz de enfrentar a terapia de choque a
ocupação, a desobediência civil e a rebelião das
massas como centros nevrálgicos da luta de classes; e precisa construir
uma organização que unifique todas as organizações
de trabalhadores comprometidas com a busca da igualdade substantiva em um
grande movimento pela revolução brasileira.
31/Agosto/2016
Texto originalmente escrito para a revista
Novos Temas,
do Instituto Caio Prado.
O original encontra-se em
www.iela.ufsc.br/...
e em
pcb.org.br/portal2/11976
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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