I
As recentes eleições no Brasil conferiram à Lula um
segundo mandato. Se em 2002, quando houve a primeira vitória nacional
do partido dos Trabalhadores, ela sinalizava, em alguma dimensão, o
inicio da desmontagem do neoliberalismo no Brasil. Praticamente
concluído o primeiro mandato presidencial de Lula, pode-se constatar que
os elementos de
continuidade
suplantaram completamente os traços de
descontinuidade,
abafando e finalmente travando as possibilidades de mudanças abertas
com a eleição de 2002. O Brasil ajudava a referendar uma tese que
tem sido reeditada em vários (ainda que não em todos)
países:
muitas forças de esquerda que se credenciam para demover o
neoliberalismo, quando chegam ao poder, freqüentemente tornam-se
prisioneiras da engrenagem neoliberal.
Para aqueles que esperavam uma significativa mudança da política
econômica, contraditando os interesses do FMI; que almejavam a
contenção do fluxo de capitais que migram para o sistema
financeiro internacional, esgotando a produção da nossa riqueza;
que imaginavam que pudesse ocorrer uma recuperação substancial do
salário mínimo nacional, contra a política de arrocho
salarial; que combatiam a produção dos transgênicos que
tantos riscos podem trazer a nossa saúde; que lutavam pela
realização de uma reforma agrária profunda,
imprescindível para desmontar a miséria brasileira; que esperavam
uma real recuperação da
res publica
contra a política de privatizações dos anos 1990, enfim,
pelo início de um programa efetivo de mudanças, com prazos e
caminhos construídos com sólida impulsão popular e social,
é imperioso constatar que a primeira "reforma" do governo
Lula, logo em 2003, foi a (contra)reforma de previdência pública e
sua privatização, foi agendada pelo FMI, imposição
que o governo aceitou sem resistência, desestruturando um setor
importante da classe trabalhadora brasileira, composta pelos
funcionários públicos e que havia sido, até então,
um dos pilares de sustentação do PT, particularmente no
dificílimo período da ditadura militar.
E, ao fazer isso, o governo Lula teve que derrotar cabalmente, exemplarmente, a
ação dos trabalhadores públicos, escolhidos pelo governo
como elemento causal da tragédia brasileira. Sua força não
se voltou contra os capitais financeiros, contra os capitais transnacionais,
contra os proprietários agrários, contra as
privatizações que desmontaram o setor produtivo estatal e os
serviços públicos, mas contra os trabalhadores do espaço
público, um dos raros espaços onde se preserva a dignidade dos
assalariados e se tenta obstar o flagelo dos mercados.
E, de lá para cá, a política de
superávit
fiscal se acentuou, seguindo o receituário do FMI, que não cansa
de citar o governo Lula como exemplo da América Latina; a
produção do país foi essencialmente voltada para a
remuneração do capital financeiro nacional e transnacional,
além do grande capital produtivo.
Por que tal fenômeno se efetivou? Por que ao invés do
início da
descontinuidade
e ruptura com o neoliberalismo, o governo de Lula do PT postou-se como
expressão forte de sua
continuidade
?
As explicações são, por certo, complexas, mas se encontram
em grande medida na contextualidade vivenciada na década dos 90, onde
pudemos presenciar movimentos de grande amplitude: 1) a
proliferação do neoliberalismo na América Latina; 2) o
desmoronamento cabal do "socialismo real" e a prevalência
equivocada da tese que propugnava pelo "fim do socialismo"; 3) a
socialdemocratização de parcela substancial da esquerda e seu
influxo para a agenda
social-liberal
, eufemismo que a certa "esquerda" usa quando pratica o
neoliberalismo.
Como o PT sofreu esse processo? Responder a essa questão é
condição para entendermos o que vem se passando no caso
brasileiro e sua esquerda dominante.
II
O PT parece completar seu ciclo e chegar à maioridade política:
nascido no seio das lutas sociais, sindicais e da esquerda do final dos anos
70, o jovem partido surgia, então, sob o signo da recusa, tanto do
"socialismo real", quanto da socialdemocracia, sem migrar para o
capitalismo. Sua vitalidade decorria do forte vínculo com as
forças sociais do trabalho. A década de 80, que tantos consideram
como a "década perdida" no Brasil, para o mundo do trabalho
foi um período de criação e avanço. Bastaria
lembrar que ali floresceram, além do PT, da CUT e do MST, uma pletora de
movimentos sociais e sindicais, dos campos e das cidades, que irrompiam pela
base, questionando nossa trajetória quase prussiana, autocrática,
cujos estratos "de cima" expressavam um universo burguês ao
mesmo tempo agressivo e medroso, elitista e insensível.
Nos anos 1990, a década da desertificação neoliberal, uma
tormenta se abateu sobre o nosso país. Tivemos
privatização acelerada, informalidade descompensada,
desindustrialização avançada e
financeirização desmesurada. Tudo em conformidade com o figurino
global. Se o governo Collor foi marcado por uma espécie de
semi-bonapartista aventureiro, fonte inesgotável de irracionalidade, com
Fernando Henrique Cardoso e sua "racionalidade acentuada", o
país descarrilou nos trilhos do social-liberalismo, quando não do
próprio neoliberalismo, uma vez que essa distinção
é mais semântica do que real.
O PT sofreu essa tempestade, nos anos 1990, oscilando entre a resistência
ao desmonte e a aceitação da política da
moderação. Lutava contra o receituário e a
pragmática neoliberais, mas aumentava sua sujeição aos
calendários eleitorais, atuando cada vez mais no leito da
institucionalidade. De
partido contra a ordem
foi se metamorfoseando em
partido dentro da ordem.
As derrotas eleitorais de Lula em 1994 e 1998 intensificaram seu
transformismo,
enquanto o Brasil também se modificava profundamente.
No apogeu da fase da financeirização do capital-dinheiro, do
avanço tecno-científico, do mundo digital e quase espectral, onde
tempo e espaço se convulsionam, o Brasil vivenciava uma
mutação do trabalho que alterava sua morfologia, da qual a
informalidade, precarização e desemprego,
ambos estruturais,
são expressões. Ingressávamos, então, na simbiose
entre a era da
informalização
do trabalho e da
informatização
do capital.
Quando Lula venceu as eleições em 2002, ao contrário da
potência criadora das lutas sociais dos anos 1980, o cenário era
de estancamento em meio a tanta destruição.
Sua eleição foi, por isso, uma vitória política
tardia.
Nem o PT, nem o país eram mais os mesmos. O Brasil estava
desertificado
enquanto o PT havia se
desvertebrado.
A
Carta aos Brasileiros,
assinada pelo PT em plena campanha eleitoral era uma clara
demonstração de que o governo do PT seria fiador dos grandes
interesses do capital financeiro, sob o comando do FMI. Por isso ela se tornou
conhecida pelos seus críticos como
Carta aos Banqueiros...
Por isso, a política que o governo do PT vem implementando, desde seu
primeiro mandato (2002-6), é expressão de seu
transformismo
(Gramsci) e sua conseqüente adequação à ordem. Mas,
a intensidade da subordinação ao financismo, ao ideário e
à pragmática neoliberais, deixaram estupefatos até seus
mais ásperos críticos: o governo do PT manteve pelos quatros anos
uma política econômica que preserva o desemprego e a
informalidade, com poucas oscilações, acentuando uma
política exclusivamente
assistencialista,
chamada Bolsa-Família, que oferece uma renda, em média entre 8 a
40 dólares por mês para as famílias de baixíssima
renda. Sua postura em relação aos transgênicos curvou-se
às transnacionais e sua ação contra a previdência
pública foi a visceral negação de todo seu passado,
gerando catarse junto aos novos operadores dos fundos de previdência que
vislumbram a feliz confluência do mundo financeiro com o sindicalismo de
negócios. Nenhum elemento estrutural que preserva a
miséria brasileira,
nenhum aspecto da realidade desigual, nenhum interesse do capital (seja
financeiro ou industrial ou ainda de serviços) foi sequer minimamente
arranhado.
Ao contrário, o governo Lula mostrou enorme competência em dividir
os trabalhadores privados em relação aos trabalhadores
públicos.
Se não fosse trágico, poder-se-ia dizer que o partido que nasceu
na luta de classes (PT) converteu-se no partido que incentiva a luta
intra-classe.
Claro que para tanto foi necessário repetir a história anterior,
dos "processos e depurações", que levou o PT dominante
a expulsar a coerência para preservar a subserviência, expulsando
três parlamentares, a senadora Heloísa Helena e os deputados
Luciana Genro, Babá e João Fontes.
O mais exitoso partido de esquerda das últimas décadas, que
tantas esperanças provocou no Brasil e em tantas outras partes do mundo,
assemelha-se hoje ao
New Labour
da velha Inglaterra. Acabou por se converter num partido da ordem, exauriu-se
enquanto partido de esquerda, capaz de transformar a ordem societal, para se
qualificar enquanto gestor dos interesses dominantes no país.
Converteu-se num partido que sonha em humanizar o nosso capitalismo,
combinando uma política de privatização dos fundos
públicos, atendendo tanto aos interesses do sindicalismo de
negócios quanto especialmente aqueles presentes no sistema financeiro
nacional e especialmente internacional que efetivamente dominam.
III
O que podemos esperar, então, do segundo governo Lula?
A política de alianças ilimitadas, com todos os setores de
centro, de direita e mesmo de extrema-direita, mostra que qualquer
ilusão em relação ao segundo governo Lula, ou é
má fé ou completa desinformação. Consolida-se, mais
uma vez, o triste processo de cooptação do que de melhor as
classes trabalhadoras criaram nas últimas décadas.
A política econômica, por exemplo, em benefício dos
capitais financeiros e do grande capital produtivo, vem reiterando a
dependência aos ditames do FMI. A concentração da terra se
mantém. O sentido público e social do estado está sendo,
passo à passo, desmantelado. A maior virulência praticada pelo
governo do PT foi, como dissemos acima, dada pelo desmonte da política
de previdência pública e sua privatização. A
política dos transgênicos curvou-se, como também já
dissemos anteriormente, à pressão das transnacionais, como a
Monsanto. A política externa, particularmente em relação
aos EUA e o governo Bush, que deveria ser de frontal oposição e
confronto, é de conciliação, quando não de
adesão. Procura equilibrar-se entre a esquerda Chavez, Morales e
Fidel Castro e o pior da direita, como os governos da Colômbia,
México e os EUA.
Se isso já não bastasse, Lula ainda tentou, em meados de seu
primeiro mandato, defender a flexibilização das leis de trabalho,
como os capitais transnacionais estão exigindo. Só não
levou à frente seu propósito pela eclosão da crise de
corrupção que atingiu a alma de seu governo. E sabemos que os
capitais globais estão exigindo, cada vez mais, a
flexibilização dos direitos do trabalho, forçando os
governos nacionais a se ajustarem à fase da acumulação
flexível. Flexibilizar a legislação do trabalho significa,
não é possível ter nenhuma ilusão sobre isso,
aumentar ainda mais a precarização e destruição dos
direitos sociais que foram arduamente conquistados pela classe trabalhadora,
desde o início da Revolução Industrial na Inglaterra e
especialmente pós-1930, quando se toma o caso brasileiro.
Como a lógica capitalista é acentuadamente destrutiva, os
governos nacionais estão sendo cada vez mais pressionados a adaptar sua
legislação social às exigências do sistema global do
capital, aos imperativos do mercado, destruindo profundamente os direitos do
trabalho.
É esse cenário que, depois de inúmeras tentativas feitas
durante o período FHC, o FMI exigirá do segundo governo Lula a
retomada do projeto de flexibilização de legislação
sindical e trabalhista no Brasil. Se durante os anos 1990, houve forte
oposição dos sindicatos, especialmente vinculados à CUT e
ao PT, contra esses projetos, agora presenciamos o inverso: atrelados ao
governo, os setores dominantes da CUT e do PT são os maiores defensores
das propostas do governo Lula, sejam elas quais forem. Tudo em nome da chamada
"governabilidade".
Com o segundo mandato de Lula trata-se de destruir a coluna vertebral da
legislação social brasileira, no que ela ainda tem de positivo,
no que diz respeito aos direitos do trabalho. Por isso, a reforma trabalhista,
elaborada pelo Fórum Nacional do Trabalho, com representantes dos
"trabalhadores, empresários e governo", todos escolhidos pelo
governo do PT, é antípoda daquilo que era defendido pela CUT e
pelo PT durante os anos 1980. Numa síntese, é a
negação da autonomia, da liberdade e da independência
sindicais. Dividida em duas partes, o desmonte começa pela reforma
sindical.
Depois viria a reforma trabalhista, na onda da desconstrução
global. Ela tem pelo menos três pontos nefastos.
Primeiro: é extremamente cupulista, transferindo para as centrais
sindicais o poder de negociação de direitos dos trabalhadores,
restringindo a participação dos sindicatos e das assembleias de
base para a realização dos acordos de classe.
Segundo: as centrais passam a ser definidas a partir da sua
representação, o que fere qualquer possibilidade de
exercício de autonomia e liberdade sindicais, ao estabelecer limites
mínimos para a representação dos sindicatos.
Terceiro: o imposto sindical e as contribuições assistenciais
são substituídas pela chamada Contribuição de
Negociação Coletiva, ferindo-se o desejo fundamental do
sindicalismo autônomo que é a cotização livre e
voluntária dos trabalhadores para a manutenção dos
sindicatos. Trata-se de trocar gato por lebre, para manter a velha (e
também a nova) burocracia sindical que sustenta há anos o
chamado
peleguismo sindical.
Trata-se, portanto, de uma "reforma" que preserva e intensifica o
verticalismo, o cupulismo, o burocratismo das centrais sindicais, tolhendo o
nascimento de novos organismos de base e restringindo ainda mais a
ação autônoma dos trabalhadores.
IV
Mas a crise política do governo Lula, presente na
corrupção intensa desencadeada pela cúpula do PT e do
governo Lula foi ainda mais profunda, atingindo o próprio
coração do poder. Crise que quase levou o PT e seu governo
precocemente ao fim e só a custa de fortes interesses econômicos e
políticos dominantes que não queriam turbulência
política que pudesse alterar a política econômica do
governo foi que permitiu apoio para Lula poder terminar seu primeiro
mandato sem ruptura.
Mas, a reedição, neste segundo mandato, da política de
aliança de classes com todos os setores, é clara
reprodução do quadro anterior. Em termos eleitorais, a
população, ao votar em Lula no segundo mandato, preferiu,
majoritariamente, dar-lhe a vitória, para impedir o retorno do esquema
PSDB e PFL, partidos da direita brasileira, que sempre tiveram uma
política elitista e de clara insensibilidade social. A amplitude do
assistencialismo do governo Lula, aliado à preservação
integral dos grandes interesses dominantes,
preservados, garantidos e mesmo ampliados durante o governo Lula,
fechou um circulo favorável à sua reeleição. Mas
é evidente que a crise pode retornar e mesmo se agravar, tanto no plano
interno, quanto no plano externo, se a retração econômica
dos EUA atingir dimensão mais acentuada.
Favoreceu também o primeiro governo Lula, a vigência de um
cenário econômico internacional dos mais favoráveis, o que
não se pode esperar tão facilmente no segundo mandato. Mas
é visível que os movimentos sociais, como o MST (sem terra), dos
operários, do sindicalismo de esquerda, dos sem-teto, dentre tantos
outros, tendem a exigir do governo Lula o que ele não está
disposto a realizar. O que nos permite antever uma ampliação das
lutas sociais e políticas no Brasil atual.
Como conclusão podemos afirmar que o mais expressivo partido de esquerda
do Brasil soçobrou vertiginosamente frente aos ditames e encantos da
ordem dominante. Não ofereceu nem mesmo uma única
opção alternativa e contrária à pragmática
dominante, que riscasse um pouco o receituário do superávit, do
ajuste fiscal, da defesa dos bancos e finanças globais, do incentivo aos
capitais voláteis etc. A Bolsa-Família, que puxou os votos em
Lula, nas eleições de 2006, é de um assistencialismo que
há alguns anos atrás seria recusada até mesmo pelos
setores localizados mais ao centro do espectro político, tal sua
insuficiência. É incapaz de arranhar minimamente a estrutura
geradora da miséria e da barbárie social. Passa longe disso.
Na contextualidade política marcada pelo neoliberalismo,
financeirização e mundialização do capital,
desregulamentação e precarização do trabalho, o
segundo governo Lula procura sustentar-se numa política de
"coalização" com os setores mais tradicionais da
direita brasileira que foram e ainda são
responsáveis pela perpetuação da dominação
burguesa no Brasil, para não falar da corrupção privada e
política que sempre sustentou e preservou estes mesmos interesses
dominantes.
Se esse é o quadro político brasileiro, torna-se claro o novo
desafio da esquerda: a criação de um pólo social e
político de base, que não tenha medo em oferecer ao país
as causas reais, profundas, históricas e estruturais, de nossas mazelas
sociais e políticas. E, desse modo, que se insira nas lutas sociais e
políticas da América Latina, ajudando a retomar o dilema do
século XXI, que nos obriga, uma vez mais, a repor a questão do
socialismo. Tema que o governo Lula e o PT dominante abandonaram, faz tempo...
[*]
Professor de Sociologia do IFCH/UNICAMP (Brasil) e autor de, entre outros,
Los Sentidos del Trabajo
(Ed. Herramienta, Argentina);
Adios al Trabajo?
(Ed. Herramienta, Argentina);
Lavoro in Tràppola
(Jaca Book, Milão);
O Caracol e sua Concha
(Boitempo, São Paulo) e
A Desertificação Neoliberal no Brasil
(Ed. Autores Associados, Campinas), entre outros livros. Colabora regularmente
em revistas estrangeiros como
Margem Esquerda
(Brasil),
Herramienta
(Argentina),
Trajectórias
(México),
Latin American Pespectives
(EUA),
Proteo (Itália)
e
Asian Journal of Latin American Studies
(Coréia).
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