Como Washington destruiu a OPAQ
Hoje, vendo em retrospecto os acontecimentos dos últimos dois anos,
torna-se mais fácil compreender o que motivou a agressividade dos EUA
contra o embaixador José Maurício Bustani.
É preciso lembrar que, há exatamente dois anos (abril de 2002),
os Estados Unidos convocavam uma conferência extraordinária dos
países membros da Organização para a
Proibição das Armas Químicas
(OPAQ)
para votar uma inédita e alarmante proposta: afastar o diretor-geral da
organização, o brasileiro José Mauricio Bustani.
A proposta surpreendia porque a gestão de Bustani, fundador da OPAQ,
vinha sendo avaliada como excelente, tanto que ele acabara de ser reeleito para
um segundo mandato por aclamação e com voto favorável do
governo Clinton. De uma hora para outra, o governo Bush acusava Bustani de
"má gestão" e ameaçava, em alto e bom som,
não pagar sua enorme dívida para com a OPAQ caso Bustani
permanecesse -- o que levaria à asfixia da organização.
Washington conseguiu, assim, obter 48 votos a favor da saída de Bustani,
mas não impediu que 43 países se abstivessem e sete votassem
contra. A proposta só foi aprovada por força de uma regra muito
bizarra que exclui as abstenções do cômputo da
votação. Quando Bustani caiu, eu decidi pedir demissão da
OPAQ: para mim, os EUA haviam destruído a capacidade de aquela
organização realizar -- com a independência e
imparcialidade que dela se esperam -- o seu nobre trabalho.
Estava claro, contudo, que os mais de cem países membros da OPAQ
não haviam compreendido bem as motivações dos EUA, nem as
implicações da decisão que haviam sido coagidos a tomar.
Hoje, contudo, com o benefício da retrospectiva dos acontecimentos nos
últimos dois anos, fica mais fácil compreender a agressividade
dos EUA contra Bustani. Está claro que, em abril de 2002, os EUA estavam
decididos a lançar-se, com ou sem autorização do Conselho
de Segurança da ONU, numa guerra "preventiva" contra o Iraque
sob a justificativa de que o país possuía armas químicas e
poderiam ser repassadas para terroristas.
Caso tivessem prosseguido, os esforços diplomáticos de Bustani no
sentido de convencer o Iraque (como o fizeram com dezenas de outros
países) a aderir à OPAQ teriam prejudicado o argumento que os EUA
queriam explorar para justificar a guerra. Tivesse entrado para a OPAQ, o
Iraque teria podido comprovar sua situação de forma
pacífica e destruído, sob a supervisão de Bustani,
eventuais arsenais proibidos. O mundo seria hoje mais pacífico.
Quais as conseqüências da queda de Bustani? Washington não
apenas removeu da chefia da OPAQ um grande diplomata de carreira do Brasil, mas
também quebrou a espinha dorsal da organização, impondo
sobre ela sua vontade política, inclusive o sucessor de Bustani, por
meio de um inescrupuloso jogo de poder. Hoje, caso os EUA requeiram à
organização que faça uma "inspeção
surpresa" no território de um outro país, alguém pode
realmente confiar na imparcialidade da OPAQ? E se o Irã, que os EUA
incluem no "Eixo do Mal", pedisse à organização
uma inspeção surpresa no território americano, quem
conseguiria acreditar em sua capacidade de fazer um trabalho independente?
Lamentavelmente, está hoje claro que a OPAQ perdeu sua
independência e imparcialidade.
Uma outra razão para nos lembrarmos do ex-diretor-geral da OPAQ foi a
sentença adotada pelo Tribunal Administrativo da
Organização Internacional do Trabalho (OIT), em Genebra em julho
de 2003, ao cabo de processo movido por ele contra a OPAQ. Bustani, que
não pretendeu ser reconduzido ao cargo, questionou a legalidade de sua
demissão com vistas a evitar que se criasse a partir dela um precedente
para as organizações internacionais em geral. Os juízes da
OIT posicionaram-se claramente em favor de Bustani: comprovada a ausência
do "devido processo legal", a falta de base das
acusações e a ilegalidade da interrupção de seu
contrato de trabalho de prazo determinado, entre outros, declararam
"nula" e "ilegal" a decisão da OPAQ, condenando a
OPAQ a pagar indenizações por danos materiais e morais.
Mais do que isso, o tribunal foi claro quanto à ilegalidade do
precedente do caso da OPAQ, afirmando que "a independência dos
funcionários de organizações internacionais é uma
garantia necessária não apenas para eles próprios mas
também para o funcionamento adequado das
organizações" e advertindo que, se os altos dirigentes de
organismos internacionais pudessem ser demitidos à
discrição da autoridade empregada, se criaria uma
"inaceitável violação dos princípios sobre os
quais são fundadas as organizações internacionais".
Por pressão dos EUA, a OPAQ até hoje não executou a
sentença, buscando negociar um acordo com Bustani. O ex-diretor-geral
já rejeitou essa negociata, por entender tratar-se de uma atitude de
descaso com um julgamento final e inapelável de um alto tribunal
internacional, cuja autoridade a OPAQ deveria também respeitar.
Tem-se discutido muito sobre o futuro incerto das Nações Unidas e
sobre a necessidade de se reformar aquela organização. No
entanto, é preciso também falar sobre a importância do caso
Bustani: o multilateralismo e as organizações internacionais
não podem ser postos a serviço dos mais poderosos. Será
que interessa ao mundo que líderes como o secretário-geral das
Nações Unidas ou o diretor-geral da Organização
Mundial do Comércio se subordinem apenas aos Estados mais poderosos?
Não podemos permitir que a roda da História dê marcha a
ré, sob risco de, em vez de fazermos a ONU progredir, comprometermos a
respeitabilidade de que ainda desfruta. É preciso preservar a
integridade e a independência das organizações
internacionais. É preciso se lembrar de José Mauricio Bustani.
[*]
Representante da Nova Zelândia no Comitê
Consultivo sobre Desarmamento e ex-funcionário da
Organização para Proibição das Armas
Químicas (OPAQ). Artigo publicado no jornal brasileiro
O Globo
, em 26/Mai/2004.
Sobre o mesmo assunto
resistir.info
publicou:
O Brasil, os EUA, a OPAQ e Bustani
, de Samuel Pinheiro Guimarães, em 27/Abr/2002
Exército dos EUA patenteia granada para lançar armas biológicas, violando a Convenção internacional
, de
The Sunshine Project
, em 19/Mai/2003
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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