por Comitê Central do PCB
O PCB considera que a atual crise política nacional é mais um
capítulo da crise do sistema político-institucional brasileiro,
potencializada pelo modelo econômico vigente, de caráter
neoliberal, pela natureza anti-democrática e corrupta do nosso sistema
eleitoral, tudo isso agravado pelo enfraquecimento e privatização
do Estado e o saque indiscriminado do patrimônio público.
O Presidente Lula e o núcleo dirigente do PT, pelo modelo de governo que
adotaram e por sua aliança com partidos conservadores, são os
maiores responsáveis pelo surgimento desta atual crise política.
O rompimento dos compromissos com mudanças, assumidos por ele durante a
campanha eleitoral, e sua opção pela continuidade da
política econômica, das reformas neoliberais e dos métodos
herdados do período FHC criou as condições para a
degeneração do governo e do PT, cujo núcleo dirigente
assumiu as rédeas de uma rede de corrupção, que já
existia, adotando um comportamento igual ao das elites, na gestão do
Estado e no exercício do poder.
O PCB, que já havia rompido com o governo Lula, em março deste
ano (antes das denúncias de corrupção), agora, por mais
razões, não participa de qualquer iniciativa com vistas à
sustentação política do Presidente e, muito menos,
à sua candidatura à reeleição, mesmo porque
consideramos remotas as possibilidades de um golpe de direita, dado que o atual
governo não tem conteúdo de esquerda e vem, através da
dupla Meireles-Palocci, prestigiada pelo Presidente, cumprindo rigorosamente o
"dever de casa" encomendado pelo grande capital.
Pelo contrário, a burguesia se aproveita da crise para tornar Lula cada
vez mais dócil, cobrando-lhe a fatura da "blindagem" que vem
sendo promovida em torno dele. Já foram entregues, para setores
conservadores, os cobiçados Ministérios da Saúde, das
Minas e Energia e das Cidades. Já tramaram a retomada da "reforma
sindical", que significa flexibilização dos direitos
trabalhistas e enfraquecimento dos sindicatos, com a patética
cooptação, abençoada pela FIESP, do Presidente da CUT,
Luiz Marinho, como ministro do Trabalho.
O recente encontro de Lula com os dirigentes das confederações
nacionais empresariais faz parte desta "blindagem", que envolve
outros aspectos como o acobertamento de denúncias que podem incriminar o
Presidente e o acordo espúrio para evitar a abertura do sigilo
bancário dos fundos de pensão de empresas estatais. Aos setores
hegemônicos da burguesia não interessa o impedimento do
Presidente, sobretudo por que lhes interessa a manutenção da
atual política econômica.
Além do mais, começa a ficar claro que o esquema de
corrupção não foi inventado pelo PT, que, uma vez no
poder, passou a exercer seu controle. Agora, ao começar a
investigação sobre as fontes de financiamento da
corrupção, as denúncias transbordam também para o
PSDB e chegam perto de Daniel Dantas, figura sinistra que teve papel
fundamental no processo de sucateamento das estatais levado a cabo por FHC. A
lama, até agora, respingou pouco no PFL e em outros partidos burgueses
(que vêm cinicamente posando de campeões da moralidade) porque a
investigação atual se restringe apenas a um dos esquemas
corruptos de financiamento político-eleitoral.
Quanto mais se espalha e se agrava a crise, mais se criam as
condições para a consumação de mais um pacto das
elites. Em outras palavras, na linguagem popular, a crise pode acabar em
"pizza". Desta vez, este expediente, através do qual a
burguesia resolve as crises por cima, para evitar a mobilização
popular e uma eventual radicalização, pode contar com o respaldo
do PT, preocupado com o futuro do partido e com a preservação da
imagem e do mandato de Lula.
Começam a se esboçar manobras diversionistas como um arremedo de
reforma política e até golpismos, como a convocação
de uma Assembléia Constituinte, que pode resultar numa mudança
ainda mais conservadora da atual Constituição. Temos que estar
atentos também para uma manobra em que a burguesia tenta se aproveitar
do fato de as denúncias terem atingido também empresas estatais,
para retomar o processo de privatização.
Mas a crise, ocasionada pela corrupção dirigida pelo
núcleo dirigente do PT, pode fugir do controle das elites. O Parlamento
e o sistema político-institucional mostram suas vísceras,
às vistas do povo. As CPI's estão hoje entre os programas de
maior audiência na televisão brasileira, uma espécie de
"big brother" de celebridades políticas, o que revela o
interesse do brasileiro na apuração total das denúncias.
Começa a ficar claro para o povo o caráter excludente da
democracia burguesa, quando todos passam a saber a fortuna que custa a
eleição de um parlamentar, em grande parte dos casos com recursos
provenientes da corrupção, possibilitada e capitaneada por
corruptores ligados aos setores do capital que vivem às custas do
Estado.
Não bastará, portanto, cassar alguns poucos mandatos, exemplares,
num conchavo que já se esboça entre os partidos atingidos, para
salvar os demais mandatos na próxima eleição. Muitos dos
suspeitos desta e de outras crises que foram abafadas continuarão com
seus mandatos. A maioria dos suplentes que assumirão os mandatos dos
cassados foi financiada pela mesma corrupção.
Mas não só por isso. Este acordo espúrio não
resolverá a crise, porque o povo já sabe que a
corrupção tem ligação também com a compra de
votos para aprovação de leis e reformas constitucionais. Assim
sendo, são questionáveis todas as decisões adotadas pelo
parlamento, contra os interesses populares e o patrimônio nacional,
já que fraudadas pela compra de votos, como a reforma da
previdência, as PPP's, a nova lei de falências.
Quanto ao papel do Presidente Lula no mar de lama da corrupção,
não estamos entre aqueles que acreditam na sua inocência,
até porque não o subestimamos. Entretanto, até agora,
só há indícios de seu envolvimento, sem provas
consistentes. Por isso, não levantamos por enquanto, a bandeira de seu
impedimento, para enquadrá-lo no crime de responsabilidade.
Por outro lado, por considerarmos que este parlamento é o principal
personagem no banco dos réus, somos contrários a qualquer
processo de impedimento, sobretudo, se for o caso, do Presidente da
República, que seja decidido pelo Congresso Nacional. Se esta
necessidade vier a ocorrer, propomos que o impedimento seja decidido pelo povo,
através de plebiscito revogatório na forma de
eleições gerais antecipadas.
Neste quadro, a oposição de esquerda e progressista está
diante de alguns desafios. Além da necessidade de criarmos uma
alternativa à falsa polarização PT x PSDB, temos que
trazer os protagonistas principais para a cena política. O povo e os
movimentos sociais devem ser mobilizados e chamados a influir e decidir sobre a
crise, sob pena de assistirmos a mais um pacto das elites. Precisamos
apresentar propostas concretas e levantar bandeiras que sustentem a
mobilização popular.
Nesse sentido, o PCB contribui para a discussão política no seio
da oposição de esquerda e progressista, apresentando as seguintes
propostas:
Convocação de plebiscito para revogar as reformas neoliberais
aprovadas pelo Congresso Nacional;
Apuração de todas as denúncias, sem qualquer
conciliação;
Reabertura das investigações sobre as
privatizações do governo FHC;
Punição de todos os corruptos e corruptores;
Controle social sobre a gestão das empresas estatais;
Contra a política econômica, a reforma sindical e trabalhista e
todas as reformas neoliberais.
Rio de Janeiro, 7 de agosto de 2005
O original encontra-se em
http://www.pcb.org.br/boletimnovo%202.html
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Este documento encontra-se em
http://resistir.info/
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