Balanço de 2009 e desafios para 2010
A luta do MST pela democratização da terra
Quais foram os principais focos da luta do movimento este ano? Por quê?
Nossa atuação se deu centrada em trazer para a pauta do governo e
da sociedade a Reforma Agrária, que estava sendo pouco debatida na
agenda política e praticamente abandonada pelo governo como
política pública.
O governo fez uma opção pelo agronegócio como modelo de
desenvolvimento para o campo brasileiro e mantém a
realização da Reforma Agrária como resolução
de conflitos sociais isolados.
Fizemos lutas pelo assentamento das mais de 90 mil famílias acampadas.
Além disso, reivindicamos a recomposição do
orçamento da Reforma Agrária, que sofreu cortes pelo governo que
alegou ser por conta da crise econômica.
Como parte da luta, exigimos a atualização dos índices de
produtividade que há mais de 30 anos estão desatualizados. Isso
impulsionou o acirramento com o latifúndio.
Também faz parte das nossas reivindicações uma melhor
política de desenvolvimento para os assentamentos. Neste aspecto, as
nossas lutas cumpriram um papel fundamental, tanto do ponto de vista da
força que demonstrou no acampamento em agosto, quanto pela
articulação junto à sociedade, imprescindível nas
conquistas.
Mantivemos o enfrentamento às transnacionais da agricultura, que
avançam no controle da produção, do território e
dos recursos naturais, travestidas de agronegócio.
Na luta política, contribuímos em temas como o da crise
financeira, fazendo um amplo debate com forças da classe trabalhadora
para tirar um entendimento comum sobre a crise e seus efeitos, além de
uma agenda comum de lutas dos setores populares do país, visando uma
unidade entre os diversos movimentos sociais.
Defendemos também o controle popular e nacional sobre os recursos
naturais (e a estratégica função que cumprem para a
conquista da nossa soberania), que se expressou na campanha em defesa do
petróleo, onde contribuímos na articulação de um
caráter nacional.
Tivemos também uma importante atuação em defesa do
ambiente e participamos de articulações com diversos setores
contra mudanças devastadoras propostas pelo agronegócio no
Código Florestal. Entendemos que a destruição da
legislação ambiental causará uma maior
degradação da natureza para beneficiar a expansão do
agronegócio.
Qual o balanço do processo de Reforma Agrária neste ano? Houve
algum avanço?
Tivemos vitórias políticas simbólicas, mas houve pouco
avanço no campo econômico. Do ponto de vista das
desapropriações, não há o que comemorar. Não
houve um número significativo de famílias assentadas. Ao
contrário, foi o pior ano em conquista de assentamentos
praticamente não houve nada.
As nossas conquistas se deram no campo político, como a conquista do
compromisso do governo em atualizar os índices de produtividade
uma reivindicação histórica dos movimentos de luta pela
Reforma Agrária no país.
A desapropriação da fazenda Nova Alegria, em Felisburgo,
além de representar uma conquista por toda história e simbologia,
traz um novo precedente importante para as desapropriações de
terras no país com a utilização do critério da
função social ambiental. Isso era coisa até então
inédita no país e que pode possibilitar novas
desapropriações.
Outra vitória no campo político foi a conquista da área da
Syngenta no Paraná, que impôs uma derrota às transnacionais
e que leva o nome do nosso companheiro Keno, que marca a história de
resistência.
São simbólicas também as condenações
sofridas pelo Estado brasileiro na OEA, que confere uma derrota moral
não só aos latifundiários (que a depender da parte mais
poderosa da Justiça brasileira se manterão impunes), mas ao
conjunto das instituições brasileiras que criminalizam os
movimentos sociais e agem com parcialidade.
Significa um reconhecimento internacional às perseguições
impostas às lutas populares por setores do Estado brasileiro. Nesse
mesmo sentido, a realização do acampamento nacional em
Brasília representou uma grande demonstração de
força política, de unidade e de forte apoio da sociedade à
reforma agrária e ao MST.
E quais conquistas podemos destacar?
A nossa conquista principal foi trazer a Reforma Agrária para a pauta do
centro do governo e da sociedade, numa correlação de
forças tão adversa e, ao mesmo tempo, impor derrotas mesmo que no
campo político e simbólico aos setores mais reacionários
do país.
A nossa capacidade de dar respostas aos ataques do latifúndio, aliado a
setores do Poder Judiciário, da mídia e da Polícia Militar
no RS, SP, PE e Pará, onde não só a nossa base respondeu
com as lutas de massa, como soube mobilizar amplos setores da sociedade que se
posicionaram em defesa do MST e da Reforma Agrária.
O Acampamento Nacional deu uma demonstração de força
política do MST e trouxe para a pauta da sociedade e do governo a
Reforma Agrária e impôs respeito frente aos nossos inimigos e ao
governo federal.
Precisamos valorizar também as diversas iniciativas de defesa do MST
assumidas por inúmeros setores da sociedade frente aos processos de
criminalização impostos por nossos inimigos, numa
demonstração de solidariedade.
Precisamos saber interpretar e valorizar a conquista de Felisburgo e a
vitória contra a Syngenta no Paraná, e a conseqüente
importância para a luta pela Reforma Agrária.
Qual a avaliação da postura política e das
ações do governo federal e do Incra em 2009?
O governo federal fez uma opção clara pelo agronegócio
como modelo a ser aplicado no campo brasileiro e tem atuado com descaso em
relação à Reforma Agrária, que está sendo
tratada como política compensatória e só é aplicada
em situação de conflito social, não como política
de Estado para combater o latifúndio e a concentração da
terra.
O governo federal segue a mesma política do seu antecessor, maquiando os
números de famílias assentadas, incluindo nos dados
regularização fundiária, reposição de lotes,
projetos de colonização. São ações
importantes, mas que não mexem com a estrutura de
concentração fundiária.
O governo vem apostando também em políticas que favorecem a
concentração de terra, como a política proposta pelo
governo para a produção de etanol e biodiesel, que tem na
visão deles o agronegócio como modelo. São
opções como essas que tornam o país o maior concentrador
de terras do mundo, como atestou recentemente o censo agropecuário.
Grande parte da bancada ruralista é base de apoio do governo federal,
que cobra suas faturas pra apoiar o governo em processos de
votações importantes no Congresso e na véspera de
período eleitoral.
Assistimos, ao longo do ano, a episódios como o assassinato de Elton
Brum no Rio Grande do Sul, o fechamento das escolas itinerantes, tentativas de
criminalização no Pará e Pernambuco. Como o
Judiciário se articulou nesse processo de recrudescimento da
criminalização do MST em 2009?
Na verdade, grande parte do Judiciário brasileiro sempre esteve
historicamente comprometida com o latifúndio. Sempre foi muito
ágil em reprimir as ações dos movimentos sociais, em
especial a luta pela terra, ao mesmo tempo em que sempre foi moroso e parcial
com os crimes cometidos pelo latifúndio.
É só olharmos para os assassinatos cometidos contra trabalhadores
no campo pelos fazendeiros: praticamente quase nada foi julgado. Além
disso, mais de 15 mil famílias estão sendo impedidas de ser
assentadas simplesmente por conta de ações de juízes que
suspenderam as emissões de posse.
Há um elemento novo que é a manifestação
pública, por meio de pronunciamentos políticos fora dos autos de
membros do Poder Judiciário em defesa explícita do
agronegócio e contra os movimentos sociais, em especial contra o MST. A
maior expressão dessa novidade é o presidente do STF, Gilmar
Mendes. Isso estimula outros juízes a seguirem o mesmo comportamento,
bem como legitima a violência contra os movimentos sociais.
Existe uma articulação estreita entre o latifúndio,
judiciário e a mídia: um manda, o outro executa e outro
publicita, dá destaque e cria escândalos. As atitudes do
presidente do STF Gilmar Mendes são a expressão maior desta
relação promíscua, comprometida com o projeto das elites
brasileiras, que no campo têm o agronegócio como o modelo a ser
seguido e defendido.
Não por acaso Gilmar Mendes tem-se pronunciado politicamente contra as
ações dos movimentos sociais e em especial o MST. Apesar dos
vários crimes cometidos pelo agronegócio, assassinatos, trabalho
escravo, lavagem de dinheiro, entre outros, não há um
pronunciamento do ministro contra tudo isso. Ao contrário, ele tem se
colocado na defesa destes criminosos, como ocorreu com os habeas corpus
concedidos por ele ao banqueiro Daniel Dantas.
Ainda nesse contexto de criminalização, o que a
criação de uma CPMI sinaliza?
A CPMI representa a disputa de modelo para o campo entre o agronegócio e
a pequena agricultura e os movimentos sociais, que são para o
latifúndio um empecilho para a consolidação total do
agronegócio.
Além de os movimentos sociais fazerem a luta direta pela defesa da
Reforma Agrária, a defesa do território, também atuam na
denúncia dos crimes cometidos pelo agronegócio e todas suas
mazelas, se tornando uma péssima propaganda perante a sociedade e a
comunidade internacional.
Os movimentos sociais do campo representam o ultimo obstáculo a ser
removido do caminho do agronegócio. Eles têm a maioria no
Parlamento, o controle da grande imprensa, sustentação de
praticamente todo o Poder Judiciário e apoio do governo federal.
Além disso, colocaram todos os recursos para tentar impor uma derrota
moral aos seus inimigos. Aprenderam que não é mais
possível ter como forma de enfrentamento aos movimentos sociais apenas a
repressão física, com assassinatos e cadeias. Perceberam que a
sociedade não aceita mais essa prática, que continua existindo.
Então, agora, atuam no sentido de desmoralizar os movimentos sociais,
tentando impor a imagem de vândalos, corruptos e criminosos a todos
aqueles que fazem a luta social.
Querem tirar todo o caráter social das reivindicações, ao
mesmo tempo em que precisam melhorar a sua imagem diante da sociedade.
Criminalizam a Reforma Agrária para se descriminalizar,
usando a imprensa e o posicionamento público de autoridades. Certamente,
não foram as ações realizadas nas áreas griladas da
Cutrale e o espetáculo midiático feito em torno dela, tampouco os
enfretamentos nas terras do Dantas no Pará, que fizeram ser instalada a
CPI.
Eles precisam derrotar a Reforma Agrária e a CPI é parte desse
processo de criminalização, que agora articula as várias
formas de criminalização, que estão em curso pelo Estado e
suas várias ferramentas, em um enfrentamento articulado nacionalmente
com toda uma espetacularização na mídia.
Essa CPI não tem legitimidade. Nem no seu conteúdo que
não passa de matéria requentada e que foram objeto de outras
CPMIs e órgãos fiscalizadores como TCU e Ministério
Público nem mesmo pelo setor proponente, que tem um
histórico de crimes que vão de trabalho escravo até
corrupção e envolvimento político com empresas do
agronegócio. A sociedade brasileira condenou amplamente esta CPI, foram
inúmeras manifestações de apoio recebidas pelo MST dos
mais diversos setores da sociedade, seja com realização de atos
de apoio, que se realizaram por todo o país, seja pelo reconhecimento de
instituições do próprio Estado, que premiaram o MST pela
sua atuação na defesa da Reforma Agrária.
Quais as perspectivas e principais desafios a serem enfrentados em 2010 pelo
MST e a classe trabalhadora em geral?
Teremos um ano curto para cumprir nossas tarefas. É um ano de
eleições nacionais e Copa do Mundo, que envolvem toda a sociedade
brasileira.
Precisamos avançar no assentamento das famílias acampadas, fazer
uma boa jornada de lutas em março e abril pra manter nossas
reivindicações na ordem do dia.
Precisamos avançar no debate sobre as contradições do
agronegócio, que em tempos de mudanças climáticas é
o principal vilão, que despeja veneno nas mesas dos brasileiros, que tem
causado inúmeras violências contra as populações do
campo, sem terra, indígenas, quilombolas e ribeirinhos etc.
Precisamos lutar junto com a sociedade contra a proposta de mudança do
Código Florestal proposta pelo latifúndio. Isso representa
não apenas mais espaço no campo para o agronegócio, mas
uma desgraça ao ambiente.
Precisamos debater com a sociedade que a Reforma Agrária nunca foi
tão necessária em nosso país como atualmente, seja pela
justiça social que se implanta com sua realização, seja
pelo agravamento dos problemas nos grandes centro urbanos. É um tema
imprescindível da sobrevivência da humanidade no planeta, que
precisa enfrentar o aquecimento global e as mudanças climáticas.
Nós, brasileiros, temos responsabilidades importantes no cenário
mundial e mais ainda os movimentos sociais do campo, que representam parte da
solução dos problemas das mudanças climáticas. Se
por um lado o agronegócio é o grande causador do aquecimento
global
[1]
, a Reforma Agrária é a responsável pelo esfriamento do
planeta com a produção de alimentos.
É preciso conter o avanço do agronegócio e dos grandes
projetos no campo para salvar o planeta. Será preciso compreender os
grandes temas da sociedade para juntos dar a nossa contribuição.
Para isso, visamos uma ampla aliança com os setores urbanos,
também na perspectiva de fazer com que a sociedade se envolva mais no
seu comprometimento na defesa da Reforma Agrária. Caso contrário,
a Reforma Agrária ficará no campo e ai ficará
vulnerável aos ataques dos setores conservadores da elite brasileira.
Será um ano de muitas lutas, apesar do calendário curto, quando
precisaremos combinar as nossas lutas específicas com as bandeiras do
conjunto da classe trabalhadora e dos setores progressistas. Dessa forma, vamos
enfrentar o processo de criminalização dos movimentos sociais,
que será intenso. Não com postura de vitimização,
mas promovendo um bom debate sobre os verdadeiros problemas do povo brasileiro
e desvelando as contradições do modelo de desenvolvimento do
campo e da sociedade, que é um modelo insustentável do ponto
vista social, ambiental, econômico e político.
Certamente seguiremos organizando o povo para luta e debatendo com a sociedade
a necessidade de um outro modelo como forma de superação da
pobreza e da miséria e de todas as contradições do atual
modelo econômico e social e político.
23/dezembro/2009
[1] Trata-se de um equívoco do entrevistado, o qual certamente foi
induzido pela campanha mistificatória dos media. Ver
Acerca da impostura global
. (N.R.)
[*]
Da coordenação nacional do MST
O original encontra-se em
http://www.mst.org.br/node/8878
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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