O capataz do imperialismo e da reacção interna
O segundo mandato de Lula da Silva não começou com uma pancada
única como foi em 2003 com a reforma previdenciária. Mas que
ninguém se engane, o que estamos assistindo é muito pior e ainda
mais perverso. Porque são muitas pancadas, ataques amplos, vários
deles com profundas e danosas conseqüências de médio prazo e
que não estão sendo sentidas de imediato pelos trabalhadores e o
povo porque são feitos no varejo.
Estamos no final do 1º trimestre do ano. Já foram anunciados o PAC
e seu conjunto de medidas para tentar regulamentar um grande projeto de
parceria público-privado, sem tocar um centavo na
remuneração sagrada e orçamentária ao capital
financeiro e ainda atirando sobre a classe trabalhadora. Embutidos nesse
projeto estão a garfada no FGTS
[1]
, o arrocho no salário
mínimo e o congelamento dos salários dos servidores
públicos.
Já fomos devidamente informados do ataque aos rendimentos da
poupança, da tentativa de "regulamentar" o direito de greve no
setor público, da parceria política e comercial com o governo
Bush (o maior terrorista do planeta).
Some-se a isso a esculhambação do "espetáculo do
crescimento" de cargos e ministérios para a montagem e
acomodação do governo de coalizão.
Quando dava a impressão, após a visita de Bush, que estava
esgotada a cota de barbaridades para o 1º trimestre do ano, quando,
até pelo instinto humano de não desejarmos ver tantas más
notícias em tão pouco tempo, ou por acreditarmos que nada pode
ficar mais indecente do que já está, eis que, em uma mesma
semana, em um espaço breve de três dias, Lula declara os usineiros
[2]
como heróis mundiais e reabilita Collor de Melo.
A declaração ao heroísmo dos usineiros ocorreu na mesma
semana em que a fiscalização do próprio Ministério
do Trabalho revelou as condições de semi-escravidão dos
trabalhadores das usinas de cana-de-açúcar em São Paulo,
condições que já resultaram, por exemplo, em mais de uma
dezena de mortes por exaustão!
Até onde irá a arrogância e a estupidez de capataz que o
presidente tem demonstrado é uma questão a ser decidida pelos
próximos anos. Façam suas apostas. Mas o que é
gravíssimo é que estamos diante de um retrocesso
histórico, tragicamente patrocinado por um governo oriundo do movimento
operário e popular.
Pois, desde que Bush aqui esteve, vai ficando ainda mais claro que, por
trás do bonito discurso das fontes alternativas de combustível,
nas quais o Brasil, com seu etanol, ocuparia um papel de destaque no
cenário internacional, está sendo operada a entrega e
associação de setores do agronegócio com empresas
norte-americanas para a produção do etanol, às custas de
uma superexploração do trabalho, digna de século XVIII.
Quanto à reabilitação política de Collor, bem,
dá apenas uma dimensão da perda de caráter e de qualquer
padrão moral de coerência e memória histórica do
próprio presidente; pior do que isso, representa uma bofetada em dezenas
de milhões de homens e mulheres, que não dedicaram décadas
de suas vidas para que um projeto de mudanças terminasse em tal grau de
rendição e de abjeta revisão histórica.
Tomando a liberdade de parafrasear os versos de
Cazuza
, os novos heróis de Lula não morreram de overdose, mas,
definitivamente, os nossos inimigos estão no poder.
26/Março/2007
[1] Fundo de Garantia por Tempo de Serviço.
[2] Donos de fábricas de açúcar e de
plantações de cana sacarina.
[*]
Jornalista, do diretório nacional do PSOL e do Conselho
Editorial da revista
Debate Socialista.
O original encontra-se em
Correio da Cidadania
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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