Sonhos com a língua portuguesa
por Rodrigo Oliveira Fonseca
[*]
As posições dominantes em uma sociedade são
contraditórias, como os sonhos. Nutrem-se ao mesmo tempo de verdades
profundas e de ignorâncias, de bom senso e preconceitos. Às vezes
estas posições vêm imbuídas de bons valores
iluministas, em prol de um olhar mais racional e totalizante, superando velhos
hábitos cristalizados na cultura e portando projetos de futuro. Outras
vezes, trazem os nobres valores do romantismo, com palavras de luta, resgate e
defesa do que somos e pelo que somos.
Abaixo, duas intervenções públicas em defesa da
língua portuguesa, a de um publicitário e a de um
político. O quanto elas são diferentes? Onde elas convergem?
Na terça-feira (27/7), Nizan Guanaes, famoso publicitário e
presidente do grupo ABC de marketing o 20º maior do mundo ,
publicou no caderno "Mercado", da
Folha de S.Paulo,
um curioso artigo
intitulado "Vamos falar português". Com uma incrível e
saudável crueza, disse o que muitos gramáticos e estudiosos da
língua titubeiam em afirmar: "Está provado: a força
da língua está ligada à força da economia."
É para nenhum materialista botar defeito!
O texto de Nizan reflete sobre um passado em que "nossa maneira de
desqualificar as pessoas era dizer: ele só fala português".
Já aí temos uma mostra da maravilha que é o universo da
língua, o baú de contradições e conflitos que ela
trabalha: no uso desse pronome possessivo na primeira pessoa do plural (em
"nossa maneira"), pretensamente inclusivo, não nos
incluímos eu e milhões de brasileiros que jamais
falaríamos um disparate como esse para desqualificar alguém.
Não esqueçamos, entretanto, o veículo e o caderno (o
público) para o qual foi escrito "Vamos falar português".
No Brasil de hoje, segue o articulista, os números da economia
finalmente são bons e o país encontrou o seu desenho
político, fazendo com que tenhamos "tempo, foco e
motivação para cuidar das palavras". Nizan, considerado um
dos embaixadores do Brasil no cenário internacional dos negócios,
defende que se espalhe o português pelo mundo e diz que nessa
notável missão podemos contar também com Angola e
Moçambique, que devem crescer os mesmos 6% ou 7% que o Brasil em 2010.
Nova inserção do Brasil no mundo
Acontece que estes nossos irmãos, com quem compartilhamos um mesmo
espaço e projeto econômico e social ao longo de muitos e muitos
anos de exploração colonial escravista (sobretudo os angolanos,
na maior transferência forçada de gentes da história),
estabelecem hoje "conosco" outras relações. Nós
"temos", por exemplo, algo que eles não têm: Votorantim,
Camargo Correa, Odebrecht, todas com seus cimentos e tapumes em diversas partes
do globo; nós "temos" uma mineradora como a Vale, doada na Era
FHC com financiamento do BNDES a despeito de mais de cem ações na
justiça, hoje a maior empresa do mundo em produção de
minério de ferro.
Vamos, então, falar o bom português: a Votorantim, a partir
da
recente aquisição de parte de uma cimenteira portuguesa,
começou a entrar na África (como na Europa e na Ásia) e
já está em vinte países. A Camargo Correa, a despeito das
investigações de lavagem de dinheiro no exterior e de ser a
empresa que mais levou ouro com o Panamericano no Rio e com as obras do PAC,
atua em mais de vinte países e dentre eles, Angola. A Vale [do Rio Doce] tem
presença nos cinco continentes e é mais uma das multis
brasileiras instaladas em Angola e Moçambique. A Odebrecht, por sua vez,
é hoje, nada mais nada menos, que a maior empregadora dos angolanos, in
loco...
Nizan tem ou não tem motivos para dizer que o Brasil mudou? Com base
nisso, ele sonha uma nova relação do empresariado brasileiro com
a língua portuguesa, um "sonho que não é um
sonho", como ele diz, e que novamente define de forma crua e certeira:
este sonho é "uma ação econômica, industrial,
diplomática, política, desportiva, militar". Se tem uma
coisa que todo bom publicitário entende é de sonhos que
não são sonhos. O que esperar desse? Talvez a reforma
ortográfica, que tantos protestos gerou em Portugal, seja apenas um
sinal desse sonho do empresariado brasileiro em afirmar-se no mercado
internacional, no caso, com as grandes editoras de cá.
O Brasil tem hoje 127 empresas com faturamento maior que 500 milhões de
dólares ao ano e quase um terço delas atua no exterior
(Exame,
9/9/2009). No período colonial, o que mais saía da América
portuguesa para a África portuguesa era cachaça e tabaco. Em
troca, "recebemos" aqui cerca de 4 milhões de africanos
escravizados vivos (não esqueçamos todo o
"desperdício" que havia no caminho), dentre outras
commodities
da época como marfim, cobre e ouro como afirma o historiador Luiz
Felipe Alencastro em
O trato dos viventes
(Companhia das Letras). Hoje, ainda
que mantenhamos uma elevadíssima exportação de mercadorias
de baixo valor agregado, como aquelas do agrobusiness, exporta-se capital como
nunca antes na história deste país, que já é
crescidinho o bastante para não manter um atrelamento isento de pequenas
dissensões com o Tio Sam e assim poder fazer dinheiro até mesmo
nos países malquistos pelo Tio, como Equador, Venezuela, Bolívia
e Cuba. As empreiteiras brasileiras estão aí com toda a
força e sede. Esse novo Brasil, afinal, precisa de empresários
como Nizan, que possam exportar, sem pudores, e custando o que custar, o
capital, as palavras e os sonhos de alguns brasileiros que não
são sonhos para todos.
Uma ignorância muito grande quanto à vida da língua
Por falar em agrobusiness, esta é uma excelente oportunidade de
lembrarmos outro grande defensor da última flor do Lácio, o
deputado Aldo Rebelo, que este ano se destacou pelo empenho patriótico
na dura luta contra "as ações que contrariam os interesses
do Brasil em favor dos interesses externos", enquadrando o discurso
ecológico como alienígena. Além desse surpreendente feito
para quem o crê (ainda) comunista, lembro ainda de outro, também
gravíssimo, de 2004, quando ele ostentava o pomposo título de
"Secretário de Coordenação Política e Assuntos
Institucionais da Presidência da República" e foi
responsável por costurar um pacto entre governo e militares para
restringir as investigações sobre os desaparecidos
políticos do regime de 1964. "As feridas históricas precisam
ser fechadas", justificou no programa Roda Viva.
É de fato um sonhador, o deputado, que em 1999 também se
comportou a favor de fechamentos, esquecimentos e silêncio, ainda que de
outra forma. Aparecendo nacionalmente como grande defensor da língua
portuguesa, no sonho de uma língua fechada a estrangeirismos, acabava
nos pedindo para esquecer que todo o nosso léxico português
é fruto de trocas e empréstimos, assim como nos pedia
silêncio em relação a novas trocas e empréstimos,
querendo frear o desenvolvimento da nossa língua usando uma
versão chinfrim do discurso anti-imperialista. Quanto às polpudas
doações de campanha que recebeu das exportadoras de capitais
Vale, CSN, Camargo Correa e Votorantim, o deputado não é contra.
Doações estas que também podem ser consideradas trocas e
empréstimos, dada a forma como a política brasileira funciona...
O sonho de Aldo com a língua portuguesa materializou-se no
projeto de lei 1676/99
, que declarava lesivo ao patrimônio cultural brasileiro
"todo e qualquer uso de palavra ou expressão em língua
estrangeira" (art. 4º) e determinava a sua substituição
em 90 dias da publicação da lei (art. 5º).
O deputado ignorou os vários apelos da
Associação Brasileira de Linguística
(Abralin), da
Associação de Linguística Aplicada do Brasil
(Alab), assim como os que vinham da
Academia Brasileira de Letras e de diversos escritores que usaram os
espaços da mídia para tentar fazer um debate com as propostas do
parlamentar. O que quase todos falavam é que por trás das (quem
sabe?) boas intenções do seu patriotismo contra os abusos do
emprego de estrangeirismos, encontrava-se uma ignorância muito grande
quanto à vida real da língua. Uma excelente fonte de consulta
às objeções colocadas pelos estudiosos da linguagem
é o livro
Estrangeirismos, guerras em torno da língua,
organizado por Carlos Alberto Faraco (
Parábola Editorial
), mas podemos
também lembrar aqui, mais uma vez, a maior contribuição de
Nizan Guanaes em seu recente artigo: "Está provado: a força
da língua está ligada à força da economia."
Um novo Policarpo Quaresma?
Aliás, a razão pela qual eu escrevo
agrobusiness,
e não
"agronegócio", em português, é econômica,
visto que este filão é, em grande parte, pertencente a bancos
estrangeiros. É melhor chamar as coisas pelo seu nome mais apropriado, o
que acaba mostrando o furo ideológico da patriotada de Aldo Agrobusiness
Rebelo.
Será possível imaginar que língua falaríamos se
não tivéssemos trocas econômicas, políticas e
culturais? Ou melhor, quem seríamos nós? De onde vem, afinal, o
idioma oficial do país? O que nossa formação social
colonial e escravista fez com ele? O que o poder econômico de São
Paulo e Rio de Janeiro herdeiro do velho papel da corte na
unificação política das regiões americanas
colonizadas por Portugal faz com as várias línguas faladas
e distintas formas de falar a língua oficial em todo o país?
Todos os dias, todas as horas, a língua em seus usos é
cenário de conflitos encarniçados, nos quais os detentores dos
meios e seus repetidores adoram dizer que o brasileiro não sabe falar
direito... E aí, Nizan, aquela sua antiga maneira de desqualificar as
pessoas, aparece aqui de modo mais corriqueiro e mais duro, afirmando que o
brasileiro não fala bem o português, uma "língua muito
difícil"!
Dentre as dificuldades do português, aquelas que certamente mais afetam o
povo não são as que impedem uma boa leitura de Camões e
Machado de Assis. A desgraça mesmo está na nossa dificuldade em
lidar com a língua dos médicos, dos advogados, da
produção acadêmica, dos ministros da Fazenda, dos projetos
de lei e dos políticos em geral. Estas, sim, línguas bem
estrangeiras, muitas vezes utilizadas de má-fé, abusando das
nossas deficiências de formação escolar.
Uma infinidade de palavras estrangeiras aportaram por aqui, sobretudo pela
força econômica das modas e das tecnologias, mas aqui elas foram
transformadas pela criatividade espontânea do seu uso cotidiano. A vida
na periferia seria melhor caso tivéssemos menos acesso às
palavras dos povos que hoje são, tecnológica e economicamente,
mais poderosos?
O deputado do PCdoB paulista, caso siga com essas patriotadas, pode acabar
tendo
o triste fim de Policarpo Quaresma
. Não podemos negar o idealismo
do personagem de Lima Barreto. O que é preciso ver é o quanto
ideais deste tipo quase sempre se prestam a nada, a simples exotismos, a
diversionismos, e algumas vezes, acabam se prestando ao oposto do que parecem
enunciar.
Violência simbólica
Por exemplo, o governo fascista do Estado Novo (1937-45) tentou
"depurar" o país das culturas e idiomas não oficiais, e
quis impor palavras como ludopédio ao povo, criação de
laboratório baseada na dissecação do cadáver do
latim, em substituição a um estrangeirismo então muito
popular, football. O que aconteceu, afinal? Hoje somos "o país do
futebol" o que certamente não deve escapar da
estratégia de Nizan Guanaes para avançarmos sobre o mundo.
Mesmo preocupado com o real excesso do uso de palavras do inglês pelas
empresas, que exploram o capital simbólico da suposta
distinção e sofisticação de quem usa este
vocabulário atraindo consumidores assim influenciáveis
, e muitas vezes abusam das lacunas de nossa formação
escolar, Aldo se mostra despreocupado com formas de presença muito mais
efetivas e sérias do imperialismo no país. Um exemplo foi o seu
notável empenho na aprovação da Lei de
Biossegurança, em 2005, que facilitou a vida das multinacionais dos
transgênicos no Brasil (leia-se Bayer, Syngenta e Monsanto). Há
que se ver também o quanto Aldo, quando ocupou nada mais nada menos que
a presidência da Câmara, não se notabilizou como defensor da
educação pública ou defensor das línguas
indígenas que o país deixa morrer a cada dia. Ao invés de
promover o conhecimento das 180 línguas autóctones que resistem a
duras penas, Aldo se preocupa com o que para ele não deveríamos
falar ou usar tanto.
Entre o empresário materialista que diz claramente o que pensa e o
político idealista que se finge de louco mas não rasga
dinheiro pessoalmente prefiro o primeiro, ainda que não embarque
em nenhum dos dois "sonhos". Eles, em sua superfície, podem
até ser a narração de boas intenções, de
afirmação cultural, mas carregam uma violência
simbólica projetável no exterior e no território nacional,
a ser imposta aos povos em suas diversidades.
As invasões dos anglicismos
O sonho que não é sonho de Nizan Guanaes assim se apresenta no
final do artigo "Vamos falar português": "Nós somos
brasileiros, não é nossa natureza colonizar ninguém. Mas,
em vez de subjugá-los com nossa língua, podemos
iluminá-los." O objeto indireto referido na última
sentença, os seres a quem podemos iluminar, são principalmente os
falantes de espanhol e em seguida os de italiano e francês, primos de
língua. A publicidade das agências de Guanaes pode ser um exemplo
do que entende por iluminação, e a expansão progressiva
dos capitais de alguns brasileiros no mundo deve abrir mercado para estas luzes
de neon. Sim, os discursos imperialistas estão sempre carregados de
belas justificativas civilizatórias.
O sonho que não é sonho de Aldo Rebelo, é por sua vez uma
política 100% reacionária. Ignora o internacionalismo que
caracteriza historicamente os comunistas mais sérios. E ignora a forma
como Marx entendeu a linguagem: consciência prática dos
homens,
que se desenvolve e se realiza nos intercâmbios, na necessidade
fundamental de intercâmbios entre os seres.
Este sonho de Aldo é mais um exemplo de sua reiterada loucura em querer
(ou fingir que quer) unificar diferenças muitas vezes antagônicas,
como as que opõem os pequenos produtores da agricultura familiar e o
agrobusiness, os torturados e os torturadores, a esquerda e a direita, na base
de pressupostos sempre equivocados e resultados que, no caso de terem chances
de se concretizar, apontam mesmo para propósitos mal-intencionados.
Ao invés de "defender a língua" do processo de
globalização capitalista, deveria preocupar-se o deputado com
alguns drásticos efeitos deste processo sobre "os falantes"
brasileiros, exatamente o que não fez quando facilitou o ingresso das
multinacionais dos transgênicos no país. As invasões dos
anglicismos são tão perigosas como o foram os galicismos cem anos
atrás, os empréstimos do francês que nos ofereceram
sutiãs, maiôs e abajures!
Trevas que imobilizam e amedrontam
O que nos dignificará enquanto povo é a possibilidade de, num
futuro próximo, afirmarmos e assegurarmos, com todas as letras
sejam as do português, do inglês ou do nheengatu , nossa
aversão às guerras, à devastação ambiental,
às contaminações e à exploração dos
trabalhadores, no território nacional e no mundo. Isso fará de
nós um povo melhor, um povo não tutelado pelos projetos e pela
língua dos brasileiros que nos dirigem na economia e na política,
e que com isso não se contentam, querendo também nos dirigir na
língua.
Chega de imposições e tutela. Com mais educação e
respeito saberemos lidar de forma mais humana e generosa com os povos com os
quais já estivemos em condições de maior igualdade, como
os da América hispânica e, sobretudo, os da África
que hoje os nossos empresários tentam recolonizar. Com
educação e respeito, lidaremos melhor tanto com as luzes de neon
da publicidade, como com o abuso de estrangeirismos nos produtos comerciais,
mas também, e principalmente, com os abusos feitos no nosso
próprio idioma. Educação para o consumo, para a
política, para ter poder sobre a própria língua, na qual
todos somos poliglotas, visto que sempre negociamos entre o que dizemos aqui e
o que dizemos ali, não com base em cursinhos privados, mas na nossa
sensibilidade e vontade de acertar.
Que possamos falar o que quisermos, do jeito que quisermos, nas línguas
que pudermos. E que possamos estudar o máximo, para saber direitinho
todas as línguas do poder, de modo a podermos nos expressar com
dignidade e inteligência, sem ceder às luzes que ofuscam
interesses de uns poucos, nem às trevas que nos imobilizam e amedrontam
diante de falsas ameaças, no instante mesmo em que as reais passeiam
livremente em meio à nossa cegueira súbita.
Arroubo de bom materialismo
Nizan e Aldo demonstram uma concepção de língua bastante
artificial, tal como é a língua dos publicitários e a
língua dos gramáticos. De um lado, uma língua que fala
demais (diz muito mais do que diz, jogando com nossos desejos e preconceitos);
de outro, uma língua que fala de menos (mero formalismo, inculcando uma
culpa por não sabemos "falar direito").
Mas vamos terminar com isso falando um português mais claro, num arroubo
de bom materialismo. O que une estes dois sonhos com a língua portuguesa
são os vultosos capitais das empreiteiras e demais empresas que
lá fora abrem mercados e aqui dentro reproduzem mandatos. Enquanto o
publicitário e o político discutem as palavras, os donos da
Votorantim, Camargo Correa & Cia fazem as festas que quiserem. E pagam bem, sem
reclamar.
03/Agosto/2010
[*]
Jornalista, mestre em História Social da Cultura pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), professor-bolsista e
doutorando em Estudos da Linguagem na Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS).
O original encontra-se em
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=601JDB009
e em
pcb.org.br/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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