Jogo jogado?
por Marcelo Badaró Mattos
[*]
Obras literárias, ensaios e análises históricas já
recorreram de forma variada à história de uma
"máquina", de fins do século XVIII, que jogava xadrez.
O suposto autômato um mecanismo movido a engrenagens, como
relógios e caixinhas de música era na verdade um
espetáculo de ilusionismo, em que um anão, mestre enxadrista,
escondido por um jogo de espelhos, movia os braços do manequim trajado
à turco que movimentava as peças no tabuleiro.
A imagem me foi evocada após algumas horas à frente da TV,
assistindo a amostras dos três dias de debates entre os deputados
federais sobre a admissibilidade do processo de impeachment contra a presidente
Dilma Rousseff. Abstraindo o contexto, poderia ser possível divertir-se
com a ressurreição do "Festival de Besteiras que Assola o
País", como se os deputados e as deputadas estivessem fazendo um
enorme esforço para homenagear Sérgio Porto. Infelizmente
porém, não é possível abstrair o contexto. Esse
Congresso, que já teve seus próprios "anões",
é ainda o mesmo que "Luís Inácio falou, Luís
Inácio avisou" ter pelo menos 300 picaretas
[1]
(e Luís Inácio se aliou com eles). Agora, foram esses mais de
300 picaretas que,
reunidos sob o pretexto de analisarem supostos crimes de responsabilidade, se
manifestaram para justificar que votariam a favor do impeachment por conta da
crise econômica, do desemprego, da corrupção, da baixa
popularidade de Dilma, do bolivarianismo do PT, do porto construído em
Cuba, da estrada que não foi asfaltada, do pedalinho mais que das
pedaladas, enfim por tudo menos pelo tal "crime de responsabilidade".
Votaram em nome de Deus, da sua família, do seu município, do
golpe de 1964, da paz em Jerusalém, até de Roberto Jefferson!
As 72 horas ininterruptas de ridícula verborragia parlamentar tornam
bizantino qualquer relativismo no debate sobre a caracterização
do que está em marcha. Até aqui, não há qualquer
indicação de que haverá mudança de regime
político, mas os toscos discursos de "nossos representantes"
deixam claro: às favas a definição constitucional de
impeachment, querem derrubar a presidente por que têm a possibilidade de
fazê-lo em uma manobra parlamentar oportunista. O processo de impeachment
está sendo admitido pela câmara dos deputados por
oposição política ao governo petista, não por
pedaladas ou outras justificativas processuais. Por 367 votos a favor, 137
contra, com sete abstenções e duas ausências, o que
avançou na Câmara é um golpe, e ponto.
Voltando à imagem inicial, o baixo nível dos discursos é o
sintoma mais visível do papel desempenhado por esses parlamentares: o de
peões em um jogo de tabuleiro que serve apenas para, através de
um truque de espelho (ou seria de câmera?), gerar a ilusão de que
estão atuando conforme as regras do jogo. Mas, quem seria o anão
oculto que manipula o manequim, movimentando esses peões mal esculpidos
pelo tabuleiro do congresso, agora transformado em palco armado para esse show
de horrores transmitido ao vivo? A resposta imediata parece a mais evidente:
Eduardo Cunha, o das contas na Suíça, cujo currículo se
assemelha a uma ficha corrida. Envolvido em esquemas de corrupção
denunciados desde o governo Collor, quando dirigiu a Telerj por
indicação de P. C. Farias o tesoureiro de campanha e
eminência parda de Fernando Collor por certo ele parece mexer, com
seu sorriso cínico e sentado na cadeira central da mesa, as cordas que
movimentam o autômato. Ou seria Michel Temer, duble pouco convincente de
Bóris Karloff, também na corrida pelo recorde de presença
nas listas de denunciados? Aquele que o PT em sua busca pela
"governabilidade" leia-se governar como sempre governaram os
partidos das classes dominantes colocou como número 1 da linha
sucessória e agora acusa de traição.
No entanto, truques de ilusionismo nunca são desmascarados pelo primeiro
olhar. Esses dois estão mais para peças no tabuleiro, querendo
ser rei e rainha talvez, com seus implantes e aplicações de
botox, mas peças movimentadas, não força motriz.
Não é tão difícil perceber a manobra. O jogo de
espelhos poderia esconder um anão, mas não um time inteiro de
manipuladores: os industriais da Fiesp, Firjan e CNI; os empresários das
associações comerciais e Fecomércio; os ruralistas da CNA,
SRB e ABAG; os capitalistas dos oligopólios de
comunicação, proprietários do Estadão, Folha,
Globo, Abril, etc.
Os políticos que os representam, eleitos com as doações e
propaganda desse capital, são suas peças no tabuleiro do
parlamento, como peças também são as multidões de
coxinhas nas manifestações. Estes, em sua maioria, tem origem na
pequena burguesia sufocada pela crise econômica e pela classe
média assalariada, que nos últimos anos pagou mais impostos e viu
sua renda relativamente achatada quando comparada ao crescimento também
relativo da renda dos assalariados mais pobres. Nenhuma divisão do bolo,
mas repartições na pequena fatia dos de baixo. Alimentados com
filé mignon na porta da Fiesp, mas principalmente com o ressentimento de
classe, foram às ruas convocados pelos movimentos de uma direita que se
organizou a partir de junho de 2013. Movimentos de direita financiados interna
e externamente, que têm sido responsáveis pela
disseminação do discurso de ódio contra as
organizações de esquerda e os movimentos da classe trabalhadora.
Nesse sentido preciso, como alvos, para essa direita e seus seguidores, somos
todos petralhas. Alvos hoje, pois tal discurso já começa a
inflamar atos de vandalismo explícito contra sindicatos, movimentos e
militantes, projetando um futuro sombrio pela frente.
A equipe de titeriteiros
[2]
do capital, porém, não joga sempre coesa e muito menos possui
uma tática coerente. Criticam o governo hoje pelos juros altos que
inviabilizam os investimentos e agigantam a dívida pública, mas
criticam também os juros baixos de tempos atrás, porque geraram o
crescimento inflacionário. Reclamam do descontrole de gastos
públicos, mas pouco dizem sobre o fato de que as isenções
fiscais que geraram boa parte do déficit, beneficiaram os mais diversos
setores do capital que representam. Problema número um: todos, sem
excessão, compensam os lucros descendentes na produção com
os ganhos financeiros portanto, lucram com os juros altos e o
crescimento da dívida. Reversões significativas nessa
política seriam ainda mais desastrosas para boa parte dessas
frações capitalistas. Problema número dois: a crise
não é fruto das políticas econômicas deste governo
ou dos anteriores, é um resultado das contradições do
capitalismo, que se manifesta de forma mais aguda no cenário
internacional desde 2008 e que teve seus efeitos minimizados no Brasil
até o início da década de 2010 por fatores internacionais
como o crescimento chinês e sua demanda por commodities, inclusive as
brasileiras. Por outro lado, falta assumir que todas as políticas dos
dois governos de Lula da Silva e dos dois mandatos incompletos de Dilma
Rousseff foram acordadas diretamente com os representantes do grande capital,
nos cargos do primeiro escalão, no congresso, ou nos conselhos criados
pelas administrações petistas.
Em alguns pontos, porém, os interesses do capital que estão por
trás do bizarro debate parlamentar convergem. Mais
privatizações, mais "abertura econômica", mais
garantias de autonomia para o setor financeiro gerir a política
econômica via Banco Central independente, etc. A convergência
principal na resposta unitária do capital à crise capitalista
é a ênfase na retirada de direitos dos trabalhadores, com o
objetivo de reduzir o custo da força de trabalho e aumentar ainda mais a
parcela de fundo público apropriada pelos capitalistas. Algo que o
governo Dilma percebeu e assumiu logo após as eleições de
2014, quando abandonou qualquer veleidade de coerência com seu discurso
de campanha e iniciou o "ajuste fiscal" pela redução
das pensões e restrição ao acesso ao seguro desemprego. E
continuou perseguindo o objetivo de representar a pauta do capital por
"austeridade" leia-se ataque aos trabalhadores e
transferência de parcelas crescentes do fundo público.
O problema para Dilma é que, desde junho de 2013, os governos petistas
carecem de confiança naquilo que apresentavam de diferencial positivo
para a dominação burguesa. Com as manifestações de
massa, heterogêneas é certo, mas cuja pauta dominante foi a defesa
de serviços públicos educação, saúde
e transporte, principalmente gratuitos e de qualidade, assim como uma
reação à face policial repressiva cotidiana da
ação do Estado, ficou evidente que os governos petistas já
não eram uma garantia de controle social eficiente do conjunto da classe
trabalhadora. Como esperar que a burguesia confie neles agora, quando as
políticas de austeridade impõem a necessidade da maior
eficiência possível na contenção das lutas?
Retornemos novamente à imagem do autômato. Quem foi desafiado pelo
"Turco"? Dilma, o Lulismo, o PT e seus aliados mais fiéis,
é certo. Mas, se em seus tempos de glória o
"autômato" enxadrista enfrentava verdadeiros jogadores, o PT
nos últimos 13 anos não moveu peça alguma, ocupou isto sim
o lugar do boneco fantasiado, foi fantoche do mesmo time de titeriteiros do
capital. Por isso, acossado pela ofensiva reacionária, não foi
capaz de traçar qualquer estratégia de jogo ou mover qualquer
peça no tabuleiro, tentou e continuará tentando até o
último suspiro voltar a ser o manequim manipulado pelos interesses do
capital. Os que acreditaram na "virada à esquerda", agora
acreditam que na oposição o PT voltará a ser de esquerda.
Crenças, cada um tem as suas
Sim, é verdade que o PT continua tendo influência sobre os
movimentos sociais mais numerosos. No entanto, que central sindical poderia
esperar convocar a classe trabalhadora para defender o mandato de um governo e
ao mesmo tempo chamar às ruas para resistir a medidas que atacam os
trabalhadores, apresentadas e aprovadas por esse mesmo governo? Qual movimento
de luta pela terra consegue mobilizar multidões para defender o governo
que distribui zero terra nos últimos anos e colocou a "Rainha da
Moto-Serra" no Ministério da Agricultura? Para além de
burocratas e aparatos, só houve manifestações
significativas contra o golpe e elas aconteceram e provavelmente
seguirão acontecendo porque uma parcela da classe trabalhadora,
assalariados médios em sua maioria segundo as pesquisas de perfil dos
manifestantes, foi às ruas em defesa da "democracia". Clamor
dúbio, pois entre a defesa do regime democrático que aí
está e a luta pela democratização efetiva da sociedade
há uma miríade de posições possíveis, mas
tais movimentações constituem um ponto de apoio nada
desprezível para a resistência que se fará cada vez mais
necessária.
O PT, Lula mais especificamente, não perdeu completamente a base
eleitoral que construiu no último período e as sondagens
eleitorais demonstram isso. Afastar a ameaça de uma volta de Lula pela
via eleitoral não será um problema menor para as
representações políticas da burguesia no próximo
período. Mas, para a análise que nos interessa agora, o fato
é que nem Lula segura mais a antiga base social do PT. A incapacidade de
mobilizar socialmente os de baixo em sua defesa, após 13 anos servindo
diligentemente aos de cima é o signo maior da derrota histórica
do petismo.
No entanto, estarão se enganando com suas próprias
máquinas de ilusionismo, aqueles setores da esquerda socialista que
comemorarem essa derrota do PT como uma vitória sua. A derrota é
da classe como um todo. A voz de Bolsonaro clamando pelos torturadores do
passado recente é apenas a face mais explícita de que as
forças e os sentimentos mais reacionários foram mobilizados nesse
processo para derrubar o governo Dilma. Não se trata de recoloca-los num
baú qualquer que se possa tampar e lacrar até a próxima
vez em que se necessite espalhar os ratos pela sala de jantar. Será
necessário constituir uma força oposta, uma vontade coletiva
organizada, que a partir da classe trabalhadora mobilizada possa fazer frente
ao desafio de resistir aos tempos difíceis que temos pela frente.
Uma tal vontade coletiva organizada não parte do zero, nem de propostas
numa folha de papel. Ela deve emergir das lutas concretas. E temos muitas lutas
em curso. O "espírito de junho" não foi condensado em
um movimento coerente, direcionado por um programa de
transformações. Ele continua sendo invocado pela direita que vai
às ruas, mas não se incorpora naqueles corpos vestidos com
camisetas da CBF a bradar contra a corrupção. Sua
presença, porém, pode ser sentida nas ocupações
estudantis das escolas pela defesa da educação pública,
que depois de São Paulo e Goiás, agora surgem com força no
Rio de Janeiro. Ele também se manifesta nas greves movidas a despeito
das ou até mesmo contra as direções burocratizadas dos
sindicatos. É o "espírito de junho" que impele adiante
as lutas pela moradia, as mobilizações nas periferias e favelas
contra o golpe cotidiano da violência policial assassina, as
manifestações das "organizadas" contra a CBF, a Globo e
o roubo tucano
[3]
da merenda.
A esquerda socialista se faz presente nesses movimentos, mas enquanto o fizer
como quem vai mais interessada na pesca de militantes que nos movimentos em si;
enquanto se apresentar fragmentada, disputando palavras de ordem ao
invés de construindo o programa que unifica; priorizando conquistar
votos ao invés de organizar as lutas conjuntas; enquanto continuar a
pensar e a agir de forma nanica, enfim, continuará incapaz de
transformar o "espírito de junho" numa vontade coletiva
coerente e organizada em torno de um programa de transformação.
Chamemos Frente de Esquerda, Bloco Unitário, ou qualquer outro nome,
não importa, é fundamental constituir uma plataforma de luta
comum, que possibilite o surgimento de um polo dos setores mais combativos da
classe trabalhadora. Para fazer frente aos ataques já iniciados por este
governo que ao que tudo indica está em seus últimos momentos e do
próximo, oriundo do golpe, que se prepara para tentar acelerar o jogo
contra nós.
Os três dias de horrores do debate parlamentar servem ao menos para que
mais gente perceba que aquelas centenas de deputados toscos possuem um papel na
representação de interesses por trás do impeachment de
Dilma, mas são peões no tabuleiro de um jogo em que as regras
formais são pouco importantes para quem mexe as peças. Talvez,
uma parcela maior tenha percebido que o "autômato" é um
truque de ilusionismo. De qualquer forma, isso não basta para jogar o
jogo de outra forma. O único oponente capaz de fazer frente ao desafio
é a classe trabalhadora. Para que ela vire o jogo, mude as regras e
quebre os espelhos que escondem os verdadeiros jogadores não
bastará a derrota do PT. Será preciso (re)construir, perseverante
e permanentemente, sua capacidade de intervenção coletiva.
Não há truques para isso.
18/Abril/2016
[1] picareta (em gíria): Desonesto, charlatão, vigarista, trapaceiro
[2] titeriteiros: manipuladores de marionetes
[2] tucano: adepto do PSDB
[*]
Historiador.
O original encontra-se em
blogjunho.com.br/jogo-jogado/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|