Três crises
falta uma
Na conjuntura brasileira se entrelaçam duas crises: uma crise
econômica e uma política. Falta uma crise, aquela que costuma ser
decisiva e que marca momentos de ruptura histórica: a crise do Estado.
Direta ou indiretamente, toda crise em uma sociedade capitalista se associa a
uma crise econômica, mas os nexos entre as dimensões
políticas e econômicas de uma crise nem sempre são claros.
Como sabemos, a crise é inerente ao processo de
acumulação, mas há momentos em que esta crise se torna
mais visível e o paradoxo da superacumulação explode na
queima de capitais, na destruição das forças produtivas,
com todos os efeitos por nós conhecidos sobre os trabalhadores.
Já a crise política, depende da coexistência das
frações da classe dominante e dos acordos políticos para
formar o bloco dominante, assim como, em grande medida da forma política
que historicamente se estabeleceu e dentro da qual tal coexistência se
tornou possível.
A crise do Estado, no entanto, é algo mais profundo. É sinal de
que a contradição foi além dos limites que a ordem
burguesa pode conter. Emerge para primeiro plano a luta de classes,
ameaçando não apenas um ou outro segmento das classes dominantes,
mas a própria ordem burguesa. É uma crise que, apesar de se
expressar em uma conjuntura determinada marcada por um governo de uma ou outra
facção do bloco dominante, é, ao mesmo tempo, uma crise do
Estado Burguês.
A CRISE ECONÔMICA
A grande ilusão do período conjuntural mais recente foi a
crença no mito do desenvolvimento capitalista
"sustentável" como se fosse possível evitar as
crises com a administração dos investimentos, controle fiscal e
monetário, do consumo, dos gastos públicos e todos estes e outros
elementos da chamada "macroeconomia". Como Mészáros
já nos alertava há muito tempo, esta é uma vã
tentativa de controle de um "sociometabolismo incontrolável".
A tal "sustentabilidade" significa em poucas palavras, um
equilíbrio entre a demanda crescente impulsionada pelo consumo e um
crescente aumento da produção que por sua vez geraria mais
empregos e, por via de consequência, mais consumo e assim por diante.
Bastaria que o Estado garantisse boas condições para que os
capitalistas investissem para que a economia crescesse, a
arrecadação aumentasse, e o governo tivesse mais recursos para
investir seja em infraestrutura, impulsionando a continuidade do ciclo
econômico virtuoso, seja com políticas compensatórias
destinadas a diminuir os efeitos mais visíveis da miséria
absoluta.
A raiz da atual crise é a comprovação da
incontrolabilidade do capital. O capital acumula de forma desigual entre os
componentes que o constituem, cada vez proporcionalmente mais em capital
constante (máquinas, tecnologia, instalações, etc.) do que
em capital variável (força de trabalho), gerando o que Marx
denominou de uma tendência à queda da taxa de lucro.
Nesta aproximação, o que gera a crise não é a
ausência de condições para o crescimento da
acumulação, mas o próprio crescimento que gera uma
superacumulação na qual os capitais não conseguem voltar
ao ciclo de sua reprodução ampliada com taxas de lucro
aceitáveis.
O Estado burguês é o principal protagonista das medidas
necessárias, seja para colocar em prática as
contratendências à queda da taxa de lucro, seja para gerir a crise
cíclica e periódica inevitável. O autor d'
O capital
listou seis contratendências. Notem como podemos
identificá-las claramente na ação econômica
conjuntural dos governos burgueses:
1. Intensificação da exploração dos trabalhadores;
2. Redução dos salários;
3. Aumento da superpopulação relativa (expropriar muito mais do
que será utilizado pelo capital em sua esfera produtiva);
4. Redução dos custos do capital constante (subsídios,
novas matérias-primas, infraestrutura, etc.);
5. Ampliação de mercados, seja para escoar a
superprodução de mercadorias, encontrar novas fontes de
matérias-primas ou máquinas, etc, seja, na fase atual do
capitalismo, exportar capitais;
6. Autonomização da esfera bancária, buscando compensar
com juros pagos por títulos da dívida pública ou outras
formas, a queda na taxa de lucro.
Tais medidas, que evidenciam a essencialidade do Estado no funcionamento da
economia capitalista, desmontando assim a premissa liberal, não evitam a
crise, nem impedem a queda tendencial da taxa de lucro, mas impõe ao
movimento da economia seu caráter cíclico, isto é,
momentos de crescimento da acumulação, auge, crise,
recessão, e assim por diante.
O que vemos hoje é um momento em que se paga o preço pelo
crescimento capitalista impulsionado anteriormente como sendo virtuoso. Segundo
o Boletim de acompanhamento da conjuntura (
www.criticadaeconomia.com.br
):
"No confronto com igual mês do ano passado, a produção
industrial apresentou recuo de 3,2%, com o índice mensal de junho de
2015 apontando o décimo sexto resultado negativo. Na
comparação semestral, o total da indústria recuou 6,3% nos
seis primeiros meses de 2015, redução mais elevada desde o
primeiro semestre de 2009 (-13,0%), no auge da última crise global de
2008/2009. Mais alarmante ainda são os números da derrocada dos
principais setores industriais. Eles já desativaram grande parte da
produção de bens de capital (máquinas, equipamentos,
instalações), que continuou desabando de -11,2% no segundo
semestre do ano passado para -20,0% nos seis primeiros meses de 2015. O
estratégico setor de bens de consumo duráveis é outro que
também apresenta ritmo de sucateamento, passando de -10,1% no segundo
semestre de 2014 para -14,6% nos seis primeiros meses deste ano."
O desespero do governo, nestes momentos, é que os mecanismos que antes
funcionavam para incentivar o investimento e o crescimento econômico,
parecem agora jogar a economia no buraco.
DA CRISE ECONÔMICA À CRISE POLÍTICA
É neste contexto de crise da acumulação e necessidade de
queima de capitais, que a irracionalidade da racionalidade capitalista se
revela. O chamado "ajuste" implantado pelo governo Dilma
através de seu funcionário Levy (afinal, dizer que apoia a Dilma,
mas é contra o Levy equivale a dizer que gosta dos Rolling Stones, mas
não do Mick Jagger) responde aos interesses do capital, mas se choca com
interesses dos capitalistas. Explico. Aqui se expressa, mais uma vez, a velha
contradição própria da sociabilidade burguesa entre o
interesse geral e os interesses particulares.
A necessidade do capital é de queimar forças produtivas, frear a
produção e o consumo, devastar mercados, destruir o poder de
compra da moeda, rebaixar salários e demitir em massa para recriar as
condições favoráveis à retomada dos investimentos
com taxas de lucro aceitáveis. No entanto, se todos concordam que esse
é o remédio, não podemos esperar que cada capitalista em
particular se disponha a sacrificar-se para o bem comum da
acumulação queimando suas forças produtivas e destruindo
sua capacidade produtiva.
Como nos explica Mandel, seguindo as pistas de Marx, é exatamente por
isso que a eclosão da crise se dá de maneira catastrófica,
porque paradoxalmente no momento que a antecede, os capitalistas ao
contrário de frear, intensificam a produção.
Sem outras mediações, uma crise desta natureza colocaria em risco
a ordem do capital, como ocorreu no início do século XX, nas duas
grandes guerras mundiais e, neste contexto, a eclosão das
revoluções socialistas na Rússia, na China e, depois, em
outras partes do globo. É o Estado que entra aqui mais uma vez para
garantir a ordem burguesa. É fundamental transformar a crise da economia
capitalista em uma crise de todos, da sociedade, exigindo os sacrifícios
compartilhados para voltar ao mítico crescimento que beneficiará
a todos.
No entanto, as diferentes facções que compõem o bloco de
poder (que em nosso momento histórico significa os setores que
compõem o grande capital monopolista), como é natural supor, nem
sempre se entendem sobre a forma de administrar a crise, buscando com sua
proximidade a um governo de plantão, salvar seu setor, garantir seus
investimentos e, se possível, arrasar seus concorrentes. O único
consenso no bloco dominante, é que o peso maior da crise recairá
sobre a classe trabalhadora, mas mesmo aí há problemas, pois a
sobrevivência política de uma ou outra facção
burguesa pressupõe não se identificar com as medidas draconianas
que são impostas contra o conjunto da população para
salvar o capital.
Neste momento, a conjuntura política pode ficar confusa ao observador
desavisado. Isso porque, nos conflitos internos da burguesia monopolista e suas
expressões políticas, as frações em luta acabam se
valendo da crise como acerto de contas contra o arranjo de forças
políticas anterior visando ocupar o lugar central na
administração do Estado burguês e seu governo.
Os sinais aparecem trocados, assim como historicamente vimos em nosso
continente na luta entre conservadores e liberais, de forma que os liberais no
governo agem como conservadores e os conservadores na oposição
viram liberais. Trata-se de jogar o ônus da crise no bloco
político de governo, para assumir em seu lugar, beneficiando-se do ciclo
de crescimento que se segue quando as taxas de lucro, graças ao massacre
dos salários e empregos, da destruição das forças
produtivas e da capacidade de consumo.
O PT se beneficiou desta forma cíclica, culpou o bloco PSDB/DEM/PMDB
pela crise, alcançou a condição de governo, reconstruiu o
bloco de alianças numa nova governabilidade com seu protagonismo
PT/PCdoB/PSB
e, lógico, PMDB. Agora, na nova emergência da
crise e suas consequências, a oposição tenta inverter o
jogo, atrair o PMDB para a formação de um novo bloco e seguir a
alternância tão saudável à continuidade da
acumulação de capitais e seus ciclos.
O fato é que, neste âmbito, a crise econômica se expressa,
ainda, apenas numa crise política que pode culminar na mudança do
bloco de poder no governo. As mesmas expressões de classe, isto
é, os diversos segmentos do grande capital monopolista (industrial,
agrário, financeiro, exportador, comercial, etc.) que se acomodavam
através do bloco governista, seguem agora na busca de uma alternativa.
Na verdade, jogam nos dois lados e apoiarão aquele que vencer a disputa.
Há uma ausência importante neste cenário e tal
ausência é determinante para o impasse político atual: os
trabalhadores. O transformismo do PT e sua opção por um governo
de conciliação de classes desarmou a classe trabalhadora para o
cenário previsível de acirramento da luta de classes. A
posição rebaixada e defensiva de um "reformismo de baixa
intensidade" como diz André Singer (eu acredito que não
chegou a ser nem isso), colocou o centro do governo na dependência
econômica do mítico crescimento "sustentado" e
politicamente refém da aliança com o PMDB.
O zeloso compromisso com o ajuste "necessário" para garantir a
continuidade da acumulação capitalista, precondição
expressa para que o plano de governo petista se desenvolvesse adequadamente,
produz o ingrediente que o bloco de oposição necessita: um
governo que se apresenta como de "esquerda" operando o ajuste brutal
contra os trabalhadores para salvar os lucros dos grandes monopólios.
A crise gera, assim, dois dividendos para o bloco de oposição
conservador. A situação econômica, a quebra do consumo via
endividamento, o desemprego, a inflação e a corrosão dos
salários, o desmonte do Estado e das precárias políticas
semi-públicas de acesso a bens e serviços essenciais (como
educação e saúde), tudo isso gera o clima para a tese do
descontrole, coroada pelas denúncias de corrupção. Um
cenário no qual uma operação política (agora
não na cúpula do poder, mas na base social) se torna
viável: afastar os segmentos médios do governo e ganhá-los
para a oposição.
O segundo dividendo é para nós o mais sério e perigoso.
Trata-se do empenho do governo em salvar o capital atacando os trabalhadores:
afastam a própria base social originária da esquerda e a colocam
sob influência do discurso político da direita. A eficiente
manipulação que identifica "petismo" com
"comunismo", permite ao bloco de oposição atacar o
bloco atual de governo do Estado burguês, não por aquilo que ele
realmente opera (até porque neste campo há a concordância
da vontade geral da ordem burguesa), mas pelo preconceito contra a esquerda.
O moralismo da cruzada contra a corrupção serve, desta forma,
tanto para angariar apoio nos setores médios, como atacar as bases das
classes trabalhadoras oferecendo a explicação da
corrupção como cortina de fumaça que encobre a
dinâmica da exploração capitalista.
A CRISE QUE FALTA
Apesar da dramaticidade da crise (em parte inflada por interesse da
oposição conservadora), a ordem está garantida por hora.
Seja pelo bloco que tenta se manter no poder, seja pela possível
alternância por um outro arranjo político das forças
burguesas mais conservadoras.
Isso revela que o Estado burguês não foi atingido pela crise, ou,
em outras palavras, que a crise política se restringe a uma disputa, nos
termos e na forma da ordem burguesa.
A classe trabalhadora, derrotada e dividida, reage como pode. Recusa o pacote
de garantia das empresas contra os trabalhadores, faz greves (muitas), procura
manter vivo os movimentos sociais que lutam por suas demandas
específicas (pela terra, em defesa da saúde pública, em
defesa da universidade pública e da educação, contra a
ordem urbana expropriadora, contra a violência policial, etc.). No
entanto, isso não encontra uma expressão política para
deslocar a crise política para uma crise do Estado burguês.
É comum colocar a culpa na esquerda e em sua incapacidade crônica
de se unir. Mas, essa é mais uma perversidade da crise atual. O grande
problema da unidade da esquerda (necessária e urgente) é que um
segmento considerável está enredado num paradoxo que alimenta a
crise política da classe trabalhadora. Este paradoxo é a
necessidade destes setores de recuperar o apoio de suas bases sociais (e nesta
direção é uma boa notícia, porque criticam a linha
geral da política econômica e os ataques aos trabalhadores) sem
deixar de apoiar o governo que decidiu atacar os trabalhadores para salvar sua
governabilidade à direita.
O paradoxo deste setor governista é que precisa mobilizar os segmentos
que são brutalmente atingidos pelo governo que precisa ser defendido.
Quer o apoio dos operários, mas seu governo impõe uma
redução de jornada com redução de salários,
quer apoio dos funcionários públicos mas os trata como inimigos
numa greve na qual a categoria quer apenas repor perdas e garantia de direitos
que estão sendo atacados, quer apoio dos professores
universitários mas desmonta a universidade pública enquanto
descarrega milhares de reais para as universidades privadas, quer o apoio dos
movimentos de luta pela terra e prioriza com milhares de milhões o
agronegócio e enterra a reforma agrária.
Uma verdadeira unificação destes segmentos das classes
trabalhadoras, sua entrada decidida em cena em defesa de suas demandas
próprias reconfiguraria os blocos políticos e colocaria em
primeira plano a luta de classes entre os interesses dos trabalhadores e o das
classes dominantes (parece ser nesta direção que a esquerda,
assim como o que restou de esquerda dentro do PT e parte de movimentos sociais
significativos apontam). Ocorre que isso desencadearia a crise do Estado e
colocaria em risco a ordem burguesa, colocando a perspectiva da ruptura em
primeiro plano, enterrando de vez as chances de recomposição do
atual bloco de governo nos termos em que está estabelecido e com eles a
possibilidade de uma continuidade via uma vitória eleitoral em 2018.
Não nos parece que o núcleo dirigente do PT tenha qualquer
interesse nesta direção. Ele aposta numa retomada da economia que
normalize as coisas, traga de volta o PMDB para o ninho governista, acreditando
que neste cenário a velha chantagem do risco (que é real,
considerável e hoje o mais provável) de um bloco mais conservador
assumir o governo seja o passaporte para a continuidade do ciclo petista. A
esquerda reformista do PT e os movimentos sociais não têm
forças para reverter isso dentro do PT e não podem
abandoná-lo, a esquerda revolucionária resiste ao lado dos
trabalhadores, mas, está longe de ser, mesmo unida, uma alternativa
política para o curto prazo, eis o paradoxo.
Por vezes, o politicismo das análises leva muitos a crer que o que falta
é vontade política, uma boa reunião e a
disposição ao dialogo e tudo se resolveria. Infelizmente,
não é assim. O que falta é o desenlace da crise
econômica numa dimensão que transborde os limites da crise
política e se transforme numa crise do Estado burguês.
[1]
Esta é a boa (e a má) notícia
isto pode, em breve,
não faltar mais.
[1]
"Na verdade estas hesitações, e até incertezas,
são um sintoma de crise da sociedade burguesa. Enquanto produto do
capitalismo, o proletariado está submetido às formas de
existência de seu produtor. Estas formas de existência são a
desumanidade, a reificação. O proletariado é, pela sua
existência, a crítica, a negação destas formas de
vida. Mas, até que a crise objetiva do capitalismo esteja consumada,
até que o próprio proletariado tenha conseguido discernir
completamente esta crise da reificação, e como tal, apenas
negativamente ascende acima de uma parte do que nega. Quando a crítica
não ultrapassa a simples negação de uma parte, quando pelo
menos, ela não tende para totalidade, então não pode
ultrapassar o que nega, como por exemplo, nos mostra o caráter pequeno
burguês da maior parte dos sindicalistas." (György
Lukács,
História e consciência de classe
. Porto: Escorpião, 1974, p 91-92)
[*]
Professor adjunto da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e
Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do
PCB.
O original encontra-se em
pcb.org.br/portal2/9108
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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