O mundo se move sob nossos pés, as velhas formas se rompem, surgem novas
e as contradições que se acumulavam explodem buscando o caminho
necessário, encontrando sua forma de expressão.
A explosão social que abalou o país brotou do terreno escondido
das contradições. Lá para onde se costuma exilar as
contradições incômodas: a miséria, a
dissidência, a alteridade, a feiúra, a violência. Germinaram
no terreno do invisível, escondido e escamoteado pela neblina
ideológica e o marketing cosmético que epidermicamente encobre a
carne pobre da ordem capitalista com grossas camadas de justificativa
hipócrita, de cinismo laudatório de uma sociabilidade moribunda.
As autoridades, os especialistas, sociólogos, politicólogos e
jornalistas estão perdidos dando razão à dissertativa
atribuída à Marx segundo a qual "a história só
surpreende quem de história nada entende". Declamam seu espanto
querendo acreditar na extrema novidade, pois só isto explicaria sua
brutal ignorância. No terreno da história nada é
absolutamente novo.
Se há algo que é muito conhecido para quem não se limita
ao presentismo, ou foucaultianamente à aléa singular do
acontecimento, é a insurreição, a explosão de
massas. Caso tenham preconceitos contra nossa tradição marxista e
se recusem a ler as brilhantes análises de Lênin em
Os ensinamentos da insurreição de Moscou
, ou de Trotski em
A arte da insurreição
, pode se remeter aos estudos de Freud em
A psicologia de massas e análise do ego,
ou a magistral análise de Sartre em
A critica da razão dialética.
As massas explodem em uma dinâmica que altera profundamente o
comportamento dos indivíduos isolados que pacificamente se dirigiam
diariamente ao matadouro do capital, em ordem, pacificamente, saindo de suas
casas humildes, pegando ônibus superlotados e precários, sendo
humilhados pela polícia, vivendo de seus pequenos salários, vendo
a orgia ostensiva do consumo e tendo que "subviver" com o que
não tem.
Os jovens do Movimento Passe Livre (MPL) estão de parabéns por
uma luta que não vem de agora (lembremos Goiânia e
Florianópolis) e por conseguir dar consistência a esta luta e ao
confronto que os levou a dobrar a prepotência dos que afirmavam de
início que a tarifa não seria rebaixada. As
manifestações contra o aumento da passagem, no entanto,
são apenas o desencadeador de algo muito maior. O movimento funcionou
como um catalisador de um profundo descontentamento que estava soterrado pela
propagando oficial.
Analisemos, então, as determinações mais profundas que se
apresentam nesta explosão social.
Em primeiro lugar as manifestações expressam um descontentamento
que germinava e que era alimentado pela ação que queria
negá-lo, isto é, pela arrogância de um discurso oficial que
insistia em afirmar que tudo ia bem: a economia estava bem, não porque
garantia a produção e reprodução da vida, mas por
que permitia a reprodução do capital com taxas de lucros
aceitáveis, o Brasil escapara do pior da crise internacional a golpes de
pesados subsídios às empresas monopolistas, a
inflação estava "entorno do centro da meta", o Brasil
recebia eventos esportivos e se transformava em um canteiro de obras, os
trabalhadores apassivados e suas entidades amortecidas pelo transformismo e
pela democracia de cooptação se rendiam ao consumo via
endividamento, a governo se regozijava com índices de
aceitação que pareciam sólidos.
Acontece aqui um velho e conhecido fenômeno. A vida real não
combina com o discurso ideológico. A inflação em torno da
meta explodia na hora das compras, de pagar o aluguel, de pagar as contas, de
pegar um ônibus. As delicias do consumo voltavam na forma de
dívidas impagáveis. O acesso ao ensino vira o pesadelo da falta
de condições de permanência. O emprego desejado se
transforma em doença ocupacional. O orgulho de receber eventos
esportivos internacionais se apresenta na farra do boi de gastos enquanto a
educação, a saúde, a moradia, os transportes ficam
às moscas.
O estopim foi o aumento das passagens e aqui se apresenta um elemento altamente
esclarecedor. Nas primeiras experiências de governos municipais do PT o
enfrentamento da questão do transporte se deu através da
municipalização deste serviço. Em São Paulo
chegou-se a falar em tarifa zero no governo de Erundina. Em uma segunda
geração de governos petistas, todas as empresas municipais foram
devolvidas aos empresários que exploravam o setor (e explorar é
um termo preciso). Coincidentemente os empresários do transporte se
tornaram uma das principais fontes de financiamento das campanhas deste partido.
Entendendo que a explosão é perfeitamente compreensível
como forma de manifestação de um profundo descontentamento,
sabemos que é mais que isso. Representa, também, o esgotamento de
uma forma que tem sido muito eficaz de domínio e controle
político. Cultivamos um fetiche pela forma democrática como se
ela em si mesmo fosse a solução enfim encontrada pela humanidade
para superar um dilema histórico da ordem burguesa que a acompanha desde
o nascimento e que não tem solução dentro da sociedade
capitalista: o abismo entre sociedade e Estado.
A sociedade se representa através de políticos eleitos que formam
as esferas decisórias, legislativas ou executivas, por meio do voto que
transfere o poder para um conjunto de pessoas que supostamente expressam as
diferentes posições e interesses existentes na sociedade.
Abstrai-se, desta forma, o quanto os reais interesses políticos e
econômicos em jogo deformam esta suposta límpida
representação resultando na consagração do poder
das classes dominantes, confirmando a dura descrição e
Montesquieu segundo a qual "a República é uma presa; e sua
força não passa do poder de alguns cidadãos e da
licença de todos", ou na ainda mais incisiva
afirmação de Marx (e depois Lênin): a democracia é o
direito de os explorados escolherem a cada quatro anos quem os
representará e esmagará no governo.
Desta maneira é compreensível o espanto daqueles que acreditavam
que estava tudo bem em uma sociedade marcada pelas contradições
da forma capitalista e de sua expressão política, ignorando as
profundas e conhecidas contradições que tal ordem gera
inevitavelmente.
Uma contradição, no entanto, encontra sempre uma forma particular
para se expressar. A forma como se expressaram as contradições
descritas também é perfeitamente compreensível.
O último período político foi marcado por uma profunda
despolitização dos movimentos sociais e dos movimentos
reivindicativos da classe trabalhadora. Em dez anos de governo os trabalhadores
não foram uma vez sequer chamados a participar ativa e independentemente
da correlação de forças políticas em defesa de seus
interesses e no terreno que lhe é próprio: as ruas, as
praças, a cidade. Optou-se por uma governabilidade sustentada por
alianças de cúpula nos limites da ordem política existente
e do presidencialismo de coalizão, mantendo seus métodos, isto
é, oferta de cargos, liberação de verbas e facilidades.
Não é de se estranhar que em dez anos não se tenha
implementado uma reforma política.
Em nenhum momento no qual uma demanda das massas trabalhadoras (reforma
agrária, previdência, direitos trabalhistas, garantia de
serviços públicos, etc.) que se chocava com a resistência
dos setores conservadores foi resolvida chamando os trabalhadores a se
manifestar e inverter a correlação de forças
desfavorável às mudanças. Pelo contrário, via de
regra, as soluções conservadoras foram propostas pelo governo que
se pretendia popular e se pedia às massas que se calassem e dessem, como
prova de sua infinita paciência, mais um voto de confiança em suas
lideranças que deles se alienavam.
Quando os trabalhadores se chocavam com a orientação governista,
como na última greve dos professores e dos funcionários
públicos federais, são tratados com arrogância e
prepotência.
Por isso, não nos espanta que a explosão social se dê da
forma como se deu e traga os elementos contraditórios que expressa:
despolitizada e sem direção, ainda que com alvos precisamente
definidos: os governos e aquilo que representa a ordem estabelecida.
A despolitização se expressa de varias formas, mas duas delas se
apresentam com mais evidentes: a violência e antipartidarismo. Comecemos
pela violência.
Quanto à forma violenta que tanto espanta os ardorosos defensores da
ordem temos que constatar que ela não é homogênea.
Há pelo menos três vertentes da violência. Uma delas, difusa
e desorganizada, é aquela que expressa a raiva e o ódio contra
uma ordem que oprime, não por acaso esta se dirige contra as
expressões desta ordem, seja os prédios públicos que
abrigam as instituições da ordem política burguesa (sedes
de governo, parlamentos, prédios do judiciário, etc.), mas
também os monopólios da imprensa, da televisão, assim como
os templos do consumo ostensivo. Esta manifestação é
compreensível e até, em certa medida, justificada. Marx e Engels,
ao analisar a situação alemã de 1850 (Mensagem do
Comitê Central à Liga dos Comunistas) dizem a respeito:
Os operários não só não devem opor-se aos chamados
excessos, aos atos de vingança popular contra indivíduos odiados
ou contra edifícios públicos que o povo só possa relembrar
com ódio, não somente devem admitir tais atos , mas assumir sua
direção.
Deixemos aos patéticos novos defensores da "ordem e da
tranqüilidade" a defesa do fetiche do patrimônio
público, uma vez que é esta "ordem" é que tem
garantido às classes dominantes e seus aliados de plantão a
"tranqüilidade" para saquear e depredar o verdadeiro
patrimônio público.
Há uma segunda vertente da violência. Jovens das periferias, dos
bairros pobres, das áreas para onde se expulsou os restos
incômodos desta ordem de acumulação e
concentração de riqueza, que são quotidianamente agredidos
e violentados, estigmatizados, explorados e aviltados, que agora,
aproveitando-se do mar revolto das manifestações expressam seu
legítimo ódio contra esta sociedade hipócrita e de sua
ordem de cemitérios. Sua forma violenta em saques e
depredações assustam, é verdade, mas a consciência
cínica de nossa época passou a assumir como normal as chacinas, a
violência policial. Pseudointelectuais chegaram a justificar como normal
que a policia entre nas favelas e invada casas sem mandato, prenda, torture e
mate em nome da "ordem"; ou seja, a violência só
é aceitável contra pobres, contra bandidos, contra marginais, mas
é inadmissível contra lixeiras, pontos de ônibus, bancos e
vitrines.
Há uma terceira violência e esta não é
espontânea e emocional como as duas primeiras: a extrema direita. Ela,
lá dos esgotos para onde foi jogada pela história recente, se
sentia também ofendida e agredida, evidente que não pela ordem
burguesa e capitalista que sempre defendeu, mas pelo irrespirável ar
democrático que acertava as contas com nosso passado tenebroso, como a
denúncia contra o golpe de 1964 e seus sujeitos, com as comissões
da verdade, mas sobretudo o mal estar desta extrema direta com um regime
político que permite a organização dos trabalhadores e sua
expressão, mesmo nos precários limites de uma democracia
representativa de cooptação. Assim como os movimentos sociais e
de classe se despolitizam, a direita também. Para a extrema direita
não interessa que a atual forma política permita aos
monopólios seus gigantescos lucros e à burguesia sua
pornográfica concentração de riquezas. A burguesia que
já se serviu da truculência para garantir as
condições de acumulação de capital, hoje se serve
da ordem e tranquilidade democrática para os mesmos fins e neste
contexto não há função clara para seus antigos
cães de guarda.
Estes não suportam nos ver andando com nossas camisetas que lembram
nossos mártires, nossas bandeiras que recolhem o sangue de todos que
lutaram, nossas firmes convicções que nos mantêm nas lutas
diárias ao lado dos trabalhadores em defesa da vida, mas com o olhar
certeiro no futuro necessário e urgente que supere a ordem do capital
por uma alternativa socialista. Por isso nos atacam, usam das
manifestações para acertar suas contas com a esquerda, de forma
organizada, intencional e, certamente, com apoio formal ou informal das
aparatos de repressão.
A ação da extrema direita encontra respaldo na
despolitização das massas, principalmente na expressão
gritante do antipartidarismo. No entanto, neste caso temos que ter cautela ao
analisar os fatos. O comportamento contra os partidos é
compreensível, ainda que não justificado. Compreensível
por dois motivos: as massas, graças à triste experiência
petista, estão cansadas de partidos que usam as demandas populares para
eleger seus vereadores, deputados e presidentes que depois voltam as costas
para estas demandas para fazer seus jogos e alianças para manter em seus
cargos; também, acertadamente, não podem aceitar que certos
partidos pulem na frente de manifestações e movimentos para
tentar dirigi-los sem a legitimidade de ter construído organicamente as
lutas.
Tal atitude, portanto, compreensível, é injustificável
pelo fato que ao mirar os partidos de esquerda erra pelo fato que foram os
militantes dos partidos de esquerda e dos movimentos sociais que mantiveram no
pior momento da correlação de força desfavorável as
lutas em torno das demandas populares, por moradia, na luta pela terra, contra
a reforma da previdência, contra as privatizações, em
defesa da educação e da saúde públicas, contra os
gastos com os eventos esportivos, contra as remoções. E o fizeram
em um contexto em que as massas estavam submetidas a um profundo apassivamento
e no qual o transformismo do PT em partido da ordem isolava a esquerda e a
estigmatizava. Neste sentido os partidos de esquerda como o PCB, o PSTU, o PSOL
e outras organizações de esquerda, assim como os movimentos
sociais e sindicatos, não precisam pedir licença a ninguém
para participar de lutas e manifestações sociais, conquistaram
legitimamente este direito na luta, com sua coerência e compromisso.
Para onde vão as manifestações? Alguns ingenuamente, ou de
forma interesseira, acreditam que a mera existência da ação
independente de massas configura em si mesma um fator positivo de
transformação. Infelizmente, a história também nos
traz elementos para questionar esta tese, alguns exemplos da história
muito recente. Quando da derrocada do leste europeu advinda do desmonte da
URSS, muitos saudaram como a possibilidade de uma revolução
política que retomasse o rumo interrompido das experiências
socialistas, mas o que vimos foi a restauração capitalista. Agora
saúdam a chamada "primavera árabe", mas o que temos
visto, e a Líbia e o Egito são exemplos paradigmáticos,
é o aproveitamento dos monopólios na partilha do botim de
países estratégicos isolando mais uma vez os setores populares.
O sentido e futuro das manifestações estão em disputa e
temo em dizer que a esquerda está perdendo esta disputa para um sentido
perigosamente de direita e conservador. Recentemente afirmei que a
experiência política do último período, ao
contrário do que alguns esperavam, havia produzido um desmonte na
consciência de classe e se expressava em uma virada conservadora no
senso comum. Este processo ficou evidente nas manifestação, para
além da intenção de seus originais promotores. O produto
multifacetado das contradições mescla nas
manifestações elementos de bom senso e senso comum, criticas
difusas às manifestações mais evidentes da sociabilidade
burguesa em que estamos inseridos ao lado de reafirmações de
valores próprios desta mesma ordem, o que seria natural se entendermos o
processo de despolitização descrito.
Quando os adeptos do espontaneismo alardeiam a virtude de uma
manifestação sem direção e que hostiliza partidos
se esquecem é que se você não tem uma estratégia,
não se preocupe, você faz parte da estratégia de
alguém. Além da evidente eficiência dos monopólios
da comunicação, o "partido da pena" nos termos de Marx,
em pautar o movimento selecionando as bandeiras que interessa à ordem
(luta contra a corrupção, nacionalismo, diminuição
de impostos, etc.), outros elementos muito perigosos se apresentam.
Um cartaz na manifestação no Rio dizia: se o povo precisar as
Forças Armadas estão prontas para ajudar. Significativamente os
militantes antipartido não destruíram esta faixa, talvez porque
não sabem que existe além do partido da pena o "partido da
espada". Em nota dos clubes militares da marinha, exército e
aeronáutica, os militares depois de afirmar que as
manifestações expressam majoritariamente a
indignação com o descaso das autoridades com as
aspirações da sociedade e que diante dos vícios e
omissões que se repetem chegou a hora de se "manifestar
clamorosamente" e não aceitar "ser conduzido, resignadamente,
como grupo ingênuo" dando "um basta à impostura e
à impunidade". A nota dos militares termina com uma clara
provocação e cita Vandré: "quem sabe faz a hora,
não espera acontecer".
A direita só germina e cresce no vazio deixado pela esquerda. A
ilusão de um desenvolvimento capitalista capaz de resolver as demandas
populares e garantir lucros aos capitalistas, sustentado por um governo de
coalizão com a burguesia desarma os trabalhadores e a direita ocupa o
terreno. Há um evidente cheiro de golpe no ar. A embaixadora dos EUA que
estava na Nicarágua na época dos contras, na Bolívia
quando da tentativa de dividir o pais, no Paraguai quando do golpe contra Lugo,
chegou ao Brasil.
Ao prefaciar o livro de Leandro Konder sobre o fascismo republicado em 2009,
dizia alertando para a atualidade do risco desta alternativa contra aqueles que
achavam que este fenômeno estaria condenado ao passado:
Capital monopolista em crise, imperialismo, ofensiva anticomunista,
criminalização dos movimentos sociais, decadência cultural,
hegemonia da política pequeno-burguesa em detrimento da política
revolucionária do proletariado, irracionalismo, neo-positivismo,
misticismo, chauvinismos nacionalistas acompanhados ou não de racismo...
Não se enganem. Só posso alertar, como certa feita o fez Marx:
"esta fábula trata de ti".
A explosão de massas deu o recado: olha só meu
coração, ele é um pote até aqui de mágoa,
qualquer desatenção, faça não... pode ser a gota
d'água.
[*]
Professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ,
presidente da ADUFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e
Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do
PCB. É autor do livro
O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência
(Boitempo, 2002). Colabora para o
Blog da Boitempo
mensalmente, às quartas.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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