Florestan e o MST
Sobre a criação da Universidade do MST e o nome a ela concedido.
Numa reunião como esta, nada mais natural do que evocar o nome de
Florestan Fernandes, um dos intelectuais brasileiros do nosso tempo mais
empenhados em transformar o pensamento em ação política e
social.
O traço que quero ressaltar nele em primeiro lugar é o orgulho
com que sempre se referiu à humildade das suas origens de homem do povo,
nascido na pobreza, marcado pelas privações que se opõem
como obstáculo à realização pessoal. Orgulho nobre
e justo, porque para ele esses obstáculos foram estímulo, e os
seus grandes feitos surgiram da luta contra tudo o que poderia tê-lo
paralisado.
Florestan construiu a sua personalidade, a sua carreira, a sua obra, a sua
militância graças a uma tenacidade e a uma coragem raras, aliadas
à lucidez com que soube desde cedo analisar a realidade que o cercava,
escolhendo as posições de radicalidade e inconformismo.
Consciente da iniqüidade própria da nossa organização
social, ele se aplicou a partir de certa altura a estudar o mecanismo do
privilégio, a natureza das oligarquias, a formação da
burguesia, a exclusão do negro depois da Abolição, os
vícios elitistas do nosso processo educacional.
Havia na sua personalidade poderosa uma espécie de titanismo, tomada a
palavra em seus dois sentidos principais: o de força hercúlea e
de ânimo de revolta contra as potências superiores. Curiosamente,
ele atuou a maior parte da vida fora dos partidos. Ainda moço, na
segunda metade dos anos de 1940, por influência de seu amigo
Hermínio Sacchetta, militou algum tempo numa organização
trotskista, mas em seguida, e por quase quarenta anos, militou por conta
própria, só ingressando no PT em 1986, quando foi eleito deputado
federal. Nesse longo intervalo, eu lhe dizia de vez em quando que não
precisava entrar para nenhuma organização partidária,
porque valia sozinho um partido de esquerda...
Isso se tornou claro no decorrer dos anos de 1950, quando empreendeu com Roger
Bastide a grande pesquisa sobre a condição do negro em São
Paulo. Até então ele se enquadrava no tipo mais acadêmico
de sociologia, no qual produziu alguns trabalhos fundamentais. A partir da
referida pesquisa, foi elaborando o que viria a denominar "sociologia
crítica", isto é, marcada pela consciência
política.
A situação do negro é um dos problemas mais graves da
sociedade brasileira, porque significa a exclusão e a
humilhação de grande parte do povo devido à cor da pele.
É uma situação que desumaniza o excluído, por
negar-lhe acesso aos níveis satisfatórios da vida social e
econômica; e desumaniza também os agentes da exclusão,
porque implica neles uma falta de fraternidade que raia pela insensibilidade
moral.
Florestan enfrentou este problema com decisão e clarividência,
inclusive fazendo da pesquisa uma oportunidade para o negro manifestar-se como
sujeito, não como objeto. Ele e seus colaboradores, inspirados pelo
mestre Roger Bastide, abriram uma fase nova na maneira de abordar o problema
racial em São Paulo.
Nos anos de 1960 houve outros momentos importantes da ação
política de Florestan, sempre associada à sua
condição de intelectual revolucionário independente. Foi o
caso, a partir de 1959, da memorável campanha que desenvolveu por todo o
país a favor da escola pública, expondo uma das falhas mais
dramáticas da sociedade brasileira, que é o descaso pela
democratização e generalização do ensino. No
Brasil, consciente ou inconscientemente, a preocupação sempre foi
formar as classes dominantes, descurando o resto da população,
com uma insensibilidade que chega a parecer projeto intencional. O resultado
é este país mal preparado para a vida moderna, comprometido pelas
sobrevivências arcaicas da nossa organização social. A
campanha de Florestan expôs a chaga e foi um episódio maior na
luta pela verdadeira democracia.
Quando entrou para o PT, a sua saúde já estava seriamente
abalada, devido a um erro de hospital. Os amigos ficaram apreensivos ao
vê-lo assumir a responsabilidade de um mandato no Congresso, e alguns
chegaram a pensar que não resistiria. No entanto, o seu titanismo venceu
tudo, ele pareceu recuperar as forças e durante dois quadriênios
exerceu o papel de legislador com firmeza e competência, ambas
exemplares. Quando a morte o feriu, devido a outro erro hospitalar, a
impressão foi que só ela seria capaz de abater o ardoroso
lutador.
Por tudo isso, acho que nada mais natural do que evocar o seu nome num evento
ligado ao MST, cujo ânimo de luta e cuja oportunidade histórica se
combinam bem ao que ele foi, porque o MST possui a fibra militante e o alcance
revolucionário que ele tanto prezava. Estou certo de que o MST é
um movimento historicamente decisivo, e Florestan devia pensar o mesmo.
Para esclarecer o meu ponto de vista, peço licença para remontar
ao tempo da minha mocidade e da minha iniciação na vida
política. O ano era 1945 e, com a volta das liberdades civis após
sete de ditadura, um grupo de jovens de que eu fazia parte fundou uma
agremiação inconformada, que desejava encontrar fórmulas
adequadas à nossa realidade, num sentido de transformação
revolucionária. Éramos cheios de esperanças e
estávamos convencidos de que nem o stalinismo nem o trotskismo poderiam
fornecer diretrizes convenientes ao Brasil. Por isso, tentávamos com a
nossa bisonhice elaborar uma concepção e uma ação
de cunho radical, pautadas pelas características da
evolução histórica brasileira, sem abrir mão da
democracia.
O nosso principal inspirador era um antigo comunista que fora preso em 1935,
fugira da prisão em 1937, vivera no exterior e voltara quando a guerra
eclodiu em 1939: Paulo Emilio Salles Gomes. O nosso agrupamento, denominado
União Democrática Socialista, UDS, durou pouco e nós
acabamos entrando para a Esquerda Democrática, que em 1947 passou a se
denominar Partido Socialista Brasileiro, fechado em 1965 pela ditadura militar.
O manifesto da UDS foi escrito por Paulo Emilio e nele se lia o seguinte
trecho, para o qual chamo a sua atenção:
"Na história do liberalismo e da pseudodemocracia do Brasil, os
grandes fazendeiros, industriais, comerciantes e banqueiros já falaram
muito. A classe média e o operariado disseram algumas palavras. Os
trabalhadores da terra são a grande voz muda da história
brasileira".
Este ponto de vista foi um dos meus guias políticos desde aquele ano
remoto de 1945. Os trabalhadores urbanos tinham começado a se organizar
politicamente em grande escala e a participar como força viva no
país. Mas o trabalhador rural continuou marginalizado, sem
liderança, mesmo paternalista, sem oportunidade de se manifestar na
política de maneira consciente. Só em 1955 um companheiro nosso
do Partido Socialista, Francisco Julião, fundou as Ligas Camponesas e
iniciou de maneira efetiva, revolucionária a seu modo, a era das
atuações sistemáticas do trabalhador agrícola. Mas
passou ainda muito tempo antes que o processo amadurecesse e o campesinato
começasse a pensar realmente na vida política brasileira, o que
só aconteceu com o MST.
Por isso este último é um acontecimento histórico
decisivo, porque completa a incorporação de todos os brasileiros
à esfera das decisões de interesse coletivo. Retomando as
palavras do manifesto da nossa UDS, lembremos que primeiro falaram as classes
dominantes; depois, a classe média e os operários; finalmente
ergueu-se a voz que faltava, a dos trabalhadores da terra. Assim, o circuito se
completou e o Brasil está preparado, pela primeira vez, para as lutas
decisivas, com a possibilidade da participação de todos os
segmentos e camadas, cada um afirmando os seus interesses e as suas
reivindicações. Graças ao MST estão, portanto,
criadas as condições para que a sociedade brasileira possa
manifestar-se de maneira íntegra, inclusive afirmando a vontade
transformadora dos seus setores radicais. O MST foi um sinal de amadurecimento
da sociedade e a condição para que seja realizada a vontade
transformadora no sentido da justiça social e da
organização econômica pautada por ela.
O que estou procurando sugerir é que devido ao MST estamos finalmente
maduros para tentar realizar a aspiração de um homem como
Florestan Fernandes, isto é, a ação revolucionária
que há de transformar o Brasil. Quem diz revolução
não diz necessariamente insurreição nem violência
armada, mas decisão de alterar pela raiz a estrutura da sociedade,
estrutura que no Brasil é das mais injustas da terra.
Com estas palavras fecho o meu anel expositivo. Um grande intelectual
revolucionário, como foi Florestan Fernandes, deve ser pensado em
conexão com os grandes movimentos radicais, como é o MST. A
conjunção de ambos neste evento é natural e anima a nossa
esperança.
___________
[*]
Discurso, enviado por Antonio Cândido, lido a 21 de Janeiro na
inauguração da Escola Nacional Florestan Fernandes, do
MST
, em Guararema (a 60 km de S. Paulo). Na ocasião foi apresentado o
livro "Florestan, vida e obra", de Laurez Cerqueira.
Este artigo encontra-se em
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