Brasil: As ilusões revividas
O melancólico retorno dos órfãos da burguesia nacional
As recentes denúncias de corrupção e promiscuidade entre o
setor público e privado nas áreas de construção
civil e petróleo e gás levantadas pela Operação
Lava a Jato e, mais recentemente, as denúncias de uma série de
irregularidades sanitárias na produção dos principais
monopólios de processamento de carnes ressuscitaram um velho debate
sobre o papel da burguesia nacional no País e trouxeram de volta os
ingênuos defensores da chamada burguesia brasileira. Eles agora
argumentam que as operações contra a corrupção e as
fraudes contra esses grandes monopólios, realizadas pela Polícia
Federal, procuradores e juízes, na verdade seriam uma ofensiva da
política e da justiça para destruir as grandes empresas
nacionais, justamente aquelas que são responsáveis por parcelas
expressivas das exportações brasileiras. Haveria nesse processo
uma aliança entre esses setores e os interesses do imperialismo para
quebrar as empresas nacionais e possibilitar às
corporações estrangeiras ocuparem os mercados deixados pelas
empresas brasileiras.
É importante entendermos os meandros desse processo, o papel dessas
corporações na economia e sua relação com os
trabalhadores e os laços que existem entre o setor econômico e a
política eleitoral para compreendermos o domínio do poder
político exercido pelas classes dominantes no Brasil. O Brasil
não é para amadores: para se compreender a complexidade da
formação socio-econômica brasileira, os 300 anos de
escravidão e sua influência ideológica sobre as classes
dominantes, a industrialização tardia, a formação
da mão-de-obra e constituição do proletariado urbano, a
urbanização da sociedade e a formação das grandes
metrópoles, o papel das camadas médias urbanas em sociedades
complexas como a nossa, é preciso um estudo aprofundado da economia e
das relações de produção no teatro de
operações em que estamos atuando. Do contrário,
reproduziremos velhos chavões do século passado, decalques
societários que não têm nada a ver com a nossa
experiência nem aderência com a realidade brasileira.
A discussão sobre o papel da burguesia nacional é antiga. Por
décadas o PCB foi o principal formulador da necessidade de uma
revolução nacional-democrática, em aliança com a
burguesia nacional, pois imaginava que esta tinha contradições
com o imperialismo. Também em meios intelectuais e acadêmicos essa
tese tem larga aceitação. No entanto, o próprio PCB, no
seu processo de reorganização, após a queda da
União Soviética, realizou um profundo estudo sobre a realidade
brasileira, as classes sociais e o Estado e rompeu com essa
formulação, a partir da constatação de que a
globalização hegemonizou o domínio das burguesias centrais
sobre os países periféricos e que a burguesia brasileira, por
características históricas, está não só
subordinada à dinâmica do grande capital internacional, como a ele
está associada, além do fato de que em todos os momentos de crise
se perfilou ao lado do imperialismo.
O mais irônico desse processo é que organizações
políticas, que antes criticavam o PCB como reformista, exatamente por
sua posição em relação à burguesia nacional,
agora são os principais entusiastas dessa tese, evidentemente sem o
charme e a tradição política do velho Partidão.
Amoldando-se à ordem capitalista, esses setores chegaram ao governo e
praticaram ao longo de 13 anos a política de aliança com a
burguesia. Foram descartados pela própria burguesia e amargaram uma
derrota humilhante, mas parece que não compreenderam as
lições da vida. Como num baile de máscara, procuram
esquecer a realidade recente e retomar as velhas teses como se estivessem
exercitando uma fantasia masoquista.
Um pouco de história não faz mal a ninguém
Vale lembrar que, ao longo do período colonial, o Brasil foi uma
colônia de exploração, com o monopólio do
comércio pelos colonizadores, a proibição de construir
indústria e a maioria absoluta da população analfabeta, o
que representou mais de três séculos de riquezas saqueadas, atraso
econômico e obscurantismo cultural. Só para lembrar: em 1540 o
Peru já tinha universidade, enquanto no Brasil a primeira universidade
só foi formada na década de 30 do século XX. Os mais de
300 anos de escravidão deixaram marcas ideológicas profundas nas
classes dominantes, cujos reflexos até hoje se manifestam no
autoritarismo, na truculência e no desprezo dessas classes aos
trabalhadores. Outra característica é que no Brasil o Estado tem
a tradição de funcionar plenamente como um Comitê Central
das classes dominantes e sempre procurou subjugar a população
mediante a cooptação, quando esse método era
possível, ou pela repressão, quando a cooptação
não era factível, tudo isso no sentido de afastar as grandes
massas das decisões econômicas e políticas.
Essas características se aliam ao fato de que, como assinalávamos
em outro trabalho, a economia, desde os seus primórdios já nasceu
integrada e subordinada aos circuitos do capital mercantilista internacional
(Caio Prado, 2000). Formou-se uma classe dominante agrário-exportadora,
conservadora, predatória, antindustrialista, dependente do Estado e
subordinada aos centros do capitalismo internacional, marcas que continuaram
após a independência e a República. A escravidão e
suas sequelas sociais retardaram a formação de um mercado de
mão-de-obra assalariada nacional. O preconceito contra os trabalhadores
brasileiros era tão forte que as classes dominantes decidiram por uma
política de imigração de europeus, brancos, para trabalhar
nas lavouras de café e, depois, nas pequenas indústrias que se
formaram nas primeiras décadas do século XX.
O processo de industrialização brasileiro foi muito tardio: 300
anos depois da revolução burguesa na Inglaterra e cerca de 200
depois da revolução industrial. A revolução de 1930
abriu espaço para a industrialização e deslocou os setores
agrário-exportadores para um segundo plano na economia, mas perdeu-se na
conciliação com a velha ordem e não realizou sequer a
reforma agrária. O processo de industrialização só
se completou com o Plano de Metas, na segunda metade dos anos 50. Mas a
industrialização brasileira completou-se quando a segunda
revolução industrial estava madura (metalurgia, química,
plásticos, etc), os monopólios dominavam a economia mundial, e
iniciavam-se os primeiros passos da internacionalização da
produção, período em que as empresas transnacionais
passaram a produzir e extrair o valor fora de suas fronteiras nacionais.
Além disso, essa industrialização foi realizada mediante a
junção de três blocos de capitais: o capital privado
nacional, o capital do Estado e o capital internacional, sendo que este
último passou a controlar os setores mais dinâmicos da economia.
Outra singularidade socio-econômica brasileira é o fato de que a
burguesia nacional nunca protagonizou uma revolução burguesa
clássica, como a inglesa e a francesa. Cresceu e se desenvolveu a partir
de laços orgânicos com o capitalismo internacional, sempre de
maneira subordinada, o que a inviabilizou de lutar por um projeto nacional como
as burguesias dos países centrais. Por exemplo: grande parte da
burguesia industrial foi formada a partir da cadeia de produção
da indústria automobilística e da dinâmica desse setor no
conjunto da economia. Mesmo levando-se em conta que o Estado brasileiro foi o
comandante-em-chefe do processo de industrialização,
responsável pela construção da infraestrutura e das
grandes empresas públicas produtoras de insumos, essas empresas e a
infraestrutura estatal funcionaram muito mais no sentido de dar suporte ao
processo de acumulação do capital privado nacional e
internacional do que efetivamente de um projeto nacional.
O fim das ilusões com a burguesia nacional
Essa complexa formação e o grande papel do Estado na economia
levaram muitos a pensar inclusive o PCB durante várias
décadas , como já enfatizamos, que a burguesia brasileira
tinha um papel a cumprir numa luta anti-imperialista e num processo de
transformações sociais e distribuição de renda
[1]
para a construção de um mercado de massas. Mas essas
ilusões sobre um papel progressista da burguesia nacional foram
sufocadas pelo golpe militar de 1964, quando esta burguesia se perfilou
inteiramente com os golpistas e foi a construtora de um modelo econômico
predatório, com repressão brutal aos trabalhadores, arrocho
salarial e concentração de renda, processo que forjou uma
economia de baixos salários, mantido e aprofundado nos governos
pós-ditadura. Imaginava-se que as lições do golpe militar
seriam compreendidas pela esquerda (afinal tratou-se da maior derrota dos
setores populares na nossa história moderna) e que as ilusões com
a burguesia nacional seriam sepultadas de uma vez por todas.
A globalização, com a internacional da produção e
financeira, consolidou ainda mais o papel da grande burguesia dos países
centrais sobre as nações periféricas, que passaram a
interferir diretamente na formulação das políticas
nacionais em função de seu peso econômico. Representou
também a ampliação do domínio dos monopólios
internacionais sobre as burguesias domésticas. Nessa nova conjuntura
aumentou a subordinação dos capitais nacionais ao capital
estrangeiro, que agora só podem se desenvolver se estiverem ligados aos
circuitos do mercado de produtos e ao mercado financeiro internacional, todos
controlados com mão de ferro pelas grandes empresas transnacionais.
Nessas novas condições, o capital doméstico ampliou sua
associação com o capital internacional para se aproveitar das
sinergias do sócio maior e aumentar seus lucros.
As mudanças que ocorreram no capitalismo mundial, no final dos anos 70,
início dos anos 80, a partir da emergência dos governos Tatcher e
Reagan, impactaram de maneira profunda o processo de acumulação
mundial, as relações econômicas internacionais, com o
advento do monetarismo, e a ampliação do domínio do
capital internacional, especialmente o setor financeiro. A partir dos anos 90,
o neoliberalismo se tornou a ideologia hegemônica no mundo capitalista,
reestruturando e reorganizando a economia mundial sob o domínio do polo
financeiro do grande capital. A partir das sinalizações da
economia norte-americana, todas as economias foram abrindo seus mercados,
desregulamentando as finanças, desmantelando as
regulamentações trabalhistas, reduzindo salários,
privatizando as empresas públicas, o que aumentou ainda mais o
domínio do capital internacional nos países da periferia.
Apesar de implementada em praticamente todos os países capitalistas, nos
anos 80 não existiam as condições políticas para a
implantação do neoliberalismo no Brasil. Nos primeiros cinco anos
da década, a ditadura estava nos seus estertores e não tinha
força para realizar a política neoliberal. Na segunda metade dos
anos 80, o movimento de massas ainda em ascensão e em luta pela
Assembleia Constituinte tinha força suficiente para inviabilizar a
implementação das políticas neoliberais. Portanto, apesar
de a década de 80 ser considerada como os anos perdidos, a luta de
classes não permitiu que o neoliberalismo fosse implantado no
País. Somente com a derrota de Lula e a eleição de
Fernando Collor em 1989 foi possível à burguesia iniciar a
implantação do Consenso de Washington, síntese da
política neoliberal. Mas Collor ficou apenas dois anos no governo e foi
deposto em função da corrupção em seu governo e do
grande movimento de massas pelo seu impeachment. Somente com a
implantação do Plano Real, a eleição de Fernando
Henrique e a unificação da burguesia em torno de seu governo foi
possível a implantação plena do projeto neoliberal.
O governo FHC, aproveitando-se da popularidade do Plano Real, desenvolveu uma
radical e fulminante política neoliberal no País. Reformou a
Constituição para favorecer o capital estrangeiro e permitir a
desregulamentação da economia, liberalizou o fluxo internacional
de capitais, atacou os direitos dos trabalhadores, combateu ferrenhamente as
greves e realizou um radical programa de privatizações que
praticamente transferiu para o setor privado a grande maioria dos setores da
economia até então públicos. Foram privatizados todos os
bancos estaduais, todo o setor de siderurgia, telecomunicações,
petroquímico, setor elétrico, infraestrutura, entre outros,
restando apenas a Petrobras, que o governo não teve força para
privatizar, apesar das tentativas, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica
Federal. Mesmo assim os dois últimos salvaram-se bastante fragilizados,
uma vez que, através da venda de suas ações, o setor
privado passou a ter grande influência na governança dessas
empresas.
No bojo da ofensiva neoliberal e abertura da economia, uma parcela expressiva
das empresas de capital doméstico foi adquirida pelo capital estrangeiro
ou a ele se associou. Muitos de seus antigos donos foram viver de rendas
proporcionadas pela ciranda financeira e pelos juros obscenos que até
hoje são praticados na economia brasileira. A abertura da economia
quebrou praticamente todo o setor de autopeças, parte do setor
eletro-eletrônico, brinquedos, calçados, entre outros, e as
fusões e aquisições completaram o processo. A
política neoliberal significou o dobre de finados para as ilusões
dos ingênuos defensores da burguesia nacional. Se a chamada burguesia
nacional já vinha sendo reduzida com o movimento do capital
internacional, com a globalização, o neoliberalismo e as
privatizações do governo FHC, seu papel econômico se tornou
ainda mais frágil e sua subordinação ao capital
estrangeiro muito maior.
"Para se ter uma ideia, o processo de fusões e
aquisições, a maior parte comandada pelo capital internacional,
foi intenso. Entre 1994 e 2006 ocorreram 415 fusões e
aquisições nos setores de alimentos, bebidas e fumo; 308 no setor
de tecnologia das informações; 282 no setor de
telecomunicações; 217 no setor de energia elétrica; 208 no
setor de metalurgia; 167 na área petroquímica; 158 no setor
petrolífero; 108 no setor de peças automotivas e 100 no setor
eletrônico. Se observarmos o Investimento Direto Externo (IDE), entre
1994, início do governo FHC, e 2000, o IDE cresceu da seguinte forma: em
1994 era de U$ 2,4 mil milhões; passou para U$ 10,7 mil milhões
em 1996; U$ 18,9 mil milhões em 1997; U$ 28,8 mil milhões em
1998; e 32,7 mil milhões em 2000. Ressalte-se que o IDE, com a
emergência do neoliberalismo, ganhou novos contornos, uma vez que a maior
parte desses investimentos vieram para alavancar as fusões e
aquisições no Brasil (Costa e Manzano, 2007)".
O governo Lula e as "campeãs nacionais"
Como os romeiros em procissão, os órfãos da burguesia
nacional sempre esperam um milagre para atenuar suas agruras e
aflições. O governo Lula, especialmente no segundo mandato,
significou para esses setores uma espécie de emergência da terra
prometida. Com abundantes recursos subsidiados pelo Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), desenvolveu-se uma intensa
política de fortalecimento das empresas nacionais, visando construir as
chamadas
campeãs nacionais,
cujo objetivo era articular um processo de fusões e
aquisições desses grupos nacionais, tornando-os grandes
players globais
, com economias de escala e sinergias que lhes proporcionassem músculos
suficientes para realizar competitividade internacional, especialmente em
nichos de mercado da periferia capitalista. Mediante uma política de
estímulo e revigoramento de setores industriais, a Petrobrás
entrou em campo para apoiar setores industriais, mediante política de
compras junto a empresas nacionais, bem como programas governamentais de
habitação e prospecção de negócios via
Itamaraty
[2]
fortaleceram as grandes empresas do setor da construção civil.
Muitos desses grupos do setor privado, que se conglomeraram a partir de
financiamentos praticamente a custo zero do BNDES, adquiriram expressiva
atuação internacional. As empresas de construção
civil ampliaram sua atuação no mercado externo, que já
existia antes desses estímulos; o setor de carnes transformou o Brasil
num dos líderes da exportação mundial. Empresas de outros
setores também se multinacionalizaram. O agronegócio,
também com vastos créditos subsidiados e desrespeito ao meio
ambiente, aos direitos dos trabalhadores e trabalho escravo, expulsão de
ribeirinhos e quilombolas de suas terras originárias, parecia a
redenção nacional com os recordes de exportação de
commodities
. Seu marketing agressivo veiculava diariamente as vantagens do
agronegócio: "
Agro é tech, agro é pop, agro é tudo
", praticamente buscando reviver o velho sonho das elites
agrário-exportadoras, que nunca se conformaram com a
industrialização do País.
Mas a grande ironia do destino e certo constrangimento para os
órfãos da burguesia nacional foi a crise política que veio
embaraçar as ilusões em relação à burguesia
nacional. Com a crise econômica mundial e suas repercussões no
Brasil, essa mesma burguesia, tão mimada com créditos subsidiados
do BNDES e que tanto lucro obteve no governo Lula, resolveu apear o PT do poder
e descartá-lo como um bagaço de laranja quando este já
não servia mais plenamente aos seus interesses. Primeiro, não
estava mais conseguindo administrar bem o capitalismo e levou o país
à recessão e ao desemprego. Segundo, também já
não conseguia conter as massas, afinal as jornadas de junho de 2013, que
envolveram milhões de pessoas em cerca de 600 cidades do Brasil, foram
realizadas por fora da influência do PT e da CUT e seus instrumentos de
cooptação. Além disso, como a burguesia necessitava de um
ajuste rápido e profundo, e o PT só poderia fazê-lo de
maneira lenta e gradual em função de sua base política,
esse partido já não servia mais diante da gravidade da crise. Por
isso, a burguesia o substituiu por um governo puro sangue. Suprema
ingratidão, imaginam os órfãos constrangidos.
Mas a luta de classes é assim mesmo: quem dorme com o inimigo pode
acordar morto, ou quase. Os 13 anos de política de
conciliação de classes e de alianças com a burguesia
parece que não foram suficientes para convencer os órfãos
de que esse tipo de aliança, em função do nível de
desenvolvimento do capitalismo, dos interesses de classe da burguesia
brasileira e de seus vínculos com o capital internacional, só
levarão a derrotas sucessivas. Eles imaginavam que a chamada
estratégia democrático-popular, agora derrotada, era o
instrumento que possibilitaria as mudanças no País. Esperavam
ingenuamente que as alianças com a burguesia iriam fortalecê-los e
lhes possibilitaria acumular forças a um ponto tal que poderiam mudar a
correlação de forças e realizar as
transformações. Esqueceram que todos os setores progressistas que
se aliaram com a burguesia no Brasil foram absorvidos, humilhados e derrotados
pela própria burguesia.
O que está efetivamente acontecendo?
Esse processo desencadeado pela Justiça, com as denúncias de
corrupção, prisões, delações premiadas,
divulgação seletiva e mesmo favorecimento a figuras expressivas
da política nacional, veio demonstrar de forma didática para a
população a podridão das instituições
brasileiras, as artimanhas do setor privado para ganhar contratos, influenciar
nas políticas governamentais e aumentar seus lucros. Bem revelou ainda a
promiscuidade entre as grandes empresas privadas e as
representações políticas no Parlamento e no Executivo.
Evidentemente que no curso dessas operações se cometeram abusos e
desrespeito às normas construídas pela própria burguesia.
Mas agora está claro para todos que praticamente ninguém se elege
no Brasil se não fizer parte dos esquemas de suborno e caixa dois
[3]
das grandes empresas. Está claro por que as campanhas eleitorais do
Executivo custam cerca 300 milhões de reais (U$100 milhões), e um
deputado federal não consegue se eleger se não gastar entre 5 e
10 milhões de reais. Está ainda mais cristalino que o poder
econômico é quem efetivamente elege deputados, senadores e
presidentes. Estes não são representantes do povo, mas lobistas
da burguesia para defender seus interesses.
É evidente que os esquemas de corrupção montados na
Petrobras, por exemplo, causaram danos à imagem nacional e internacional
da empresa. Após os julgamentos e prisões, a estatal
deverá seguir seu rumo e recuperar sua imagem. Mas esta não
é a questão principal: o problema não é a empresa
ser estatal, mas sua direção ter sido capturada pelos esquemas de
corrupção das quadrilhas que compõem as
instituições brasileiras. Todos os executivos apanhados com a
boca na botija foram nomeados por partidos políticos, ou da base aliada
do governo e até mesmo da oposição, exatamente para
executar os esquemas de corrupção. Que os velhos partidos sejam
useiros e vezeiros nessas práticas políticas já era de se
esperar. Mas o PT, que nasceu das lutas operárias, que era
crítico feroz das bandalheiras institucionais (Lula quando era deputado
chegou a dizer que lá no Congresso existiam 300 picaretas), se enlamear
nesses esquemas de corrupção e transformá-los em parte
constitutiva de sua ação política é uma
traição aos milhões de operários e trabalhadores
que se levantaram no final dos anos 70 e início dos anos 80 contra os
patrões e a ditadura.
É claro também que as denúncias dos esquemas de
corrupção e o envolvimento até o tutano das principais
construtoras do País nessa promiscuidade, tanto no Brasil quanto no
exterior, provocam certos danos aos negócios dessas
corporações. Mas esses danos não eliminam a
experiência, a tecnologia acumulada e a expertise dessas
corporações. Resolvidos os problemas judiciais, elas
voltarão ao mercado, retomarão seus negócios. A
prisão de um ou outro diretor não as deixam menos capazes de
construir grandes obras, participar e ganhar concorrências nacionais e
internacionais como faziam antes das denúncias. Portanto, as
denúncias foram positivas, pois obrigarão essas empresas a
melhorar suas práticas de governança, muito embora não se
possa ser ingênuo e imaginar que a corrupção irá se
acabar com essas denúncias. A corrupção é
própria da gênese da concorrência e, portanto, do
capitalismo.
Já o escândalo das grandes corporações produtoras e
processadoras de carnes tem uma conotação mais grave. A
questão principal é que todos nós ficamos sabendo
estarrecidos das práticas inescrupulosas das empresas denunciadas, do
desprezo com que os diretores dessas empresas lidam com a saúde da
população e da ganância do capital que, para aumentar seus
lucros, vende carne podre para a população, maquilha carne
vencida e corrompe funcionários públicos para encobrir seus
crimes. Vender produtos desse tipo é o mesmo que vender remédio
adulterado. Esses meliantes, do fiscal corrupto ao diretor, devem ser punidos
exemplarmente. Com relação à imagem da empresa e o impacto
nos seus negócios é evidente que num primeiro momento terá
algum impacto negativo, mas, com transparência e
fiscalização rigorosa, nacional e internacional e novas
práticas de controle, essas empresas retomarão seus
negócios internos e externos.
O que não se pode é cair na armadilha de transformar essas
empresas num patrimônio nacional, que deva ser defendido diante de um
imaginário inimigo externo que está conspirando para tomar seus
mercados, esquecendo-se das práticas criminosas que vinham realizando
contra a economia nacional e a população. Não se pode
também esquecer que essas empresas pertencem ao grande capital e seus
proprietários têm como objetivo a maximização dos
lucros. As empresas do setor de carnes são responsáveis pela
super-exploração, intoxicação e
mutilação dos trabalhadores, perseguição de
sindicalistas e demissão daqueles que lutam por seus direitos.
São ainda campeãs de acidentes de trabalho, realizam jornadas
extenuantes e pagam baixos salários. Até mesmo na Petrobras uma
parcela expressiva da mão-de-obra é terceirizada, recebem baixos
salários e não tem os mesmos direitos que os ligados diretamente
à empresa.
Nenhuma lágrima para a burguesia nacional
Portanto, torna-se incompreensível a choradeira dos órfãos
da burguesia nacional diante dos acontecimentos recentes com essas
corporações. Parece que esse pessoal está com a
síndrome de Estocolmo ou age como aquele apaixonado alucinado que sofre
e mais quer sofrer. Que os integrantes dos governos petistas que realizaram as
mais espúrias alianças de classes continuem querendo se iludir,
até se compreende. Mas ver os companheiros que se mantiveram na
resistência virem à cena defender essas empresas e atribuir
à operação da Polícia Federal uma
conspiração para destruir esse setor da economia nacional
é não só uma insensatez como sério indício
de que perderam a perspectiva de classe.
A burguesia nacional brasileira não merece nenhuma lágrima e
nenhuma solidariedade. Esse setor que hoje está na berlinda é o
principal financiador da bancada ruralista, a mesma que defende as pautas mais
conservadoras, os latifundiários, pratica o trabalho escravo, toma as
terras dos camponeses e polui o meio ambiente. O que as
investigações desnudaram foram as práticas criminosas
desses monopólios contra a saúde da população para
a ampliação de seus lucros. Para realizar essas falcatruas,
corrompem agentes públicos de fiscalização, trocam fiscais
quando estes não se dobram às práticas inescrupulosas e
montam lobbys no Parlamento para defender seus interesses. Se esses senhores
não levam em conta sequer a saúde da população,
como imaginá-los defensores dos interesses nacionais? Santa ingenuidade!
Não se pode também confundir a soberania nacional com os
interesses dos empresários gananciosos, nem esquecer que os
trabalhadores desses frigoríficos, além de trabalhar em
precárias condições, recebem um salário de
miséria. Também não se pode cair no conto de que a
operação desenvolvida pela Polícia Federal destrói
esse setor da economia. Ressalte-se que 80% da produção total
desses monopólios são vendidos no mercado interno e só 20%
são destinados à exportação. Portanto, quem
está sendo mais prejudicado com as práticas sujas desses
monopólios é a população brasileira, que consome um
produto de péssima qualidade imaginando que aquilo que come está
de acordo com as boas práticas sanitárias. Pode ser que existam
ainda mais falcatruas e que o que foi descoberto seja apenas a ponta do iceberg
das sujeiras desse setor.
Mas esse não é também o centro da questão: o
problema mais relevante é o fato de que, por trás dessa
choradeira em defesa da burguesia nacional, está um projeto
político que já fracassou historicamente e agora quer voltar
à cena com as mesmas alianças que a vida demonstrou ser um
projeto sem futuro. A política de conciliação de classes e
alianças com a burguesia é a principal responsável pela
tragédia social e política que estamos atravessando. Foram suas
traições, erros e vacilações que possibilitaram e
emergência desse governo que está aí. Nos tempos de governo
petista desarmou-se os trabalhadores para a luta, cooptou-se o movimento
social, despolitizou-se a juventude. O resultado dessa trajetória
é o governo usurpador de Michel Temer.
Querer reviver uma política que a vida já demonstrou fracassada
é impor aos trabalhadores um novo período de derrotas. A
burguesia brasileira, sócia e aliada do imperialismo, e o grande capital
internacional são os principais inimigos do povo brasileiro e,
especialmente, dos trabalhadores e da juventude. Portanto, é uma
fantasia masoquista, uma quimera que só existe na
imaginação dos saudosistas dos anos 50 do século passado,
imaginar que essa classe possa desempenhar qualquer papel progressista na
conjuntura brasileira. Essa burguesia está umbilicalmente associada ao
capital internacional, subordinada aos seus interesses, e tem no proletariado
brasileiro seu principal inimigo porque sabe que um levante social, nas
condições de um capitalismo em desenvolvimento como no Brasil, o
passo seguinte será a transição para uma sociedade
socialista, com a expropriação de todos os seus bens.
Basta de ingenuidade, mistificação e esperteza. A hora é
de juntar forças tendo como núcleo central o campo
proletário, de forma a que possamos reverter o domínio
burguês e construir o Poder Popular.
28/Março/2017
[1] Além da renda da terra e da renda de títulos da dívida
pública, no Brasil também chamam de renda os
rendimentos salariais e os lucros dos empresários.
[2] Itamaraty: Ministério das Relações Exteriores do
Brasil.
[3] Caixa dois: saco azul.
[*]
Secretário Geral do PCB
O original encontra-se em
pcb.org.br/portal2/13944
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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