Acumulação de reservas cambiais = farra dos especuladores e
explosão da dívida interna
por Rodrigo Vieira de Ávila
[*]
Depois de divulgar amplamente o pagamento antecipado ao FMI, em 2005, dia 21 de
fevereiro de 2008 o governo anunciou mais um suposto marco histórico: o
de que os ativos do país no exterior, constituídos
fundamentalmente pelas reservas internacionais, superaram a dívida
externa pública e privada. Alega o governo que esta é uma
evidência da superação do problema da dívida.
Em primeiro lugar, cabe ressaltar que este suposto recorde não passa de
manipulação estatística, originada em 2001, durante o
Governo FHC, e perpetuada no governo Lula: a exclusão dos
empréstimos intercompanhia (dívidas de filiais de transnacionais
no Brasil com suas matrizes no exterior) do cálculo da dívida
externa. Estes empréstimos dobraram em 2007, passando de US$ 20 mil
milhões para US$ 42 mil milhões, mas são ignorados pelo
governo, para que possa propalar um suposto marco histórico.
Em segundo lugar, o que está por trás desta
acumulação desenfreada de reservas cambiais? Uma verdadeira farra
dos especuladores nacionais e estrangeiros, que trazem seus dólares em
massa ao Brasil para comprar títulos da dívida
"interna", em busca dos juros mais altos do mundo. O resultado disto
é a explosão da dívida interna, que atingiu R$ 1,4
MILHÃO DE MILHÕES [548 MIL MILHÕES]
[1]
em dezembro de 2007, tendo crescido 40% em apenas dois anos!
Em 2007, o governo federal gastou R$ 237 mil milhões com juros e
amortizações da dívida interna e externa (sem contar o
refinanciamento, ou seja, a chamada "rolagem" da dívida),
enquanto apenas gastou R$ 40 mil milhões com a saúde, R$ 20 mil
milhões com a educação e R$ 3,5 mil milhões com a
Reforma Agrária. E o governo ainda tem coragem de afirmar que a
dívida não é problema!
Conforme denunciado na 3ª Edição da
Cartilha "ABC da Dívida"
(que estará sendo lançada em breve pela
Campanha Auditoria Cidadã da Dívida / Rede Jubileu Sul Brasil
), a recente
isenção fiscal de Imposto de Renda sobre os ganhos dos
estrangeiros, o estabelecimento e a manutenção de taxas de juros
altíssimas, e a total liberdade de movimentação de
capitais têm gerado as condições para um verdadeiro ataque
especulativo contra o Brasil. Os investidores estrangeiros trazem seus
dólares para investir na Bolsa e em títulos da dívida
interna, e assim forçam a desvalorização do dólar
frente à moeda brasileira (o Real). Os bancos e empresas nacionais
também se aproveitam disso, tomando empréstimos no exterior (mais
baratos devido às baixas taxas de juros) para emprestar ao governo
brasileiro, por meio da compra de títulos da dívida interna,
recebendo uma fortuna em troca disso, devido às altíssimas taxas
de juros do Brasil. Não há limite algum para estas
operações, e o Banco Central (BC) compra estes dólares e
fornece títulos da dívida interna de acordo com o fluxo de moeda
estrangeira ao país. Quando recebem seus lucros e juros em reais, os
investidores podem trocá-los por maior quantidade de dólares
uma vez que a moeda brasileira se valorizou e assim cumprir seus
compromissos com o exterior, tendo um lucro extra.
Em 2007, o Real valorizou-se 20% frente ao dólar. Portanto, o investidor
estrangeiro que no início de 2007 trouxe dólares para aplicar na
dívida interna brasileira ganhou, durante o ano, 13% em média de
juros, e mais 20% quando converteu seus ganhos em dólar. Portanto, em
2007, os estrangeiros ganharam uma taxa real de juros (em dólar) de mais
de 30% ao ano!
Por outro lado, o Banco Central, comprando a moeda estrangeira trazida pelos
especuladores, termina ficando com o mico
[2]
, ou seja, o dólar, que se está desvalorizando. O BC
também aplica os dólares (recebidos dos investidores e
exportadores) , só que em títulos do Tesouro Americano (que
ajudam Bush a financiar seu déficit e suas políticas, como a
invasão do Iraque), que rendem perto de um terço dos juros pagos
pelo governo brasileiro pelos títulos da dívida interna.
Além do mais, como o dólar está em forte
desvalorização, os juros pagos pelo Tesouro Americano são,
na realidade, negativos para nós.
O resultado disto tudo é um imenso prejuízo para o Banco Central:
chegou a R$ 58,5 mil milhões apenas de janeiro a outubro de 2007. Este
prejuízo é bancado pelo Tesouro Nacional, e correspondeu ao dobro
de todos os gastos federais com saúde no mesmo período. Por outro
lado, os banqueiros, que se beneficiam desta manobra, não páram
de bater recordes de lucro.
Portanto, este suposto marco histórico divulgado pelo governo esconde,
na realidade, uma verdadeira reciclagem do velho mecanismo de
espoliação da dívida externa, com uma nova máscara:
o endividamento "interno". Este mecanismo é altamente
rentável aos investidores estrangeiros, uma vez que, desta forma, eles
ficam imunes à desvalorização da moeda americana,
recebendo seus lucros e juros em uma moeda que não pára de se
fortalecer frente ao dólar.
Além do mais, quando o governo alega que possui recursos para pagar toda
a dívida externa, faz uma apologia ao pagamento de uma dívida
ilegítima e já paga várias vezes com o sangue e suor do
povo, desde os anos 80, quando os EUA, de modo unilateral e ilegítimo,
multiplicou as taxas de juros incidentes sobre a dívida externa, levando
o Terceiro Mundo à recessão e ao desemprego.
Não há saída para o endividamento sem uma ampla e profunda
auditoria, que quantifique quantas vezes já pagamos esta dívida e
a que custo social e ambiental. Somente assim poderemos nos libertar dessa
amarra que continua nos aprisionando, apesar do governo prosseguir em sua
manobra diversionista, tentando sistematicamente, através da
divulgação de dados manipulados e parciais, desqualificar os
movimentos sociais em favor da auditoria da dívida, na tentativa de
esconder que o endividamento continua sendo, cada vez mais, o centro dos
problemas nacionais.
[1] 1 Euro = 2,55 reais
[2] Refere-se ao "Jogo do Mico", no qual as cartas apresentam figuras
de animais. Aquele que fica com a carta do mico (macaco) é o perdedor.
[*]
Economista, da Campanha Auditoria Cidadã da Dívida Rede Jubileu
Sul Brasil, assessor do PSOL na Câmara dos Deputados.
O original encontra-se em
www.divida-auditoriacidada.org.br/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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