Entre o seis ou a meia dúzia: os dilemas da esquerda brasileira
por Justino de Sousa Junior
[*]
e Antonio Julio de Menezes Neto
[**]
Presume-se construir um caráter progressista em torno de Dilma
através do artifício de mostrar o conservadorismo
reacionário de Serra e de acusar Marina Silva de ter se pintado de
"azul-tucano". Tal como no costume antigo, os marqueteiros de Dilma
usam a carantonha de seu adversário para espantar os espíritos
maus. Abriremos um parêntese para deixar claro que não vamos nos
ocupar, por ora, de Serra e de sua gente, pois o consideramos o que de pior
temos no quadro político brasileiro, representantes de uma direita
retrógrada e de triste lembrança para os brasileiros. Assim,
centraremos no "outro lado".
Se buscarmos parâmetro para verificar quem representa quem nesse quadro
eleitoral através do financiamento das campanhas, verificaremos que,
"nos últimos sete meses, o PT arrecadou R$ 44 milhões,
enquanto a coligação PSDB, DEM, PPS, PMN e PT do B arrecadou R$
19,4 milhões" (
Brasil de Fato,
26/08-01/09). Serão os pobres que estão financiando a campanha
de Dilma?
Lembremos que o governo Lula foi o governo do "valerioduto"; da
reforma da previdência; que colocou Meirelles no Banco Central e o
"blindou", apesar das inúmeras denúncias de crime
contra o sistema financeiro que o perseguiam; que contrariou setores
progressistas ao favorecer o agronegócio, inclusive beneficiando as
práticas produtivas que utilizam abusivamente agrotóxicos (o
governo destinará 120 mil milhões ao agronegócio em
2010/2011 e cerca de 20 mil milhões para a agricultura camponesa); que
elevou a produção do superávit primário ao longo do
seu mandato para agradar ao FMI e à banca internacional; que recusou a
avançar em medidas como a auditoria da dívida, o fim da DRU (a
derrubada da CPMF passou a contragosto); elevação do percentual
do PIB investido na educação (permaneceu praticamente o mesmo da
era FHC); derrubada dos vetos de FHC ao Plano Nacional de
Educação de 2001; regulamentação do Imposto sobre
as Grandes Fortunas, e muitas outras.
Por outro lado, sobre aquele que seria o traço progressista distintivo
do governo Lula, os números mostram que a "inclusão"
dos pobres, ou as políticas assistencialistas, focalizadas, de
"combate" (superficial) da pobreza, não afetam em nada a
dinâmica da acumulação do grande capital; por isso devem
ser vistas muito mais como concessões (além de irrisórias)
necessárias e funcionais para a manutenção da ordem cada
vez mais favorável ao grande capital.
Além de tudo, e o mais grave, Lula tem sido um dos maiores
responsáveis pela desarticulação da esquerda e de qualquer
projeto social anticapitalista, pela desmobilização,
despolitização e cooptação dos movimentos sociais
(vejam-se os casos da CUT, UNE etc.).
Para se ter uma idéia do favorecimento ao grande capital como contraface
do "auxílio" à pobreza do atual governo,
"só no primeiro mandato de Lula, os empresários tiveram um
aumento de 400% dos seus lucros. Já o salário mínimo teve
um aumento de 57% nesses oito anos" (
Brasil de Fato
30/07). Por sua vez, na era FHC os bancos lucraram R$ 34,3 mil milhões,
enquanto que nos dois mandatos de Lula a previsão é de algo em
torno de R$ 170 mil milhões, ou seja, cinco vezes mais (idem).
As prioridades do governo Lula podem ser vistas na proporção em
que se distribuem os gastos sociais e os gastos com pagamento da dívida
pública. Segundo dados do IPEA, nos últimos sete anos, o governo
gastou 1,27 milhão de milhões de reais com juros. "Os gastos
com juros (apenas com o pagamento dos juros), portanto, superam em oito vezes o
que foi aplicado em educação e em 10 vezes os investimentos para
o país crescer". Entre 2000 e 2007, o total de gastos da
União com saúde, educação e investimento
correspondeu a somente 43,8% do total das despesas com juros.
Em 2009, segundo a PNAD, o Brasil possuía 14,5 milhões de
analfabetos e mais da metade dos domicílios não possuíam
rede de esgoto. No entanto, o governo destinou 35,57% de seus recursos para
amortizar a dívida contra 2,88% para a educação e 0,08%
para saneamento. Seria aconselhável, também, darmos uma volta
pelas periferias de nossas cidades e vermos a vergonha de nossas favelas e
sabermos que o governo destinou 0,01% para habitação (
Brasil de Fato,
04/10/2010).
No ensino superior, criou o PROUNI (Programa Universidade para Todos), talvez
inspirado num dos pais do neoliberalismo Milton Friedman, que propunha que o
Estado pagasse bolsas para alunos pobres em escolas privadas. E fez muito
marketing nos dois últimos anos com o Reuni (Programa de Apoio ao Plano
de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais),
quando passou os outros seis sem maiores investimentos. Tanto que o governo
FHC, de tristíssima lembrança para a educação,
conseguiu abrir mais vagas para alunos em seus oito anos de governo do que Lula
em seus oito (ver INEP, Censo da Educação Superior).
Ao tempo em que se comemora a diminuição da pobreza no Brasil,
cabe observar que a desigualdade entre rendimento do trabalho e os ganhos de
propriedade no Brasil são maiores hoje do que no fim da década de
1980. O principal motor a acelerar essa disparidade são as altas taxas
de juros que levam mais água aos moinhos do capital. O ex-presidente do
IPEA, Marcio Pochmann, afirma que esses dados são incompatíveis
com um país civilizado. "Nas nações com menor
desigualdade, o rendimento do trabalho varia entre 60% e 70% do PIB e,
conseqüentemente, a remuneração da propriedade fica entre
30% e 40%" (
http://www.brasildefato.com.br/node/2239
).
A diminuição da desigualdade social é resultado
basicamente do Programa Bolsa Família (1% dos recursos da União),
cujo investimento anual não atinge 10% dos recursos destinados ao
pagamento apenas dos juros da dívida pública (que foi duplicada
no governo Lula e já beira os 2 milhões de milhões de
reais). Estima-se que este ano o pagamento de juros ficará em torno dos
R$ 160 mil milhões, quase 14 vezes mais do que o consumido pelo Bolsa
Família, que atende mais de 11 milhões de famílias
todos sabem a quem beneficiam esses juros! Além do mais, a
"diminuição da desigualdade" é medida entre
maiores e menores salários e não entre o rendimento do capital e
o rendimento do trabalho.
Antes de nos contentarmos com o fato de que os outrora miseráveis foram
elevados à categoria de pobres ao mesmo tempo em que ajudam a
consolidar o atual estado de coisas por gratidão aos benefícios
recebidos e cruzam os braços, tornando-se uma massa dócil ,
seria interessante observar como funciona o mecanismo
sócio-econômico nas suas diversas facetas.
Descartada qualquer possibilidade de cogitação de Serra e sua
turma reacionária (vide o seu vice), esse texto não pretende
demover ninguém do voto na candidata Dilma, até porque na disputa
com o tucano ela parece ser uma opção melhor. Sua
pretensão é qualificar o debate, questionar as falácias
que envolvem os argumentos que defendem a candidatura Dilma e afirmar que, em
última instância, as duas candidaturas se encontram nos limites
estreitos dos interesses do grande capital.
Trata-se, para os trabalhadores, para os "de baixo", de escolher,
dentre os feitores, aquele que lhes pareça menos malvado e o chicote
mais brando.
15/Outubro/2010
[*]
Doutor em Educação e professor na Universidade Federal do
Ceará;
[**]
Doutor em Educação e professor na Universidade Federal de Minas
Gerais.
O original encontra-se em
http://www.correiocidadania.com.br/content/view/5118/9
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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