Mais uma vez, é hora do povo nas ruas
por D. Tomás Balduino
entrevistado por Igor Ojeda
O Bispo Dom Tomás Balduíno, dirigente da Comissão Pastoral
da Terra, defende que a esquerda deve voltar a se aproximar das bases e retomar
seu "filão libertador". E, para isso, o melhor caminho
é mobilizar as massas.
Correio da Cidadania: O senhor concorda com análise de que a esquerda brasileira está em crise? Dom Tomás Balduíno: A crise da esquerda já vem há bastante tempo e agora ela está se manifestando mais claramente dentro do impasse no governo. O PT se distanciou das bases, digo as bases de esquerda em geral, e optou pelo poder, pela aliança com os inimigos do povo, ligados ao capital. Está ainda sem uma perspectiva de uma ação concreta para superar essa crise. CC: O que levou a ela? TB: Desde a perda da referência socialista, com a queda do muro de Berlim e a ascensão da hegemonia do pensamento único, muitas forças da esquerda começaram a arrefecer. Aqui mesmo no nosso país o pessoal estava mais admirado com o sucesso do combate à inflação do que com a análise realista de que se estava armando um engodo: um processo econômico com alto custo para o setor social. Isso contagiou. Houve um descolamento do pessoal de esquerda em relação às bases populares e sobretudo em relação ao social. Esse foi um dos fatores que levaram a essa crise. Deve-se considerar também a conjuntura internacional, que veio fortalecendo o capital e cooptando as forças de oposição ou então realizando alianças no sentido de anular o adversário. Há muitos exemplos disso na história. CC: Em relação às denúncias, o senhor acredita que as pessoas envolvidas buscavam um favorecimento pessoal ou seguiam o princípio de que os fins justificam os meios? TB: Eu acho que elas levaram ao extremo a prática, já ligada à nossa República, da política pelo dinheiro. Não conhecemos outro tipo de democracia senão a do dinheiro. Aqueles que ganham, ganham porque tem o dinheiro. Ou o roubam ou o tomam emprestado (risos), ou o conseguem por outro caminho inconfessável. Essa é uma prática constante. Isso não vai mudar enquanto não houver reforma política para valer. Embora seja perigoso o fato de que quem faz a reforma política são os próprios donos da política. São aqueles que conseguiram, por esse preço, galgar ao poder. Então não vão querer abrir mão dele, se eles mesmo fizerem uma reforma política. Aí há uma contradição. O PT, pelo menos essa cúpula no poder, os demônios que estavam no poder, renunciaram à tradição ética do partido entrando em cheio nesse esquemão, que não foram eles que criaram. Talvez o fizeram de uma maneira ingênua, não com a astúcia que fazem os outros partidos, que são muito mais descolados no poder. O PT era neófito. Então apanhou, foi com muita sede ao pote e ganhou isso aí. Ele está sendo denunciado por hipócritas que cometeram os mesmos pecados. CC: O senhor acredita que essa crise respinga em toda a esquerda? TB: De certa maneira, atinge pelo menos a esquerda dirigente. Há uma distinção entre a base militante e a cúpula. E essa base, embora perplexa, ou sem capacidade de fazer uma leitura correta da situação, não está envolvida nessa crise. CC: Mas o senhor acredita que para a opinião pública isso está bem claro? TB: Para a opinião pública não. A opinião pública que é feita pela mídia é a pior possível. Está muito caudatária dos meios de comunicação da elite, que está fazendo seu jogo. Quer dizer, não está preocupada com a nação, e sim com a sucessão. Está preocupada com o poder e, por enquanto, mantém o Lula pois ele ainda é útil aos seus interesses econômicos. CC: Como a esquerda deve agir para sair dessa crise e se fortalecer para o futuro? TB: Ainda dá para reunir os cacos do PT, o resto que permanece fiel à tradição dos 30 anos de caminhada. Eu acho que dá. CC: Como fazer isso? TB: Isso tem que ser feito evidentemente com muita discussão, com campanhas. Campanhas por uma nova direção é uma delas. Mas eu valorizo muito também outros caminhos, como os encontros que vão se amiudando, encontros de reflexão sobre a situação. O pessoal tem vindo de bom grado. Em outras ocasiões, não atenderiam às convocações como agora. Agora está havendo um sinal muito positivo. Eu creio que há um grande potencial na massa brasileira, em comparação com países como Bolívia, Equador, Venezuela. Nós temos aqui organizações populares em diversos níveis melhores do que as deles. Há a de mulheres, de catadores, dos povos da terra, dos atingidos por barragens. Gente de luta, de luta diária e constante. Creio que precisamos, agora de uma maneira nova, mobilizar isso, como foi nas Diretas Já, na campanha Fora Collor. Esse potencial convence o poder público, convence até o império. Precisamos ter essa energia mobilizável, que ainda está desmobilizada, para darmos um passo a frente. Já conseguimos a façanha de colocar Lula na Presidência, mas não conseguimos a façanha principal de mudar o projeto, nem mudaremos com essas pequenas crises, com mudanças de ministros. O que vai fazer mudar, o que vai dar susto no governo é o povo na rua. CC: O senhor acredita ser possível uma unidade da esquerda no sentido de mobilizar essa massa? TB: É um perspectiva. É um desejo, um sonho. Antes da coisa acontecer, você tem que sonhá-la. Ruim é quando você não enxerga nada, está tudo escuro. Acho que há essa luz em nosso horizonte e que temos potencial para essa mobilização porque já tivemos exemplos na história. O que precisa é ter um símbolo concreto capaz de mobilizar o povo. Aqui já houve vitória ganha pelo marqueteiro. Hoje temos muito mais motivos para mobilizar a massa. CC: Qual a lição que a esquerda deve tirar dessa crise? TB: Várias. O respeito à caminhada histórica do povo, que tem sido desrespeitada até pelo pessoal que se identificava como expectativa e esperança e que acabou traindo. Essa história é sagrada para nós, e é uma história que se liga a tantas outras de luta e de libertação, como Canudos, Palmares, Ligas Camponesas etc.. Acho que é uma lição de retomada desse filão libertador que nós temos na nossa história, mas retomada em passos concretos, atualizados para a realidade de hoje. Em segundo lugar, atenção ao clamor do povo. O sofrimento que existe em nosso país, a deterioração de nossa sociedade já são motivos para uma guerra civil. O pessoal está tão indignado que parte para qualquer coisa. É preciso ter muita atenção para a realidade. O pior lugar para enxergar o Brasil é Brasília. O poder. Os três poderes. Para quem entra ali, o país desaparece. Aparece o poder, a onipotência, a força. E a impassibilidade, a insensibilidade. Acho que nós precisamos olhar além do que toda a imprensa diz, enxergar a situação concreta do povo. CC: Como os movimentos sociais devem se posicionar em relação ao governo na atual conjuntura? TB: Eu acho que eles deveriam dar um susto. Dar um choque. Esse relacionamento de preservação da imagem do Lula acaba favorecendo a ambigüidade e a hipocrisia. Os movimentos, sem dizer para a direita que está querendo o Fernando Henrique Cardoso ou o Serra, devem mostrar que não dá para agüentar essa lenga-lenga do atual governo. Que já passou da medida, que é intolerável, um desrespeito profundo. Lula se tornou o maior adversário da evolução, do progresso da confiança popular. O original encontra-se em http://www.correiocidadania.com.br/ed458/pol1.htm. Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . |