As perversidades do agronegócio para a sociedade brasileira
por Secretaria Nacional do MST
I - O que é o agronegócio?
II. A falsa propaganda do agronegócio e sua aliança de classe
III. As influências do agronegócio no governo Lula
IV. O peso do agronegócio em nossa sociedade
V. Sobre a renegociação das dívidas dos latifundiários no Nordeste
VI. O debate nos meios acadêmicos e jornais
I - O que é o agronegócio?
A palavra agronegócio tem um sentido genérico,
referindo-se a todas as atividades de comércio com produtos
agrícolas. Quando um pequeno agricultor vende um produto na feira
está praticando um agronegócio. Quando um feirante vende frutas e
verduras está praticando agronegócio. Essa é a
essência do sentido da palavra, usada em nível internacional.
No entanto, aqui no Brasil a expressão foi utilizada pelos
fazendeiros, por intelectuais das universidades e, sobretudo, pela imprensa
para designar uma característica da produção no meio
rural. Eles denominaram de agronegócio aquelas fazendas modernas, que
utilizam grandes extensões de terra e se dedicam à monocultura.
Ou seja, que se especializam num só produto, tem alta tecnologia,
mecanização - às vezes irrigação - pouca
mão-de-obra, e por isso, falam com orgulho que conseguem alta
produtividade do trabalho. Tudo baseado em baixos salários, uso
intensivo de agrotóxicos e de sementes transgênicas. Na maior
parte dos casos, a produção é para a
exportação. Em especial, cana-de-açúcar,
café, algodão, soja, laranja, cacau, além da
pecuária intensiva. Esse tipo de fazenda é o chamado
agronegócio.
Mas o que há de novo? Nada. Se estudarmos com
atenção, é o mesmo tipo de modo de produção
que foi utilizado no período da Colônia, nos tempos do modelo
agroexportador. Muda-se apenas de trabalhador escravizado para assalariado e as
técnicas passam a ser modernas. E esses salários, segundo
estudos, são os menores em comparação com as
remunerações da indústria, do comércio e das
fazendas dos países desenvolvidos ou competidores. Muitos estudiosos
brasileiros afirmam que não são nosso clima e nossa sabedoria
agrícola as vantagens comparativas que os fazendeiros brasileiros
têm, mas sim a falta de respeito com seus empregados e de controle por
parte do governo em relação à agressão que promovem
ao meio ambiente, sem nenhuma responsabilidade com as gerações
futuras. Há, por exemplo, inúmeras denúncias de
agrônomos e cientistas dos estragos que a implantação da
soja vem fazendo nos biomas da natureza do cerrado e da
pré-Amazônia.
II. A falsa propaganda do agronegócio e sua aliança de classe
Nos últimos anos, os meios de comunicação
brasileiros, principalmente os grandes jornais e as televisões,
têm feito propaganda sistemática em favor do modelo do
agronegócio, como se fosse a salvação do Brasil. Colocam-no
como o responsável pelo crescimento de nossa economia, pela
geração de empregos, por uma agricultura moderna e pela
produção de alimentos.
Todos esses argumentos utilizados na propaganda não se
sustentam em uma análise mais rigorosa:
O agronegócio é responsável pelo crescimento
econômico do PIB:
as atividades agrícolas propriamente ditas,
lavoura e pecuária, correspondem a apenas 12% de toda a
produção nacional. Então, mesmo que a agricultura dobre o
valor ou o volume de produção, sua influência na economia
total é muito pequena. Os propagandistas do agronegócio costumam
misturar a agricultura com agroindústria, para dizer que o peso na
economia aumenta para 37%. Mesmo assim, o peso e o crescimento da
agroindústria não dependem da área cultivada, mas do
mercado consumidor. Se o povo da cidade tiver dinheiro para comprar mais
alimentos, aumenta a agroindústria no Brasil. Portanto, seu sucesso
depende do valor do salário mínimo e da
distribuição de renda nos centros urbanos.
O agronegócio é responsável pelo sucesso da
indústria:
nada mais fantasioso. No final da década de 1970 e
início da década de 1980, no auge da agricultura subordinada
à indústria e com crédito fácil para expandir a
industrialização da lavoura, cerca de 65 mil tratores eram
vendidos por ano, de todos os tipos. Passaram-se 30 anos, implantou-se o
agronegócio do neoliberalismo e a venda de máquinas em 2004, no
auge do sucesso apregoado, foi de apenas 37 mil unidades. As indústrias
tiveram de vender outras 35 mil unidades para o exterior para não
falirem. Pior: pelos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística), no último censo, as fazendas com mais de 2 mil
hectares tinham no seu patrimônio apenas 35 mil tratores. Por outro lado,
as pequenas propriedades, com menos de 200 hectares, tinham mais de 500 mil
tratores.
O agronegócio tomou conta da agricultura brasileira:
se o agronegócio fosse tão bom, por que não aumenta a
área cultivada no Brasil? Desde a década de 1980, a área
total cultivada com lavoura temporária não passa de 45
milhões de hectares.
O agronegócio é a atividade que gera emprego no meio
rural:
pelos dados do IBGE, nas fazendas acima de 2 mil hectares há
apenas 350 mil trabalhadores assalariados. Bem menos do que os 900 mil
assalariados que a pequena propriedade emprega. Ou seja, o modo de produzir da
fazenda do agronegócio, que se moderniza permanentemente, expulsa
mão-de-obra do campo, ao invés de gerar emprego aos trabalhadores.
O agronegócio distribui renda no campo:
a escravidão no campo continua e os lucros se restringem aos
proprietários das fazendas.
O agronegócio significa desenvolvimento dos
municípios e das economias locais:
em todas as regiões nas quais
predominam as fazendas do agronegócio, a renda dos latifúndios
é levada para os grandes centros. Seja porque a maior parte do seu custo
de produção (máquinas, venenos, sementes) vem de outros
centros e, portanto, ao pagar esses custos, o dinheiro volta para lá;
seja porque o seu proprietário raramente vive na cidade em que se
localiza a fazenda. Em geral, ele mora nos grandes centros e, portanto, quanto
aufere seu lucro com as exportações, aplica em consumo de luxo,
apartamentos, etc. Sequer o "rancho" para seus empregados é
adquirido no comércio local, sendo comprado, em geral, em centros mais
distantes, onde os preços são menores. Por isso, as cidades
dominadas pelo agronegócio, ao contrário de se desenvolverem,
sofrem com o inchaço provocado pelo êxodo rural, aumentando a
pobreza de suas periferias. Cenário completamente distinto dos locais em
que predomina a policultura, a produção de alimentos e a pequena
agricultura, que mantém e faz girar toda a riqueza no próprio
município.
Se essas informações são oficiais e de fato as
fazendas do agronegócio não representam solução
para os problemas agrícolas e sociais brasileiros, por que então
se faz tanta propaganda? Por uma questão ideológica. Está
em curso na sociedade brasileira uma disputa de modelo econômico e de
produção agrícola. As fazendas do agronegócio
representam a parcela da burguesia nacional que possui ativos na agricultura e
que se aliou, ou melhor, que se subordinou ao capital estrangeiro representado
pelos interesses das grandes empresas transnacionais. Essas empresas não
só têm participação no lucro obtido do
comércio agrícola internacional e das agroindústrias, como
mantém fortes laços econômicos e ideológicos com as
empresas de comunicação de massas. Está em curso uma
tríplice aliança entre os fazendeiros do agronegócio, as
empresas transnacionais que controlam a agricultura e as empresas de
comunicação.
Apenas 10 transnacionais têm o controle monopólico das
principais atividades agrícolas do país. São elas: Bunge,
Cargill, Monsanto, Nestlé, Danone, Basf, ADM, Bayer, Sygenta e
Norvartis. Basta olhar seus comerciais nas televisões e ver o seu grau
de envolvimento com a mídia.
III. As influências do agronegócio no governo Lula
O governo Lula foi eleito em outubro de 2002 com uma propaganda e
compromissos claramente contrários à manutenção da
política econômica neoliberal, opostos à prioridade dada
pelo governo FHC ao agronegócio. Todos aqueles que votaram em Lula
queriam mudanças. Caso contrário, teriam votado no candidato
tucano José Serra.
No entanto, passadas as eleições, o governo Lula se
revelou um governo ambíguo, que apesar de prometer mudanças, se
baseou em alianças de partidos e de classe que ainda defendem o
neoliberalismo, ficando refém do capital financeiro internacional. Na
política econômica, administrada pelo Ministério da Fazenda
e pelo Banco Central, manteve-se a linha anterior, com responsáveis
claramente identificados com o partido perdedor. Para o Ministério da
Indústria e Comércio, que cuida das exportações
(mas poderia cuidar do mercado interno) e para o Ministério da
Agricultura foram nomeados ministros identificados com o modelo do
agronegócio. O ministro Luiz Fernando Furlan é sócio da
Sadia e o ministro Roberto Rodrigues possui fazendas em Ribeirão Preto e
no sul do Maranhão, que se dedicam ao agronegócio da soja, cana e
laranja.
Na política do setor público agrícola, o
governo não conseguiu reverter ainda o quadro de abstenção
do Estado. No crédito rural, houve um esforço do governo para
criar o seguro agrícola, que interessa particularmente aos pequenos
agricultores. Houve um esforço para aumentar os recursos de
crédito destinados à agricultura familiar, através do
Pronaf, que saltaram de 2 mil milhões para 5 mil milhões de
reais. Mas
isso não significa mudanças na estrutura fundiária. Os
recursos públicos que estão sendo alocados pelo Banco do Brasil e
pelo BNDES para as fazendas que se dedicam à exportação
não foram reduzidos. O próprio Banco do Brasil fez propaganda nos
jornais e revistas, mostrando que concedeu um volume de crédito de mais
de 5 mil milhões de reais para aquelas dez empresas transnacionais que
controlam a agricultura e para algumas poucas empresas transnacionais da
celulose. Ou seja, menos de 15 empresas receberam o mesmo volume dos recursos
que foram destinados para 4 milhões de agricultores familiares.
Dessa forma, embora o governo tenha se comprometido com a Reforma
Agrária e com o fortalecimento da agricultura camponesa, na
prática os Ministérios mais fortes atuam claramente priorizando a
agricultura do agronegócio, a monocultura e exportação de
grãos.
IV. O peso do agronegócio em nossa sociedade
Técnicos e estudiosos do Ministério do Desenvolvimento
Agrário, do Incra (Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária), do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada), dos organismos do governo e também vinculados a diversas
universidades prepararam em 2003 o Plano Nacional de Reforma Agrária.
Foram utilizados os últimos dados estatísticos oficiais
recolhidos pelo IBGE, no censo agropecuário de 1996, e no cadastro do
Incra de 2003. A partir deles, o professor Ariovaldo Umbelino Oliveira, da USP
(Universidade de São Paulo), organizou a seguinte tabela de
comparação:
1. Produção animal
|
Indicadores
|
Pequena / familiar
|
Média propriedade
|
Grande / agronegócio
|
|
Animal de grande porte
|
46%
|
37%
|
17%
|
|
Animais de médio porte
|
86%
|
13%
|
1%
|
|
Animais de pequeno porte e aves
|
85%
|
14%
|
1%
|
2. Produção agrícola total - produto para
exportação
|
Indicadores
|
Pequena / familiar
|
Média propriedade
|
Grande / agronegócio
|
|
Algodão
|
55%
|
30%
|
15%
|
|
Cacau
|
75%
|
24%
|
1%
|
|
Cana-de-açúcar
|
20%
|
47%
|
33%
|
|
Laranja
|
51%
|
38%
|
11%
|
|
Soja
|
34%
|
44%
|
22%
|
|
Café
|
70%
|
28%
|
2%
|
3. Produtos de mercado interno e alimentícios
|
Indicadores
|
Pequena / familiar
|
Média propriedade
|
Grande / agronegócio
|
|
Algodão arbóreo
|
76%
|
20%
|
4%
|
|
Arroz
|
39%
|
43%
|
18%
|
|
Banana
|
85%
|
14%
|
18%
|
|
Batata inglesa
|
74%
|
21%
|
5%
|
|
Feijão
|
78%
|
17%
|
5%
|
|
Fumo
|
99%
|
1%
|
Zero
|
|
Mamão
|
60%
|
35%
|
5%
|
|
Mandioca
|
92%
|
8%
|
Zero
|
|
Milho
|
55%
|
35%
|
10%
|
|
Tomate
|
76%
|
19%
|
5%
|
|
Trigo
|
61%
|
35%
|
4%
|
|
Uva
|
97%
|
3%
|
zero
|
V. Sobre a renegociação das dívidas dos latifundiários no Nordeste
Os privilegiados de sempre fazem tudo para manter as coisas como
estão. Nesta semana querem que suas dívidas sejam roladas para o
tesouro nacional pagar. Os latifundiários do nordeste pedem um repasse
de 7 mil milhões de reais ao cofres públicos. Com o dinheiro,
apenas
30 mil médios e grandes fazendeiros (que eles incluem pequenos)
serão beneficiados. Os 4 milhões de camponeses e camponesas
nordestinos não serão atendidos.
Em todo o país, as dívidas anteriores a 1995 dos
produtores rurais ligados ao agronegócio somam 26 mil milhões de
reais. Elas já foram renegociadas em 1995, quando todos os devedores
médios e grandes com dívidas 200 mil reais tiveram os prazos de
pagamento alongados e taxas menores. Aqueles que tinham dívidas acima de
200 mil reais entraram no Programa Especial de Saneamento de Ativos (PESA),
criado pela lei 9.318.
Em 1998, quando venceu o prazo para o início do pagamento das
dívidas dos ruralistas que optaram pela securitização, o
governo federal autorizou mais dois anos de carência e novas taxas de
juros, além de beneficiar os fazendeiros no PESA. Permitiu-se o
pagamento de, no mínimo, 32,5% da parcela inicial até 31 de
outubro de 2001 e o restante da prestação foi incorporado ao
saldo devedor para ser pago em parcelas anuais até 2025. A
inadimplência chega a 90%. Já entre os pequenos produtores e
assentados, os atrasos no pagamento são inferiores a 2%.
Com esse dinheiro seria possível resolver os problemas dos
pobres do campo. Porém, com o povo brasileiro pagando as dívidas
dos fazendeiros e sem produzir para a nação, o agronegócio
sai mais uma vez ganhando. A Câmara e o Senado já aprovaram a
renegociação para os latifundiários nordestinos, mas
esperamos que o Presidente Lula vete mais essa manobra.
VI. O debate nos meios acadêmicos e jornais
O poder de influência do agronegócio é
tão grande que afeta também intelectuais e jornalistas, que
reproduzem a luta ideológica nos meios universitários e na
imprensa. É comum vermos artigos e reportagens cantando em prosa e verso
as belezas do agronegócio. Alguns intelectuais, inclusive com origem na
esquerda, defendem que a saída para a pequena agricultura seria
também entrar no agronegócio. Sindicalistas já copiaram
mal essa idéia e chegam a falar em "agronegocinho". Não
percebem que, de fato, há uma luta entre dois modos de organizar a
produção agrícola em nossa sociedade. O modo do
agronegócio, que já descrevemos acima, e de outro lado, a
agricultura camponesa, baseada em estabelecimentos agrícolas familiares,
menores, que se dedicam à policultura (produzem vários produtos)
de alimentos, dão trabalho a milhares de pessoas, da família e de
fora dela, que produzem e desenvolvem o mercado local e interno.
Alguns chegam a argumentar que é possível a
convivência dos dois modelos. Trata-se apenas de uma forma envergonhada
de defender o agronegócio. É claro que sempre haverá
unidades de produção maiores e que se dedicam à
exportação. É preciso identificar que tipo de prioridade e
de política agrícola o governo e a sociedade defendem.
A nossa sociedade vai usar a terra e a agricultura para produzir
alimentos, distribuir renda e fixar o homem no território ou vai
entregar as terras para as grandes fazendas, que vão expulsar a
população, ganhar muito dinheiro e dar prioridade para a
exportação?
Essa é a verdadeira disputa. São dois projetos de
agricultura para o Brasil. Por essa razão, os representantes do
agronegócio atacam tanto a Reforma Agrária. Aparentemente,
não há relação afinal, se o agronegócio
possui fazendas produtivas, elas estão a salvo da
desapropriação. Então, por que o agronegócio ataca
a Reforma Agrária, inclusive por intermédio dos ministros da
Agricultura e da Fazenda?
Por duas razões: primeiro, porque eles sabem que a Reforma
Agrária fortalece o modelo contrário de ocupação da
terra e de produção agrícola. Em segundo lugar, porque
eles também são proprietários do latifúndio
improdutivo, que ao invés de ser compartilhado para ter uma
função social, gerar emprego, distribuir renda e melhorar as
condições de vida de nosso povo, é mantido como uma
espécie de reserva de valor, para especulação ou para
futura expansão de suas fazendas.
Portanto, não é possível compatibilizar os dois
modelos. Eles poderão conviver por muito tempo, mas, do ponto de vista
de proposta para a nossa sociedade, é preciso se definir: ou se defende
a forma do agronegócio, ou se defende a agricultura camponesa, a
fixação do homem no campo e a soberania alimentar. Definir-se
pelo modo de produzir do agronegócio é aceitar também o
modelo econômico neoliberal dominado pelos bancos, pelo capital
financeiro e pelas transnacionais.
Como diz o ditado popular, não se pode "acender uma para
Deus e outra para o diabo".
17/Fevereiro/2006
O original encontra-se no nº 109 de
MST Informa
, publicação quinzenal do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
enviada por correio eletrônico.
Este estudo encontra-se em
http://resistir.info/
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