Agrava-se a situação na Bolívia
A situação política nacional agravou-se subitamente.
Está-se a viver de novo uma tensa confrontação,
consequência directa da soma de reclamações e
petições de diversos sectores e regiões do país e
da atitude de um governo que procura impor a sua vontade contra a
opinião maioritária do povo. Esta agudização, no
entanto, ocorre no meio de uma diversidade de orientações que
originam um panorama aparentemente confuso. É necessário,
portanto, precisar o carácter dos distintos actores políticos e
sociais e os seus verdadeiros propósitos.
As recentes medidas económicas decretadas pelo governo de Carlos Mesa e
alguns propósitos de política internacional, publicamente
admitidas, puseram a nu a sua natureza neoliberal que, de alguma maneira,
esteve dissimulada depois da queda de Sanchez de Lozada, o mais
conspícuo neoliberal da classe dominante boliviana. Para aqueles que
ainda duvidam da real natureza política do Presidente a
evidência consiste em: A inocultável defesa da transnacional
francesa que opera sob o nome de Águas de Illimani; a
ardilosa subida dos preços, subida dos preços do diesel e das
gasolinas, penalizando a magra economia nacional e popular, e que foi imposta
pelo FMI e pelo BM; A procura de imposição de uma lei de
hidrocarbonetos que não altere, no essencial, a lei entreguista de
Sanchez de Lozada e, finalmente, está a intenção de
aprovar a lei de imunidade do pessoal norte-americano que cometa delitos no
nosso país e o tácito compromisso de ingresso da Bolívia
nos tratados de livre comércio (TLC). Mesa esqueceu até os
mínimos acertos cosméticos com os quais tentou, no ano passado,
dissimular os seus verdadeiros propósitos de não se afastar,
antes confirmar e consolidar a política neoliberal do seu antecessor.
No entanto não há uma completa identificação entre
ambos os presidentes. Pelo menos não se observa a faceta intolerante e
abertamente repressiva do antecessor, e isso deve ser tomado em conta.
Outro polo de conflito é a direita de Santa Cruz de la Sierra no seu
conjunto, convertida no partido das transnacionais e os oligarcas da zona
oriental. Ataca de flanco, avançando palavras de ordem que apontam para
a desestabilização do poder executivo, para propiciar o retorno
do gonismo
[1]
,
através das suas pedras residuais incrustadas no Parlamento. Este
converteu-se no centro articulador da conspiração e no mecanismo
que estorva todo o propósito de correcção dos
instrumentos, são a estrutura legal do saque e alienação
do património nacional, como a velha lei dos hidrocarbonetos. Os
deteriorados partidos da direita e reaccionários (MNR, NFR, MIR e outros
menores), entrincheirados num Parlamento que já não
reflecte a correlação de forças políticas e sociais
estão envolvidos na conspiração por razões
de princípio, por um afã revanchista e a ganhar tempo para a sua
reorganização e rearticulação. Para isso
não têm pudor algum em simular mudanças de atitude face
às propostas populares que antes rejeitavam iradamente; inclusive,
utilizam-se de tontos úteis ou radicais da boca para fora para desviar
energias que se afastem dos objectivos vitais para o povo.
O árbitro é o povo trabalhador, o povo empobrecido, desempregado,
mal nutrido e mal vestido, com rendimentos inferiores ao mínimo de
sobrevivência, mas disposto a não admitir mais a demagogia, a
promessa enganosa e rejeitando os cânticos de sereia dos derrotados de
Outubro. Mobilizou-se em El Alto e outras cidades, com uma
extraordinária disciplina, convicção e serenidade, que
contrasta com os grupos minoritários e fascistóides de Santa
Cruz. Com uma grande maturidade colocou os aspectos centrais desta luta e que
se resumem em:
a) Conseguir a intervenção e depois o
afastamento da filial da
transnacional Águas de Illimani por incumprimento de
contrato e por ser uma empresa que visa o lucro à custa da economia
popular.
b) A derrogação do D.S. que aumenta os
preços do diesel e
da gasolina ou um aumento dos ordenados e salários e uma
compensação efectiva para os trabalhadores e pessoas sem
rendimentos fixos, que ajude a enfrentar os efeitos da desatinada medida.
c) Solene compromisso público dos poderes executivo e
legislativo de
não aprovar qualquer norma ou desenvolver qualquer acção
diplomática ou de outra natureza que levem a Bolívia a qualquer
TLC, para se converter numa colónia fornecedora de
matérias-primas e mercado de consumidores dos países mais
desenvolvidos.
Só uma rápida solução da crise em desenvolvimento
pode preservar a sociedade boliviana de maiores males e, particularmente, de
pôr em perigo a democracia que tanto sangue custou. Neste sentido, como
acertadamente colocaram as organizações sociais de El Alto,
não é objectivo de momento, nem a renúncia do presidente
nem a antecipação de eleições. A
convocatória de Assembleia Constituinte cujas tarefas são
muito maiores e gerais também não é uma
solução a curto prazo. Em contrapartida, uma saída
democrática e pacífica é a dissolução
concertada do actual Parlamento e a convocatória de
eleições de novos deputados e senadores, com uma adequada lei
eleitoral, que reflicta a real correlação de forças.
Assim, nem o executivo nem ninguém terá pretexto para não
aprovar medidas económicas, políticas e sociais de verdadeira
urgência para toda a Pátria.
Por último, desejamos reafirmar a nossa convicção de que
é a hora da unidade do povo, das forças motoras da mudança
social, da superação da dispersão reinante que só
favorece a direita, o neoliberalismo e o imperialismo, e adia a
solução das tarefas de fundo para reafirmar que OUTRA
BOLÍVIA É POSSÍVEL.
PELO RESGATE DA PÁTRIA, A LUTA CONTINUA
La Paz, 11 de Janeiro de 2005
[1]
Corrente dos partidarios ex-presidente Sanchez de Lozada, conhecido por
"Goni", que foi derrubado pela fúria popular.
[*]
Primeiro secretário do CC do Partido Comunista da Bolívia.
Comunicado emitido em 11/Jan/2005.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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