Eleições em Timor não acabam com a crise
A primeira volta da eleição presidencial em Timor Leste,
realizada em 9 de Abril de 2007, foi inconclusiva mas lançou um
foco intenso sobre algumas questões.
Os eleitores puniram o partido dirigente, Fretilin, por presidir um colapso da
ordem social, mas mostraram pouco entusiasmo pelas políticas de mercado
livre do candidato rival José Ramos Horta. Uma votação
apreciável foi para o Partido Democrático, com base nos eleitores
mais jovens, e uma outra fatia significativa foi para partidos menores. Sem
qualquer candidato ter obtido a maioria, a disputa será decidida em nova
eleição a 8 de Maio.
A Fretilin, o partido tradicional da luta pela independência e até
agora com o controle do parlamento, ficou chocada ao verificar que a sua
votação mergulhou para 28 por cento. Antes das
eleições seus líderes falavam confiantemente em vencer por
maioria absoluta. A Fretilin continua a ser a mais forte
organização política no terreno, e deveria sair-se melhor
nas eleições parlamentares a realizar-se num par de meses.
Entretanto, ela provavelmente não pode ganhar tanto a presidência
como a maioria parlamentar se os perdedores da primeira volta canalizarem seus
votos para Ramos Horta e seu aliado Xanana Gusmão.
Ainda assim, Ramos Horta apoiado pelos australianos teriam ficado extremamente
insatisfeito com a sua magra votação em torno dos 22%.
No ano passado Ramos Horta substituiu o líder da Fretilin, Mari
Alkatiri, como primeiro-ministro devido à pressão internacional.
Esta incluiu o odioso show "Four Corners" na TV australiano sugerindo
que Alkatiri era culpado de armar grupos de combate. As
alegações desfizeram-se após investigação,
mas não antes de selarem o destino de Alkatiri. Depois disto Ramos
Horta desfrutou uma certa lua de mel mas, como mostraram os resultados
eleitorais, a sua reputação deteriorou-se recentemente pois as
infelicidades do país continuam a crescer.
A crise em Timor Leste começou com um motim de 600 soldados em
Março de 2006. Alkatiri demitiu-os, pelo que os media internacional
criticaram-no violentamente como se qualquer outro governo tratasse
amotinados mais generosamente. O choque entre os militares promoveu um
levantamento geral nas forças estatais e generalizou a desordem civis.
Tropas australianas interviveram rapidamente, após um pedido de todas as
forças políticas chave de Timor Leste, incluindo a Fretilin
embora Alkatiri provavelmente tenha apoiado o pedido com imensa
relutância, sentindo que isto provocaria a sua queda. Ele não
teve de esperar muito após a chegada das tropas.
Além de criarem condições para mudar o regime, as tropas
apoiaram as estruturas de poder local. Mas dezenas de milhares de pessoas
deslocadas permanecem em campos e a economia continua um desastre.
Uma importante questão da campanha referia-se aos US$ 1000
milhões de rendimentos do petróleo e do gás actualmente
acumulados num Fundo Petrolífero em Nova York. Alkatiri destinava-o a
ser um recurso para a construção do país a longo prazo.
Enquanto os rendimentos dos juros foram destinados a pagar a infraestrutura e
programas sociais, o principal permaneceu intacto. Ao contrário da sua
imagem de esquerdista radical promovida pelos seus críticos, esta e
outras políticas económicas de Alkatiri são realmente
bastante populares no Banco Mundial.
Mas elas não mostraram quaisquer sinais de extrair o país da
pobreza, de modo que não é de admirar que a Fretilian esteja a
perder credibilidade.
Ramos Horta promete descongelar o Fundo para usos imediatos. Isto permitiu-lhe
cinicamente ultrapassar Alkatiri pela (aparentemente) esquerda. Ao ser
indagado acerca da questão no programa de TV australiano
"Dateline" Ramos Horta observou presunçosamente que Alkatiri
"é um conservador fiscal
Ele faz grandes discursos sobre o
combate à pobreza como uma causa nacional mas
ele não se
moveu de forma suficientemente agressiva".
A proposta para utilizar uma parte do dinheiro parece razoável dada a
horrível situação económica. Mas o que
acontecerá exactamente com os fundos? Ramos Horta não é
canhoto. Na entrevista à TV ele avançou com a proposta de planos
para tornar o país um mercado livre, um "paraíso fiscal, o
seguinte logo após Hong Kong".
Não é de admirar que o capital o apoie. Em 5 de Abril um artigo
na
Australian Financial Review
explicava que "o que o governo Howard mais teme é o triunfo da
Fretilin". Ele chegava a dizer: "É importante para os
interesses australianos que Ramos Horta tenha prometido um plano de reforma
fiscal para encorajar o investimento estrangeiro. Isto inclui objectivos
ambiciosos de estabelecer um estado de 'comércio livre'
As taxas
de impostos sobre rendimentos e rendimentos de corporações seriam
estabelecidas a níveis fixos de 5 por cento a 10 por cento".
Se Ramos Horta e os seus aliados acabarem por dirigir Timor Leste, estas
políticas neoliberais poderiam dilacerar profundamente, com novas
feridas, um país já na agonia
Ramos Horta certamente é um amigo do imperialismo ocidental. Ele apoia
a guerra no Iraque e diz que se fosse eleito "Pediria às ONU,
Austrália e Nova Zelândia para permanecerem aqui pelo maior
número de anos possível".
Não que o poder fique unicamente ou mesmo primariamente com os
políticos. Além do capital internacional e local, está
ali a presença militar e policial australiana, neozelandeza e da ONU.
Isto, por sua vez, está a provocar resistência entre o povo.
A hostilidade para com as tropas estrangeiras começou a subir
após a fuga da prisão de Alfredo Reinado em Agosto último.
Reinado, um líder do motim, é anti-Fretilin. Mas ele não
é demasiado cortês para com Ramos Horta e embaraçou
repetidamente a poderosas tropas australianas enviadas para capturá-lo.
Num raid mal executado na cidade montanhesa de Same onde permanecia, Reinado
escapou facilmente, mas os comandos australianos mataram cinco pessoas do
local. Ramos Horta foi culpabilizado por isto, juntamente com as tropas. No
dia seguinte, multidões barricaram ruas em Dili, queimaram pneus e
cantaram: "Australianos, go home!"
As tropas atacaram com brutalidade um campo de refugiados próximo ao
aeroporto, utilizando tanques, gás lacrimogéneo e balas. Segundo
os habitantes no campo, elas mataram pelo menos duas pessoas, ferindo outras.
O governo interino de Ramos Horta havia exigido que os deslocados naquele campo
o abandonassem, mas para onde iriam estas 8000 pessoas? Elas recusaram-se a
mover-se e posteriormente publicaram uma
declaração
pormenorizando a violência australiana contra eles, acrescentando que
isto reflectia uma atitude sistemática ("Eles executam
discriminação sistemática contra o povo timorense") e
exigindo a retirada imediata das tropas de Timor Leste.
No ano passado, a maior parte dos timorenses saudou as forças
australianas. Os entendimento popular era que os "aussies"
intervieram anteriormente (1999) para travar matanças cometidos por
militares indonésios e suas milícias. (Na realidade, as
evidências sugerem que as matanças reduziram-se antes da chegada
das tropas australianas, a agenda real das tropas era consolidar a hegemonia
australiana. Mas isto não é largamente entendido,)
Agora, com abusos a crescerem, o estado de espírito do público
começou a virar-se contra as tropas.
James Dunn
, veterano observador de
Timor, escreveu recentemente acerca dos militares australianos que "a sua
popularidade declinou desde aqueles dias agradáveis em 1999".
Estes desenvolvimentos ainda são fragmentários e o sentimento
anti-australiano ainda não é a opinião da maioria, mas
isso poderia mudar. A posição da Fretilin tornou-se mais
abertamente hostil a Canberra. Se ela perdesse a presidência e
também o controle do parlamento, ambos em disputa, o partido na
oposição pode começar a assumir um emergente
espírito anti-imperialista.
Para Canberra, os acontecimentos recentes em Timor Leste constituem o
desenvolvimento mais recente de um padrão irritante. Os planos
australianos para utilizar tropas, polícia e administradores a fim de
tomar o controle indirecto de estados insulares depararam-se com uma
série de frustrações. Os líderes políticos
na Papua Nova Guiné, nas Solomons e nas Fiji encontraram oportunidades
para despachar australianos intrometidos.
Um governo Horta-Gusmão seria acomodatício, mas com a Fretilin
é outra história. Se reeleita ela pode de alguma forma desafiar
a presença australiana. Se for conduzida à
oposição, o que é mais provável, ela pode fazer
campanha contra as tropas.
[*]
Autor ou editor de cinco livros sobre a história e a política
australianas
(Into the Mainstream: The Decline of Australian Communism; Years of Rage:
Social Conflicts in the Fraser Era; United We Stand: Class Struggle in Colonial
Australia; Class and Class Conflict in Australia;
e
Rebel Women in Australian Working Class History).
Mantem o sítio web
www.anu.edu.au/polsci/marx/interventions/
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O original encontra-se em
http://mrzine.monthlyreview.org/olincoln200407.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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