por Elisabeth Martens
entrevistada por Benito Perez
Bióloga de formação, Elisabeth Martens apaixonou-se pela
China depois de uma estadia de três anos destinada a aprimorar os seus
conhecimentos de medicina tradicional. A aventura conduziu-a de seguida
até às "regiões habitadas por tibetanos", onde
aprendeu a conhecer uma cultura tão diferente daquela dos Han (a etnia
maioritária na China), e, no entanto, ligada ao mosaico chinês
(ler abaixo). Das suas investigações sobre o Tecto do Mundo
nasceu uma original
História do Budismo tibetano
publicada o ano passado nas edições L'Harmattan.
Como é que começou por se interessar pelo Tibete?
Elisabeth Martens: Logo na minha primeira estadia em 1990, fiquei surpreendida
com as diferenças profundas entre o budismo chinês e o tibetano.
Lembro-me que fiquei particularmente admirada com a quantidade fenomenal de
representações de deuses e de monstros ferozes, assustadores e
guerreiros dentro dos templos. De certa forma, isso assemelha-se aos
ícones nas nossas igrejas: homens trespassados, crucificados, cozidos
dentro de caldeirões, etc. Não há nada de semelhante no
pensamento chinês, e por conseguinte nas artes. O sofrimento e o meio
para uma pessoa se livrar dele não está no centro das
preocupações porque ele é considerado um oposto
complementar ao bem-estar. Essa diferença e outras fizeram-me reflectir:
como é que um país gigantesco como a China consegue conciliar
cinquenta e cinco nacionalidades que falam cada uma a sua própria
língua, sobretudo com a desproporção de Han que
compõem 90% da população?
A violência dessas representações, tal como a dos motins
das últimas semanas, não se enquadra na imagem pacífica
que se tem do budismo tibetano.
Dalai Lama e os outros membros do governo vestem as cores do pacifismo e
estão encarregues de manter a imagem de tolerância e de
compaixão que convêm ao budismo tibetano, com o intuito de seduzir
o Ocidente. Por ocasião dos motins recentes (ler na página 9),
quando os actos de violência atingiram um nível de barbárie
sem nome, ele distanciou-se. No seio da comunidade tibetana no exílio
existe uma cisão: de um lado, os moderados, entre eles Dalai Lama, que
não pedem a independência mas uma "autonomia forte". Do
outro lado, os radicais, fracção crescente no seio do governo no
exílio, que exigem a independência e que estão preparados
para pegar em armas se for necessário. Na verdade, essa dualidade
é muito útil ao seu padrinho comum, os Estados Unidos: Dalai Lama
e os seus seguidores (europeus, sobretudo) servem para reunir os intelectuais
ocidentais em torno de temas sobre "democracia", "direitos do
homem", enquanto a fracção mais "dura"
reúne cada vez mais membros graças a um discurso musculado.
Aparentemente, foram estes últimos que lançaram achas à
fogueira. Ao provocarem motins de carácter racista, eles obrigaram o
governo chinês a responder agressivamente.
Qual é a natureza do budismo tibetano e quais as suas
funções social e política?
Com essa, está a pedir-me que reescreva o meu livro! Em resumo, o
budismo tibetano surgiu a partir do tantrismo, uma das três grandes
escolas ou "veículos" do budismo e, segundo os especialistas
em budismo, aquela que mais se afastou do darma (ensinamento original de Buda).
Em primeiro lugar, porque se trata da mais recente, em segundo lugar, porque o
budismo tibetano tem a particularidade de exercer em simultâneo um poder
espiritual e um poder temporal. De facto, o tantrismo desenvolveu-se no Tibete
nos séculos X e XI quando comunidades do norte da Índia aí
se vieram refugiar, fugindo das investidas muçulmanas. Nessa
época, o Tibete estava totalmente desorganizado ao nível
político e social. Os refugiados apoderaram-se da região de modo
"espontâneo". O tantrismo transformou-se no budismo tibetano a
partir do momento em que se adaptou aos costumes e à religião
autóctones (o Bön). Pode-se dizer que na época isso foi
benéfico, conduzindo o Tibete a um feudalismo organizado. O problema
é que esse feudalismo se reforçou durante um milénio junto
de um poder religioso extremamente repressivo e conservador. Os mosteiros
possuíam mais de 70% das terras, o resto pertencia às
famílias nobres. Jamais existiu um poder teocrático tão
poderoso e tão rico. Não se compara com o que se passava entre
nós na Idade Média, em que os mosteiros só existiam na
sombra dos castelos fortificados.
Com o advento da República Popular da China em 1949, foi difícil
para o alto clero tibetano renunciar ao poder. Evidentemente, esta antiga elite
no exílio não tem a intenção de voltar ao antigo
sistema. Ela preconiza um modelo de "mercado livre", com a
re-instauração da propriedade privada das terras.
Será o pacifismo suficiente para explicar a existência de um
sentimento tão pró Tibete no Ocidente?
O budismo tibetano enfeitou-se com os seus mais belos ornamentos para seduzir
um Ocidente "vazio de valores espirituais". Envolvido na onda do
"retorno às origens" dos anos de 1970, não foi
difícil fazer-se passar pelo darma, apresentado como um
"ateísmo espiritual", uma filosofia de vida, uma maneira de
ser, uma terapia interior, etc., tudo menos uma religião. Ora, se
olharmos um pouco mais de perto, o budismo de Buda já é uma
religião no sentido em que propõe uma transcendência, algo
para além dos nossos sofrimentos resultantes dos nossos limites
físicos e temporais. O budismo tibetano é ainda mais uma
religião, uma vez que reintroduziu dogmas, nomeadamente o da
reincarnação, contra o qual se insurgiu, aliás, Buda em
pessoa. Reposta a sua honra no século XVI, ela permitiu a
oficialização da sucessão da herança espiritual,
temporal e, sobretudo, material de um Rinpoche (responsável por um
mosteiro) para o seguinte. E consequentemente as terras e os bens sobre as
terras, incluindo os servos. Isso explica, por exemplo, por que é que
houve tantos assassinatos entre os membros do alto clero e tantas guerras entre
escolas
o budismo, graças ao seu carácter plástico,
sempre se adaptou bem aos ambientes que elegeu para domicílio, no Tibete
e actualmente entre nós. É sinal de boa saúde. O que
não é nada são é o facto de um Dalai Lama fazer
passar o budismo tibetano por uma não religião uma
filosofia de tolerância e de compaixão destituída de
implicações políticas. Isso é mesmo para rir!
O original encontra-se em
http://www.lecourrier.ch/index.php?name=NewsPaper&file=article&sid=439090
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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