Actualidade do Que fazer? de Lenine
Extracto do estudo preliminar Actualidade do
Que Fazer?
para a edição de
Que Fazer? Problemas candentes do nosso movimento
de Lenine, publicada pelas Ediciones Luxemburg (Buenos Aires), Outubro de 2004.
Há que louvar a decisão da casa editora Luxemburg de reeditar um
texto de excepcional importância teórica e prática como
é o
Que Fazer?
de Lenine. É evidente que se trata ao mesmo tempo de uma decisão
a um tempo oportuna e desafiadora. Segundo Marcel Liebman autor de um
notável estudo sobre o pensamento político de Lenine que, a
trinta anos da sua publicação original em língua francesa,
continua a ser uma referência imprescindível sobre a
matéria todos quantos se interessam pelo estudo de Lenine
tropeçam com a extrema pobreza de uma bibliografia abundante mas
geralmente muito estéril (Liebman, 1978: 9). Uma das razões
principais desta infeliz situação reside na incontornável
politicidade de toda a obra de Lenine. Pronunciar-se a seu favor ou contra
não é uma questão académica, mas antes um acto de
vontade política. A consequência foi a constituição
de uma polaridade cujos dois extremos são igualmente negativos quando
chega o momento de tentar compreender o significado da herança
leninista: ou a sua sacralização na União
Soviética, transformando uma teoria subversiva num sistema
apologético de uma certa ordem estabelecida; ou então a sua
satanização na literatura académica do Ocidente (Liebman,
1978: 10-11). É pois necessário restabelecer o equilíbrio
histórico em redor de uma obra como a que o leitor tem nas suas
mãos, evitando extremos esterilizantes. A conjuntura política da
América do Sul no início do século XXI exige de forma
gritante uma releitura séria, crítica e criativa da obra de
Lenine.
Não será demais observar que uma proposta deste tipo vai a
contracorrente dos lugares comuns e dos arraigados preconceitos que prevalecem
na esquerda latino-americana no momento actual. Entre estes sobressaem a sua
irracionalidade e a politicamente suicida
negação de toda a série de problemas centrais no nosso
tempo, como as questões relativas à organização das
forças populares, a laboriosa construção de uma cultura
política e uma consciência genuinamente revolucionárias e
os desafios que põe a conquista do poder nas sociedades
contemporâneas. Tem o texto clássico de Lenine algo a dizer-nos em
face de todos estes problemas? A opinião de quem escreve estas linhas
é que sim, que uma releitura do
Que fazer?
(ver adiante,
Que Fazer?
) pode trazer sugestivas iluminações que melhor permitam
enfrentar estes desafios em melhores condições. Que fique claro:
com isto não queremos dizer que neste livro se encontrem as respostas
às interrogações que hoje nos afligem, mas tão
somente que na sua leitura encontraremos valiosos elementos para construir as
soluções práticas que exige o momento actual.
O ESPELHO LATINO AMERICANO
Lemos Lenine a partir da América Latina e a pertinência das suas
reflexões reafirma-se quando se examinam alguns acontecimentos recentes
da nossa história. Com efeito, nestes últimos anos a
região viu-se sacudida por uma série de grandes
mobilizações populares precipitadas pelo fracasso do
neoliberalismo, incapaz de cumprir a sua promessa de fazer crescer a economia e
distribuir os seus frutos e os efeitos arrasadores que a desordem dos mercados
produz nas nossas sociedades. Examinámos este tema noutro lugar, de modo
que não repetiremos a argumentação nesta ocasião
(Boron 2003). Basta recordar que neste últimos anos a
insurreição popular pôs fim a governos neoliberais no
Equador em 1997 e em 2000; no Peru, acabando com a autocracia de
Fujimori (2000); na Argentina, derrubando o governo impopular de duvidosa
legitimidade pelo exercício do poder, que não pela sua
origem e ineficaz da Aliança em dezembro de 2001; e por fim na
Bolívia onde em Outubro de 2003 as massas camponesas e indígenas
desalojaram do poder Gonzalo Sanchez de Losada. No entanto estas gestas dos
dominados foram tão vigorosas como ineficazes. As massas saídas
à rua num alarde de espontaneismo e indiferentes perante as
questões de organização, não puderam nem instaurar
governos de sinal contrário aqueles que defenestraram com as suas lutas
nem construir um sujeito político capaz de modificar num sentido
progressista a correlação das forças existentes nas suas
respectivas sociedades. Daí que pouco depois destas revoltas se tivesse
produzido uma restauração das forças políticas ou
claramente identificadas com o neoliberalismo casos do Equador e do
Perú ou ainda, como acontece sobretudo no caso argentino, que
proclamam ruidosamente o seu repúdio a essa ideologia mas sem que
até ao momento em que escrevo estas linhas tenham dado sinais de
implementar uma política alternativa ao neoliberalismo. O caso da
Bolívia é mais ou menos semelhante ao argentino.
Situação diferente mas seja como for situada no mesmo campo de
problemas, é a que se configura no Brasil: um partido de esquerda
organizado sobre bases manifestamente anti-leninistas
precisamente para superar alguns dos impedimentos da concepção
clássica do partido revolucionário chega ao poder
sustentado por 52 milhões de votos para depois atirar pela borda fora as
suas promessas, a sua história e a sua própria identidade e
acabar erigindo-se em campeão da ortodoxia do Consenso de Washington,
segundo a avaliação de toda a imprensa financeira internacional e
os intelectuais orgânicos do capital financeiro. A sua
capitulação tornou-se patente desde o primeiro dia, quando o
superministro das Finanças António Palocci,
depositário do poder político real no Brasil pronunciou esta
patética frase: agora vamos mudar a economia sem mudar a
política económica. O que aconteceu desde então
nesse país poupa-nos mais comentários.
Podíamos aperceber-nos desta sucessão de grandes
frustrações aludindo à hipótese
leninista, ou seja, argumentando que as mesmas têm a sua origem no
abandono das teses principais do
Que Fazer?
É claro que não, dado que há muitos factores que
convergem para explicar um desenlace tão lamentável. Mas sem
quaisquer dúvidas muitas delas têm a ver com o esquecimento de
certos ensinamentos que o revolucionário russo havia plasmado na sua
obra. Por esse motivo, provoca uma fundada inquietação a
ausência dos temas da consciência e da organização
nas discussões latino americanas a respeito da conjuntura. Parte-se do
pressuposto de que o heroísmo das massas e a notável
abnegação com que lutaram as exime a qualquer reflexão
crítica. Pode parecer antipático ou arrogante, mas nem o
heroísmo nem a abnegação justificam a ausência de
uma reflexão sobre o assunto. Costuma dizer-se que há uma crise
na chamada forma partido. O que é correcto. O mesmo poderia
dizer-se com a forma sindicato por múltiplas razões.
Mas o que surpreende na actual conjuntura, não apenas na América
Latina mas também a nível mundial, é que as forças
sociais que movimentam a resistência ao neoliberalismo parecem ter-se
conformado em proclamar a obsolescência dessas formas tradicionais de
representação política, desligando-se por completo da
necessidade de discutir o tema e buscar novas vias e modelos organizativos. Em
vez disso, foi ganhando espaço uma espécie de romantismo
político que consiste em exaltar a combatividade dos novos sujeitos
contestatários que substituem o moribundo proletariado clássico,
elogiar a criatividade patente nas suas lutas e a originalidade das suas
tácticas, e proclamar a caducidade das concepções
teóricas que se preocupam com as questões do poder, do Estado e
dos partidos. As classes sociais diluem-se nos nebulosos contornos da
multidão; os problemas do Estado, desapareceram com o auge
do Estado-centrismo ou os repetidos anúncios do fim do
Estado-nação; e a questão crucial e inadiável do
poder desvanece-se perante as teorizações do
contra-poder (Hardt e Negri: 2000) ou a demonização a
que este é submetido nas concepções do
anti-poder que brotam da pena de um dos intelectuais do zapatismo
como John Holloway (2002).
Esta carência contrasta desfavoravelmente com a intensidade e
profundidade do debate que estalou na Europa há pouco mais de um
século em torno destes mesmos problemas, e do qual o
Que Fazer?
é um dos mais brilhantes expoentes. A aceitação pelas
massas do domínio do capital e a sua crescente rebeldia em alguns
países principalmente na Rússia Czarista deu lugar
a uma das controvérsias mais extraordinárias na história
do movimento socialista internacional onde personagens como Edouard Bernstein,
Karl Kautsky, Rosa Luxemburgo, Vladimir I. Ulianov, mais conhecido como Lenine,
e posteriormente Antón Pannekoek, Karl Korsch e António Gramsci,
trouxeram contribuições de grande importância. Na
questão que nos ocupa há que dizer que Lenine sobressai entre
todos os outros pela sua preocupação sistemática em torno
dos problemas organizativos. No dizer de Liebman:
a
própria ideia de
organização
ocupa no leninismo um lugar essencial:
organização
do aparelho revolucionário,
organização
da própria revolução,
organização
da sociedade surgida da revolução (1978: 20, destacado no
original).
Esta verdadeira obsessão, explicável sem dúvida pela
fenomenal desorganização imperante no campo popular durante o
czarismo, aparece já com toda a clareza na primeira obra importante de
Lenine,
Quem são os amigos do povo?
, escrito quando acabava de fazer 24 anos de idade. Nesse livrinho, Lenine
coloca o tema da organização no topo da agenda da nascente
social-democracia russa. Pouco depois de ter publicado o
Que Fazer?
escreveu que o proletariado, na sua luta pelo poder, não tem
outra arma que não seja a organização,
afirmação esta que é mais verdadeira hoje do que ontem.
Daí o impiedoso ataque de Lenine àquilo que, como veremos mais
adiante, denominava de formas artesanais de
organização dos círculos sociais-democratas russos.
Citando fontes testemunhais do tempo, Liebman comenta que entre 1895 e 1902, o
tempo necessário à polícia política do czarismo
para identificar os membros de um circulo social-democrata em Moscovo,
surpreendê-los no seu lugar de reunião e proceder à sua
prisão e eventual deportação para a Sibéria, era
apenas de três meses. De facto, em 1898 funda-se em Minsk o Partido
Trabalhador Social-Democrata Russo (POSR), mas o acontecimento não
teve qualquer alcance prático porque quase todos os delegados foram
detidos antes do encerramento do congresso (Liebman, 1978: 22-25). Fontes
coincidentes indicam que pouco depois, mais de quinhentos activistas
social-democratas foram presos em toda a Rússia, e o movimento acabou
completamente esmagado pela repressão policial (Harding, 1977: 189). A
ênfase tão forte que Lenine pôs na questão da
constituição de uma organização partidária
sólida, duradoura, resistente às infiltrações dos
serviços de inteligência do czarismo e às suas diversas
operações, não tem a ver com um vezo autoritário do
autor do
Que Fazer?,
como diz com suposta inocência a historiografia liberal, mas é
pelo contrário uma resposta absolutamente racional e apropriada, dadas
as condições particulares em que se desenvolvia a luta de classe
na Rússia dos czares. É ainda conveniente recordar que o
núcleo do problema da organização era, em Lenine, para
lá de qualquer outra consideração, uma questão
política ligada estreitamente à sua concepção de
estratégia revolucionária. Não se tratava, pois, de uma
opção meramente técnica mas sim profundamente
política.
A importância da problemática organizativa no início do
século XX europeu estimulou um debate cujas vozes, pese a profundidade e
continuada vigência dos seus argumentos, mal se ouvem nos nossos dias. O
que parece caracterizar o actual momento da América Latina com ligeiras
variantes segundo os países, é uma incompreensível
aversão a qualquer tentativa de passar em revista ou discutir as
frustrações colhidas nos últimos anos, sobretudo se uma
tal tentativa se propõe tendo como pano de fundo uma nova releitura dos
clássicos do pensamento socialista. Pelo contrário, o que
predomina é uma espécie de hiper-activismo que se materializa na
exaltação da acção por si mesma e, em todo o caso,
na busca obsessiva de novos enfoques, conceitos e categorias que permitam
capturar as situações supostamente inéditas que devem
enfrentar as lutas emancipadoras no nosso continente. O que se supõe
implícito em tal atitude cujo pendor anti teórico é
evidente é que pouco ou nada se pode aprender a partir do debate
que há pouco mais de um século brotou na Europa. A intensa
propaganda sobre a chamada crise do marxismo fez mossa nas
forças populares e expressa-se na recusa visceral em alguns casos
ou na indiferença mais ou menos generalizada perante toda a
tentativa de discutir a problemática da organização, a
estratégia política e a conquista do poder tendo como
referências teóricas os elementos abordados no debate
clássico do início do século XX europeu. Em vez disso,
prosperam na região, sobretudo na Argentina mas também no
México e em muitos outros países, reflexões que
põem a esquerda perante a inutilidade, e, o que é mais, a
inconveniência de conquistar o poder.
[1]
A ausência desta discussão constitui um erro muito grave se se
tiver em conta que na conjuntura actual o cenário latino-americano
fornece uma riqueza e variedade de experiências populares realmente
notáveis mas nem por isso isentas de críticas. Fenómenos
como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra do Brasil, o Zapatismo mexicano,
as organizações camponesas e indígenas no Equador e na
Bolívia, os piqueteros na Argentina, a formidável
mobilização do povo venezuelano na base da
Revolução Bolivariana do Presidente Hugo Chávez e outras
manifestações semelhantes e muito importantes na América
Central e no Caribe constituem um laboratório político muito
importante e complexo que não só merece o apoio militante de toda
a esquerda, mas também que lhes levemos os melhores esforços do
nosso intelecto. É necessário examinar todos os aspectos e
facetas da luta de classes na actual conjuntura e a relevância que, para
a sua adequada compreensão e orientação, contêm as
teorizações políticas mais variadas, tanto as
clássicas de princípios do século XX como as
contemporâneas às quais aludimos mais acima.
Pensando concretamente no caso do
Que Fazer?
de Lenine a cena latino-americana oferece exemplos exaltantes. A
história Argentina, caracterizada pelo excepcional vigor de um protesto
social intermitentemente ressurgindo na segunda metade do século
XX, sobretudo a partir de 1945 põe problemas práticos e
teóricos bastante interessantes. Quando o protesto irrompe na vida
estatal desencadeia um contagioso activismo de massas, como o que se evidenciou
nas jornadas de 19 e 20 de Dezembro de 2001, capaz de derrubar governos e
produzir um notável vazio de poder que precipitou a
designação de cinco presidentes em pouco mais de uma semana. E
contudo, tamanha demonstração de força dilui-se quando
chega a hora de tomar o céu de assalto, permitindo a
rápida recomposição do poder burguês e a
estabilização de dominação política e social
sem que nem sequer fique como herança deste fenomenal feito das massas a
constituição de um grande partido de esquerda ou, pelo menos, uma
grande coligação onde o arquipélago de pequenas
organizações da dita orientação pudesse pôr
em conjunto os seus esforços. Uma conclusão mais ou menos
semelhante pode extrair-se do Outubro boliviano de 2003. Como dar
conta de semelhante situação?
Se o caso argentino se podia sintetizar na fórmula debilidade do
partido, vigor do activismo de base, nos casos do Brasil e do Chile
acontece o contrário, sobretudo neste último: vigor da
organização partidária, debilidade ou ausência, na
prática, do impulso social a partir da base. O caso do Brasil é
bem ilustrativo: este grande país sul-americano não sabe ainda o
que é uma greve geral nacional; nunca em toda a sua história se
produziu um acontecimento deste tipo, o que não é um dado
trivial, já que nos diz qualquer coisa acerca do estado de
consciência das massas e da sua capacidade de organização.
O Brasil, que é uma das sociedades mais desiguais e injustas do planeta,
apresenta uma paisagem política marcada pela assombrosa passividade das
suas classes e camadas populares. No entanto, apesar disto, foi capaz de
produzir um dos partidos de esquerda mais importantes do mundo. No caso
chileno, a combatividade da sua sociedade parece ter-se esgotado aquando do
extenso Inverno do regime de Augusto Pinochet primeiro e da prolongada
vigência do pinochetismo sociológico durante o
período da democracia que arranca em 1990 e cujos
lineamentos económicos, sociais e políticos mostram uma
notável continuidade com os do período precedente. Uma vez mais:
terá Lenine alguma coisa a dizer sobre tudo isto? Poderá
ajudar-nos a decifrar as complexidades actuais da política na nossa
região e, mais importante ainda, ajudar-nos a transformar esta
situação?
LENINE, O LENINISMO E O MARXISMO-LENINISMO
A resposta às perguntas anteriores é afirmativa. Claro que para
tal, exige-se um trabalho prévio de destrinça. Ou, se se quiser,
será necessário organizar uma espécie de
expedição arqueológica que nos permita recuperar a
herança leninista que subjaz por baixo desse amontoado de
falsificações, tergiversações e
manipulações perpetrado pelos ideólogos estalinistas e
seus epígonos e que se deu a conhecer com o nome de
marxismo-leninismo.
Não é segredo para ninguém que Lenine sofreu, às
mãos dos seus sucessores soviéticos, um duplo embalsamamento. O
do seu corpo, exposto durante longos anos como uma relíquia sagrada
às portas do Kremlin; e o das suas ideias codificadas por
Estaline em
Os Fundamentos do Leninismo
(1924) e na
História do Partido Comunista (Bolchevique) da URSS
(1953) porque segundo ele dizia, a obra que Lenine havia deixado inacabada,
deveria ser completada pelos seus discípulos, e ninguém melhor
apetrechado do que o próprio Estaline para acometer semelhante tarefa. O
certo é que a codificação do leninismo, a sua
transformação de um marxismo vivo e um guia para a
acção num manual de primeiros socorros para
revolucionários desorientados, teve lamentáveis
consequências para várias gerações de activistas e
lutadores sociais. A canonização do leninismo como uma doutrina
oficial do movimento comunista internacional acarretou gravíssimas
consequências no plano da teoria tanto como no da prática. Por um
lado, porque esterilizou os esforços de uma genuína
reflexão marxista em diferentes latitudes e precipitou a
formação daquilo a que Perry Anderson chamou o marxismo
ocidental, isto é, um marxismo inteiramente virado para a
problemática filosófica e epistemológica, que renuncia
às análises históricas, económicas e
políticas, para se converter, por esse motivo, num saber
esotérico encerrado em escritos quase herméticos que o afastaram
irremediavelmente das urgências e das necessidades das massas. Um
marxismo que se esqueceu da décima primeira tese de Feurbach e o seu
apelo a transformar o mundo e não apenas a reflectir sobre o melhor modo
de o interpretar (Anderson, 1979). Por outro lado, porque quando os principais
movimentos de esquerda e, fundamentalmente, os partidos que adoptaram o canon
marxista-leninista, demorou-se décadas a
apropriação colectiva das importantes contribuições
originadas pelo marxismo do século XX. Basta recordar o atraso com que
se acedeu à imprescindível contribuição de
António Gramsci para o marxismo e de quem os
Cadernos do Cárcere
que só recentemente se tornaram disponíveis, na sua
íntegra, em meados da década dos setenta, ou seja, quarenta anos
depois da morte do autor. Ou a demora produzida na incorporação
da sugestiva recreação do marxismo produzida a partir da
experiência chinesa, por Mao Tsé Tung. Ou o ostracismo em que caiu
a recriação do materialismo histórico saída da pena
de Carlos Mariátegui, que com razão, disse que entre
nós o marxismo não pode ser decalque ou cópia. Ou a
absurda condenação da obra, excelsamente refinada, de Gyorg
Lúkacs na Hungria. Mais próxima no tempo, essa
codificação anti-leninista dos ensinamentos de Lenine (e de Marx)
fez aparecer Fidel e o Che como se fossem aventureiros irresponsáveis,
até que a realidade e a história esmagaram com o seu peso as
tolices monumentais divulgadas pelos ideólogos soviéticos e os
seus principais divulgadores de cá e de lá. É
difícil avaliar o prejuízo que tal tergiversação
provocou. Quantos erros práticos foram cometidos por vigorosos
movimentos populares ofuscados pelas receitas do
marxismo-leninismo?
[2]
Um tema polémico e que gostaríamos de deixar mencionado aqui
embora apenas de passagem, é o seguinte. Os críticos do
marxismo, e em geral de qualquer proposta de esquerda, não poupam
energias para sublinhar que as deformações cristalizadas no
marxismo-leninismo não passam do produto inevitável
das sementes fortemente dogmáticas e autoritárias contidas na
obra de Marx e potenciadas pelo despotismo asiático que
supostamente se albergava na personalidade de Lenine. Para eles o estalinismo
com todos os seus horrores não é mais do que o remate natural do
totalitarismo inerente ao pensamento de Marx e à
teorização da obra prática de Lenine. Nada mais distante
da verdade. Na realidade, o marxismo-leninismo é um produto
anti-marxista e anti-leninista por natureza. Que Lenine tivesse apresentado no
Terceiro Congresso da Internacional Comunista, as famosas 21
condições para se aceitarem os partidos que solicitassem
ingressar nela, e que tais condições tivessem uma linhagem que em
alguns casos conduzia directamente ao
Que Fazer?,
não constitui uma evidência suficiente para apoiar tal
interpretação se se tiver em conta , como o próprio Lenine
o afirmara reiteradamente ao longo de toda a sua vida política, que tais
formulações adquiriam um carácter necessário apenas
sob a existência de determinadas condições
políticas, e que sob nenhum ponto de vista se tratava de
afirmações doutrinárias ou axiológicas de valor
universal em qualquer tempo e lugar. E isto é válido, muito
especialmente, como o próprio Lenine o afirma, no caso das teses
expostas no
Que Fazer?
[3]
Um oportuno e necessário regresso a Lenine nada tem pois a
ver com um regresso ao leninismo codificado pelos académicos
soviéticos; mas com uma nova releitura do brilhante político,
intelectual e estadista que com a Revolução Russa abriu uma nova
etapa na história universal. Regressar a Lenine não significa
pois regressar a um texto sagrado, mumificado e lavrado em pergaminho, mas
antes regressar a um manancial inesgotável de que brotam questões
e interrogações que conservam a sua actualidade e
importância no momento actual. Interessam menos as respostas concretas e
pontuais que o revolucionário russo oferece na sua obra do que as
sugestões, perspectivas e enquadramentos contidos na mesma. Não
se trata de voltar a um Lenine canonizado, porque esse já não
existe. Foi pelos ares como o Estado que o havia erigido em ícon
tão grosseiro como inofensivo, abrindo-se a oportunidade, a primeira em
muitos anos, de aceder ao Lenine original sem a ultrajante
mediação dos seus intérpretes. Claro que o derrube do
erroneamente chamado socialismo real arrastou consigo, num
movimento muito vigoroso, toda a tradição teórica do
marxismo, e da qual Lenine é um dos máximos expoentes.
Felizmente estamos já a assistir à reversão desse mesmo
processo, mas há ainda um extenso caminho a percorrer. Por outro lado,
também não se trata meramente de regressar, porque nós, os
que regressamos às fontes, já não somos os mesmos de
antes; se a história varreu com as excrescências estalinistas que
haviam impedido de captar adequadamente a mensagem de Lenine, fez o mesmo com
os dogmas que nos aprisionaram durante décadas. Não a certeza
fundamental acerca da superioridade ética, política, social e
económica do comunismo como forma superior de civilização,
a mesma que abandonaram os fugitivos auto-denominados
pós-marxistas, mas sim as certezas marginais, no dizer de
Imre Lakatos, como por exemplo as que instituíam uma única forma
de organizar o partido da classe operária, ou uma determinada
táctica política o que, na apoteose da irracionalidade,
consagravam um novo Vaticano com o centro em Moscovo e dotado dos dons papais
da infalibilidade em tudo o que se relaciona com a luta de classes. Tudo isso
desapareceu. Estamos a viver o início de uma nova era. É
possível, e além do mais necessário, proceder uma nova
leitura da obra de Lenine, na certeza de que ela pode constituir um contributo
valiosíssimo para nos orientarmos nos desafios do nosso tempo. Trata-se
de um regresso criativo e promissor: não voltamos ao mesmo, nem temos a
mesma atitude. O que persiste é o compromisso com a
criação de uma nova sociedade, com a superação
histórica do capitalismo. Persiste também a ideia da
superioridade integral do socialismo e da insanável injustiça e
desumanidade do capitalismo, e a vigência da décima primeira tese
de Marx sobre Feurbach que nos convidava não apenas a interpretar o
mundo, mas sobretudo a modificá-lo radicalmente.
Buenos Aires, Setembro de 2004
Bibliografía
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Consideraciones sobre el marxismo occidental
(México: Siglo XXI Editores).
Boron, Atilio A. 2003
Estado, capitalismo y democracia en América Latina
(Buenos Aires: CLACSO) [Nova edição, corregida e aumentada].
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OSAL-Observatorio Social de América Latina
(Buenos Aires: CLACSO) Nº 7, de Junho.
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(Londres: Macmillan) Tomo I. Theory and Practice in the democratic revolution.
Hardt, Michael y Negri, Antonio 2000
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(Cambridge Mass: Harvard University Press) [Tradução para o
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Imperio
(Buenos Aires: Paidós)].
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Cambiar el mundo sin tomar el poder
(Buenos Aires: Universidad Autónoma de Puebla/Herramienta).
Liebman, Marcel 1978
La conquista del poder. El leninismo bajo Lenin. I
(México: Editorial Grijalbo).
Martínez Heredia, Fernando 2001
El corrimiento hacia el rojo
(La Habana: Letras Cubanas).
Stalin, José 1953
Historia del Partido Comunista
(Bolchevique) de la URSS (Moscú: Edición Lenguas Extranjeras).
Stalin, José 1946
Los fundamentos del Leninismo
(Córdoba: Lautaro).
Notas
(1) É o caso da notável repercussão que, nesta parte do
mundo, tiveram as teorizações de John Holloway (2002) sobre o
anti-poder na evaporação metafísica que o tema
do contra-poder sofreu nas mãos de Michael Hardt e
António Negri, 2002; Boron 2002)
(2) Um exame do impacto negativo do marxismo-leninismo sobre o pensamento
revolucionário cubano, e sobre o vibrante marxismo desse país,
encontra-se no excelente texto de Martinez Heredia (2001). Consultar
especialmente o seu capítulo sobre Izquierda y Marxismo en
Cuba
(3) Contudo, seria conveniente não esquecer que, como mostra Marcel
Liebman, houve um período (1908-1912) em que Lenine adoptou uma atitude
sumamente sectária (1978: 75-6).
Desenvolvimento do Estudo Introdutório
Actualidade do
¿Que fazer?, de
Atilio Boron
O Espelho latino-americano
Lenine, o leninismo e o marxismo-leninismo
O contexto de produção do
Que Fazer?
a) O Auge do revisionismo
b) As particularidades da situação política na
Rússia czarista
Teses principais
a) Revisionismo, luta teórica e revolução
b) A questão da consciência socialista: espontaneismo e
direcção consciente
c) Política sindicalista e política social-democrata
d) Sobre os métodos de organização e o
revolucionário profissional
As críticas ao
Que Fazer?
A autocrítica de Lenine
Elementos para uma avaliação, um século depois
a) Corrigindo Marx
b) Lenine, Weber, Michels
c) Origem da consciência socialista
d) Ensinamentos da história recente na América Latina
O lugar de Lenine na história da teoria marxista
[*]
Secretário Executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências
Sociais (CLACSO). Professor de Teoria Política e Social na Universidade
de Buenos Aires (UBA)
O original encontra-se em
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=7718
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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