Em tempos de crise, alemães lembram
Das Kapital
e a RDA
Sim, a grande crise económica também está a atingir a
Alemanha. As provas incluem os encontros apressados de políticos de topo
e a decisão do governo de coligação de democratas
cristãos e social-democratas de salvar os bancos em aperto com um
crédito de 500 mil milhões de euros.
Outra prova: o famoso livro
Das Kapital
, de Karl Marx, está a vender
bastante mais que nos últimos anos; o seu principal editor já
vendeu 1500 cópias em 2008; no passado vendia, quanto muito, 500
cópias num ano inteiro. Mais pessoas parecem estar à procura de
explicações e até soluções. (Mas o editor
avisa que para leigos o livro pode ser de difícil leitura.)
Uma terceira prova: os empregados da fábrica da Opel da cidade de
Eisenach, no Leste da Alemanha, passaram a trabalhar apenas quatro dias a cada
duas semanas. A Opel pertence à General Motors, a qual se sabe estar a
atravessar um mau bocado. Ainda me lembro da alegria dos trabalhadores de
Eisenach há dezanove anos quando tiveram a oportunidade de trabalhar
para uma tão famosa e gigantesca companhia e de comprar os seus
carros.
Uma ainda mais curiosa prova:
um recente inquérito a alemães de leste
levado a cabo por uma importante revista descobriu que 52 por cento
perderam a sua confiança na economia de mercado livre, enquanto 43 por
cento apoiariam um regresso à economia socialista.
A maioria dos entrevistados para este artigo concordaram. Olhando de volta para
os dias da RDA, um trabalhador de 46 anos da Berlim de Leste disse, "Na
escola líamos acerca dos 'horrores do capitalismo'. Aí acertaram.
Karl Marx tinha razão
Eu tinha uma vida bastante boa antes do Muro
cair. Ninguém se preocupava com dinheiro porque realmente este
não importava". Um ferreiro reformado disse: "O mercado livre
é brutal. O capitalista quer espremer mais e mais e mais". E um
funcionário da câmara juntou-se: "Não creio que o
capitalismo seja o sistema certo para nós
A
distribuição de riqueza é injusta. Agora estamos a
vê-lo. As pessoas pequenas como nós vão ter de pagar por
esta trapalhada financeira com impostos mais altos por causa de banqueiros
gananciosos". Outro alemão de leste lembra-se de ter ficado
encantado com a queda do Muro de Berlim e com a substituição do
comunismo pelo capitalismo. Mas adiciona, "Demorou apenas algumas semanas
para perceber tudo o que era a economia de mercado livre
materialismo
gritante e exploração. Os seres humanos perdem-se. Não
tínhamos os confortos materiais, mas o comunismo ainda assim tinha muito
a seu favor".
Tais sentimentos aparecem nas urnas eleitorais. O jovem partido chamado
A Esquerda
(Die Linke),
cujas origens remontam fortemente ao antigo partido
dominante da Alemanha de Leste e cujos programas, apesar de muitas
alterações, ainda apelam ao socialismo, ganhou o segundo lugar em
quatro de cada cinco estados da Alemanha de Leste, é o mais forte
partido de Berlim Oriental e actualmente lidera as sondagens em toda a Alemanha
de Leste. Desde que se juntou a um partido de esquerda na Alemanha Ocidental,
está lenta mas consistentemente a espalhar-se por aí
também.
Tudo isto é de facto preocupante, mesmo alarmante, para os quatro
partidos que até agora lideraram no poleiro político
alemão. Mas estes não estão a abandonar a fortaleza do
capitalismo da livre iniciativa de modo algum, com ou sem crise.
Quase todas as noites um ou outro canal alemão de TV explica aos
espectadores como a vida era terrível na RDA. Por vezes vários
canais competem por este trabalho. Dois temas constantes, claro, são os
terrores da Stasi e os horrores do Muro de Berlim. Mas também há
variedade: como eram na verdade muito maus os centros para crianças na
RDA, como os atletas eram obrigados a sofrer, como as férias eram
arregimentadas, como os líderes eram corruptos, como a música era
pobre, como os livros, peças ou filmes eram censurados. Esta
"iluminação" é frequentemente apresentada sob a
forma de reportagem histórica, mas por vezes são-nos apresentados
dramas de longa duração e até filmes de cinema, alguns
muito bem feitos. Mensagens similares são introduzidas na forma de
pequenas farpas, introduzidas até nas mais breves e irrelevantes
notícias.
Alguns dos factos são indubitavelmente correctos. Muitas das
impressões pessoais são certamente genuínas. Havia
bastante mais burocracia que a necessária, havia dogmatismo,
repressão e injustiça durante os quarenta anos que durou a
República Democrática Alemã. Mas há três
coisas que me ocorrem quando vejo estes programas ou, mais e mais
frequentemente, os desligo após alguns minutos.
Por vezes tentam fisgar a audiência através da aparência de
imparcialidade admitindo, geralmente com um ligeiro sarcasmo, que, apesar de
tudo, poderiam haver alguns aspectos aceitáveis na vida na RDA. Mas a
mensagem avassaladora retorna sempre à usual imagem desfocada com todos
os clichés, ignorando muitos dos aspectos da vida que eram
normalíssimos e que podiam ser bastante agradáveis. Mas foi
exactamente esta mistura de bons e maus factores que observei durante os 36
anos que vivi na RDA, participando no dia-a-dia como um aprendiz, um
trabalhador, um estudante e um jornalista que visitou praticamente cada canto e
buraco do país e falou, pública e privadamente, com pessoas de
toda a espécie. Mas os media preferem destruir e esmagar, o resto
é essencialmente esquecido, e os media não apresentam
virtualmente qualquer hipótese de rebate.
Pode parecer um mistério o porquê de os programas que nos informam
quão duros terão sido aqueles anos de miséria não
terem diminuído em número e ferocidade, uma vez que a RDA
está morta desde 1990. Porque é que insistem tanto em bater no
cavalo morto?
A sondagem anteriormente citada responde mais obviamente que nunca. É
verdade, o fim da RDA em 1990, oficialmente chamado reunificação
alemã, mas também referido por muitos como
"anexação", trouxe uma série de bens de consumo
anteriormente difíceis de obter ou desconhecidos, desde bananas e kiwis
a BMWs e viagens oceânicas. As viagens pelo mundo tornaram-se
possíveis, o comércio de retalho expandiu-se, as casas foram
renovadas, os cafés multiplicaram-se, o trânsito e a publicidade,
desde luzes de néon a anúncios de televisão, virtualmente
explodiram. Uma certa percentagem das pessoas certamente viveu e ainda vive
melhor que antes, talvez cerca de um terço.
Mas muitos pagaram um pesado preço, que agora está a ser agravado
pela nova crise financeira e económica. Milhões de empregos
perderam-se após 1990 quando os preços "impostos"
às fábricas da Alemanha de Leste as levaram à
extinção ou a serem compradas por competidores ocidentais por
ninharias e rapidamente encerradas. O desemprego manteve-se constante e o dobro
daquele da região ocidental (está agora próximo dos 14
porcento) e os salários e pensões também consistentemente
abaixo do nível dos alemães ocidentais, geralmente 30 por cento
menos.
Muito gradualmente, algumas áreas começaram a levantar-se
alguns resorts no Báltico, algumas fábricas de partes de carro e
de electrónica, por exemplo. Mas os outros factores pioraram. Os
cuidados médicos tornaram-se mais e mais caros. As taxas subiram ou
ameaçaram subir para o cuidado infantil e a educação. Os
impostos, excepto para os ricos, aumentaram. As reformas, cada vez valendo
menos, são agora aos 67 anos (na RDA os homens recebiam a reforma aos 65
e as mulheres aos 60). Pior que tudo, há pouca ou nenhuma
segurança. Mesmo aqueles trabalhando para as poucas empresas famosas e
bem estabelecidas que abriram fábrica na Alemanha de Leste nunca sabem
quando os seus serviços serão dispensados; uma amiga minha perdeu
o seu emprego exactamente no seu 50º aniversário. Para aqueles que
são despedidos depois dos 45 ou 50, é extremamente difícil
encontrar um novo emprego, e após um ano sem emprego os subsídios
de apoio fornecidos reduzem os seus receptores à pobreza e virtualmente
à subserviência. E agora, enquanto a situação ainda
não atingiu as proporções dos EUA, os sem-abrigo
estão a aumentar. Será surpresa que as pessoas se relembrem os
dias da RDA quando os empregos eram seguros e os despejos eram proibidos por
lei?
Mas tudo isso era conhecido como "socialismo". A própria ideia
de tais recordações assusta as poderosas forças que
controlam os três principais partidos e influenciam fortemente o quarto,
o dos outrora progressivos Verdes. Há alguns anos um ministro
social-democrata exigiu a "des-legitimação da RDA".
Cada truque que exista, cada mecanismo de propaganda, está a ser
utilizado nesta luta. Um grande campo de batalha é o sistema escolar
onde, ao contrário da TV, existe algum diálogo. Os
políticos de topo queixam-se constantemente que os alunos da Alemanha de
Leste estão "mal informados acerca da história alemã
recente" e que, em vez de ouvirem o que os professores são
comandados a ensinar ou o que rezam os novos livros de texto, são
frequentemente influenciados pelo que os seus pais e avós lhes contam
sobre a vida nos velhos tempos, não apenas os maus, mas também os
bons. Os políticos quase histericamente exigem métodos que cada
vez mais forcem os alunos, livros cada vez mais parciais, ainda mais agora para
os vindouros aniversários da fundação dos dois estados
alemães (1949) e para a "Queda do Muro" (1989). Quem
vencerá este jogo de puxar a corda? Ou melhor, quem ganhará mais
terreno? As próximas eleições, a nível estatal e
nacional e talvez algumas demonstrações de protesto ou
greves podem fornecer algumas respostas.
20/Outubro/2008
[*]
Jornalista e escritor americano, reside em Berlim Oriental há muitos
anos.
É o autor de
Crossing the River: A Memoir of the American Left, the Cold War, and Life in East Germany
(se encomendar o livro através deste link resistir.info poderá receber uma pequena comissão).
O original encontra-se em
http://mrzine.monthlyreview.org/grossman201008.html
Tradução de João Camargo.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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