Repúdio às privatizações: 1ª sondagem nacional
sobre água, saneamento e resíduos
A maioria da população defende serviços públicos c/
gestão municipal
A grande maioria dos portugueses (69%) não concorda com a
privatização ou gestão privada dos serviços de
abastecimento de água e saneamento. As três razões
principais apontadas são: "a água é de
todos" (75,5%), é um "serviço público
essencial" (65%), "as pessoas com menores rendimentos
deixariam de ter acesso à água" (57,1%). Estes
são os resultados obtidos pela sondagem da Marktest encomendada pelo
Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Administração Local (
STAL
).
Com o presente estudo de opinião, o primeiro conhecido em Portugal sobre
a opinião dos portugueses acerca da privatização dos
sistemas de água, saneamento e resíduos sólidos urbanos, o
STAL pretendeu não só determinar o grau de concordância
da população com os processos de privatização no
sector e retirada das correspondentes competências aos municípios,
mas igualmente medir o grau de cobertura e satisfação e
identificar os critérios mais importantes para os utentes na
gestão destes serviços.
Satisfação elevada com gestão pública
No universo da sondagem, regista-se uma ampla cobertura dos serviços em
análise, similar aos dados estatísticos nacionais: abastecimento
de água (89.8%); recolha e tratamento do lixo (82.9%); saneamento e
esgotos (79.7%); recolha selectiva de lixo (71.9%).
A esmagadora maioria dos inquiridos (93,9%) beneficia de pelo menos um
serviço prestado por entidades públicas. Só 22,2 por cento
afirmaram utilizar um serviço (água, saneamento, recolha ou
tratamento de lixo) prestado por empresas privadas.
É no sector dos resíduos urbanos que o peso dos privados se faz
sentir mais, tendo sido assinalado por 15,8 por cento das respostas. A sua
presença no abastecimento de água foi notada por nove por cento,
enquanto na actividade de saneamento apenas 3,6 por cento dos inquiridos afirma
serem servidos por empresas privadas.
A sondagem revelou que a maioria da população está
satisfeita ou muito satisfeita com os serviços prestados. Numa escala de
zero a dez, a classificações médias mais elevadas foram
atribuídas aos serviços de água, designadamente em
relação à "continuidade do fornecimento de
água" (8.0) e à "qualidade da água
distribuída" (7.4). No primeiro critério, 36,2 por cento
declararam-se "satisfeitos" e 40,6 "muito satisfeitos",
enquanto no segundo critério 40,4 por cento estão
"satisfeitos" e 30,5 por cento "muito satisfeitos".
De forma geral, a "facilidade de contacto" é também
apreciada pelos utentes, com uma classificação média de
6.4 valores, notando-se uma menor satisfação com "o tipo de
informação fornecida pelos serviços" (5.9), com a
"higiene dos contentores" (5.6) e com "os valores
facturados" (5.5).
Água é um direito Não à
privatização!
O estudo mostrou uma opinião praticamente unânime sobre a
importância da água como bem essencial à vida humana.
Questionados sobre a afirmação de que "o acesso à
água é um direito que deve ser assegurado a todas as pessoas
independentemente da sua condição económica e social e da
região onde habitem", 99 por cento dos inquiridos manifestaram a
sua concordância.
Estabelecendo uma relação entre a garantia deste direito e a
gestão pública do serviço, uma clara maioria (69%)
não quer que os serviços de abastecimento de água e
saneamento sejam privatizados, geridos por empresas privadas.
Dos que assim responderam, 88,2 por cento valorizam o facto de que
"água é de todos", 83,2 que se trata de "um
serviço público essencial" e 77,4 por cento considera que a
privatização põe em causa "o acesso à
água de pessoas de menores rendimentos". De igual modo, foram
registadas percentagens significativas relativamente a outras
consequências da privatização: "os preços
aumentam mais do que esperado" (72,3%); "os direitos dos
trabalhadores diminuem" (66,3%); "a qualidade do serviço
diminui (65,3); "os lucros passarão a estar em primeiro lugar
(62,1%).
Manter as competências dos municípios
Em coerência com a defesa clara do serviço público com
gestão pública municipal, 79,4 por cento dos inquiridos
não concordam com a retirada das competências às
câmaras na gestão da água, tratamento de esgotos e
definição dos preços, as quais o governo pretende
transferir para empresas onde as autarquias perdem capacidade de decisão.
Os que partilham esta opinião afirmam que as "Câmaras
são mais atentas às necessidades da população"
(25,2%); que os "serviços fornecidos pelas Câmaras são
bons" (11%), que caso deixem de os prestar "os preços
vão aumentar" (10,5%); que as câmaras são a garantia
da continuação do "serviço público"
(10,5%); que "os serviços são mais bem geridos
localmente" (10,1%).
Pelo contrário, para sete em cada dez inquiridos (73,4%), consideram que
a retirada desta competência não contribuiria para melhorar o
serviço de abastecimento de água e saneamento, uma vez que as
câmaras municipais são quem melhor "conhece as necessidades
da população".
Ambiente de qualidade
Uma expressiva maioria de pessoas (86,7%) respondeu que a
protecção do meio ambiente constitui uma característica
"importante" ou "muito importante" da gestão dos
serviços públicos. Seguem-se como critérios
prioritários a "qualidade" (85,9%); "universalidade de
acesso" (83,5%); "boas condições de trabalho dos
funcionários" (81,9%); "participação dos
cidadãos" (80%); "transparência das
decisões" (72,6%).
Portugueses discordam das opções do governo
A sondagem encomendada pelo STAL mostra assim claramente que cerca de
três quartos da população portuguesa discordam de forma
fundamentada com a privatização do sector da água e
saneamento e consideram que a sua gestão não deve ser retirada
às autarquias locais.
Num momento em que o actual governo, prosseguindo e aprofundando
políticas anteriores, pretende transformar a água e outros
serviços públicos de âmbito local em mercadorias como as
demais, os portugueses afirmam inequivocamente que a água, saneamento e
resíduos sólidos são direitos sociais e humanos que
não podem ser reduzidas à mera lógica do lucro e expressam
a sua confiança nas autarquias enquanto órgãos
democráticos para continuarem a assegurar estes serviços
essenciais.
Ficha técnica:
Foram entrevistadas 801 pessoas, com 25 anos ou mais anos, de ambos os sexos,
residentes em Portugal continental, em lares que possuem telefone de rede fixa.
A recolha de informação decorreu entre os dias 6 de Janeiro e 15
de Janeiro de 2009. A margem de erro máxima para o total, para um
intervalo de confiança de 95%, é de ± 3.46%.
Lisboa, 26 de Fevereiro de 2009
A Direcção Nacional do STAL
Nota: A síntese e versão completa do estudo estão
disponíveis em
www.stal.pt
Este esclarecimento encontra-se em
http://resistir.info/
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