Mandela: Os elogios dos sem vergonha
Caros amigos e camaradas:
Lenine dizia que a maneira com que a burguesia consegue sujar os grandes
revolucionários consiste em incensá-los a título
póstumo depois de os ter perseguido durante toda a sua vida. É o
que acontece hoje. A burguesia mundial incensa Mandela depois de o te
aprisionado durante 27 anos. Ela quer esconder que os grandes estados
capitalistas, França inclusive, se desinteressaram de Mandela durante
décadas. Sem vergonha, o grande patronato do nosso país importava
os diamantes e as laranjas sul-africanos manchados com o sangue do apartheid.
Eis porque, não dispondo senão de dois minutos, recordarei
três verdades censuradas por aqueles que não vêem em Mandela
senão o grande conciliador que, a seus olhos, teria impedido a
transição democrática na África do Sul de voltar-se
para o que a burguesia mundial mais temia: uma
África do Sul socialista.
Esta está infelizmente por realizar, para reduzir as enormes
desigualdades que subsistem hoje entre a burguesia branca ou negra de
Pretória e o proletariado miserável de Soweto.
Primeira verdade censurada:
a luta anti-apartheid foi conduzida de A a Z pelo
Partido Comunista da África do Sul
e pelo sindicato de classe COSATU.
Mandela foi membro do PC sul-africano que, pela primeira vez, levantou a
bandeira da revolta negra e anti-colonial. Honra a Mandela, mas honra
também a
Chris Hani
, dirigente negro do PC sul-africano, assassinado pelo regime racista no
princípio dos anos 90. Quando haverá uma praça Chris Hani
em Lens e nas cidades dos arredores?
Segunda verdade:
o regime do apartheid e todos os regimes gorilas que o cercavam, o
colonialismo dos fascistas portugueses em Angola e Moçambique,
países reduzidos ao estado de ghettos na Rodésia e na
Namíbia, nunca teria caído, dado o apoio que recebia de Reagan,
de Thatcher e de Israel, se Fidel Castro não houvesse enviado à
África um contingente militar internacionalista. Foi em
Cuito Cuanavale
, em Angola, que o exército cubano esmagou o exército do apartheid
e foi só a partir desta data que a parte menos bárbara do regime
racista aceitou tirar Mandela da sua prisão. O objectivo era sacrificar
o apartheid para salvar a propriedade capitalista dos meios de
produção, que continua hoje sempre em vigor, apesar de certos
progressos democráticos evidentes mas frágeis. Honra a Cuba
socialista cujo presidente era hoje o dirigente mais autorizado a prestar a
Mandela uma homenagem sincera.
Terceira verdade:
em França foram os comunistas, a começar por Georges Marchais,
que
apoiaram a luta anti-apartheid enquanto outros não se interessavam
senão pelo anti-comunista Walesa ou apresentavam os talibans, atacando o
regime laico de Cabul, como "combatentes da liberdade".
Termino dizendo, com Marwan Bargouti, dirigente do Fatah aprisionado em Israel,
que a vitória de Mandela permanecerá incompleta enquanto o povo
palestino, com o qual Nelson era solidário, for oprimido. A luta
anti-apartheid não terá sido vitoria senão no dia em que,
na África do Sul, a polícia do regime actual cessar de atirar
sobre os mineiros negros em greve e quando, em França, o poder
instituído cessar de derramar lágrimas de crocodilo enquanto
expulsa crianças sem documentos à saída das escolas com o
único objectivo de fazer esquecer a renúncia a mudar a sociedade.
Mandela, Chris Hani, vosso combate é mais vital do que nunca em vossa
pátria, mas também, infelizmente, na nossa!
Ver também:
50 verdades sobre Nelson Mandela
O legado económico de Mandela
[*]
Dirigente do
PRCF
. Discurso pronunciado na homenagem a Nelson Mandela, em Lens,
a 08/Dezembro/2013.
Este discurso encontra-se em
http://resistir.info/
.
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