Não fui eu que deitei fogo à Guiné...
por Rabiatou Diallo
Conversa registada por Jules Ernoux
Rabiatou Diallo, secretária geral da Confederação Nacional
dos Trabalhadores da Guiné, de passagem pela Bélgica, conta-nos a
sua intervenção-choque no Parlamento Nacional. Por ter convocado
a greve foi acusada de deitar "fogo ao país". Ela responde.
Quando faço fogo é debaixo do tacho para preparar a comida para a
minha família. Ora esse fogo já não o faço porque o
tacho está vazio. E porque está vazio? Porque, como toda a gente,
já não sei o que comprar. Tudo ficou demasiado caro. A
inflação é galopante, o franco resvala. Agora é
preciso dar 3 vezes mais dinheiro guineense por um euro. E isto não
é culpa dos trabalhadores, do povo e dos sindicatos. A culpa é
vossa, ministros e deputados. A corrupção, sois vós. O
branqueamento de dinheiro, sois vós. A má
governação, sois vós. Não são os
trabalhadores!
Peritos do Banco Mundial e do Fundo Monetário estão em
missão na nossa capital Conakri. Que vêem eles fazer? Continuar a
colonizar-nos. Ah, sim, é verdade, o nosso país estava
endividado. E quem endividou o nosso país? Os vossos antecessores. Um
perdão parcial da dívida foi negociado: para onde foi esse
dinheiro. Já se pagou essa dívida muitas vezes. Quem ganha com
isso? Vós. Quem a paga? Nós. Ministros houve que quiseram dar-me
dinheiro para que me calasse. Disse não. Para que serviriam esses
milhões se perco a confiança dos trabalhadores?
Tenho os olhos húmidos ao falar-vos... é porque sou uma mulher.
Sim, sou uma mulher e uma mãe. Dei do meu próprio peito aos meus
seis filhos. E estou orgulhosa disso. É a raiva que me faz chorar. Um
país riquíssimo como é o nosso, o castelo de água
da África Ocidental, não nos consegue sequer dar água
potável! Não há electricidade senão durante duas
horas à noite, noite sim, noite não: os frigoríficos
já não servem para nada. O preço do arroz foi multiplicado
por 3, o do pão por 2 e o do peixe por 4. Temos a saúde numa
desgraça e nos hospitais morremos por falta de cuidados. Os nossos
filhos já não vão à escola, porque os professores
já não suportam os custos do transporte que os leva ao trabalho.
Os jovens tornam-se bandidos. É isto culpa do povo, dos sindicatos?
A nossa Bolsa de Trabalho e o nosso secretariado sindical foram demolidos por
um tornado e por um tremor de terra. Foram amigos belgas que compreendem a
nossa situação que nos vieram ajudar. Este edifício
é um símbolo histórico do nosso país. Foi aqui que
nasceu a nossa independência. Vós, vós nem tivestes mesmo a
coragem de nos ajudar a reconstruí-lo.
Desde o 1 de Maio de 2005 que conheceis as nossas reivindicações.
Por três vezes apelámos ao diálogo batendo às vossas
portas. Fechais os olhos e tapais as orelhas. Tivemos paciência porque o
governo ainda não tinha feito o orçamento, porque havia ministros
em missão no estrangeiro, porque havia eleições
municipais... A comissão interministerial funciona mal. Os ministros
não chegam sequer a pôr-se de acordo sobre uma data. E além
disso ameaçais-nos com a prisão durante esta greve...
O Conselho Sindical Nacional com os seus 100 delegados das bases foi convocado
em Janeiro. Basta, basta: a greve começada 4 dias depois era
inevitável!
Rabiatou, dize-nos como foi essa intervenção.
O meu colega Fofana da União Sindical dos Trabalhadores Guineenses
(USTG) e eu fomos convocados imediatamente à Assembleia Nacional
o parlamento guineense. Nem tivemos tempo de preparar a nossa
intervenção. Fiz falar o meu coração e disse bem
alto o que o povo vive e pensa.
Não sabíamos porque tínhamos sido convocados. Queriam os
ministros que os deputados nos pedissem para terminarmos a greve? Ou
ter-nos-iam utilizado os deputados para se opor ao Governo?
O meu colega Fofana não teve também papas na língua.
Antigo professor de economia na universidade, muitos dos actuais ministros
foram seus estudantes. Afirmou diante da Assembleia Nacional que eles
não tinham compreendido nada nem lembrado nada do curso! Assim fomos
escutados e dalguma coisa serviu discutir com os ministros...
Mas houve uma mobilização fabulosa...
Extraordinária, sim. Não foram só os trabalhadores... Todo
o povo parou. Os mercados do sector informal não abriam senão
à noite porque as donas de casa tinham de qualquer forma de comprar
mandioca e outros produtos de primeira necessidade. Estava tudo morto: as
minas, os bancos, os ministérios, os escritórios. Nenhuma viatura
circulava. As ruas, sempre abarrotando de gente, estavam desertas. O nosso
país não tinha visto uma tal mobilização nos
últimos 40 anos. Até os pedintes das mesquitas vieram dizer-me
que iam fazer greve connosco porque compreendiam que as pessoas já
não tinham mais dinheiro.
A palavra de ordem no nosso país quando se faz greve é ficar em
casa. Não se faz piquetes de greve como na Europa, porque não
há muitas empresas. Além disso, quando estás no teu
domicílio privado, as forças da ordem não te levam preso.
Também há o vosso trabalho de sensibilização desde
há muitos meses...
Desde Maio de 2005 que as nossas reivindicações são
conhecidas. Houve uma greve de aviso em Novembro. Um encontro com o Governo
ficou marcado... e depois não teve lugar. As bases sindicais de todo o
país reunidas em Janeiro estimularam-nos. Estavam determinadas.
Encorajaram-nos também a fazer frente comum com a USTG. Este segundo
sindicato, em termos representativos, partilhava as nossas
reivindicações. A dois éramos também mais fortes
para nos opor aos três outros sindicatos pagos pelos patrões e
pelos ministros para nos dividir.
Eles falharam... O povo vê claramente!
Que concluis tu deste grande acontecimento?
Só a luta traz progresso social. Para fazê-lo é preciso
estar-se organizado. Nos últimos 4 anos renovámos os contactos
com as bases no interior do país. São os delegados, mulheres e
homens, que fazem o sindicato. É graças as elas e a eles que
avançámos.
O trabalho com o outro sindicato também foi importante. É um
sindicato correcto: chegamos a um acordo e ambos os parceiros mantêm a
palavra.
O nosso sucesso deve-se também às mensagens recebidas da CMT, da
CISL, a OUSA, da CSC, da Social Alert, da CGT, dos nossos parceiros holandeses
e, evidentemente, dos camaradas dos sindicatos africanos. As cartas ao
Presidente da República decerto fizeram-no meditar. Para nós foi
importante este apoio à luta.
O que nos ajudou também foram as asneiras dos ministros. São
finos a fazer dinheiro mas não são inteligentes. As suas
provocações reforçaram a mobilização.
Além disso, eles próprios não estavam de acordo entre si,
e isso viu-se imediatamente.
E agora, depois desta vitória?
O essencial é que o povo levantou a cabeça durante cinco dias, e
para
fazê-lo teve que pagar com bom dinheiro. Nós, os dirigentes dos
dois sindicatos, ficámos completamente arrasados. Durante os cinco dias
estivemos no secretariado, dormimos cinco noites em cima de espumas. Mas assim
que
o protocolo do acordo foi assinado sentimo-nos restaurados!
Pode-se dizer que esta vitória melhorou-nos a vida uns 40%. Faltam os
60% restantes. Temos que continuar a trabalhar: comissões sobre
assuntos específicos (índices de preços e
inflação, ramos industriais, descongelamento de salários)
com representantes dos ministros, dos patrões e dos 2 sindicatos,
já começaram a avançar propostas. Os prazos estão
fixados e tem que se tomar decisões.
Temos esperança.
A Guiné tem 7 800 000 habitantes. A sua superfície
é sete vezes a da Bélgica. Encontra-se na África Ocidental
e tem por vizinhos a Serra Leoa, a Libéria, a Costa do Marfim, o Mali, o
Senegal e a Guiné-Bissau. Uma parte da Guiné fez parte do
Império do Mali no século XII.
Em 1958, Seku Turé
(primeiro Secretário Geral da CNTG que se tornou Presidente da
República), disse não à França e fundou a I
República, de gestão socialista da economia.
Em 1984 o General
Lansana Condé chega ao poder. É a II República: desde
então reina o liberalismo no quadro duma gestão
autoritária. A população não pára de
empobrecer. A esperança de vida passou de 58 anos para 48 anos nos
últimos 10 anos.
A CNTG, antigo sindicato único, é
presentemente um sindicato autónomo. Rabiatou Serah Diallo foi reeleita
para um segundo mandato como Secretária Geral em 2005. É a
primeira mulher em África à cabeça dum sindicato.
O original encontra-se em
www.michelcollon.info/articles.php?dateaccess=2007-01-26%2004:40:19&log=invites
Tradução de DF.
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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