"Ajustamento súbito desregulado",
novo eufemismo para colapso
Quão próximos estaremos dele?
Que conclusões devemos tirar do crescente coro de temores quanto ao
possível colapso do dólar? Será mais um falso alarme?
Esses receios reportam-se a quatro elementos: a declaração de
intenções do Irão em abrir brevemente uma Bolsa de
Petróleo electrónica internacional; a decisão da venda
deste petróleo em euros e não em dólares; a
previsão da subida do preço do petróleo acima dos US$100 o
barril, disparando assim uma recessão mundial; e, por fim, a
utilização de ouro como reserva de valor.
Uma vez que os EUA estão
profundamente endividados, tanto interna como externa, o valor do dólar
depende inteiramente do facto de ser divisa de reserva de outros países.
Todos devemos manter reservas de dólares por duas razões:
primeiro porque, segundo o acordo celebrado nos anos 40, todos os países
produtores de petróleo da OPEP concordaram em transaccionar
petróleo apenas em dólares. Isto significava que todos tinham de
possuir dólares se quisessem comprar petróleo, o que fez com que
dois terços das reservas dos bancos centrais fossem nessa moeda.
Por sua vez, isto significa que
os americanos têm o privilégio de emitir a moeda internacional.
Criar moeda é um lindo trabalho. É como ter a Casa da Moeda no
quintal. Pode-se comprar o que se quiser com o novo dinheiro sem ter de
fornecer o valor equivalente de bens. Os EUA tem financiado o seu défice
anual para com o resto do mundo com empréstimos de mais de 2 mil
milhões por dia através do processo simples de emitir mais
moeda e gastá-la na circulação.
Eles não poderão
fazer isso se não tivermos mais de comprar o petróleo em
dólares. O valor da moeda cairia à medida que os países
mudassem para outras divisas para comprar petróleo ou para o ouro como
valor de reserva confiável. A criação de dólares
não estaria mais disponível como mecanismo para cobrir a imensa
dívida internacional. Se este processo se despoletasse,
assistiríamos a uma espécie de fuga da divisa que arruinou a
economia de muitos países na última década.
Ainda mais alarmante são
as sugestões de que para evitar esta possibilidade o governo americano
estar a planear invadir o Irão. O facto de a invasão do Iraque
foi antecedia por acusações infundadas de posse de armas de
destruição maciça, e de Saddam Hussein ter
ameaçado comutar as vendas de petróleo do dólar para o
euro, dá crédito a tais receios. O facto de o actual caos no
Iraque tê-lo transformado num importador líquido de
petróleo não parece desviar a resolução americana.
Qual é a prova a prova
da possível iminência de um tal cenário? A 5 de Maio a
Associated Press citou Bill Grady, analista reconhecido da Wall Street, da
A.G. Commodities:
"Se algum dia os maiores produtores de petróleo do mundo
permitissem, ou pior exigissem, euros pelos seus barris, isso seria equivalente
financeiro de um ataque nuclear."
A 8 de Maio, um editorial da revista de extrema direita
Forbes,
escrito pelo apoiante de Bush Jerome Corsi, previa:
"Se o Irão também quer ameaçar seriamente a
posição do dólar como divisa de reserva dominante, a
guerra será quase certa. A bolsa iraniana de petróleo nunca
poderá ser mencionada pelos decisores políticos americanos como
uma razão oficial para os EUA decidirem ir à guerra contra o
Irão, mas pode bem ser a gota de água que fará transbordar
o copo."
Uma rede britânica para o desenvolvimento sustentável (
localsustuk@yahoogroups.com
) reuniu provas de que este cenário poderá estar próximo.
Ela afirma que os media ocidentais até agora têm auto-censurado
este assunto tocando sinais de alarme quando o preço do ouro
subiu para quase US$ 700. Num registo de 30 de Abril a Al-Jazeerah afirma que:
"Países produtores de petróleo como a Venezuela e alguns dos
maiores países consumidores, nomeadamente a China e a Índia,
já anunciaram o seu apoio à bolsa iraniana".
No artigo "Petro-Euro: realidade ou pesadelo para os EUA",
William Clark, especialista americano em títulos da dívida pública, afirma que
"se o Irão ameaçasse o dólar no mercado internacional
de petróleo, a Casa Branca daria ordem imediata de ataque."
O ouro está agora no seu
máximo dos últimos 20 anos em relação ao
dólar, e o dólar a um ano de baixa em relação ao
euro. O
Financial Times
de 16 de Maio, sob o título "Receios quanto ao dólar quando
bancos centrais vendem activos americanos" relata que "os bancos
centrais venderam um total de US$14.4 mil milhões líquidos
durante o mês em curso, a maior venda registada desde Agosto de
1998."
Na abertura da reunião
do FMI, em 21 de Abril, o ministro das Finanças russo declarou que o seu
país "não considera o dólar uma moeda de reserva
fiável devido à sua instabilidade". Nesse mesmo dia o
Riksbank sueco reduziu para metade a sua reserva de dólares para comprar
euros.
Naquela reunião do FMI foi lançado o
2006 World Economic Outlook
(Perpectiva Económica Mundial 2006), advertindo para um colapso
do dólar devido a desequilíbrios do comércio
mundial, disparando a dívida americana crescer em espiral e determinando
o fim do petro-dólar como padrão de reserva. Na linguagem
hermética amada por economistas que desejam disfarçar a verdade,
declaram: "Os desequilíbrios globais em transacções
correntes provavelmente permanecerão em níveis elevados por mais
tempo do que de outra forma teria sido o caso, aumentando o risco do
ajustamento súbito desordenado".
Este "ajustamento
súbito desordenado" é o actual eufemismo dos banqueiros para
designar as consequências do colapso do dólar. Outros, como o
economista Stephen Roach da Morgan Stanley e os financeiros Soros e Warren
Buffet, preferem chamar a este cenário "Armagedão
económico". Quão próximos estaremos dele?
[*]
Presidente de
The South African New Economics Network
(SANE)
O original encontra-se em
Post-Autistic Economics Review
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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