Golpe suave em Honduras
As últimas notícias vindas de Honduras parecem indicar que o
acordo firmado entre o grupo golpista e o presidente Manuel Zelaya está
com todas as características de ser uma variante dos golpes teoricamente
planejados por Gene Sharp, do "Albert Einstein Institute". Golpes em
que o fator violência e seus resultados colaterais têm seus efeitos
iguais aos que seriam produzidos por uma "operação
limpa" da CIA e similares europeus. Essa variação do
"golpe suave" foi o caminho que o Pentágono, a CIA e o
Departamento de Estado encontraram para solucionar um erro de cálculo,
que foi fazer um golpe à antiga. Esse "Golpe Suave" embora
só agora seja perfeitamente tipificado, em verdade já estava
contido e representava a essência política do famoso "Plan
Arias" ou "el Acuerdo de San José".
Onde, ainda que se sustentasse o direito de Manuel Zelaya à
Presidência de seu país, com a restituição de seu
cargo, reforçava o poder das oligarquias golpistas, dos militares e de
seus aliados externos, seja pela absurda castração de todos os
poderes do presidente, seja referendando as falsas acusações que
os golpistas faziam contra Zelaya através das barrocas comissões
de verificação e da verdade, além de suprimir qualquer
tipo de participação popular do processo e dar forma
pétrea ao afastamento a qualquer veleidade reformista que surgisse do
povo. Pode-se até dizer que é o neoliberalismo aplicado à
política, pois, ao serem reduzidas as competências e
atribuições do poder executivo nacional, cria-se a
"presidência mínima".
Como os setores golpistas acreditavam na força das armas e na capacidade
manipuladora da mídia nacional e internacional para
"convencer" e controlar o povo, nada fizeram para dar sequência
a esse "suave" projeto do Departamento de Estado. Um comportamento
que aguçava mais e mais, não só as
contradições econômicas, políticas e sociais de
Honduras, mas, acima de tudo, estava a criar novas, reais e autênticas
lideranças populares, Juan Barahona, Rafael Alegria, Bertha Oliva,
Carlos H. Reyes, César Ham, etc, que aos poucos avançavam na
construção de um outro modo de entender e fazer política.
E isto já estava sendo assimilado pela massa.
Com a volta de Zelaya a Honduras ou melhor à Embaixada do Brasil em
Tegucigalpa, que foi um dado fora de todos os parâmetros golpistas, o
quadro se tornou mais confuso. Embora o "suave Acuerdo de San
José" fosse uma referência política possível,
mesmo até para Manuel Zelaya, o núcleo golpista central opunha
inúmeras restrições e dificuldades para o seu
desdobramento, num reflexo da clara divisão de poder que hoje existe nos
EUA. O resultado foi o gradual engajamento do Ministério das
Colônias (OEA) e do Departamento de Estado na urgente
execução do "suave Acuerdo" como forma de evitar que a
situação ultrapassasse o limite do tolerável para o
império e aumentasse o visível desgaste político de Barack
Obama na região por causa de suas vacilações e apoio ao
Estado terrorista de Álvaro Uribe.
Assim, como num passe de mágica os três representantes imperiais
conseguiram "resolver" o que estava demorando meses: legalizar o
golpe, reduzir Zelaya à mínima expressão política,
afastar a Frente Nacional de Resistencia Contra o Golpe de Estado de qualquer
conversação político-institucional e desmobilizar a
opinião pública mundial graças ao relaxamento das
tensões que a repressão golpista criava e estimulava.
É claro que para Manuel Zelaya, retido na Embaixada brasileira e
prisioneiro de seus princípios de resistência pacífica,
pouco campo de manobra lhe restava. Pedir que a população se
declarasse em real estado de insurreição e tentasse um
contra-golpe através da luta armada era algo impensável, pois,
seria o mesmo que estar condenando à morte os patriotas hondurenhos.
Aceitar essa
capitis diminutio
política, ainda que pudesse aparentar fraqueza e certa tibieza, na
realidade pode significar a ampliação do formidável
desnudamento dos "princípios" democráticos defendidos
pelo império e sequazes. Um desnudamento ou aclaramento da ilusão
que é a democracia representativa para os interesses e direitos dos
povos, como a atual Constituição de Honduras, a ditadura de
Micheletti e o "suave acuerdo de Shannon" têm a gentileza de
reafirmar. Ou seja, mesmo que o Congreso hondurenho postergue ao máximo
ou nada faça em prol da restituição da Presidência a
José Manuel Zelaya Rosales, o patente fracasso desse golpe
servirá como linha de conduta para todas as lutas políticas que
forem travadas na América Latina. Uma ou mais eleições,
com apoio ou sem apoio internacional, com as bençãos ou sem as
bençãos dos Estados Unidos, não criará legitimidade
alguma para o Governo que possa sair em 29 de novembro de 2009. E será
cada vez maior a fosso entre a esmagadora maioria do povo de Honduras e aqueles
que detêm a posse e o controle da economia do país. O perfeito
quadro para uma permanente instabilidade institucional, mesmo com todas as
"revoluções coloridas e golpes suaves" que o
império possa propiciar.
Acordo firmado entre Manuel Zelaya e os golpistas:
http://hibueras.blogspot.com/2009/10/cuentos-de-camino-real.html
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Jornalista, brasileiro,
ayres.pedro@gmail.com
O original encontra-se em
http://pedroayres.blogspot.com
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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