Uma "quisling" em Nova Iorque

Eva García [*]

A quisling e o seu senhor.

É possível que o termo "Quisling" seja desconhecido para alguns. A palavra remonta à Noruega ocupada pelos nazis, quando o político e militar Vidkun Quisling liderou um governo fantoche — mais tarde denominado "regime Quisling" — que colaborou de forma infame com Berlim e foi apoiado por esta.

A par do governo de Vichy em França, Quisling foi considerado um dos principais traidores da Europa durante a Segunda Guerra Mundial, e o seu apelido tornou-se sinónimo de traição, colaboração com uma potência estrangeira invasora e de ser um líder sem poder ou de facto.

Utilizando um avião charter privado norte-americano operado por uma empresa colombiana ao invés de um jato oficial venezuelano, a "presidente interina" não eleita e ilegítima, Delcy Rodríguez, visitou Nova Iorque para representar o país na Assembleia Geral da ONU em setembro, onde as dinâmicas de poder que sustentam a manobra de Donald e Delcy ficaram — mais uma vez — expostas aos olhos do mundo.

Num dos episódios mais covardes do passado recente da Venezuela, uma genuflexão junto ao "homem laranja" no pódio mais importante do mundo não foi recebida por Delcy com orgulho, patriotismo ou protesto, mas sim com um silêncio evasivo, subordinação e sorrisos sinistros, o que provocou constrangimento, vergonha alheia e náuseas nas fileiras revolucionárias do país.

A resposta de Delcy ao discurso de Donald

Um dos momentos mais notáveis da visita de Delcy ao país que bombardeou Caracas há apenas nove meses foi a sua reação perante o ousado discurso de Trump na Assembleia Geral da ONU:   ela permaneceu sentada imóvel, paralisada, com um olhar inexpressivo e vazio, enquanto o seu senhor feudal tentava descaradamente justificar a nova manobra de poder neocolonial:   "Aos vencedores cabe o espólio", gabou-se ele.

Se bem que as provocações de Trump não foram qualquer surpresa, a atitude desoladora de Delcy foi.

Quisling encurvada.

A sua linguagem corporal — encurvada na cadeira, engolindo palavra após palavra da retórica de Trump — denotava uma mulher que seguia ordens machistas desprezíveis para se calar, e empalidecia em comparação com as respostas dignas da delegação cubana (que se retirou) ou dos palestinos e outros (que vaiaram e apuparam) quando se confrontaram com ataques à sua soberania nacional no palco da ONU.

Mas a presidente interina não eleita da Venezuela permaneceu imóvel, engolindo tudo sem sequer levantar uma sobrancelha, enquanto o seu novo patrão se gabava abertamente:   da violação da soberania do seu país e do seu direito à autodeterminação; do bombardeamento de Caracas e do sequestro de Nicolás, o antigo chefe de Delcy; da incapacidade militar da Venezuela; do direito de Caracas a controlar os seus próprios recursos naturais; e, para cúmulo, das horríveis generalizações difamatórias sobre nós, o povo venezuelano.

Vale a pena reproduzir os comentários do Imperador Laranja na íntegra, para compreender o alcance dessa demonstração de poder e o quão atroz foi a resposta de Delcy.

"Muitas coisas aconteceram desde a última vez que nos reunimos aqui, há um ano, em janeiro. Sob a minha liderança, as Forças Armadas dos Estados Unidos levaram a cabo uma operação militar em grande escala que penetrou profundamente na capital venezuelana, Caracas; invadiram uma base militar fortemente defendida e fortificada — que se supunha ser impenetrável a qualquer ataque — e prenderam o ditador fora da lei, o verdadeiro criminoso Nicolás Maduro.

"Desde esse dia, centenas de presos políticos venezuelanos foram libertados. Foram retirados das prisões e estamos a trabalhar em estreita colaboração com os líderes da Venezuela para construir um futuro muito melhor para o povo venezuelano. No mês passado, assinámos o maior acordo petrolífero da história, que abrange 65 mil milhões de barris de petróleo, o que beneficiará enormemente tanto a Venezuela como os Estados Unidos e ajudará a reduzir o custo da energia em todo o mundo.

"E isso está a começar a dar frutos neste momento. Já se está a ver. As maiores empresas petrolíferas do mundo estão a entrar no mercado, e os números são absolutamente incríveis. Se somarmos os Estados Unidos e a Venezuela, temos mais de 60% do petróleo mundial. Por isso, talvez seja o maior acordo de sempre.

"Foi uma guerra, mas talvez seja o maior acordo alguma vez celebrado. Ao vencedor cabe o espólio. Todos vocês já ouviram dizer que as nossas ações na Venezuela são a prova de que os Estados Unidos já não permitirão que as ameaças contra a América se enraízem em qualquer parte do hemisfério ocidental.

"E, se for necessário, utilizaremos o nosso poderio militar inigualável para proteger os interesses nacionais vitais dos Estados Unidos. Como sabem, a Venezuela contava com o melhor equipamento do mundo, fornecido por outros países. E adivinhem só: não resultou. Nem sequer chegou perto de resultar.

"Durante décadas, outros governos permitiram que grande parte desta região fosse dominada por gangues impiedosas e cartéis de droga sedentos de sangue, desestabilizada pela migração descontrolada e infiltrada por adversários estrangeiros hostis, adversários estrangeiros doentios e dementes. Mas isso já não vai acontecer. Estamos a reafirmar o poder dos Estados Unidos, incluindo o poder militar dos Estados Unidos, onde for necessário na nossa região e em todo o mundo, para criar um futuro mais seguro para todos nós. Está a acontecer, e está a acontecer rapidamente".

Sorrisos com o invasor

Horas mais tarde Delcy voltou a surpreender os venezuelanos ao sorrir radiante ao lado do "Imperador Laranja" após a sua reunião bilateral oficial, marcada pela questão do petróleo.

Enquanto ela descrevia a reunião como "histórica", Donald classificou-a como "maravilhosa". Deve ter sido um momento encantador para ambos. Já se tinham passado 27 anos desde a última vez que os líderes da Venezuela e dos Estados Unidos mantiveram uma reunião oficial, quando um recém-eleito Hugo Chávez se encontrou com Bill Clinton à margem da Assembleia Geral da ONU de 1999, pouco antes de as relações serem rompidas.

Embora os detalhes da conversa ainda não tenham vindo a público, ambas as partes informaram ter discutido temas como o Grande Roubo do Petróleo e eleições "em algum momento". Só o tempo dirá que outros Grandes Acordos fizeram em Nova Iorque nas costas do povo venezuelano.

Contudo, foram as imagens que roubaram a cena. O simbolismo de Delcy a sorrir com ar zombeteiro ao lado de um Donald sorridente — o homem que ordenou o bombardeamento de Caracas, que raptou o antigo chefe de Delcy e que está a saquear a Venezuela como se fosse um senhor feudal, ao lado da mulher que lhe abre a porta — foi avassalador, opressivo e, sejamos francos, repugnante.

Aquele sorriso, juntamente com a sua atuação na Assembleia Geral da ONU, demonstrou que não há resistência por parte de Delcy, nem ressentimento, nem rejeição, apenas um grande e vergonhoso sorriso zombeteiro, cheio de dentes, para as câmaras (juntamente com um gesto do "V da paz" aparentemente confuso e invertido, pelo qual os seus assessores deveriam ser despedidos).

Maduro deixado à espera

Local onde está preso Maduro.

São 15,4 km de carro desde o local onde Delcy se sentou naquele dia até ao Centro Metropolitano de Detenção. Desce-se pela FDR Drive, cumprimenta-se ironicamente a Estátua da Liberdade, atravessa-se o túnel Hugh L. Carey em direção à Hamilton Avenue e chega-se em cerca de 24 minutos.

Mas parece que Delcy não teve tempo para fazer essa viagem, tão ocupada como estava a babar-se perante o discurso do seu novo senhor. Visitar o seu "presidente" e a sua esposa, detidos ali após o seu escandaloso e ilegal sequestro extrajudicial, claramente não era uma prioridade para ela. O que era, sim, era encontrar-se com o homem que os sequestrou.

Ou talvez não soubesse o que dizer ao Nicolás se o visse? Dir-lhe-ia como está a retirar os cartazes de "Libertem o Nicolás" por todo o país, como entregou a testemunha-chave Alex Saab às autoridades norte-americanas, ou como ela, o seu irmão e Diosdado Cabello repartiram o bolo do poder?

Mas parece que também não teve tempo para mencionar Maduro no seu discurso perante a ONU, onde muitos esperavam que denunciasse os bombardeamentos contra o país e o sequestro extrajudicial. Mas não, nenhum comentário, muito em linha com as ordens de Donald, suponho. Pergunto-me se Maduro terá pedido que lhe transmitissem o discurso em direto para a sua cela na prisão de Nova Iorque nesse dia, para ver em primeira mão o alcance da nova linha da sua vice-presidente.

A reação internacional apoia Delcy

Para além das câmaras e da linguagem corporal, a viagem de Delcy a Nova Iorque teve um objetivo claro:   impulsionar a líder não eleita para a cena internacional e reforçar o reconhecimento do seu governo ilegítimo, tudo com vista a atrair grandes quantidades de capital estrangeiro para a festa da pilhagem.

Em Nova Iorque, os aliados de Trump e as elites ocidentais pisoteavam-se uns aos outros na pressa de serem os primeiros a "felicitá-la" e a "normalizar" a "nova" Venezuela. Milei, Abelardo, Noboa, Bukele, Paz, Kast… até mesmo o FMI e o Banco Mundial juntaram-se ao desfile de palhaços de circo que chegavam à cidade montados num cavalo chamado Trump, lançando Delcy, sem hesitar, para a cena mundial.

Entretanto, os três amigos do triunvirato de Delcy no seu país dedicavam-se a controlar os danos, disfarçando a sua agenda em Nova Iorque como um "diálogo de paz" [com o homem que bombardeou Caracas] e aclamando o novo "reconhecimento internacional" [de governos de extrema-direita detestados pela esquerda anti-imperialista].

Mas a reação negativa vinda de Nova Iorque não desapareceu, apesar dos seus melhores esforços manipuladores.

A vida tornou-se cada vez mais desconfortável para os apoiantes de Delcy após o seu espetáculo em Nova Iorque, enquanto se esforçam por dar saltos académicos e andar em círculos conceptuais para justificar a sua clara e visível subordinação a Trump, o seu encontro com o responsável pelo bombardeamento de Caracas e a frieza com que tratou o seu ex-chefe, a quem deixou a apodrecer numa cela em Nova Iorque. "Uma arma apontada à cabeça obrigou-a a sorrir ao lado de Trump!", ouço-os gritar histericamente.

Mas, para além daqueles que seguem o seu ritmo e fecham os olhos perante a realidade concreta, a postura de Delcy em Nova Iorque, a sua agenda nova-iorquina e o seu sorriso nova-iorquino brilharam perante o povo venezuelano com uma clareza repugnante. A sua mensagem certamente não passou despercebida aqui em casa, e, claro, não foi a de ter uma pistola apontada à cabeça nem a de dar um passo atrás para depois dar dois à frente, como alguns defendem obstinadamente.

Assim, voltando ao ponto de partida: o que aconteceu com o Herr Quisling?, certamente estarás a perguntar-te.

Pois bem, assim que a relação de dependência com Berlim, que o mantinha no poder, se desmoronou, assim que o seu senhor supremo, Hitler, saiu de cena, ele não conseguiu valer-se por si próprio e foi preso pelos seus crimes. Foi julgado e acusado de peculato, homicídio e alta traição na Noruega do pós-guerra, onde foi condenado à morte e executado por um pelotão de fuzilamento em Oslo, a 24 de outubro de 1945:   uma queda em desgraça desastrosa para um político desastroso. Problema resolvido! Uma lição que os Quislings dos dias de hoje fariam bem em ter em conta.

12/Outubro/2026

Ver também:
  • Tribuna Popular, nº 3078
  • [*] Jornalista, venezuelana, evagarciaperiodista@gmail.com

    A versão em inglês encontra-se em mltoday.com/the-venezuela-flex-a-quisling-in-new-york/.

    Este artigo encontra-se em resistir.info

    14/Out/26