A batalha contra a colónia petrolífera de Trump

O confronto na Venezuela está apenas a começar e decorreu apenas o primeiro ato de um cenário aberto.

Claudio Katz [*]

Trump, cartoon de Latuff.

Com o sequestro de Maduro, Trump incorporou duas novidades à brutalidade imperial. Ele explicitou seu propósito de roubar o petróleo e sua pretensão de instaurar um domínio colonial.

O seu argumento absurdo para roubar o petróleo é que esse recurso pertence aos Estados Unidos devido a algum investimento feito no passado. Com esse critério, o Texas, a Califórnia e o Arizona deveriam ser imediatamente devolvidos ao México, mas o magnata é um valentão que não raciocina. Ele proclama uma apropriação que começou com sanções, bloqueios e a confiscação da filial externa Citgo.

Agora, ele promove a expropriação total, para impedir a crescente exportação de petróleo bruto para a China. Exige a dissolução da empresa estatal PDVSA e sua imediata distribuição entre as grandes empresas americanas. Impulsiona essa captura com urgência, porque na Venezuela estão localizadas as maiores reservas do mundo. O expropriador também projeta uma base militar para guardar sua ansiada colónia petrolífera.

FALÁCIAS, PRETEXTOS E FANFARRÕES

O ocupante da Casa Branca anunciou que governará diretamente em Caracas, com um modelo semelhante ao projetado para Gaza. Pretende assumir a direção pessoal de ambos os protetorados com o simples fundamento da coerção. Antecipou essa dominação com atos de pirataria, presença de uma grande armada e operações confessadas pela CIA.

Já começa a se saber que o sequestro de Maduro não foi a operação cirúrgica relatada pelos difusores de Hollywood. Entre os defensores do presidente, houve pelo menos 80 mortos, entre eles 32 militares cubanos. Mais cedo ou mais tarde, saber-se-á quantas baixas teve o lado dos assaltantes.

O pretexto do narcotráfico mal reaparece, desde que Trump perdoou por esse crime um ex-presidente de Honduras condenado. Além disso, costuma coordenar todo tipo de ação com seus aliados narcotraficantes da Colômbia e do Equador, sabendo que a Venezuela não figura como produtora, rota de trânsito ou participante do fornecimento de drogas. Ninguém apresentou indícios de ligações do governo chavista com o extinto Tren de Aragua e tiveram que descartar a acusação de ligações com o mítico cartel de Los Soles.

Essa falta de provas transforma o julgamento de Maduro em Nova Iorque num disparate processual. A demonização mediática foi complementada com a apresentação do presidente venezuelano como um criminoso comum. Mas o início dessa infâmia já colidiu com um líder sóbrio que se declarou «prisioneiro de guerra».

Noutra sequência de suas bravatas desconexas, Trump acusou Maduro de esvaziar as prisões de seu país para enviar assaltantes aos Estados Unidos. Ele usa esse disparate para justificar a caça interna aos imigrantes, afetando em grande medida a própria comunidade de venezuelanos indocumentados.

Num trágico paradoxo do cenário atual, aqueles que mais comemoram a agressão ianque são vítimas diretas do império. Em várias cidades da América Latina, também comemoraram o sequestro de Maduro, sem perceber que o fim do chavismo aumentaria a pressão para retirar-lhes o estatuto de residentes.

A imprensa hegemónica antepõe o adjetivo «ditador» a qualquer menção a Maduro, esquecendo que o seu captor é um golpista impune, que comandou o frustrado assalto à Casa Branca. Trump acaba de consumar, além disso, a fraude presidencial do seu servidor em Honduras e instaurou a chantagem eleitoral, para forçar a vitória nas urnas do seu lacaio Milei. O duplo padrão com Maduro é particularmente escandaloso, quando se apresenta o corrupto genocida Netanyahu como um «democrata» e o criminoso monarca saudita Bin Salman como um «príncipe herdeiro».

HIPOCRISIA, AMEAÇAS E DECLÍNIO

A hipocrisia para demonizar Maduro e exaltar os verdadeiros tiranos perde força neste período de preeminência grosseira do mais forte. Numa era de bastão e Corolário Trump da Doutrina Monroe, qualquer argumento passa para segundo plano. O magnata substituiu os artifícios institucionais do Lawfare pelo uso expeditivo do terrorismo.

É evidente que o sequestro de um mandatário é um ato desse tipo, moldado ao método israelense de capturar ou assassinar adversários políticos, em qualquer parte do mundo. Com o assalto em Caracas, Trump destruiu o pouco que restava do direito internacional baseado em regras. Sem declarar guerra à Venezuela, ele sequestrou o seu presidente.

Com esse ato de arrogância, o criminoso da Casa Branca busca recuperar força interna. Ele espera entrar vitorioso no Congresso, depois de validar a pressão belicista de Marco Rubio, num cenário adverso. Ele está muito afetado pelas denúncias de tráfico de influência no caso Epstein, sofreu severas derrotas eleitorais em vários distritos, enfrentou manifestações massivas contra sua figura (“No Kings”) e arriscou o veto legislativo de seu próprio partido diante do ataque contra a Venezuela. Por isso, ao contrário de Bush I com o Panamá e Bush II com o Iraque, ele evitou essa instância.

Recompensa.

Essa omissão ilustra o desespero de Trump em mostrar algum sucesso de sua política externa, após um ano de contínuos tropeços. Ele dissimulou essa adversidade com sua habitual fanfarronice (“economizamos 50 milhões de dólares em recompensa”), buscando contrapor seu perfil belicoso com a impotência de Biden.

Essa exibição belicosa é uma mensagem ao exterior, para recriar a lenda de um poder invencível. Trump tenta reverter as humilhações dos últimos anos, que reapareceram na comemoração do 50º aniversário da derrota dos ianques no Vietname. Lá, relembrou-se o vexame do Iraque e a derrota do Afeganistão. O magnata espera agora assustar o resto do mundo, para conseguir com tiros o que não consegue com tarifas, protecionismo e ameaças económicas.

Se continuar encorajado, ampliará os seus ataques à Venezuela. Como uma invasão em grande escala é desaconselhada pelos seus assessores (devido ao elevado número de efetivos e baixas), poderia capturar alguma zona petrolífera para balcanizar o país. Já anunciou que tem na mira a Colômbia e o México e exige à Dinamarca a rápida entrega da Gronelândia.

Trump tenta imitar os seus antecessores do início do século XX, que invadiram a América Central, tomaram ilhas do Caribe e bombardearam as costas da Venezuela. Mas logo perceberá que os Estados Unidos já não são o que eram e que, em seu declínio, carecem do apoio económico necessário para realizar aventuras militares bem-sucedidas.

REPROVAÇÃO, ADVERSIDADES E FRACASSOS

Na prática, a erosão de Trump aumenta ao mesmo ritmo que as suas ameaças. Apresentou-se como o homem forte, que conseguiria evitar guerras apenas com a exibição da sua figura e, perante o fracasso dessa postura, recorre à força. Não conseguiu intimidar a Rússia e a China e luta sem qualquer benefício com a Índia. O sequestro de Maduro deslegitima qualquer iniciativa sua e possibilita eventuais ações do mesmo tipo por parte de seus rivais.

Sua operação em Caracas já gerou rejeições na ONU e um maior distanciamento com a Europa. Ele nem mesmo conseguiu o apoio da extrema direita trumpista do Velho Continente. Com exceção de seus lacaios irrelevantes da América do Sul, a maior parte do mundo condenou sua agressão.

A Rússia e a China foram contundentes nessa reprovação e exigiram a reintegração de Maduro ao seu cargo. Muitos analistas interpretam erroneamente que predomina uma cumplicidade dessas potências com o seu par norte-americano, através de uma divisão tripartida do planeta. Mas omitem que o Pentágono corroeu qualquer possibilidade dessa coexistência, através da agressão da OTAN na Ucrânia e do cerco naval à China.

O ataque à Venezuela não é um gesto de recuo para a própria vizinhança, mas uma mensagem de domínio regional para escalar o confronto global. A China e a Rússia conhecem essa ameaça e aumentam a defesa do seu próprio ambiente.

Até agora, o sequestro de Maduro tem sido um êxito militar dos Estados Unidos sem retornos políticos. Assemelha-se mais às provocações fracassadas de Israel contra o Irão do que à esmagadora vitória sobre a Síria. No primeiro caso, o assassinato de figuras de alto nível não derrubou o governo e, no segundo, conseguiu essa queda, após uma série sistemática de bombardeios e devastações.

Na Venezuela, o processo bolivariano continua de pé. Trump não tem o controlo político, militar ou territorial desse país. O núcleo do poder estatal chavista persiste e essa coesão continua sendo o principal obstáculo à desestabilização externa. Se a captura de Maduro pretendia induzir uma rebelião militar, essa revolta não se consumou. Também não desencadeou uma ação política equivalente. Não houve “guarimbas” [tumultos violentos] (como em 2014 ou 2017) e as únicas mobilizações foram protagonizadas pelo chavismo.

No lado oposto, reina um imobilismo congruente com o enfraquecimento da direita. As comemorações no exterior não têm contrapartida interna e, após o fracasso de Guaidó e González Urrutia, Trump carece de uma força vassala para sustentar o seu colonialismo. Por isso, ele ignorou Corina Machado, reforçando o patetismo de uma Prémio Nobel da Paz que elogia a guerra e pondera a invasão do seu país.

A expectativa de uma dominação americana positiva é uma ilusão predominante entre a maioria dos emigrantes. Nas suas fantasias, identificam o protetorado ianque com a transformação da Venezuela num novo Estado da União que Washington governa. Ficaram tão cegos pela propaganda americana que nem sequer registam a expropriação que o seu tutor está a preparar. Não ouvem Trump quando afirma que o controlo da Venezuela «não nos custará nada», porque será um negócio lucrativo «reembolsado com petróleo».

O ROTEIRO IMPERIAL DA TRAIÇÃO

O confronto na Venezuela está apenas a começar e decorreu apenas o primeiro ato de um cenário aberto. Essa indecisão é desconhecida por aqueles que já diagnosticam uma vitória imperialista, baseada na traição interna do chavismo. Repetem Marco Rubio, que se gaba de ter conseguido a entrega de Maduro por seus pares do exército. Embora não forneça nenhum dado sobre essa vilania, sua tese é reproduzida e apresentada como uma explicação para a captura fulminante do presidente.

Mas essas potenciais cumplicidades não provam a existência de uma traição de grande magnitude no alto comando. É uma possibilidade, mas não há indícios que ratifiquem a eventualidade que vários pensadores de esquerda consideram certa.

A esta altura, deveria ser evidente que qualquer afirmação de Trump (ou do seu entorno) não tem credibilidade alguma. Os fatos sugerem um desfecho diferente. Sabe-se que houve muitos mortos em um confronto com o aparato militar mais poderoso e sofisticado do planeta.

Como ninguém oferece provas de traição no plano militar, circulam teses de seu equivalente político. Afirma-se que Delcy Rodríguez lidera um “governo de transição”, afetado pela paralisia e pelo vácuo de poder. A nova presidente é apresentada como uma líder marginal, totalmente divorciada da base chavista.

Essa desqualificação de um governo submetido ao ataque militar dos Estados Unidos ilustra mais a posição política de seus proponentes do que o cenário a ser esclarecido. Nos poucos dias que se passaram desde o sequestro, Delcy ratificou sua lealdade a Maduro, exigindo sua libertação e reintegração ao cargo. Essa atitude é coerente com sua trajetória.

Especula-se que ela esteja a negociar com Trump algum compromisso de venda de petróleo. Mas mesmo essa opção poderia ser interpretada como um recurso para lidar com a adversidade. Durante décadas, o Irão aceitou as inspeções ocidentais de sua atividade atómica, reforçando ao mesmo tempo sua defesa militar. O desfecho que os países perseguidos enfrentam não se resolve em cinco minutos.

Os receptores da traição sugerem a existência de uma cadeia de pactos para enterrar Maduro. Mas se essa conspiração existe, até agora não alcançou os frutos esperados. Há décadas, a CIA, a DEA, o Pentágono e a Casa Branca impulsionam campanhas para quebrar o processo bolivariano e destruir a aliança cívico-militar que o sustenta.

Nenhuma dessas operações psicológicas, midiáticas e monetárias deveria ser reproduzida por analistas sérios e muito menos se eles se consideram de esquerda. As ações imperiais são obviamente destinadas a semear a desconfiança popular, fragmentar as lideranças anti-imperialistas e corroer a moral da militância.

Uma eventual traição constitui, em todo caso, um tema secundário, diante da prioridade de sustentar a resistência. Já haverá respostas para as perguntas sobre a falha da defesa antiaérea ou os erros na proteção de Maduro. Em vez de distrair os temas do momento com essas perguntas, cabe concentrar as acusações no inimigo ianque.

É preciso pedir prestação de contas à Casa Branca e não a Miraflores e, em vez de contestar a insuficiência do dispositivo defensivo, deve-se enaltecer a memória dos companheiros abatidos na operação terrorista. É mais válido honrar esses militares do que especular com o roteiro de Marco Rubio e é mais encorajador observar como Delcy enfrenta a tempestade do que sentenciar uma derrota que não ocorreu.

Os intérpretes da traição dão como certo que a batalha da Venezuela está perdida. Por isso, eles se aprofundam nos detalhes de uma regressão, consumada, em sua opinião, com deslealdades de todos os tipos. Eles também determinam a inexistência de mobilizações populares, quando essas manifestações começam a surgir.

Na melhor das hipóteses, descrevem um drama invariavelmente negativo, evitando tomar partido. Denunciam Trump e, ao mesmo tempo, atacam Maduro, sem perceber a inconsistência dessa dualidade. Essa postura permite-lhes justificar a sua própria inação, enquanto se congratulam pelo fracasso do chavismo que tantas vezes previram e não conseguiram confirmar. No meio da batalha, convém arquivar esses presságios, lembrar quem é o inimigo e reforçar a luta para derrotá-lo.

URGÊNCIAS, AGENDA E DILEMAS

Frear os ataques à Venezuela é a prioridade do momento. É imprescindível conter Trump, porque ele pode repetir a captura de outros mandatários, para se apropriar dos recursos desses países. Hoje é Maduro e amanhã será o presidente que desagrada a Casa Branca. As ameaças à Colômbia, ao México e à Dinamarca não são mera retórica.

Quando Hitler invadiu a Áustria em 1938 ou a Polónia em 1939, o cataclismo já era inevitável. Mas alguns anos antes, uma resposta decidida ao seu expansionismo poderia tê-lo contido. Trump enuncia sem dissimulação os seus propósitos imperiais e a Venezuela é um caso exemplar. É possível detê-lo, se se agir a tempo.

Esse freio deve ser imposto na América Latina, porque é a área de agressão imediata do magnata. Trump começou a implementar operações bélicas convencionais, para complementar as guerras híbridas de última geração. O estatuto da região como zona de paz pode extinguir-se num prazo muito curto. O México, a Colômbia e o Brasil levantaram a voz, sublinhando a violação do direito internacional, mas cabe exigir claramente a libertação de Maduro e a sua reintegração na presidência.

Essa exigência confronta-se com a pressão mediática para diluir o tema nos próximos cenários eleitorais da região.

Mas está provado que a contemporização do adversário encoraja Trump e o leva a intensificar as agressões. Para neutralizar a sua investida, é preciso responder com a mesma contundência.

Na Argentina, a defesa da Venezuela é um eixo central da luta contra Milei. O bajulador de Trump comemora o sequestro de Maduro e reforça o rearmamento do exército, com o objetivo de algum ato de servilismo militar. Ele conta com o apoio da direita convencional, dos meios de comunicação hegemónicos e das classes dominantes.

No polo oposto, estão os organizadores das marchas de protesto em frente à embaixada dos Estados Unidos. Um amplo espectro de grupos políticos, sindicais e sociais da esquerda e do peronismo convergiram para essa convocatória. Na segunda manifestação, foi alcançado um nível de participação muito superior ao do primeiro comício.

A Venezuela é a batalha do momento. Lá está em jogo o futuro de toda a região. Se Trump conseguir o seu objetivo, imporá na América Latina um retrocesso histórico de todas as aspirações populares. Se, pelo contrário, for derrotado, ficará aberto o caminho para conquistas de todos os tipos. Nessa luta se decide o futuro da região.

Trump expressa explicitamente o seu objetivo de roubar o petróleo e instaurar um domínio colonial, porque os pretextos do narcotráfico e de um regime tirânico são insustentáveis. Recorre a um ato de terrorismo para lidar com a deterioração interna e os fracassos no exterior. Em vez de se retirar para o seu próprio bairro, pretende escalar a confrontação global. Conseguiu um sucesso militar sem retornos políticos. É possível derrotá-lo se se agir a tempo, sem repetir um roteiro de traição, que enfraquece a resistência.

09/Janeiro/2026

[*] Economista, argentino, investigador do CONICET, professor da UBA, membro do EDI.

O original encontra-se em katz.lahaine.org/b2-img/LABATALLACONTRALACOLONIAPETROLERADETRUMP.pdf

Este artigo encontra-se em resistir.info

10/Jan/26

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