A 10 de agosto, a Venezuela registou um recorde histórico de oito anos de potência elétrica tomada: 15 625 MW.
Não sou engenheira eletrotécnica, mas com uma capacidade de geração instalada de 36 000 MW que funciona só a cerca de 40% (13 000-14 000 MW), há aqui um evidente curto-circuito matemático [NR].
Este défice desencadeou, mais uma vez, uma avalanche de cortes de eletricidade e um racionamento paralisante, mesmo na outrora protegida "cidade-bolha" de Caracas, o que, embora previsível, continua a ser indesejável. Mas o contexto dos cortes é diferente desta vez, em comparação com os racionamentos anteriores.
A Venezuela tem sofrido escassez cíclica de eletricidade, frequente e constante, desde aproximadamente 2008 – incluindo um apagão de uma semana em 2019. Até agora, a responsabilidade recaía sobre uma rede elétrica nacionalizada, opaca e militarizada, que servia de pára-raios para o sentimento político antichavista.
Hoje em dia, os cortes ocorrem enquanto o grande capital estrangeiro percorre as ruas, trazendo propostas de investimento para "modernizar" as centrais de produção e as redes de transmissão, a pedido do Governo de Delcy.
Ocorrem também apenas alguns meses depois de a Assembleia Nacional, sob a tutela dos EUA, ter aprovado uma reforma da Lei do Sistema e Serviço Elétrico (primeira discussão), que põe fim, de facto, ao monopólio estatal e abre a rede ao grande capital estrangeiro, que lambe os beiços ansioso por cravar as suas presas de alta tensão no setor.
Se juntarmos tudo isto, deparamo-nos com uma "flexibilidade" eletrostática: a solução proposta para um problema que há 18 anos permanece sem resolução e que não consiste em utilizar o vasto talento e a mão-de-obra nacional da Venezuela, nem em encontrar uma solução local e soberana para o défice, mas sim em privatizar de forma expressa, dar marcha atrás a 19 anos da nacionalização liderada por Chávez e colocar a empresa norte-americana General Electric como a salvadora dos apagões venezuelanos, tudo isto sem uma resistência popular significativa. MAGA-zap!
O problema
Em poucas palavras, não se gera nem se transmite eletricidade suficiente para cobrir a limitada procura per capita da Venezuela.
Entre 2004 e 2008, o país registou um importante crescimento económico sob o mandato de Chávez, que exigia energia, mas a rede elétrica ficou — e continua a ficar — para trás e funcionou durante anos como se estivesse numa corda bamba, onde bastava uma rajada de vento para a fazer cair em picada.
Desde então, temos ouvido inúmeras "explicações" sobre a fragilidade da rede, algumas mais plausíveis do que outras.
Uma sucessão interminável de ridículos ministros da Energia — cada um menos credível do que o anterior — atribuiu a culpa pelos curtos-circuitos a incêndios florestais que deixavam inoperacionais as centrais elétricas, à sabotagem terrorista da extrema-direita, a ataques eletromagnéticos, aos ratos e até às iguanas (sim, iguanas!): qualquer coisa para salvar as aparências!
Mas uma análise mais honesta, isenta das dinâmicas próprias da luta para se manter no cargo, traz à luz uma mistura de causas difíceis de enfrentar.
A produção de eletricidade na Venezuela depende sobretudo da energia hidroelétrica (64%), principalmente da barragem de Guri, no leste (10 000 MW de capacidade instalada), enquanto os esforços para diversificar deram poucos resultados. Mais de 90 % da produção térmica (21 000 MW de capacidade instalada) está fora de serviço (apenas estão disponíveis 2 700 MV) e outras fontes renováveis nunca descolaram, apesar das excelentes condições. Por isso, as condições meteorológicas instáveis, incluindo o próximo fenómeno de El Niño — atualmente a "explicação por excelência" para os cortes —, têm um impacto desproporcional.
O complexo hidroelétrico de Guri, no leste da Venezuela
A isto acresce o facto de os líderes sindicais no terreno terem denunciado frequentemente a crescente má gestão, bem como a falta de investimento e manutenção por parte da empresa estatal CORPOELEC, o que provocou avarias e deterioração das infraestruturas. Os políticos de carreira ou os militares que ocupam cargos técnicos na empresa estatal não fizeram mais do que agravar a má gestão.
A corrupção também deu sinais da sua existência, desde o desvio de fundos destinados à diversificação da produção de energia (parques eólicos ou solares inacabados) até cortes na manutenção para financiar estilos de vida luxuosos.
As sanções lideradas pelos EUA também amarraram as mãos da economia venezuelana, muito dependente das importações, entre 2017 e 2025, limitando o acesso a peças de reposição e agravando um problema estrutural pré-existente.
A crise cíclica do capitalismo também foi o fator desencadeante: não se fez o suficiente para superar estes problemas estruturais, e em grande medida, previsíveis, quando as receitas petrolíferas atingiam níveis astronómicos, enquanto os políticos invocavam a desculpa fácil, para salvar as aparências, de que "não há orçamento" quando os preços das matérias-primas atingiram o fundo do poço ou as sanções começaram a fazer-se sentir.
O povo venezuelano percebe estas complexidades — muitas vezes debate-as à luz das velas —, e muitos extrapolam fábulas macropolíticas como "empresas geridas pelo Estado não funcionam", "só funciona a propriedade privada" e "socialismo = corrupção".
Eletrodomésticos avariados e trabalhos de casa por fazer
Embora as soluções populares (como carregar o telemóvel com a bateria do carro ou cozinhar com lenha) e a normalização dos cortes de energia (após tantos anos) tenham atenuado o seu impacto, todos os venezuelanos já viram algum fusível mental queimar por causa deles em algum momento.
Talvez seja difícil para os leitores compreenderem verdadeiramente a frustração, a impotência e a raiva que sentimos quando a luz se vai, mais uma vez. Alguns tentam gerir um lar, outros um negócio, outros estudam e avançam na vida, mas, nesse momento, as emoções tomam o controlo; os processos de raciocínio lógico sobre as causas estruturais e quem é o responsável passam para segundo plano, enquanto o desespero por encontrar uma solução — qualquer solução — se impõe.
Muitas vezes, ignora-se o impacto humano dos cortes de energia — que afetam de forma desproporcional as comunidades trabalhadoras, em vez dos ricos que possuem geradores. Mas agora é um fenómeno tão generalizado que se torna impossível descartá-lo como "retórica política" utilizada para "agitar nas redes sociais", como se fazia antes.
Quantas famílias de baixos rendimentos ficaram sem frigorífico nem máquina de lavar roupa depois de estes se terem avariado devido aos picos de tensão (73%, segundo um inquérito da OVSP de 2022)? Quantas crianças tiveram de dizer aos seus professores que não podiam fazer os trabalhos de casa porque não havia luz para ler o livro? Quantas casas ficaram sem água depois de os sistemas de bombagem terem ardido? Quantos doentes foram obrigados a esperar por receio de que as intervenções cirúrgicas não fossem concluídas antes do próximo corte de energia? E quantos condutores sofreram acidentes devido a semáforos apagados? Os exemplos são múltiplos, devastadores e, acima de tudo, humanos.
Complexidades macroeconómicas
Mas há outro problema.
O desenvolvimento económico é impossível sem um fornecimento de eletricidade regular, constante e estável. E sem desenvolvimento económico, temos estagnação económica e, consequentemente, contração.
Desde o século XIX ficou clara a importância da energia para fazer girar as engrenagens e as rodas da economia. Basta ver a ênfase que Marx colocou em exemplos relacionados com a energia do vapor ou do carvão em O Capital para reforçar a importância económica da energia.
Os cortes de energia na Venezuela impõem uma espécie de "algemas à luz das velas" ao seu desenvolvimento económico. A Confederação dos Industriais da Venezuela (Conindustria) publicou recentemente dados que sugerem que, durante o primeiro trimestre de 2026, as empresas sofreram, em média, 214 horas sem fornecimento de energia elétrica das 488 horas úteis do período em questão, com aproximadamente cinco cortes de energia por semana.
Proprietários de pequenos comércios não conseguem cobrar aos clientes, uma vez que os seus leitores de cartões não funcionam e não conseguem aceder aos inventários eletrónicos. Os agricultores vêem as suas culturas a secarem devido à falha dos sistemas de rega elétricos. Os serviços públicos fecham devido à falha dos sistemas informáticos internos. Os sistemas bancários registam erros e as redes telefónicas ficam sem ligação. Os voos sofrem atrasos, não é possível reabastecer de combustível e até as portas automáticas e os elevadores deixam de funcionar nos centros comerciais. Tudo fica paralisado e, quando tudo fica paralisado, a economia também fica.
Uma solução impulsionada pelo MAGA?
Assegurar um fornecimento de eletricidade estável e abundante em todo o país foi identificado por Delcy (e Donald) como uma das condições básicas necessárias para atrair investimento estrangeiro.
Nenhuma empresa investiria milhões num país onde o fornecimento de eletricidade limita a capacidade produtiva a 56% de um dia de trabalho (segundo dados da Conindustria).
Assim, desde que agarrou o poder a 3 de janeiro, Delcy tem mantido reuniões de alto nível com representantes da empresa norte-americana General Electric, assinando acordos para instalar 1 000 MV nos dois primeiros anos e mais 4 000 MV nos dois anos seguintes. A GE também chutou para fora empresas chinesas encarregadas da manutenção de Guri.
Da mesma forma, a empresa alemã Siemens "inspecionou" os principais centros de produção de energia da Venezuela, como as barragens de Guri, Caruachi e Maracagua. Os relatórios iniciais sugeriam que ambas as empresas teriam de adiantar entre 15 000 e 40 000 milhões de dólares para restabelecer o fornecimento de eletricidade. Mas dado como agora é Trump quem controla as contas do petróleo venezuelano, isto não deveria ser um problema.
Em menor medida, Delcy também procurou soluções energéticas mais além. Em agosto, reuniu-se com a Câmara Africana de Energia, assinou um acordo com a empresa russa INSA para acrescentar 2 400 MV à rede num prazo ainda a determinar e assinou um acordo com a argentina IMPSA para retomar as obras da barragem hidroelétrica de Tocoma (concluída em 87%, mas paralisada desde 2014), que deverá proporcionar 160 MW num prazo de 90 dias. Não recorreu aos trabalhadores do setor elétrico da Venezuela em busca de soluções.
As autoridades norte-americanas, incluindo o encarregado de negócios John Barrett, realizaram "inspeções técnicas" em Guri, considerado pelos anteriores governos venezuelanos um local de interesse estratégico nacional ao qual só se pode aceder com autorização militar de alto nível, enquanto a embaixada dos EUA declarou publicamente que "o seu" objetivo é adicionar 2 640 MV à rede elétrica da Venezuela a curto prazo.
Delcy não tardou a qualificar a chegada de empresas estrangeiras como um "passo histórico" para a Venezuela, elogiando a normalização das relações com os EUA que facilitou esses acordos.
A sua estratégia é clara: messias importados com fatos engravatados, Make America (e o seu 51.º estado) Great Again, obrigada, senhor Trump, e… bang! As luzes voltam a acender-se e o dinheiro pode fluir.
Tristemente, se o conseguir, encontrará poucos venezuelanos a interporem-se no seu caminho. Poderá até melhorar os seus índices de popularidade, que atualmente são péssimos.
Tantos anos no mesmo circuito fechado, tantos frigoríficos queimados, caldeiras rebentadas e televisores chamuscados prepararam o caminho para uma mudança na consciência coletiva.
Vastas camadas de pessoas exaustas (excluindo esta que vos escreve), cansadas de lutar, estão agora tristemente dispostas a pôr de lado as suas objeções à propriedade privada e ao grande capital estrangeiro, e a aceitar soluções antissoberanas que revertem décadas de avanços populares e nos leiloam ao grande capital nas próximas décadas. Desde que as nossas malditas luzes permaneçam acesas.