Chavez defende a organização popular
e a união com as forças armadas
Considerando a organização popular fundamental para garantir os
governos democráticos, Hugo Chávez defende a
integração da América Latina e propõe a
criação de um fundo financeiro, de uma companhia
petrolífera e rede de TV.
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, recebeu a reportagem do
Brasil de Fato
em uma área livre anexa à sua sala de despachos
onde mandou construir um quiosque de palha que lembra a casa onde nasceu, para
manter vivas as raízes camponesas.
Seus traços de mistura afro-indígena sobrepõem-se ao seu
cansaço evidente ao fim de um dia de trabalho e debates com
internacionalistas de todos os continentes, que estavam em Caracas para o
II Encontro Mundial de Solidariedade com a Revolução Bolivariana
.
Seu interesse pelo Brasil não disfarça o respeito apaixonado pelo
pernambucano Abreu de Lima, general que lutou com Bolívar até o
seu último respiro. Por que não temos alguns desses bispos
brasileiros por aqui?, perguntou, ao ver, na edição 58 do
Brasil de Fato
, a foto de dom José Maria Libório Saracchio
beijando os pés de um sem-terrinha na cerimônia do lava-pés
da Semana Santa. Não há formalismos, a roupa é simples,
mistura com naturalidade complexas análises políticas e versos de
uma canção revolucionária do cantor venezuelano Alí
Primera. Parece ver em cada brasileiro um Abreu de Lima...
COMO EVITAR OS HERODES
Brasil de Fato
Como evitar golpes como os que derrubaram João Goulart, no
Brasil, e Salvador Allende, no Chile? Como evitar outro 11 de abril na
Venezuela e fazer que os 13 de abril sejam permanentes na América Latina?
Hugo Chávez Como evitar que as oligarquias, impulsionadas e
apoiadas pelo
império, calem os processos de mudanças, cortando as
esperanças? Como evitar, aqui nestas terras, que se cumpra a
cínica expressão de Winston Churchill sobre a União
Soviética: É preciso cortar a cabeça do bebê
antes que cresça? Como evitar que os Herodes de hoje cumpram a
meta perversa de cortar a cabeça do bebê da esperança? A
experiência da Venezuela pode contribuir para evitar os golpes fascistas
que derrotam governos democráticos e legítimos, sobretudo
progressistas, com projetos de mudanças, como o de Allende ou de
Goulart. No nosso caso, o golpe foi derrotado em 24 horas, pois o povo se
colocou de pé quase de imediato. Um elemento fundamental é a
organização popular. Eu a colocaria em primeiro lugar! Essas
massas de povo que despertaram na América Latina, na Venezuela, no
Brasil, na Argentina, no Equador, precisam estar organizadas. É
necessário que os dirigentes, os líderes naturais, os
líderes políticos, os líderes sociais sejam uma
direção política consciente, que articulem um plano e
ponham em marcha, no seio das massas, para elevar progressivamente o
nível de consciência e de organização. Simon
Rodrigues dizia: A força material está na massa e a
força moral, no movimento da massa. Eu, humildemente, na
prisão, lendo Simon Rodrigues nas madrugadas, me atrevi a
acrescentar uma terceira consigna, pois me parece que faltava a força
material que estava na massa e a força moral que estava no movimento. A
força transformadora está na massa consciente e organizada, em
movimento acelerado e permanente. Muitos movimentos de massa fracassaram por
falta de uma direção política, uma consciência, uma
ideologia. Não tinham um aparelho, chamemos isso de aparelho ou de
partido.
BF Às vezes as rebeliões vêm com um aiatolá...
Chávez Sim, no Irã pode ser que sim. Às vezes
são
até subjetivos os aparelhos, mas vão se transformando em
aparelhos concretos, em correntes concretas, enfim, em
organização, consciência e ideologia, programa e
direção, de forma tal que tenhamos uma massa organizada e
consciente em movimento. Com uma direção determinada. E acredito
que esse é o fator mais importante e foi o que salvou o processo
venezuelano. Salvou inclusive a nossa vida e nos seguirá salvando das
ameaças.
BF Qual é o papel dos militares nos processos de
transformação? Qual a importância da unidade
cívico-militar?
Chávez Aqui o povo e as forças armadas voltaram a se
reencontrar. Em
1989, em Caracas, vi quando os soldados foram enviados por Carlos Andrés
Pérez para massacrar o povo que se levantou no Caracazo! Descarregaram a
fuzilaria sobre os bairros pobres. Foram milhares de mortos. Falam em
trezentos, mas foram milhares de corpos lançados em fossas comuns, que
nunca apareceram. Exatamente no dia em que se completavam dez anos daquela
tragédia, 25 dias depois de termos assumido o governo, começamos
o Plano Bolívar 2000. Nesse dia, os militares saíram
de todos os quartéis do país, mas já não iam com a
metralhadora da morte e sim com armas carregadas de vida, para fazer trabalho
humanitário! Era uma ação meramente conjuntural, mas era
uma resposta de um governo que começava com grandes dificuldades
econômicas, uma pesada dívida externa, a pobreza infinita que
tivemos aqui durante todo esse tempo, mas com um gesto: as Forças
Armadas saem para ajudar seu povo e desde então não pararam mais
e não pararão. Agora estamos organizando os reservistas do
Exército, todos os que passaram pelas fileiras militares, junto com o
povo pobre. Já temos 80 mil inscritos e aprovamos recursos
extraordinários para uniformizá-los, para armá-los e para
treiná-los.
MALDITO SEJA O SOLDADO QUE APONTE AS ARMAS CONTRA SEU POVO!
BF
Quais os antecedentes históricos dessa unidade
cívico-militar?
Chávez
99 % dos militares da Venezuela vêm dos bairros pobres, dos
campos. É um povo das classes baixas, nem das classes médias. Na
melhor das hipóteses, ascendemos socialmente no Exército e
chegamos a ser um pouco classe média. Mas eu nasci em uma casa de palha.
Um militar venezuelano que vem da classe alta é um extraterrestre, uma
coisa estranha. Na tropa, os suboficiais também são de profunda
extração popular. Porém, sabemos que isso não
é garantia suficiente porque temos visto na América Latina, como
aqui, militares arremetendo contra seu próprio povo. Na verdade, o
processo revolucionário bolivariano resgatou as raízes militares
de nossas Forças Armadas. Eu repeti um milhão de vezes aos
militares venezuelanos: quando Simon Bolívar estava morrendo,
acompanhado de Abreu de Lima o grande revolucionário
pernambucano, símbolo da integração de nossos povos
afirmou em sua última proclamação que os militares
devem empunhar suas espadas para defender as garantias sociais!. Anos
antes, dissera: Maldito seja o soldado que aponte as armas contra seu
povo!. Isso está entranhado profundamente nas Forças
Armadas e, por isso, no golpe de 11 de abril, a elite governante de Washington,
a CIA, a elite venezuelana com todos os seus recursos e analistas, a elite
petroleira que tinha um governo paralelo, todos se equivocaram bastante.
Pensaram que o povo venezuelano ficaria de braços cruzados diante do
golpe fascista.
POVO UNIDO COM AS FORÇAS ARMADAS
BF
Como foi essa resistência?
Chávez
Dia 13 de abril este palácio foi rodeado pelas massas, as
cidades foram tomadas e a população começou a sair para as
ruas. Como diz a canção: E desceram, e desceram e
desceram (canção revolucionária de Ali Primera).
Primeiro, um pequeno grupo, depois uma avalanche com bandeiras e com a
Constituição, alguns com fuzis, outros com facões, uns
cantando e outros chorando, e aí se levanta um povo campesino, obreiro e
desempregado, os vendedores ambulantes, os jovens estudantes. Um artigo
escrito por um golpista conta como o ministro, o cardeal e os donos dos meios
de comunicação estavam numa reunião, aqui no
palácio, e alguém avisa que têm de evacuar o palácio
porque estavam cercados! Eles saíram correndo pela porta de
trás. Alguns não tiveram nem tempo de sair porque as tropas e o
povo tomaram o palácio e os telhados, as portas. Pedro Carmona fugiu
pelos fundos junto com os donos dos meios de comunicação, o
cardeal fugiu pelo outro lado. Assim, nesse dia começou a evidenciar-se
o resultado de todo o trabalho, do empenho, da fusão civil-militar.
Foram as horas em que vivi no fio da navalha. Porque os golpistas já
tinham dado a ordem da minha morte. Estava consciente de que essa gente que
havia poupado minha vida em 4 de fevereiro de 1992 não cometeria o mesmo
erro de novo. Mas a fusão civil-militar começou a brotar por
todas partes e a consciência dos jovens militares salvou minha vida e deu
tempo para que a pressão popular se unisse inclusive com chefes
militares. O general Garcia Carneiro, que era ministro da Defesa, estava preso
pelos golpistas. Mas com a ajuda dos soldados escapou pela janela da casa de
banho do Forte Tiúna e foi para a portaria onde as massas populares se
concentravam, buscando aliança com os militares. Carneiro pegou um
megafone e incentivou o povo à luta. Ouviram-se canções
revolucionárias: No basta rezar... e todos cantaram, a tropa
e o povo! Aí está uma fórmula, um povo unido, organizado,
consciente, capaz de mobilizar-se e veja que se mobilizou sem ser convocado! Os
meios de comunicação alternativos tiveram papel
importantíssimo e são a outra parte da fórmula para
impulsionar a rebelião. Assim como disse Che Guevara, criar um,
dois, três Vietnãs na América Latina, temos que
impulsionar uma, duas, três mil emissoras de televisões e
rádios comunitárias na América Latina, que convoquem e
orientem o povo.
BF
A situação política na Colômbia agrava-se
com a moção aprovada pelo senado colombiano que pede a
aplicação da Carta da OEA contra a Venezuela e a
revolução bolivariana. O que o senhor acha desse quadro?
Chávez
Estamos atentos aos sinais que estão chegando, seja pelo lado
esquerdo, seja pela fronteira ocidental. Há pouco, em visita à
Guiana, cheguei a uma conclusão: lá pelos anos 70,
começaram a surgir nos quartéis venezuelanos congressistas e
livros falando da necessidade de a Venezuela resgatar o território de
Esequibo. Atiçaram nos militares venezuelanos um sentimento
antiguianense, e agora sei por quê. Na época, a Guiana tinha um
governo progressista que permitiu o uso de suas instalações por
tropas cubanas que se deslocavam, indo e vindo de Angola. Apresentavam a Guiana
como uma ameaça, como a nova Cuba da América do Sul. Claro que
era um plano da Casa Branca, do Pentágono e do Comando Sul do
Exército dos Estados Unidos, atiçando a Venezuela contra a
Guiana. O mesmo aconteceu no Iraque, quando triunfou a revolução
do aiatolá Khomeini e os EUA decidem armar Sadam Hussein contra o
Irã, gerando a guerra que durou dez anos. Queriam destruir a
revolução iraniana. Não conseguiram, mas fizeram muitos
danos, frearam o avanço social. Agora atiçam a oligarquia
colombiana contra a Venezuela. A presença militar dos EUA na
Colômbia, o Plano Colômbia, que é a máscara usada no
suposto combate ao narcotráfico, na verdade é a via de
penetração do império na região. Solicitam ao
Congresso dos EUA duplicar os recursos e o Exército para a
Colômbia. Criaram comandos militares e de inteligência perto da
nossa fronteira. Os paramilitares mataram, nos últimos dois anos, mais
de 60 líderes agrários. Há dois meses houve uma batalha
entre um batalhão da Venezuela e paramilitares que penetraram na
fronteira. Os paramilitares colombianos são subordinados ao
Pentágono. No fim, os militares colombianos fizeram um comunicado
dizendo que militares venezuelanos penetraram na Colômbia para atacar o
exército colombiano e assim evitar que eles capturassem um líder
da guerrilha. A verdade é: eles invadiram a fronteira venezuelana e
temos imagens mostrando isso claramente.
BF
Quais são os planos do imperialismo para a região?
Chávez
Há pouco tempo o chefe do Comando Sul do Exército dos EUA
declarou que Hugo Chávez e seu populismo radical eram uma
ameaça à paz. Antes, o governo espanhol de José
María Aznar ofereceu à Colômbia 40 tanques pesados de
guerra. Aznar é um subordinado de Washington e atuou no golpe de Estado
contra nós. A ajuda militar à Colômbia fornece
helicópteros aos paramilitares. Quando alguns senadores colombianos
pedem a aplicação da Carta da OEA e dizem que Chávez
é um rei, um ditador, significa uma conspiração
política na Colômbia, em Washington, e uma
conspiração militar para atacar a Venezuela. Nós estamos
nos preparando para qualquer coisa e oxalá a oligarquia colombiana
não leve adiante esses planos porque também vai fracassar, assim
como o golpe de 11 de abril ou a paralização petroleira.
BF
As várias datas rebeldes da Nossa América,
como o Bogotazo, o 26 de julho em Cuba, o 4 de fevereiro aqui mostram uma
história de lutas que, mais recentemente, se transforma em levantes
contra o neoliberalismo. O que significa tudo isso em termos de possibilidade
histórica de uma luta comum contra o neoliberalismo?
Chávez
A Nossa América, como diz o poeta José Martí, tem
ciclos de lutas. A primeira onda de rebeliões foi a da incrível
resistência indígena. Uma enorme resistência apagada pelos
impérios, como aconteceu no Brasil. Depois vieram novas ondas rebeldes
ligadas às circunstâncias mundiais, produtos da guerra de
independência dos EUA, da revolução francesa, do desgaste
do império espanhol e do florescimento, neste continente, de um setor
criollo (nativo) consciente formador de uma massa crítica de
pensadores, tomando consciência desta terra e deste povo, e que se
atreveram a criar uma força para, em1810, declarar a
independência. Aproveitaram uma conjuntura mas vinham amadurecendo, com a
conspiração dos negros e indígenas. Depois, quase todo o
continente se apagou. E então veio a onda de governos nacionalistas como
o de Juan Domingo Perón (Argentina), ou de Getúlio Vargas
(Brasil), ou de Lázaro Cárdenas (México), ou de governos
militares progressistas como o de Omar Torrijos (Panamá) e de Juan
Veasco Alvarado (Peru). Uma irrupção de governos impulsionados
pela revolução cubana. Uma onda de insurreições
variadas, militares e progressistas, que logo se apagou e abriu caminho para o
neoliberalismo. Sobretudo nos anos 90, após a queda soviética que
foi um golpe moral e político. O neoliberalismo penetra fundo e quase
apaga a presença dos movimentos alternativos. Mas agora estamos em nova
onda rebelde e de avanço nas lutas das massas. E mesmo dentro do monstro
há um tremendo movimento antiglobalização, movimentos
antiguerra, milhões de pessoas protestando contra a invasão no
Iraque. É uma onda crescente que indica caminhos, traz esperanças.
BF Qual o papel dos líderes populares nesse cenário?
Chávez Todos os que assumimos circunstancialmente um papel de
liderança, de direção, em qualquer nível, seja nas
frentes políticas, nos movimentos sociais ou na batalha econômica,
todos nós que temos consciência dessa situação,
temos uma grande responsabilidade neste momento. O desafio é dar
à massa uma liderança organizativa, orgânica, dar um
nível de consciência e ideologia capaz de enamorar, apaixonar o
povo, de potencializar as lutas, para que não se perca essa nova onda
rebelde. Estamos diante de um grande caminho e espero que os líderes que
estão emergindo, na América Latina sobretudo, estejam à
altura desses acontecimentos, para dar forma concreta e transformar esses
estados de transição que atravessamos na região. O modelo
neoliberal imposto no continente está desmoronando. O capitalismo
neoliberal, a democracia burguesa já não tem moral nem
força. A água está borbulhando na panela; só ferve
aos 100 graus Celsius, mas já borbulha! O caminho agora é saber o
que fazer com essa energia popular, moral, intelectual que está
brotando, como concentrá-la e conseguir a força
necessária, a temperatura de 100 graus, para ter êxito e criar um
projeto popular, como estamos fazendo na Venezuela. Uma democracia popular,
participativa, protagonista e um modelo econômico alternativo, social,
que sirva para atender as necessidades fundamentais de todos e não para
o enriquecimento de uma minoria. Se em toda a América do Sul e no Caribe
conseguirmos coordenar forças, juntar lideranças, poderemos,
depois de 500 anos, ter algum êxito e avançar! O que conquistarmos
até 2010 na Nossa América definirá o futuro. Estamos na
primeira etapa, mas se fracassarmos agora tudo se perderá e
seguirão imperando as mesmas forças dominantes. Se abrirmos
espaço para a construção de um projeto maior de
transformação deste continente, isso pode significar a
transformação do mundo, que já não é mais
apenas transformação, mas a salvação do mundo, pois
o caminho que estamos trilhando leva à destruição total do
planeta. Tenho esperança de que esta nova onda rebelde não
será perdida e que nossos filhos verão um continente diferente.
Oxalá os líderes estejam à altura dos povos.
BF
Na paralização petroleira o Brasil enviou petróleo
para a Venezuela. Agora a Venezuela envia petróleo à Argentina.
Isso prova a necessidade e a possibilidade da integração
latino-americana e caribenha?
Chávez
Esses episódios são ensaios dessa
integração. Não podemos esquecer da ajuda de Fernando
Henrique Cardoso e depois de Luiz Inácio Lula da Silva, que
também nos ajudou enviando navios com combustível para aliviar
nossos problemas. Agora o presidente Néstor Kirchner pediu apoio diante
de problemas internos com energia e não hesitamos um segundo. Inclusive
quando ele me falou do problema eu disse que se necessário,
levaríamos uma refinaria daqui para lá. Em breve, cumpriremos a
quota de 300 mil barris de combustível enviados à Argentina.
UMA TELEVISÃO DO SUL
BF Recentemente, a imprensa divulgou a correspondência trocada
entre
o chanceler do Brasil e o secretário de Estado dos EUA, revelando
diferenças nas negociações da Área de Livre
Comércio das Américas (ALCA). Como isso reforça a proposta
da Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA)?
Chávez Todos sabem que estamos propondo uma alternativa à
Alca, que
é um projeto neocolonial: a ALBA contra a ALCA, que agora vem se
estruturando como um modelo de integração distinto. Entre Cuba e
Venezuela estamos avançando nesse modelo, que chamamos de ALBA, mas
pensando em uma integração para toda a América do Sul.
Quando nos visitaram os presidentes Kirchner e Lula, na reunião do G-15,
estávamos planejando algumas linhas estratégicas do que poderia
ser essa integração do Sul, como queria Bolívar, que
pretendia articular um bloco de força política, não
só de integração comercial. Estamos propondo para a
América do Sul um fundo financeiro das regiões, que funcionaria
como semente de um novo fundo para crescer progressivamente, um fundo
latino-americano de reserva. Mas ainda falta decisão política
para criar isso, ainda há o temor ante o FMI e o império.
Propusemos a criação da Petrosul, que representaria uma
capacidade energética enorme juntando Petrobras, PDVSA, Petroperu e
outras petroleiras da região. Somando as reservas petroleiras de todos,
seríamos os maiores do mundo em reserva e em energia! Propusemos
também uma televisão do Sul para que nossos povos não
assistam só a CNN ou o que queiram projetar os poderes
hegemônicos. Já temos os mecanismos, o canal 8 da Venezuela, temos
a ViveTV. No Brasil há várias emissoras públicas, como no
Estado do Paraná; há emissoras comunitárias também
na Argentina. Basta uma decisão política e faríamos isso
amanhã mesmo! Temos avançado nas conversas para uma
cooperação entre o canal venezuelano e argentino para fazer essa
TV do Sul. Assim, estamos propondo a Petrosul, a TV do Sul e um fundo
financeiro latinoamericano que incremente nossa soberania econômica.
Propomos criar um banco do Sul. Imagine se, em vez de colocar nossas divisas
num banco dos EUA, colocássemos em banco do Sul, que também pode
ser articulado com África e Ásia! Criar uma universidade do Sul,
articulada. Uma missão Robinson, para que em poucos anos não
houvesse mais analfabetos no continente. Uma missão Bairro Adentro, de
saúde e ação conjunta, inclusive com o apoio das
forças armadas de cada país, como fazemos aqui na Venezuela. Eu
considero que o critério da ALCA está morto.
BF O governo bolivariano decidiu suspender projetos de soja com sementes
transgênicas?
Chávez Suspendemos os projetos com transgênicos e vamos
fazer uma
espécie de um banco de sementes não-transgênicas para
oferecer aos países pobres. Dou os parabens ao governador do estado do
Paraná, Roberto Requião, pela decisão adotada sobre os
transgênicos e a ele envio minha solidariedade. Tenho muita curiosidade
de saber, inclusive, como ele tem desenvolvido os projetos agrícolas na
região e, quem sabe, fazer um intercâmbio de experiências
nesse sentido.
[*]
Jornalista.
Entrevista publicada no jornal
Brasil de Fato
, edição 60, 22-28/Abr/2004, págs. 12 e 13.
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info
.
|